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[Opinião] Metal & Antifa (por Diogo Ferreira)

Diogo Ferreira

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(Nota prévia: este artigo é uma posição pessoal do autor e não representa uma opinião colectiva da Ultraje.)

Não sou daqueles que acha que a política deve ficar fora da arte ou do desporto – muitos e muitas artistas e desportistas levaram os seus ideais consigo para onde quer que actuassem e mudaram o mundo ou, pelo menos, a visão que temos dele: Tommie Smith e John Carlos, Bertolt Brecht e Luís de Sttau Monteiro, apenas referindo alguns que me surgiram espontaneamente. E quando, aqui, falo em política, não falo das gravatas, dos assentos ou das campanhas. Falo, sim, em ideais convictos que levam ao activismo social. Sartre e Simone de Beauvoir, por exemplo, não foram políticos de assento, mas foram pessoas politizadas que nos ajudaram, e ainda ajudam, a interpretar o mundo.

Serve esta introdução para fazer um paralelismo ao antifascismo acéfalo que se tem propagado nos últimos anos e que tem vindo a infligir a sua agenda obscura na cena metal mundial. É normal o ser-humano achar que o que está a fazer é certo e que o mal só vem do outro lado – nada mais errado! O actual movimento Antifa está, portanto, a cair nesse lodo de intolerância. As acções sem cara da actualidade são uma afronta às sublevações revolucionárias dos anos 1960 em que estudantes, pensadores e variados activistas mostraram a cara, a voz e as razões. Sou um romântico e prefiro o embate de ideias ao embate de forças físicas – preferia ter visto Milo Yiannopoulos ser derrotado verbal e ideologicamente do que ver propriedades destruídas, mas ainda assim confesso que achei certa piada quando Richard Spencer levou aquele enorme banano em plena praça pública.

«Sou um romântico e prefiro o embate de ideias ao embate de forças físicas.»

Uma das recentes acções Antifa, ocorrida em Outubro de 2016, tomou conta dos caminhos a seguir pelo Blastfest. A organização viu-se obrigada a retirar Peste Noire do cartaz devido a pressões antifascistas perante os seus parceiros, e com receio de verem o festival sucumbir preferiram afastar a banda francesa que, é verdade, sempre se viu envolvida em polémicas políticas de cariz nacionalista e racista. Os Napalm Death – conhecidos pela sua postura esquerdista – cancelaram a sua presença em Bergen quando os Peste Noire foram anunciados e os finlandeses Horna também se retiraram, mas em solidariedade para com os seus «amigos franceses».

Não estou a dizer para se pôr a luta de lado, nem desviar olhares, nem fazer ouvidos moucos, mas mais inteligência e tolerância não faziam mal nenhum ao mundo, antes pelo contrário. O Blastfest, que se considera uma plataforma musical sem politiquices envolvidas, viu-se entrincheirado nas agendas intolerantes. Não creio que a organização tenha sido ingénua – todos sabemos a direcção política dos Peste Noire –, mas quiseram antes chamar a si uma boa banda de black metal sem pré-calcular os danos. A coisa correu mal. Correu mal para a organização, para os Peste Noire e para o público que lá queria ter estado. Em última instância, o festival sucumbiu mesmo e não se irá realizar, como noticiado há dias, mas que seja antes por falta de afluência aos bilhetes (também é um método de luta) do que por causa de acções criminosas.

Eu mesmo, afectuoso às ideias de Marx/Engels e completamente antagónico ao comunismo de Estaline (que equiparo a Hitler), estou com a intolerância pelas pontas. A minha agenda musical é mesmo essa: a música. Quando não gosto da música ou da mensagem não ouço, nem dou para esse peditório. Não há NS black metal na minha colecção, mas há muito Wolves In The Throne Room, Panopticon, Falls Of Rauros e NAO, porque, claramente, estão próximos da minha visão ecologista e esquerdista. Há leis, direitos e deveres, e são as Instituições que devem actuar perante crimes de raça e/ou de género. Enquanto cidadãos do mundo, temos uma palavra a dizer e uma ideia a formular, mas é errado bloquear e ameaçar, sobretudo às escondidas.

«Black metal não é sobre corações partidos e borboletas na barriga.»

A historieta continua agora com boicotes a Marduk, sendo o álbum “Frontschwein” (musical e esteticamente um dos meus favoritos da banda) e o ambiente político norte-americano os pináculos da revolta. Sem querer aprofundar muito mais sobre isto – até porque o vídeo abaixo é exemplificativo –, nunca os Marduk foram conotados ou autodenominados como nacionalistas, supremacistas raciais ou anti-semitas, apenas – e a meu ver – utilizam o conceito bélico, ao lado do satanista, para contar histórias e fazer música extrema de gabarito. Afinal de contas, black metal não é sobre corações partidos e borboletas na barriga.

Por toda esta ordem de ideias intolerantes, algumas delas sem fundamento, resta-me aconselhar a boicotar Cannibal Corpse porque vão matar pessoas e cometer crimes de necropedofilia, Vital Remains porque vão crucificar todos os cristãos, Batushka porque profanam a religião ortodoxa (aconteceu na Rússia), e a lista podia continuar. O meu conselho sério é este: não condenem a arte de antemão, instruam-se, tenham uma visão ampla e que se vença com uma guerra de palavras e ideias.

A conclusão é simples e é aquela que Neill Jameson, dos Krieg, já escreveu há uns meses: os movimentos Antifa estão a tornar-se naquilo contra o qual lutam. Estes grupelhos actuam na Internet e nem sequer mostram a cara, são intolerantes, aviltam a liberdade de expressão, perseguem e boicotam com violência. Ora, isto é tudo aquilo que o seu oposto propagou no Séc. XX – não se cometam os mesmos erros!

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[Reportagem] Haggard + Sound Storm + Eternal Silence: na caverna dos bardos (31.10.2018 – Graz, Áustria)

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Haggard (Foto: Ágata Serralva)

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Haggard + Sound Storm + Eternal Silence
31.10.2018 – DomImBerg, Graz (Áustria)

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Subimos pelo interior da montanha em busca dos bardos. Literalmente.

Percorremos um trilho de túneis perfurados durante a Segunda Guerra Mundial, para abrigo da população. Enquanto avançamos lado-a-lado com pequenas galerias de abrigo, a temperatura arrefece ao longo dos 17000 m2, prontos para resguardar 50.000 pessoas de raides aéreos. Só pela envergadura desta obra, já vale o esforço da caminhada íngreme para o DomimBerg, a Catedral na Montanha.

É nesta caverna feita catedral que nos preparamos para assistir aos bardos Haggard e aos seus convidados pontuais desta tertúlia de Outono: os italianos Eternal Silence e Sound Storm.

Eternal Silence (Foto: Ágata Serralva)

Ainda com a caverna mais repleta de sombras que corpos, os Eternal Silence iniciaram às 20h em ponto, com o seu metal gótico/sinfónico cheio de energia e descomplexado.

Com um set curto, pelas vozes de Marika Vanni e Alberto Cassina, saltaram e pediram palmas, debitando uma secção rítmica festiva e arranjos vocais criativos, como é apanágio das bandas italianas deste género.

Temas como “Dreambook”, “Unbreakable Wil”l e “Hell on Earth”, do álbum “Chasing Chimer”, ou “Lucifer´s Lair” e “Fighter”, do álbum “Mastermind Tyranny”, mostraram uma alegria trovadoresca de uma banda que é a primeira a chegar, mas também é a última a ir embora da festa.

Sound Storm (Foto: Ágata Serralva)

Os Sound Storm tocaram de seguida e interpretaram o bardo engatatão, meloso, com algum excesso de teatralidade, que canta as ladainhas comuns do power metal sinfónico.

Com dois vocalistas novos no projecto, demonstraram falta de naturalidade em palco, mas com alguns momentos vocais surpreendentes: se a vocalista feminina Chiara Tricario é inconsistente no seu modo operático, Andrea Racco tem um registo agudo inesperado de grande força. Mas é o gutural death metal de Chiara que nos faz erguer o sobrolho e perceber que devia inverter os papéis com o vocalista masculino.

Assentando o setlist no seu álbum “Vertigo”, de 2016, e introduzindo temas de “Immortalia”, foram uma cópia de Epica sem capacidade de composição – embora a solidez da banda surgisse quando a teclista Elena Crolle tomava conta dos arranjos.

O concerto arrancou para o seu final com “To The Stars”, o single de apresentação dos novos membros, e desfilou com “Torquemada” e “The Portrait” até à chuva de palmas… quando chamaram por Haggard.

Haggard (Foto: Ágata Serralva)

Com o último álbum lançado em 2008, vários membros e formatos de banda passados, a curiosidade sobre Haggard era muita. Apresentaram-se com dez membros em palco, com recurso a violino, viola de arco, violoncelo, órgão e flauta transversal, a par da formação metal habitual.

Conduzidos por Asis Nasseri, maestro metódico e minucioso que abriu o concerto com “Midnight Gathering”, a mini-orquestra tocou contos death metal com registo medieval: “Prophecy Fulfilled”, “Tales of Ithiria” ou “Eppur Si Muove” foram interpretados com entusiasmo, onde a força e o balanço vieram das cordas, e a delicadeza do órgão feito cravo e da voz soberba da soprano Janika Gross, sempre acompanhada de forma cristalina pela flauta transversal. A interpretação da vocalista germânica foi tremenda, repleta de confiança e afinação.

Nasseri foi um comunicador erudito e consciencioso do lugar de Haggard no metal, pautando o concerto de momentos mais intimistas de conversa com o público com outros mais inspirados e proféticos.

Com o tríptico “In a Pale Moon´s Shadow”, “Per Aspera Ad Astra” e “Seven From Afar”, o bardo alemão preparou o encore de “Awaking the Centuries”, despedindo-se, ecoando pelas cavernas a sinfonia do seu metal.

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Texto: Daniel Antero
Fotos: Ágata Serralva

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[Reportagem] Moonspell: depois da tempestade não vem a bonança (27.10.2018 – Figueira da Foz)

João Correia

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Foto: João Correia

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Moonspell
27.10.2018 – CAE, Figueira da Foz

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Cinco bilhetes. Faltaram vender cinco bilhetes para que o CAE da Figueira da Foz tivesse a lotação esgotada neste espectáculo da digressão dos Moonspell. A determinada altura do evento, Fernando Ribeiro chegou mesmo a dizer: «À medida que nos iam informando na Califórnia que cada vez se estavam a vender mais bilhetes para este concerto, ficámos surpreendidos». Ironicamente, poucas semanas após a tempestade Leslie quase ter dizimado a Figueira da Foz, com notícias de gruas dobradas ao meio, árvores adultas arrancadas pelas raízes e milhões de euros em prejuízos, os brandoenses fizeram uma prece pelas 795 almas presentes com a sua interpretação do maior evento cataclísmico alguma vez registado em Portugal – o grande terramoto de Lisboa, tão bem representado em “1755”.

Aos instantes iniciais de “Em Nome do Medo”, a banda recebeu uma enorme ovação dos sentados e levantados. “Sou sangue de teu sangue, sou luz que se expande”, gritou Ribeiro, vestido de homem da lanterna do Barroco, e que foi replicado em uníssono num auditório rendido às evidências em poucos instantes. “1755” logra ser o trabalho mais ambicioso, complexo e arrojado de toda a carreira dos Moonspell, bem como um dos mais bem cotados pela imprensa especializada um pouco por todo o mundo. Os segredos para isso são simples: apoiaram-se no drama natural e real mais profundo do nosso país, apostaram em elementos sinfónicos que visaram mimetizar o caos, medo, desespero e mortandade que as populações de Lisboa sofreram com um evento que demorou na sua totalidade menos de uma hora e, novidade das novidades, compuseram um disco integralmente em língua portuguesa. Este último pormenor faz toda a diferença junto do público e fãs, que não só entendem perfeitamente as letras, como as repetem com muito mais facilidade – assim foi com o tema seguinte, “1755”, com o seu “Não, não deixarás pedra sobre pedra” e com o que veio a seguir, “In Tremor Dei”, em que os fãs ecoaram “Lisboa em chamas, caída”. Por esta altura, poucas eram as pessoas sentadas e ainda menos eram as desinteressadas.

De seguida, os Moonspell passaram da catástrofe divina actual para as avenidas do passado com um set que incluiu as obrigatórias “Opium” e “Awake”. Feito isto, entrelaçaram “Ruínas” e “Evento”, ambas de “1755”, com os clássicos “Vampiria” e “Herr Spiegelman”, dando término à primeira parte da actuação com uma versão de “Lanterna dos Afogados”, também esta presente no último longa-duração. Durante todo o evento foi notória a aposta em mais truques de luzes como lasers verdes emanados das mãos de Fernando Ribeiro ou uma cruz que emitiu lasers vermelhos e que o mesmo empunhou, aliando à faceta sonora efeitos visuais cujas metáforas ficam abertas à interpretação. Finda a primeira parte, a sensação geral foi a de que o tempo passou a voar, prova nítida de que um concerto bem-conseguido não é apenas uma demonstração musical, mas, principalmente, um acto de entretenimento, que convenceu desde as crianças mais tenras coladas ao palco, aos idosos que, movidos pela curiosidade e pela parca oferta de cultura nesta cidade balnear, compareceram e abanaram o capacete, ainda que (presumivelmente) alheios à banda.

Para o final, “Todos Os Santos” (em que, uma vez mais, a repetição da frase chave “Faz dia em Portugal” abalou a estrutura arquitectónica do CAE), a imprescindível “Alma Mater”, cujo refrão em português também foi repetido amiúde e, em jeito de despedida, mas também do chamado dos lobos, “Fullmoon Madness”, na qual o macho alfa uivou aos betas e aos ómegas, reunindo a cada vez maior alcateia e firmando a supremacia da espécie na sua zona de origem. A cada concerto, do Japão ao México, cada vez menos falta cumprir-se Portugal. Para não variar, a matilha fez questão de dar autógrafos, conviver com fãs e tirar fotos com quem assim quisesse, passando quase tanto tempo dedicada a esta actividade como o fez a tocar – é uma coisa muito metaleira, uma coisa muito nossa. A jogar em casa, os Moonspell vão somando pontos e conquistando igualmente gerações mais recentes e da velha-guarda, tudo fruto da seriedade com que encaram o seu trabalho, de um talento inquestionável e de um esforço e de uma crença inauditos na nossa praça. Entre mortos e feridos, os Moonspell saem sempre incólumes. Dizer o contrário seria uma “infâmia, infâmia”.

Texto e fotos: João Correia

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Warrel Dane (1961-2017): mini-documentário de “Shadow Work”

Diogo Ferreira

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A 13 de Dezembro de 2017 a comunidade metal era tomada de assalto pela notícia que dava conta da morte de Warrel Dane, voz inconfundível de bandas como Sanctuary e Nevermore.

Dane encontrava-se em São Paulo (Brasil) a gravar o seu novo álbum a solo quando o coração falhou. Todavia, muito já estava feito para se parar e, após revisão de todo o material disponível, as pessoas envolvidas decidiram levar em frente o lançamento deste “Shadow Work”. Será lançado a 26 de Outubro pela Century Media Records.

A poucos dias dessa edição, a Century Media Records reúne as imagens captadas durante as sessões de “Shadow Work” para revelar um mini-documentário que inclui as últimas aparições de Warrel Dane.

 

 

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