[Entrevista] My Master The Sun: Rock N’ Rebelião – Ultraje – Metal & Rock Online
Entrevistas

[Entrevista] My Master The Sun: Rock N’ Rebelião

15536655_1314343868639525_1580652593_o

Se a revolta que sai das entranhas tivesse uma só banda-sonora – e não muitas – é muito provável que essa banda-sonora fossa a música dos lisboetas My Master The Sun. O quarteto usa as altas temperaturas da raiva e violência para fundir sludge, doom e rock’n’roll psicadélico, numa mistura capaz de fazer ruir os alicerces do socialmente estabelecido e do politicamente correcto. Com o segundo registo, intitulado “A Arte Da Desobediência”, acabado de editar, falámos com Nuno Garrido (bateria), Ricardo Falé (voz), Ricardo Canelas (baixo) e João Menor (guitarra) sobre as motivações e propósitos desta Rebelião feita Música.

Nuno Garrido: «No fundo, procurámos fazer um disco menos directo, que proporcionasse ‘uma viagem’ a quem o escuta.»

 Quais consideram ser as principais diferenças entre o vosso novo lançamento, o “A Arte da Desobediência”, e o vosso registo anterior?
Nuno Garrido: “A Arte da Desobediência” foi um disco mais pensado a nível geral. Com o primeiro trabalho ainda não nos conhecíamos tão bem enquanto músicos e havia também a urgência de possuirmos um registo fidedigno que nos permitisse começar a ter oportunidades para tocar ao vivo. Com “A Arte da Desobediência” tivemos mais tempo para nos dedicarmos a todos os factores a ter em conta quando se faz um disco novo: composição, arranjos, sonoplastia, etc… No fundo, procurámos fazer um disco menos directo, que proporcionasse ‘uma viagem’ a quem o escuta. Ficámos muito satisfeitos com o que alcançámos, apesar da maior demora.

Partiram para a escrita dos temas deste álbum com algum tipo de personalidade musical definida? Algo que caracterize o vosso som enquanto banda e que coloque algumas barreiras na vertigem da composição?
Nuno Garrido: Sim. Curiosamente, quando lançámos o [álbum anterior] “My Master The Sun” já tínhamos uma ou outra malha que depois integraram “A Arte da Desobediência”. Apesar disso, a abordagem que tomámos quando decidimos fazer o segundo disco envolveu repensar essas canções ao nível sónico de modo a cruzarem bem com as composições mais frescas. Essa personalidade musical definida veio ao de cima sobretudo na tentativa de homogeneizar o disco como um todo. Foi uma preocupação que tivemos desde a composição até à pós-produção. No que diz respeito a barreiras na composição, só existe uma: seja qual for a estética ou dinâmica pretendida, seja com um riff, uma malha ou mesmo com um disco inteiro, todos temos que estar satisfeitos e confortáveis com aquilo que estamos a fazer ou desenvolver. Isso é muito importante para nós.

Ao mesmo tempo, sentem que os concertos que deram entre o “My Master The Sun” e este “A Arte da Desobediência” influenciaram, de alguma forma, a escrita destes novos temas? Ou seja, escreveram mais conscientes do que pode ou não funcionar ao vivo?
Nuno Garrido: Sim, sem dúvida. Somos uma banda humilde e honesta, aprendemos sempre imenso com todo e qualquer concerto. Porém, sem querer soar a pretensioso, quando estamos a trabalhar em material novo nunca houve a preocupação de que tem de soar a X ou a Y. Tem sim de se enquadrar no imaginário de My Master The Sun. Esse imaginário passa muito pelas nossas prestações ao vivo, portanto há sempre uma especial atenção a que tudo aquilo que fazemos seja eficaz e exequível. Levamos tudo isto muito a sério e somos provavelmente os nossos maiores críticos, sem ‘paninhos quentes’ e isso deve-se ao facto de que tocar ao vivo é uma das coisas que mais gostamos de fazer na vida.

Ricardo Falé: «Quando a voz que ouvimos na nossa cabeça é em português, nada melhor que manter essa coerência quando queremos falar de coisas tão viscerais e de forma tão explícita.»

Uma das características da banda são as letras em português. Porquê esta escolha estética?
Ricardo Falé: Quando a voz que ouvimos na nossa cabeça é em português, nada melhor que manter essa coerência quando queremos falar de coisas tão viscerais e de forma tão explícita, e até enraivecida, como acabamos por fazer. O projecto não nasceu a pensar que iríamos ter letras em português. Simplesmente, quando a primeira letra surgiu, foi mesmo em português e esse foi um acontecimento completamente espontâneo. O assunto foi então discutido e acabou aceite, por todos, que este seria o caminho a seguir.

Consideram o português uma língua fácil para se cantar o tipo de música que vocês fazem?
Ricardo Falé: O português será mais fácil para que a nossa mensagem seja fidedigna. Quanto menos filtros houver, melhor emitida será a mensagem. O inglês pode ser mais musical, mas, para o que realmente queremos, o português torna-se mais óbvio. O facto de não haver a ‘capa’ da língua estrangeira faz com que as palavras sejam mais coladas a quem as profere. Estamos mais expostos. Mas isso também não nos faz qualquer confusão. Pelo contrário.

Ricardo Falé: «Não é verdade que temos de comprar aquela TV gigante para que a nossa namorada queira ter bebés connosco e, dessa forma, propagarmos os nossos genes.»

Por falar em letras, quais as temáticas que as canções de “A Arte da Desobediência” abordam?
Ricardo Falé: As temáticas são variadas, com uma espinha dorsal comum: a revolta declarada contra tudo o que nos é enfiado pela goela abaixo, tudo o que seja socialmente aceite como ‘norma’. Mas é uma revolta de dentro para fora, que cresce devagar, que germina no dia-a-dia de quem é maltratado quando respira, até que acaba por explodir, e aí já não há nada que nos possa impedir de agir, de forma violenta. São letras políticas. São letras que, não obstante serem negras e obsessivas, não deixam de querer passar uma mensagem de esperança para quem quer dar a volta e sair do esterco que nos querem vender como ter ‘sucesso na vida’. Temos de saber dizer não. Não é verdade que temos de comprar aquela TV gigante para que a nossa namorada queira ter bebés connosco e, dessa forma, propagarmos os nossos genes. A nossa vida não tem de ser um sucesso aos olhos da ‘norma’. Queremos não ser uma zona de conforto para quem nos ouve, lê ou vê ao vivo.

Vocês são pessoas revolucionárias por natureza e ideias ou esta é apenas a atmosfera estética escolhida para a banda?
Ricardo Canelas: Uma levou à outra. Se não houvesse uma revolta cá dentro, não a iríamos ‘fabricar’. Para nós é tão simples como juntar o que sentimos ao que tocamos. Somos quatro elementos com personalidades muito diferentes, mas temos a sorte de haver um complemento e as malhas são um bom reflexo disso. A mensagem complementa a música e vice-versa. Às vezes sentimos necessidade de evidenciar ou ‘esconder’ uma frase ou palavra, e a música tem esse poder.

Sentem que, de alguma forma, o facto de praticarem um crossover de vários géneros musicais pode ser um ponto negativo para banda, impedindo-a de pertencer de caras a uma ‘cena’?
João Menor: Não. De certa forma assumo que no início essa foi uma questão que se levantou, pois, num ou noutro caso, foi-nos dito que «é pesado de mais ou de menos» e isso suscitou dúvidas sobre onde nos conseguiríamos inserir. Para nós essa mistura de géneros musicais é natural e produz um equilíbrio dentro da banda e no próprio som que criamos. Hoje em dia julgo que conseguimos passo-a-passo o nosso lugar. Já tocámos com bandas de diferentes estilos e penso que correu sempre muito bem. Interessa-nos essa diversidade, queremos tocar o máximo possível e uma ‘cena’ não nos permite isso.

João Menor: «Existem cada vez mais salas, mais bandas a querer tocar ao vivo e, felizmente, boa vontade e gente que se esforça por apoiar este meio.»

A vossa ronda de concertos pelo país fez-vos ter uma visão bastante realista de como está o panorama local de música rock e heavy metal. Qual a vossa visão da cena nacional actual?
João Menor: Acho que vai de bem a melhor. Existem cada vez mais salas, mais bandas a querer tocar ao vivo e, felizmente, boa vontade e gente que se esforça por apoiar este meio. Temos contactado com bandas desde o rock mais puro até ao metal mais extremo, e é brutal sentir que a malta se dá bem, se apoia e se diverte a partilhar palcos. Há uns anos, quando comecei, sentia por vezes alguma competição, o que me deixava de boca aberta. Isso mudou, hoje em dia há uma maior noção de que juntos conseguimos mais e com mais qualidade. Por outro lado, o acesso crescente a material e noções aprumou muito o trabalho dos músicos, existe por aí pessoal a fazer som brutal e original.

Tendo em conta o estado actual da indústria musical e o tamanho do nosso país, quais são os vossos objectivos e sonhos a curto-prazo – para este álbum – e a médio-prazo, para o futuro do projecto?
Ricardo Canelas: Gostamos mesmo muito de tocar juntos e o nosso plano é fazê-lo o mais possível. Iniciámos recentemente uma parceria com a [promotora] Seven Hills Productions, precisamente com esse intuito. Queremos fazer chegar “A Arte Da Desobediência” a mais gente e há planos para o fazer também fora do país, até porque ficámos algo surpreendidos com a aceitação da nossa música no estrangeiro, mesmo com a barreira linguística. Há já uns esboços para um novo disco que queremos desenvolver no próximo ano de 2017, e esse vai ser o nosso trabalho de casa quando não estivermos na estrada.

Topo