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[Entrevista] My Master The Sun: Rock N’ Rebelião

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Se a revolta que sai das entranhas tivesse uma só banda-sonora – e não muitas – é muito provável que essa banda-sonora fossa a música dos lisboetas My Master The Sun. O quarteto usa as altas temperaturas da raiva e violência para fundir sludge, doom e rock’n’roll psicadélico, numa mistura capaz de fazer ruir os alicerces do socialmente estabelecido e do politicamente correcto. Com o segundo registo, intitulado “A Arte Da Desobediência”, acabado de editar, falámos com Nuno Garrido (bateria), Ricardo Falé (voz), Ricardo Canelas (baixo) e João Menor (guitarra) sobre as motivações e propósitos desta Rebelião feita Música.

Nuno Garrido: «No fundo, procurámos fazer um disco menos directo, que proporcionasse ‘uma viagem’ a quem o escuta.»

 Quais consideram ser as principais diferenças entre o vosso novo lançamento, o “A Arte da Desobediência”, e o vosso registo anterior?
Nuno Garrido: “A Arte da Desobediência” foi um disco mais pensado a nível geral. Com o primeiro trabalho ainda não nos conhecíamos tão bem enquanto músicos e havia também a urgência de possuirmos um registo fidedigno que nos permitisse começar a ter oportunidades para tocar ao vivo. Com “A Arte da Desobediência” tivemos mais tempo para nos dedicarmos a todos os factores a ter em conta quando se faz um disco novo: composição, arranjos, sonoplastia, etc… No fundo, procurámos fazer um disco menos directo, que proporcionasse ‘uma viagem’ a quem o escuta. Ficámos muito satisfeitos com o que alcançámos, apesar da maior demora.

Partiram para a escrita dos temas deste álbum com algum tipo de personalidade musical definida? Algo que caracterize o vosso som enquanto banda e que coloque algumas barreiras na vertigem da composição?
Nuno Garrido: Sim. Curiosamente, quando lançámos o [álbum anterior] “My Master The Sun” já tínhamos uma ou outra malha que depois integraram “A Arte da Desobediência”. Apesar disso, a abordagem que tomámos quando decidimos fazer o segundo disco envolveu repensar essas canções ao nível sónico de modo a cruzarem bem com as composições mais frescas. Essa personalidade musical definida veio ao de cima sobretudo na tentativa de homogeneizar o disco como um todo. Foi uma preocupação que tivemos desde a composição até à pós-produção. No que diz respeito a barreiras na composição, só existe uma: seja qual for a estética ou dinâmica pretendida, seja com um riff, uma malha ou mesmo com um disco inteiro, todos temos que estar satisfeitos e confortáveis com aquilo que estamos a fazer ou desenvolver. Isso é muito importante para nós.

Ao mesmo tempo, sentem que os concertos que deram entre o “My Master The Sun” e este “A Arte da Desobediência” influenciaram, de alguma forma, a escrita destes novos temas? Ou seja, escreveram mais conscientes do que pode ou não funcionar ao vivo?
Nuno Garrido: Sim, sem dúvida. Somos uma banda humilde e honesta, aprendemos sempre imenso com todo e qualquer concerto. Porém, sem querer soar a pretensioso, quando estamos a trabalhar em material novo nunca houve a preocupação de que tem de soar a X ou a Y. Tem sim de se enquadrar no imaginário de My Master The Sun. Esse imaginário passa muito pelas nossas prestações ao vivo, portanto há sempre uma especial atenção a que tudo aquilo que fazemos seja eficaz e exequível. Levamos tudo isto muito a sério e somos provavelmente os nossos maiores críticos, sem ‘paninhos quentes’ e isso deve-se ao facto de que tocar ao vivo é uma das coisas que mais gostamos de fazer na vida.

Ricardo Falé: «Quando a voz que ouvimos na nossa cabeça é em português, nada melhor que manter essa coerência quando queremos falar de coisas tão viscerais e de forma tão explícita.»

Uma das características da banda são as letras em português. Porquê esta escolha estética?
Ricardo Falé: Quando a voz que ouvimos na nossa cabeça é em português, nada melhor que manter essa coerência quando queremos falar de coisas tão viscerais e de forma tão explícita, e até enraivecida, como acabamos por fazer. O projecto não nasceu a pensar que iríamos ter letras em português. Simplesmente, quando a primeira letra surgiu, foi mesmo em português e esse foi um acontecimento completamente espontâneo. O assunto foi então discutido e acabou aceite, por todos, que este seria o caminho a seguir.

Consideram o português uma língua fácil para se cantar o tipo de música que vocês fazem?
Ricardo Falé: O português será mais fácil para que a nossa mensagem seja fidedigna. Quanto menos filtros houver, melhor emitida será a mensagem. O inglês pode ser mais musical, mas, para o que realmente queremos, o português torna-se mais óbvio. O facto de não haver a ‘capa’ da língua estrangeira faz com que as palavras sejam mais coladas a quem as profere. Estamos mais expostos. Mas isso também não nos faz qualquer confusão. Pelo contrário.

Ricardo Falé: «Não é verdade que temos de comprar aquela TV gigante para que a nossa namorada queira ter bebés connosco e, dessa forma, propagarmos os nossos genes.»

Por falar em letras, quais as temáticas que as canções de “A Arte da Desobediência” abordam?
Ricardo Falé: As temáticas são variadas, com uma espinha dorsal comum: a revolta declarada contra tudo o que nos é enfiado pela goela abaixo, tudo o que seja socialmente aceite como ‘norma’. Mas é uma revolta de dentro para fora, que cresce devagar, que germina no dia-a-dia de quem é maltratado quando respira, até que acaba por explodir, e aí já não há nada que nos possa impedir de agir, de forma violenta. São letras políticas. São letras que, não obstante serem negras e obsessivas, não deixam de querer passar uma mensagem de esperança para quem quer dar a volta e sair do esterco que nos querem vender como ter ‘sucesso na vida’. Temos de saber dizer não. Não é verdade que temos de comprar aquela TV gigante para que a nossa namorada queira ter bebés connosco e, dessa forma, propagarmos os nossos genes. A nossa vida não tem de ser um sucesso aos olhos da ‘norma’. Queremos não ser uma zona de conforto para quem nos ouve, lê ou vê ao vivo.

Vocês são pessoas revolucionárias por natureza e ideias ou esta é apenas a atmosfera estética escolhida para a banda?
Ricardo Canelas: Uma levou à outra. Se não houvesse uma revolta cá dentro, não a iríamos ‘fabricar’. Para nós é tão simples como juntar o que sentimos ao que tocamos. Somos quatro elementos com personalidades muito diferentes, mas temos a sorte de haver um complemento e as malhas são um bom reflexo disso. A mensagem complementa a música e vice-versa. Às vezes sentimos necessidade de evidenciar ou ‘esconder’ uma frase ou palavra, e a música tem esse poder.

Sentem que, de alguma forma, o facto de praticarem um crossover de vários géneros musicais pode ser um ponto negativo para banda, impedindo-a de pertencer de caras a uma ‘cena’?
João Menor: Não. De certa forma assumo que no início essa foi uma questão que se levantou, pois, num ou noutro caso, foi-nos dito que «é pesado de mais ou de menos» e isso suscitou dúvidas sobre onde nos conseguiríamos inserir. Para nós essa mistura de géneros musicais é natural e produz um equilíbrio dentro da banda e no próprio som que criamos. Hoje em dia julgo que conseguimos passo-a-passo o nosso lugar. Já tocámos com bandas de diferentes estilos e penso que correu sempre muito bem. Interessa-nos essa diversidade, queremos tocar o máximo possível e uma ‘cena’ não nos permite isso.

João Menor: «Existem cada vez mais salas, mais bandas a querer tocar ao vivo e, felizmente, boa vontade e gente que se esforça por apoiar este meio.»

A vossa ronda de concertos pelo país fez-vos ter uma visão bastante realista de como está o panorama local de música rock e heavy metal. Qual a vossa visão da cena nacional actual?
João Menor: Acho que vai de bem a melhor. Existem cada vez mais salas, mais bandas a querer tocar ao vivo e, felizmente, boa vontade e gente que se esforça por apoiar este meio. Temos contactado com bandas desde o rock mais puro até ao metal mais extremo, e é brutal sentir que a malta se dá bem, se apoia e se diverte a partilhar palcos. Há uns anos, quando comecei, sentia por vezes alguma competição, o que me deixava de boca aberta. Isso mudou, hoje em dia há uma maior noção de que juntos conseguimos mais e com mais qualidade. Por outro lado, o acesso crescente a material e noções aprumou muito o trabalho dos músicos, existe por aí pessoal a fazer som brutal e original.

Tendo em conta o estado actual da indústria musical e o tamanho do nosso país, quais são os vossos objectivos e sonhos a curto-prazo – para este álbum – e a médio-prazo, para o futuro do projecto?
Ricardo Canelas: Gostamos mesmo muito de tocar juntos e o nosso plano é fazê-lo o mais possível. Iniciámos recentemente uma parceria com a [promotora] Seven Hills Productions, precisamente com esse intuito. Queremos fazer chegar “A Arte Da Desobediência” a mais gente e há planos para o fazer também fora do país, até porque ficámos algo surpreendidos com a aceitação da nossa música no estrangeiro, mesmo com a barreira linguística. Há já uns esboços para um novo disco que queremos desenvolver no próximo ano de 2017, e esse vai ser o nosso trabalho de casa quando não estivermos na estrada.

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

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