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[Entrevista] My Master The Sun: Rock N’ Rebelião

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Se a revolta que sai das entranhas tivesse uma só banda-sonora – e não muitas – é muito provável que essa banda-sonora fossa a música dos lisboetas My Master The Sun. O quarteto usa as altas temperaturas da raiva e violência para fundir sludge, doom e rock’n’roll psicadélico, numa mistura capaz de fazer ruir os alicerces do socialmente estabelecido e do politicamente correcto. Com o segundo registo, intitulado “A Arte Da Desobediência”, acabado de editar, falámos com Nuno Garrido (bateria), Ricardo Falé (voz), Ricardo Canelas (baixo) e João Menor (guitarra) sobre as motivações e propósitos desta Rebelião feita Música.

Nuno Garrido: «No fundo, procurámos fazer um disco menos directo, que proporcionasse ‘uma viagem’ a quem o escuta.»

 Quais consideram ser as principais diferenças entre o vosso novo lançamento, o “A Arte da Desobediência”, e o vosso registo anterior?
Nuno Garrido: “A Arte da Desobediência” foi um disco mais pensado a nível geral. Com o primeiro trabalho ainda não nos conhecíamos tão bem enquanto músicos e havia também a urgência de possuirmos um registo fidedigno que nos permitisse começar a ter oportunidades para tocar ao vivo. Com “A Arte da Desobediência” tivemos mais tempo para nos dedicarmos a todos os factores a ter em conta quando se faz um disco novo: composição, arranjos, sonoplastia, etc… No fundo, procurámos fazer um disco menos directo, que proporcionasse ‘uma viagem’ a quem o escuta. Ficámos muito satisfeitos com o que alcançámos, apesar da maior demora.

Partiram para a escrita dos temas deste álbum com algum tipo de personalidade musical definida? Algo que caracterize o vosso som enquanto banda e que coloque algumas barreiras na vertigem da composição?
Nuno Garrido: Sim. Curiosamente, quando lançámos o [álbum anterior] “My Master The Sun” já tínhamos uma ou outra malha que depois integraram “A Arte da Desobediência”. Apesar disso, a abordagem que tomámos quando decidimos fazer o segundo disco envolveu repensar essas canções ao nível sónico de modo a cruzarem bem com as composições mais frescas. Essa personalidade musical definida veio ao de cima sobretudo na tentativa de homogeneizar o disco como um todo. Foi uma preocupação que tivemos desde a composição até à pós-produção. No que diz respeito a barreiras na composição, só existe uma: seja qual for a estética ou dinâmica pretendida, seja com um riff, uma malha ou mesmo com um disco inteiro, todos temos que estar satisfeitos e confortáveis com aquilo que estamos a fazer ou desenvolver. Isso é muito importante para nós.

Ao mesmo tempo, sentem que os concertos que deram entre o “My Master The Sun” e este “A Arte da Desobediência” influenciaram, de alguma forma, a escrita destes novos temas? Ou seja, escreveram mais conscientes do que pode ou não funcionar ao vivo?
Nuno Garrido: Sim, sem dúvida. Somos uma banda humilde e honesta, aprendemos sempre imenso com todo e qualquer concerto. Porém, sem querer soar a pretensioso, quando estamos a trabalhar em material novo nunca houve a preocupação de que tem de soar a X ou a Y. Tem sim de se enquadrar no imaginário de My Master The Sun. Esse imaginário passa muito pelas nossas prestações ao vivo, portanto há sempre uma especial atenção a que tudo aquilo que fazemos seja eficaz e exequível. Levamos tudo isto muito a sério e somos provavelmente os nossos maiores críticos, sem ‘paninhos quentes’ e isso deve-se ao facto de que tocar ao vivo é uma das coisas que mais gostamos de fazer na vida.

Ricardo Falé: «Quando a voz que ouvimos na nossa cabeça é em português, nada melhor que manter essa coerência quando queremos falar de coisas tão viscerais e de forma tão explícita.»

Uma das características da banda são as letras em português. Porquê esta escolha estética?
Ricardo Falé: Quando a voz que ouvimos na nossa cabeça é em português, nada melhor que manter essa coerência quando queremos falar de coisas tão viscerais e de forma tão explícita, e até enraivecida, como acabamos por fazer. O projecto não nasceu a pensar que iríamos ter letras em português. Simplesmente, quando a primeira letra surgiu, foi mesmo em português e esse foi um acontecimento completamente espontâneo. O assunto foi então discutido e acabou aceite, por todos, que este seria o caminho a seguir.

Consideram o português uma língua fácil para se cantar o tipo de música que vocês fazem?
Ricardo Falé: O português será mais fácil para que a nossa mensagem seja fidedigna. Quanto menos filtros houver, melhor emitida será a mensagem. O inglês pode ser mais musical, mas, para o que realmente queremos, o português torna-se mais óbvio. O facto de não haver a ‘capa’ da língua estrangeira faz com que as palavras sejam mais coladas a quem as profere. Estamos mais expostos. Mas isso também não nos faz qualquer confusão. Pelo contrário.

Ricardo Falé: «Não é verdade que temos de comprar aquela TV gigante para que a nossa namorada queira ter bebés connosco e, dessa forma, propagarmos os nossos genes.»

Por falar em letras, quais as temáticas que as canções de “A Arte da Desobediência” abordam?
Ricardo Falé: As temáticas são variadas, com uma espinha dorsal comum: a revolta declarada contra tudo o que nos é enfiado pela goela abaixo, tudo o que seja socialmente aceite como ‘norma’. Mas é uma revolta de dentro para fora, que cresce devagar, que germina no dia-a-dia de quem é maltratado quando respira, até que acaba por explodir, e aí já não há nada que nos possa impedir de agir, de forma violenta. São letras políticas. São letras que, não obstante serem negras e obsessivas, não deixam de querer passar uma mensagem de esperança para quem quer dar a volta e sair do esterco que nos querem vender como ter ‘sucesso na vida’. Temos de saber dizer não. Não é verdade que temos de comprar aquela TV gigante para que a nossa namorada queira ter bebés connosco e, dessa forma, propagarmos os nossos genes. A nossa vida não tem de ser um sucesso aos olhos da ‘norma’. Queremos não ser uma zona de conforto para quem nos ouve, lê ou vê ao vivo.

Vocês são pessoas revolucionárias por natureza e ideias ou esta é apenas a atmosfera estética escolhida para a banda?
Ricardo Canelas: Uma levou à outra. Se não houvesse uma revolta cá dentro, não a iríamos ‘fabricar’. Para nós é tão simples como juntar o que sentimos ao que tocamos. Somos quatro elementos com personalidades muito diferentes, mas temos a sorte de haver um complemento e as malhas são um bom reflexo disso. A mensagem complementa a música e vice-versa. Às vezes sentimos necessidade de evidenciar ou ‘esconder’ uma frase ou palavra, e a música tem esse poder.

Sentem que, de alguma forma, o facto de praticarem um crossover de vários géneros musicais pode ser um ponto negativo para banda, impedindo-a de pertencer de caras a uma ‘cena’?
João Menor: Não. De certa forma assumo que no início essa foi uma questão que se levantou, pois, num ou noutro caso, foi-nos dito que «é pesado de mais ou de menos» e isso suscitou dúvidas sobre onde nos conseguiríamos inserir. Para nós essa mistura de géneros musicais é natural e produz um equilíbrio dentro da banda e no próprio som que criamos. Hoje em dia julgo que conseguimos passo-a-passo o nosso lugar. Já tocámos com bandas de diferentes estilos e penso que correu sempre muito bem. Interessa-nos essa diversidade, queremos tocar o máximo possível e uma ‘cena’ não nos permite isso.

João Menor: «Existem cada vez mais salas, mais bandas a querer tocar ao vivo e, felizmente, boa vontade e gente que se esforça por apoiar este meio.»

A vossa ronda de concertos pelo país fez-vos ter uma visão bastante realista de como está o panorama local de música rock e heavy metal. Qual a vossa visão da cena nacional actual?
João Menor: Acho que vai de bem a melhor. Existem cada vez mais salas, mais bandas a querer tocar ao vivo e, felizmente, boa vontade e gente que se esforça por apoiar este meio. Temos contactado com bandas desde o rock mais puro até ao metal mais extremo, e é brutal sentir que a malta se dá bem, se apoia e se diverte a partilhar palcos. Há uns anos, quando comecei, sentia por vezes alguma competição, o que me deixava de boca aberta. Isso mudou, hoje em dia há uma maior noção de que juntos conseguimos mais e com mais qualidade. Por outro lado, o acesso crescente a material e noções aprumou muito o trabalho dos músicos, existe por aí pessoal a fazer som brutal e original.

Tendo em conta o estado actual da indústria musical e o tamanho do nosso país, quais são os vossos objectivos e sonhos a curto-prazo – para este álbum – e a médio-prazo, para o futuro do projecto?
Ricardo Canelas: Gostamos mesmo muito de tocar juntos e o nosso plano é fazê-lo o mais possível. Iniciámos recentemente uma parceria com a [promotora] Seven Hills Productions, precisamente com esse intuito. Queremos fazer chegar “A Arte Da Desobediência” a mais gente e há planos para o fazer também fora do país, até porque ficámos algo surpreendidos com a aceitação da nossa música no estrangeiro, mesmo com a barreira linguística. Há já uns esboços para um novo disco que queremos desenvolver no próximo ano de 2017, e esse vai ser o nosso trabalho de casa quando não estivermos na estrada.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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