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[Concertos] MOITA, CAR***OOOOO!!!

Público(Foto: João Correia)

“Finalmente, o Moita Metal Fest entra na primeira liga dos festivais de peso nacionais.”

Com uma vontade natural de crescer e evoluir, algo gradual ao longo das últimas edições, o Moita Metal Fest comemorou, em 2017, catorze anos de actividade comprometida em oferecer o melhor do metal nacional e internacional durante dois dias de plena obliteração sonora.

Passada uma semana, tempo suficiente para digerir e fazer uma retrospectiva da 14ª edição do Moita Metal Fest, as vozes críticas são quase consensuais: a organização fez desta edição a melhor alguma vez apresentada. Confesso que foi a primeira vez que me desloquei ao Moita, logo, não posso opinar sobre as infraestruturas apresentadas nas edições anteriores, mas posso dizer que o recinto onde decorreu esta edição primou por espaços enormes dentro e fora do recinto dos concertos – dentro (uma gigantesca tenda circense), houve espaço suficiente para os festivaleiros, mais de 10 bancas de merchandise (incluindo uma de protecção de animais), um bar enorme onde não faltou nada, uma cabina de DJ para as after parties e dois ou três stands de venda de comida e bebida. Fora, quatro ou cinco bancas de venda de comida, bebida, mesas e cadeiras para todos, bem como imenso espaço ao ar livre para esticar as pernas, dar dois dedos de conversa e o que mais apetecesse.

“Elejo sem reservas [o concerto de Heavenwood] como o melhor do festival.”

DIA 1

Lamentavelmente, quando cheguei já os Theriomorphic estavam a tocar, mas ainda tive oportunidade de ouvir “Absent Light”, o teaser de “Of Fire and Light”, próximo EP do grupo. Pelo que tive oportunidade de observar, em equipa vencedora não se mexe: o à-vontade e a solidez com que actuaram não são novidades dignas de nota. Após, entraram os Crise Total, uma banda que satisfaz a costela punk/core há três gerações. A actuação foi um exemplo perfeito de como um concerto deste género deve correr: slam, stage diving e muita dedicação da parte da banda, que não deixou créditos em mãos alheias com clássicos como “Assassinos no Poder”. Fazem 35 anos em 2018, e que venham mais 35. Entrevistei o Marc Greenway (Napalm Death) entre as actuações, com o tempo mesmo à justa para assistir ao concerto dos Gwydion. A minha noção de folk metal apontou sempre para os Skyclad; ultimamente, a explosão de bandas deste género massificou a cena e tornou-a em algo banal. Ainda assim, fiquei francamente bem impressionado com a actuação da banda, não esperava por uma qualidade tão alta, que não deixou ninguém indiferente. Nota mental: explorar Gwydion.

Gwydion-1(Gwydion / Foto: Filipe Gomes)

“[O concerto de Napalm Death] ficou muito aquém das expectativas.”

Para finalizar o primeiro dia, os Napalm Death fizeram as honras de cabeças de cartaz, com um Shane Embury ausente por motivos não divulgados, mas bem representado pelo lendário Jesper Liveröd, dos saudosos Nasum. Estava muito curioso em relação a este concerto por motivos mais que óbvios, mas ficou muito aquém das expectativas. Foi mau? Não, claro que não, mas quem ainda se lembra das actuações a roçar o surreal do princípio dos anos 2000 entende muito bem o que quero dizer. Dezassete anos passados, é estranho ver a banda sem dois dos seus membros fundamentais, Shane Embury e Mitch Harris. É verdade que tanto Liveröd como Cooke não falham, são máquinas precisas em palco, mas ver os Napalm Death reduzidos a 50%, ainda que temporariamente, não é a mesma experiência ao vivo… ou é?

Napalm Death 3(Napalm Death / Foto: João Correia)

Na verdade, o público não deu por falta dos dois – afinal, estava toda a gente tão ocupada a fazer stage diving em cascatas que não houve tempo para ver quem é que estava presente ou ausente. Começando com as faixas mais recentes de “Apex Predator – Easy Meat”, a banda percorreu todos os seus 30 anos de trabalho, fosse com o medley das intemporais “You Suffer/Deceiver”, nunca esquecendo “Suffer the Children” e incluindo até “I Abstain”, do clássico “Utopia Banished”. Quem nunca deixa as coisas pela metade é Marc Greenway, que (literalmente) sua as estopinhas como forma de agradecimento aos presentes. Entre faixas, e como é habitual, debitou vários bytes sobre política, sociedade, apelos à liberdade de expressão, ao tratamento ético dos animais… seja qual for o prisma pelo  qual o observemos, o vocalista não desilude. Para o fim, o melhor: covers de Dead Kennedys e Hirax coroaram uma actuação um pouco acima de morna. Em suma, um bom concerto, mas muito distante de memorável.

Findo o concerto, tempo ainda para beber um copo ou comer alguma coisa, e a festa durou até às quinhentas para quem quisesse falar, beber e rever amizades, ou para os duros ainda dispostos a uma sessão de sing along ao som de clássicos de várias épocas do metal que saíam da cabina da after party.

DIA 2

Dia longo pela frente. Cerca das 15h, subiram ao palco os jovens Enblood, uma banda portuguesa recente de death metal nitidamente sueco. Percebe-se bem que estão em início de carreira, mas mais ainda que já entenderam que, para singrar, têm um longo caminho pela frente, e a sua prestação, ainda que desprovida de originalidade, foi muito boa em termos de coesão. Horns up, rapaziada! Seguiram-se os The Zanibar Aliens, banda de rock revivalista a soar aos clássicos, de Sabbath a Alice in Chains, e que, ao vivo, aliam um som bastante limpo, mas musculado, a uma boa presença em palco. Têm ritmo, mas não fazem a minha onda, ainda que tivesse abanado a cabeça num tema ou outro.

As coisas começaram a aquecer com os Burn Damage. Muito focada no seu álbum de estreia, a banda também incluiu na actuação uma faixa do próximo trabalho. O veredicto é morno – a banda tem maturidade e é interessante o suficiente para convencer, mas não me convenceu. A ver o que nos reserva o próximo trabalho.

Os Fast Eddie Nelson tocaram de seguida, o que trouxe ao cimo a toada verdadeiramente ecléctica do festival: banda de death metal seguida de banda de rock revivalista seguida de banda de death metal seguida de banda de rock e blues? OK! A prestação do grupo, situada entre Louisiana e Lisboa, descarrega ritmos frenéticos e toques de garage e rockabilly, e deu-me tempo, finalmente, para apreciar um pouco de música entre entrevistas, fotos, amigos e idas ao bar. Quase a acabar o concerto, e com a cover de Motörhead em fundo, dirigi-me com o Nocturnus Horrendus à sua carrinha para mais uma entrevista.

Analepsy 2(Analepsy / Foto: João Correia)

“O primeiro caso sério de brutalidade do festival [surgiu] na figura dos Analepsy.”

Trinta minutos depois, estava de regresso para apanhar o primeiro caso sério de brutalidade do festival na figura dos Analepsy. Para quem tem estado a viver numa gruta, os Analepsy são um colectivo de death metal brutal de Lisboa que, à falta de melhor termo, lançou no princípio do ano uma “coisa” chamada “Atrocities From Beyond” que, sem surpresas, voltou a meter o nome do metal Português na boca do mundo. Iniciaram o concerto com “Rifts to Abhorrence”, e ouviram-se ainda temas como “Engorged Absorption” e “The Vermin Devourer”. O público não precisou que a banda lhe dissesse para fazer circle pits, slam e stage diving. Pedir para quê?

Logo após, Attick Demons. Praticantes de um heavy/power metal bem delineado e com o vocalista (Artur Almeida) certo para as funções a que se propõe, conseguiram reunir um raro consenso do público com a sua prestação. Ouviram-se vários temas de “Let’s Raise Hell”, o seu último trabalho. Assim como muitas outras bandas, não inovam, mas fazem o que fazem bem. Longe de ser perfeito, foi um bom concerto.

Finalmente, o nível de peso começou a crescer para não voltar a cair: era vez dos Primal Attack, acabados de lançar “Heartless Oppressor”, uma liga de metais duríssimos com elementos como Pantera, Lamb of God e um som característico que começa a tornar-se marca pessoal da banda. Fiz crítica ao álbum não há muito tempo, e prevejo que, até esta data, disputará o título de álbum do ano contra “Atrocities From Beyond” e “Appalling Ascension”. Por essa altura, a casa estava bem composta e já se tornava difícil chegar perto do palco: temas como “Red Silence”, “Despise You All” e “Halfborn” fizeram deste concerto, a par com o de Analepsy, um dos mais potentes de todo o fim de semana.

Entretanto, era tempo de entrevistar o Ricardo e o Vítor dos Heavenwood. Entrevista feita, perdi um bom bocado da atuação dos Midnight Priest, o que me levou a ver o concerto desde o palco para aproveitar o que ainda conseguisse. Conterrâneos meus, são seriamente uma das bandas que mais gozo me dá ver ao vivo – são puros, honestos e catchy que até mete dó. Ainda fui a tempo de ouvir “Hellbreaker” e “Rainha da Magia Negra”; “Midnight Steel”, de 2014, é o último registo da banda, e que falta que faz um álbum novo para verificar o amadurecimento do colectivo de Coimbra. Para não variar, esbanjaram profissionalismo.

Apostei no concerto dos Revolution Within e foi tiro certeiro. Por partes: não gosto do som da banda, nunca me disse nada, mas há que saber distinguir entre gostos, qualidade e actuações, e meus amigos, qualidade e actuações de luxo são a praia desta banda. Originadores da única wall of death de todo o festival, traduzir um concerto dos Revolution Within com palavras leva-nos para o campo das hipérboles, onde “brutal”, “furioso” e “violento” andam de mãos dadas. Pesquisem pela wall of death no YouTube para ficarem com uma pequena ideia de como é que se dá um concerto de metal.

Corpus Christii 3(Corpus Christii / Foto: João Correia)

E chegava a vez da banda mais polémica do fim de semana. Sem mais demoras, os Corpus Christii subiram ao palco, prontos para converter a densa massa negra que se formou à frente do palco. Começo a ouvir os acordes iniciais de “The Curse Within Time” e, para além de observar a banda, comecei a observar o público também para captar as reacções. Estranheza, incompreensão e desconhecimento foram as três que mais vi expressas nas caras do público. Há que entender que não só o black metal é um género muito restrito e de nicho, como não é fácil de agradar ao headbanger “comum”, passe a expressão. Contudo, e a meio da actuação, o público começou a interagir com a banda; finalmente, o devido respeito. De salientar que a banda foi convidada para tocar no MMF muito devido aos imensos pedidos dos fãs junto da organização. Percorrendo temas de álbuns tão díspares como “Rising”, “Luciferian Frequencies” e “PaleMoon”, ora mais rápidos, ora mais lentos, mas sempre com a devoção típica de Nocturnus Horrendus e companhia, cumpriram a missão que lhes foi delegada. Em poucas palavras, um dos melhores concertos do festival.

Quase a chegar à recta final, foi a vez dos No Turning Back, que vieram, viram e venceram. Verdade seja dita: a formação dos Países Baixos contava com imensos fãs na plateia, e isso foi bem visível nas diversas partilhas de microfone entre Van Den Heuvel e alguns fanáticos. É simples de verificar o porquê do sucesso dos holandeses: mestres de um hardcore/crossover robusto e sem grandes efeitos especiais em detrimento de sangue, suor e lágrimas em palco, e temas como “Fight to Survive”, “Take Your Guilt” ou o mais recente “Stand Your Ground” resultaram em cheio junto dos fãs e de iniciados como eu, visto que foi o primeiro concerto a que assisti da banda.

Tempo de Heavenwood. Vi-os no ano passado no Vagos, e percebi de imediato que o grupo não é seguido por fãs fiéis em todos os continentes por mero acaso. Aliás, “acaso” é uma palavra que não consta no dicionário dos Heavenwood, mas quem pesquisar por “talento”, “trabalho” e “mestria”, certamente que as encontrará no vasto léxico que se estreou com “Diva” em 1995. Com novo trabalho nas prateleiras, ouvi o álbum na íntegra para efeitos de crítica bem antes de ter sido editado, e é espantoso como, 22 anos depois, a inspiração e ambição do grupo do norte está mais forte do que nunca, bem espelhado no grandioso projecto que é “The Tarot of the Bohemians”, uma empreitada titânica em três andamentos que viu a primeira parte ser editada em Janeiro do ano passado. “The Juggler”, “The Emperor” e “The High Priestess” foram três dos temas que tocaram, entremeando-os com peças clássicas como “Emotional Wound” e “Rain Of July”. Só ao vivo é que conseguimos ver que a qualidade de cada músico é uma ode ao perfeccionismo, e elejo-o sem reservas como o melhor concerto do festival.

“A quantidade de otários que se lançaram em voo ao público com o smartphone em riste foi das coisas mais deprimentes que vi num festival.”

Sodom-1(Sodom / Foto: Filipe Gomes)

Por fim, e cerca da meia noite, alguns mercenários mais chegados ao palco colocaram as suas máscaras de gás, ajustaram o capacete na cabeça e inspeccionaram a sua M-16 para se certificarem de que a vitória seria inevitável. Sim, porque os Sodom subiram ao palco, e isso só podia significar guerra. A princípio, a banda sentiu-se confusa e quase mal se conseguia mexer devido à onda de stage divings que se instalou e que permaneceu durante toda a performance do grupo. Stage diving é bom? É, claro que sim, mas quando elementos de uma banda quase tropeçam em posers de 15 anos com tudo a provar ao mundo, algo está mal. A quantidade de otários que se lançaram em voo ao público com o smartphone em riste foi das coisas mais deprimentes que vi num festival, e já os frequento desde 93. Ainda pior é o facto de a banda contar com três elementos e, de tempos a tempos, eu ter visto 7 pessoas em palco MAIS o road manager da banda a empurrar os ditos otários para o público. Nunca me fez impressão um pouco de diversão, mas o que aconteceu na Moita durante o concerto de Sodom foi parvo e despropositado. Dica grátis: para o ano que vem, pensem em grades e num fosso entre o palco e o público. Com tantos clássicos em carteira e com 22 temas agendados para este concerto (dos quais tocaram 17 sem interrupções), seria impossível nomear esta ou aquela faixa em particular: depois de iniciarem com o novíssimo “In Retribution”, Angelripper e amigos debitaram balas perdidas como “Agent Orange”, “Nuclear Winter”, “Napalm in the Morning”, “Tired and Red” e, no final, a imensa “Remember the Fallen”, cujo refrão foi cantado em uníssono por um público cansado, com sono, esfomeado e sedento, mas sempre fiel, e sempre presente.

Resultado: finalmente, o Moita Metal Fest entra na primeira liga dos festivais de peso nacionais, o que só é mau por ter sido tão tarde.

Há ainda alguns pontos positivos que também são de louvar: bebidas como água e cerveja a 1 euro e café a 50 cêntimos (metam aqui os olhos, grandes festivais de verão, menos = mais consumo!) comida com preço moderado, seguranças profissionais a controlar os recintos e, logicamente, a calmaria que é a Vila da Moita durante o fim de semana. Por tudo isto e por muito mais, MOITA CAR***OOOO!!! Agradecimentos especiais ao Hugo e restante organização por proporcionarem um festival que, a cada ano que passa, cada vez mais se torna um evento emblemático nacional a caminhar para o internacional.

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