[Exclusivo] Moonspell e a procura por Paulo Bragança | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Exclusivo] Moonspell e a procura por Paulo Bragança

K800_Moon08Foto: Paulo Mendes

Fez, no passado 1 de Novembro, 262 anos que Lisboa tremeu e milhares morreram; hoje, dia 3 desse mesmo mês, a cena metal volta a fazer tremer o país com “1755”, o novo álbum dos Moonspell lançado pela Napalm Records e pela Alma Mater Records.

“1755” é um marco em si mesmo: o conceito histórico e filosófico do terramoto, a Língua Portuguesa em verso e Paulo Bragança na faixa “In Tremor Dei”. De repente todos sabem quem é Paulo Bragança – e ainda bem! Na década de 1990 era presença assídua nas televisões e em salas de concertos com o seu fado estranho e experimental, com os pés descalços, vestimentas alternativas e maquilhagem exuberante. Enfim, foi esquecido, ostracizado e enganado, como o próprio afirma em várias entrevistas. Foi embora, viveu em vários países deste e do outro lado do Atlântico, fixou-se em Dublin onde continuou os estudos e regressou recentemente ao seu Portugal.

O excerto que se segue está originalmente publicado no #12 da Ultraje Magazine (que ainda pode ser adquirido na Unkind), e é precisamente sobre “In Tremor Dei” e a procura por Paulo Bragança.

“In Tremor Dei” foi outra canção que decidimos pedir a Fernando Ribeiro para dissecar, simplesmente porque nela temos Paulo Bragança como convidado a emprestar a sua voz e a dar um âmbito fadista ao álbum, porque se falamos de Lisboa falamos obrigatoriamente de fado. «Há vários fados, e o fado que apontamos mais, ou que gostamos mais, é um fado muito mais melancólico, que tenha um pouco a ver não só com o de Lisboa mas também com o de Coimbra.» Se à partida esta inclusão soa estranha, o outrora alcunhado de Langsuyar assegura que os próprios Moonspell, aqui ou ali, nos seus riffs de guitarra, já fazem isso acontecer quando despem a “Alma Mater” para acústico, parecendo um pouco fado – portanto, como afirma, também há esse tipo de harmonias no repertório da banda. Questionado se esta adição tomou logo conta do grupo ou se foi algo que foi crescendo como uma necessidade, responde: «Quando escrevemos “In Tremor Dei”, e essa foi a segunda ou terceira música do disco a ser escrita (já pertencia ao EP), havia uma certa parte em que existia uma voz que não estava muito bem relacionada com o fado… Provavelmente estava a relacionar-se muito mais com outro tipo de artistas, como os Dead Can Dance, e imediatamente pensei no Paulo Bragança, porque – dos discos que tenho dele, dos concertos que tinha visto e das poucas vezes que tínhamos estado juntos a partilhar o palco – identifiquei-me sempre muito com o que ele fazia no fado. Era assim uma espécie de fado punk, que evolui para uma coisa muito dark, muito gótica… Aqui há uns dois anos, logo nos primeiros ensaios, o Ricardo [Amorim, guitarra] cantou nas maquetes, mas eu disse logo que isto ficava maravilhosamente bem cantado pelo Paulo Bragança.» Dito e feito, todavia: «O problema foi encontrá-lo! Depois de umas trocas assim meio facebookianas, onde não se consegue estabelecer nenhum tipo de contacto sério porque ou eu não vou lá ou ele não vai lá, fomos a Dublin [onde, à época, o convidado residia] e descobri o e-mail dele para dizer que estava em lá, mas em todo o caso ele não chegou a aparecer no concerto… Pronto, era uma figura que tinha desaparecido de Portugal há praticamente mais de 10 anos, mas quem nós queríamos mesmo. O nosso instinto musical ou artístico para aquela música dizia-nos que o Paulo Bragança ficava ali muito bem. Foi um longo processo, mas lá nos conseguimos encontrar, lá nos tornámos amigos e acho que fez uma prestação fantástica. Para um músico é muito recompensador imaginares uma coisa, gravares uma coisa e conseguires ter mesmo a voz que queres a dar àquela interpretação… Ele já não cantava há algum tempo, mas nós – eu e o Pedro, mas especialmente o Pedro –, estivemos sempre em cima dele – no bom sentido – a tentar vencer aquela timidez por estar a cantar com os Moonspell, porque ele gostava da nossa música. Acho que foi um feito para nós trabalhar com o Paulo Bragança; fizemos outro amigo e, se calhar, as nossas colaborações não se vão ficar por aqui, pois achamos que o Paulo Bragança faz imensa falta à música nacional e ao próprio fado que ele vai ora aceitando ora renegando, mas pelo menos é uma voz desalinhada, um punk, um gótico dentro do fado, que é uma música que eu respeito muito mas que também se tem tornado quase banal nos dias de hoje. É bom haver assim um fadista à antiga, de faca no bolso, com aquela voz meio-demónio/meio-angelical, e acho que fizemos uma música muito conseguida. Só temos que agradecer ao Paulo.»

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