#ChooseUltraje

Features

[Reportagem] Mosher Fest – Chapter VII: Coimbra tem mais encanto quando lá há metal

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Pela primeira vez a acontecer em dois dias seguidos, a mais recente edição do Mosher Fest realizou-se nos passados dias 16 e 17 de Novembro no já habitual Massas Club (Coimbra) com um cartaz pautado pela diversidade como a organização tem vindo a exigir a si própria.

A inauguração coube ao thrash/heavy metal dos Toxikull, que mesmo sendo uma banda de Cascais pode dizer-se que é da casa por estar actualmente ligada à Mosher Records. O EP “The Nightraiser”, recente lançamento, tem recebido boas críticas, incluindo a da Ultraje, mas a prestação ao vivo parece ser um pouco o tendão de Aquiles da jovem banda. Ainda que o som projectado não tenha ajudado – uma das guitarras mal se ouvia –, algum atabalhoamento na execução foi evidente, seja pela juventude ou pela energia emanada que se alia ao descompromisso e à atitude in-your-face.

Redemptus

Logo a seguir, Paulo Rui & Cia. estavam prontos para transformar o Massas num pântano com Redemptus. Numa mistura de doom, sludge e post metal, Paulo Rui até pode dar uma contribuição menos artística do que por exemplo em Verdun, pois nestes Redemptus tem que se ocupar do baixo além dos vocais, mas, à falta de grandes gesticulações e torções físicas, as suas expressões faciais e voz tomam conta do recado na mesma. O som melhorou notoriamente, e durante este concerto tanto fomos sepultados num terreno de lama com passagens arrastadas e pesadas como ressuscitámos com alguma melodia relacionada ao post metal proveniente da guitarra. Foi um dos melhores concertos dos dois dias.

Gaerea

A fasquia continuaria a elevar-se com a presença obscura dos Gaerea. É a banda mais proeminente da nova vaga de black metal português e tem marcado presença um pouco por todo o país mas também pela Europa. Com apenas dois anos de existência, o quinteto de cara tapada já só tem que se provar a si próprio de modo a desenvolver cada vez mais a sua estética visual e sonora até patamares nunca antes alcançados no nosso país. Para fãs de black metal melódico alemão e polaco, a execução mantém-se exemplar com principal destaque para a aparência artística do vocalista que transpõe as palavras para o corpo através de contorções do tronco e movimentos manuais que tanto personificam loucura como iluminação perante a multidão.

O thrash metal puro e duro subiria até Coimbra vindo do Algarve. Do Sul, o trio Prayers Of Sanity voltou a dar ao Massas Club uma toada positiva de crítica interventiva com rapidez e melodia sónicas. Com “Face of the Unknown” como mais recente trabalho, datado de 2017, o grande destaque desta banda, e até do concerto proporcionado naquele espaço, passa pelo facto de existir apenas uma guitarra, com estética de Dimebag Darrell, que tem a capacidade de encher todo um palco com riffs de ritmo e lead. A coesão do grupo demonstrou-se madura e é também por isso que uma guitarra sozinha funciona tão bem.

Bizarra Locomotiva

Há uma locomotiva portuguesa que é bizarra e desde 1993 nunca mais parou a sua viagem. Muitíssimo activos nos últimos anos, os Bizarra Locomotiva fizeram escala em Coimbra para mais um concerto insano, ainda que menos do que muitas e muitos estarão habituados. Ao invés dos habituais plásticos que se colam ao corpo de Rui Sidónio, houve uma t-shirt branca com Slayer estampado. Isso, no entanto, não estragou a festa visual, não só porque os restantes membros estavam devidamente ornamentados mas também porque Rui Sidónio decidiu prosseguir a sua bizarria ao subir até à varanda do Massas e lá deitar-se num sofá enquanto regurgitava a sua poesia. A sua presença entre o público, e a permissão para que berrassem algumas palavras ao seu microfone, é imagem de marca do vocalista e tal não deixou de acontecer numa sala que, ainda longe de lotada, estava consideravelmente bem composta para receber este industrial poético e fúnebre.

Ditava o cartaz que o segundo dia do Mosher Fest seria iniciado com hardcore nortenho. Do Porto, os Cruelist têm no seu recente cardápio uma digressão europeia realizada no passado mês de Março. Injusto para a qualidade do trio foi a sala ainda muito despida – ossos do ofício, mas alguém tem de abrir as cortinas na primeira posição. Com um hardcore pouco ortodoxo, mas muito bem pensado e frenético, é Xicote (baixista) quem toma as rédeas do espectáculo com os seus saltos jovialmente desprogramados e energéticos. Atenção nestes rapazes!

Do alto dos seus 32 anos de carreira, o metal ouvido em Coimbra continuava a ser oriundo do Porto com os veteranos Web. Com uma discografia um pouco nua para os anos que os Web têm, a sua assinatura no underground nacional está bem firmada. Neste concerto reinou o thrash da velha-guarda com um som encorpado muito à custa das guitarras de sete cordas. Entre momentos mais lentos e outros mais rasgados, o groove, a voz (que cruza o agudo com a fúria) e os solos exímios de Filipe Ferreira provocaram o primeiro headbanging mais sério da noite.

O heavy metal tradicional estava prestes a ouvir-se com entusiasmo através dos conimbricenses Midnight Priest, banda que tem fugido a Rui Alexandre no que a concertos organizados por si diz respeito e que possui uma aura muito própria, ainda que inspirada na cena dos 80s – um revivalismo honesto e bem tocado. Entre Iron Maiden e Judas Priest – para sermos mais directos nas influências –, o quinteto provocou um crescimento de rebeldia no Massas Club com muita energia em palco, twin-guitars em momentos fulcrais, várias rotações em si mesmo do guitarrista Steelbringer e até a capacidade de fazer alguns dos presentes cantarem refrãos.

Teethgrinder

A única banda estrangeira desta edição do Mosher Fest tem passaporte holandês e não é inteiramente desconhecida da audiência portuguesa. Os Teethgrinder subiram ao palco da sala situada na Pedrulha para debitar uma mescla de grindcore, death metal, deathcore, post metal e até black metal (ainda que muito escondido). Com uma sonoridade esmagadora, o quarteto – que tem o álbum “Nihilism” (2016) esgotado em todos os formatos menos em CD – utilizou cada break para soar a uma martelada no crânio, cada breve momento de melodia para mostrar confiança e cada berro para exemplificar uma combinação de raiva e desespero pela mediocridade à nossa volta. Já a noite ia avançada quando finalmente rebentou algum mosh digno da palavra.

Grog

O sétimo capítulo do Mosher Fest seria encerrado com uma banda seminal do brutal death metal português – os Grog. O cunho que o grupo implementou no nosso país é irrepreensivelmente importante e os quase 30 anos de carreira não os envelheceram nada – antes pelo contrário. Com uma formação de luxo, os Grog subiram ao palco do Massas Club com um Alexandre Ribeiro a carregar aos ombros um fretless bass altamente técnico, um Rolando Barros a fazer explodir, não literalmente, as peles e os metais da bateria através da sua reconhecida assinatura, um Ivo Martins extremamente coeso na forma como exibiu a distorção robusta das suas malhas de guitarra e um Pedro Pedra que transgrediu o comum da voz humana com growls vindos das entranhas. Enquanto no palco estavam os Grog, cá em baixo estava uma plateia doida, mesmo quando já passava das duas da madrugada. Num chão regado de cerveja e pó dominou um constante crowdsurfing que fez ronda por toda a sala até alguém ser deixado em cima do palco e ter, obviamente, que se atirar de volta para os braços dos carregadores-mor. A festa fez-se, e muito bem feita! A comunidade metal, e principalmente neste caso a cidade de Coimbra, só tem de agradecer ao dinamismo da Mosher que teima, e bem, em não ser apenas e só mais uma marca bonita – a Mosher faz as coisas acontecerem! Aproveitem.

Features

[Reportagem] Brujeria + Simbiose + Systemik Viølence (09.12.2018 – Lisboa)

Publicado há

-

Brujeria (Foto: Solange Bonifácio)

-/-

Brujeria + Simbiose + Systemik Viølence
09.12.2018 – RCA Club, Lisboa

-/-

A noite começou em literal “anarquia violência” musical – nome que se associa por diversas razões aos Systemik Viølence que nos fizeram viajar até ao underground d-beat japonês, onde manifestaram a sua prática musical e atitude punk de desobediência, agressividade e sujidade, onde o frontman Iggy Musashi conseguiu cativar o público de formas variadas. E como já é costume, misturou-se dentro da multidão, com uma performance absolutamente incansável, cativante e esmagadora.

De seguida, os Simbiose – com toda a eficiência a que já nos habituaram também – descarrilaram a sua energia característica. Com o vocalista Jonhie comunicativo e a cumprimentar o público como usual, ecoaram desdém e repulsão de manifesto com o seu punk / crust / grindcore, reforçando mais uma vez que são a grande instituição musical dentro do género a nível nacional.

Não é usual ter a oportunidade de ver ao vivo superbandas e, ainda para mais, uma tão peculiar como Brujeria o é. Poder assistir, no mesmo palco, a artistas gigantes e de culto, como Shane Embury dos Napalm Death ou o Nicholas Barker – um dos bateristas mais rápidos da história do metal, com uma técnica musical absolutamente explosiva – é um grande privilégio, e assim o foi.  Juan Brujo e El Sangron abriram as hostilidades de uma celebração ao death grind em que se revistaram temas clássicos. Os Brujeria são uma força musical absolutamente bruta, divertida, barulhenta e politicamente carregada – elementos que tornaram este concerto memorável. Finalizou-se a noite com parte do público – que foi incansável e envolvente desde o início do concerto – em palco e em ambiente de festa no tema “Marijuana”, que encerrou este grande concerto.

Texto e fotos: Solange Bonifácio

Continuar a ler

Features

[Reportagem] Alestorm + Skálmöld (05.12.2018 – Graz, Áustria)

Publicado há

-

Alestorm (Foto: Lukas Dieber)

-/-

Alestorm + Skálmöld
05.12.2018 – Dom Im Berg, Graz, Áustria

-/-

Ancoramos a nau longe da margem e remamos o nosso barco em direcção a terra. As águas do rio Mur estavam escuras e agitadas. Passei o dedo na esteira da água e saboreei algo doce que se espalhava. Rum. Estávamos no caminho certo. Olhei para o topo da montanha e vi o X do nosso mapa: a torre com o Grazer Uhrtum, o relógio construído pouco antes da batalha de Cartagena, que marcava o tesouro da lenda de Alestorm. Ao chegar ao sopé da montanha, barris de rum, ganchos e tricórnios! Casacos de veludo e bandoleiras, espadas curvas e canecas de madeira a transbordar, inundando o chão.

Não éramos os únicos nesta caça ao tesouro e a entrada da caverna estava barrada. Antes de ouvirmos as crónicas do velho escocês e do seu fiel pato de ar, teríamos de enfrentar os guardiões Skálmöld.

Vindos da terra fria, estes sobreviventes da Sturlungaöld, a maior batalha ocorrida na Islândia, e que já lutaram lado-a-lado com a orquestra Sinfóníuhlijómsveit Íslands, aqueceram as hostes com histórias de “Baldur”, “Börn Loka” ou “Sorgir”, álbum lançado em Outubro deste ano.

Os temas narrados em fornyrðislag (técnica nórdica repleta de aliterações) e sléttubönd (versos islandeses com rimas palindrómicas) garantem um groove e um balanço único ao vivo, como cânticos de batalha.

“Áras”, “Gleipnir”, “Sverðið” ou “Móri”, esta com uma introdução vocal de Helga Ragarsdóttir, que substitui o talentoso Gunnar Ben nos teclados, foram cantadas em uníssono, para surpresa dos próprios guardiões.

Visivelmente agradecidos e entusiasmados, debitaram cacetadas com o seu martelo nórdico, fazendo abanar cabeças ao som de riffs NWOBHM com algum balanço de thrash metal, mantendo a base épica folk sempre presente. E antes de se tornarem um ancião chato, caquéctico e repetitivo, terminaram a sua torrente com “Að Vetri” e “Kvaoning”, empurrando os ventos da montanha para os mares navegados por Alestorm.

Guardiões enfrentados, a caverna estava agora à nossa mercê.
Aguardávamos um velho escocês de perna de pau e pala no olho. Apareceram-nos cinco marmanjos com ar de skaters dos anos 80 viciados no Porkys, prontos para a depravação, histórias bebedolas de piratas e infinitos brindes aos seus elixires predilectos: rum e cerveja.

Com Christopher Bowes ao leme, os Alestorm começaram a festa… E os piratas não precisaram de ordens. Sentaram-se no chão e remaram ao ritmo de “1741 The Battle of Cartagena”; abraçados, balouçaram-se com a canção de embalar “Nancy the Tavern Wench”; vibraram com os solos a la 80s do guitarrista Bobo; “Bar und Imbiss” levou-os ao rubro com a sugestão de que era uma música sobre matar alemães e beber até não poder mais… E quando “Hangover” foi antecedida por Beef Guy a emborcar quatro cervejas de penalti e “Captain Morgan’s Revenge” por uma wall of death desengonçada, a demência de alto mar tomou lugar, permanecendo até ao encore com “Drink”, “Wolves of the Sea” e “Fucked with an Anchor”.

No final, como verdadeiros piratas depois de uma noite de deboche, muitos por ali ficaram a afogar as mágoas… Lado-a-lado com os membros da banda que não arredaram pé.

Não percam a oportunidade de enfrentar Alestorm em alto mar, em breve atracados em Lisboa, pois é dos concertos mais divertidos que poderão assistir. Alestorm vivem o que propõe: True Scottish Pirate Metal com humor mordaz, histórias de antologia, excelente profissionalismo e muita cerveja.

Texto: Daniel Antero
Fotos: Lukas Dieber

Continuar a ler

Features

[Nacional] Equaleft: o desafio que se segue (c/ Miguel Inglês)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Foto: João Fitas

Quase cinco anos depois de “Adapt & Survive”, os portuenses Equaleft chegam finalmente ao segundo longa-duração – chama-se “We Defy” e, segundo o vocalista Miguel Inglês, «o desafio deste álbum é a forma mais dinâmica com que soamos e a própria mistura do peso e do groove que nos caracteriza». O repto deste novo trabalho passa ainda por experiências que, garantimos, têm tudo para resultar: «Temos agora alguns ambientes através de sintetizadores, o que fez com que o álbum soe muito mais intenso», refere Inglês, aguçando o apetite auditivo ao rematar que «o primeiro single, que em breve vamos disponibilizar, espelha isso mesmo». «Com a gravação do álbum sinto que já que crescemos musicalmente e isso vai-se reflectir também em palco», esperando «poder surpreender quem já nos conhece e também chegar cada vez mais a um público variado».

Na derradeira recta no que à finalização do disco diz respeito, o vocalista conta que «falta só a masterização e uns pequenos toques no artwork». O lançamento de “We Defy” acontecerá no início de Fevereiro de 2019 e pela Raising Legends e Raging Planet.

Continuar a ler

Facebook

#UltrajeRadar

Ultraje #19