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[Entrevista] Nader Sadek: no médio-oriente, tudo de novo

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Começo pelo mais importante: Nader Sadek, o mentor da superbanda homónima, não é um músico. Quero dizer, é, mas não é. De facto, Nader Sadek é um artista plástico egípcio que foi responsável pelos efeitos visuais ao vivo de bandas como Mayhem ou Sunn O))). Daí a conhecer os principais músicos de elite do metal extremo mundial foi um pequeno passo, e outro do mesmo tamanho até criar um projecto de death metal técnico/experimental/avant-garde/progressivo com o seu nome. No XX SWR Barroselas Metalfest, por exemplo, Sadek fez-se acompanhar de Derek Roddy (Nile, Hate Eternal), Johan de Farfalla (ex-Opeth), Thor “Destructhor” Anders Myhren (ex-Morbid Angel, Myrkskog) e Tom Geldschlaeger (Obscura). Com músicos como estes, o que poderia correr mal?

Em 2011, a banda editou o fantástico (ainda que ignorado) “In the Flesh”. Os músicos envolvidos no álbum ajudaram, de uma forma ou de outra, a elevar o metal extremo a níveis sem precedentes: Steve Tucker (Morbid Angel), Flo Mounier (Cryptopsy), Rune Eriksen (ex-Mayhem), bem como convidados como Attila Csihar (Mayhem, Sunn O)))), Travis Ryan (Cattle Decapitation), Tony Norman (Monstrosity, Terrorizer) ou Destructhor (ex-Morbid Angel). O ano de 2014 viu o grupo regressar aos lançamentos na forma do EP “The Malefic: Chapter III”, um passo de gigante em relação ao álbum de estreia. Três anos volvidos, obviamente que há interesse em saber o que é feito de e dos Nader Sadek.

«Tenho feito comunicações sobre os Nader Sadek, principalmente online», começa Nader. «Neste momento, e para além da tour, estou a fazer aquilo que realmente gosto, que é a mistura do novo álbum, pois só apresento produtos finais perfeitos. Presentemente, temos cerca de 20 músicas inéditas disponíveis. Comuniquei alguns detalhes nas redes sociais, mas pouco mais.» Receei que a gravação da entrevista ficasse inaudível – nas nossas costas, Roddy, Farfalla e Thor estavam envolvidos num aceso debate sobre um qualquer tema que nos escapava. De facto, Sadek rodeou-se das maiores lendas do death e do black metal mundial para compor os seus temas e, para além do debate destes três músicos, imagino a facilidade ou dificuldade que terá sido agrupar profissionais com backgrounds tão distintos.

«Ainda esculpo e desenho, mas estou totalmente focado na banda porque é muito divertido, principalmente as tours.»

Nader metaforiza a resposta. «Antes de tudo, sou um artista plástico. Embora Nader Sadek seja uma obra minha, necessito de acompanhantes, de uma equipa para fazer certas partes da escultura que é Nader Sadek.» Ou seja, falamos não de serventes, mas de colaboradores? «Sim, colaboradores é o termo mais apropriado. Assim como quando um realizador dirige um filme, existem os actores, o realizador, etc. Com Nader Sadek é idêntico, e eu sou o realizador.» Achei curiosa a comparação com uma escultura, como se se tratasse de uma peça de arte, e isso levou-me a fazer uma pergunta off-script: será, então, que cada novo trabalho de Nader Sadek pode ser visto como uma obra de arte de uma corrente específica, como se estivéssemos a falar de dadaísmo, cubismo, futurismo…? «Com certeza!», começa. «Para mim, o conceito dita a forma final da obra. Ainda esculpo e desenho, mas estou totalmente focado na banda porque é muito divertido, principalmente as tours. Por exemplo, “In the Flesh” surgiu numa altura em que estava a trabalhar num conceito baseado à volta do petróleo, devido ao meu fascínio por ele. Esse conceito artístico evoluiu e transformou-se no “In the Flesh”. Nesse álbum, os desenhos são de esculturas que criei; não se trata de uma memória do meu passado, mas de uma evolução, está tudo interligado. Sou fascinado pelos combustíveis fósseis, que são compostos por matéria orgânica morta, animais mortos, dinossauros…» Interrompo-o por breves instantes, pois parece-me que sei o que aí vem – uma dicotomia entre matéria orgânica morta que dita a forma como nós, matéria orgânica viva, vivemos. A morte a comandar a vida, por assim dizer.

Sorri, espantado. «É precisamente isso. Pegamos nos mortos e criamos energia, e o karma em redor disso é mau em todos os sentidos possíveis: ganância, poluição… Se quiseres pegar no tema pelo vértice espiritual, também ele te apresenta problemas, pois os países do médio-oriente lutam de norte a sul por ele, e então intromete-se a política. Mas do ponto de vista teológico, o inferno está por baixo de nós, é subterrâneo; o inferno é composto por enxofre derretido e o petróleo, no seu estado bruto, contém também enxofre. Tracei uma paralela entre as duas coisas e apercebi-me de que o petróleo é a substância mais próxima do mal que existe. Como quase todo o mundo precisa de petróleo, quase todo o mundo adora o diabo, bem entendido.»

«Fui preso por levar bandas de metal para tocar no Egipto, como os Aborted, Inquisition e Sepultura.»

Claro que, vindo de alguém nascido e criado no Egipto, tudo isto faz sentido se pensarmos que o politeísmo governou a terra dos faraós durante milhares de anos. No entanto, e pelo mesmo prisma, Sadek deve ter uma visão muito própria de como a sua terra natal se encontra desde há seis ou sete anos para cá, quando ocorreu a primavera árabe. «A um nível superficial, está melhor. As coisas voltaram à normalidade, mas o povo continua a protestar, pois continua a ser governado por ditadores. Pessoalmente, tive problemas no Egipto recentemente: fui preso por levar bandas de metal para tocar no Egipto, como os Aborted, Inquisition e Sepultura

Espera lá: preso por promover o heavy metal? Ainda acontece isso no Egipto? «Sim, fui preso, mas por uma questão de inveja por parte do Sindicato de Músicos. O governo não proíbe concertos de metal, mas o Sindicato criou-me imensas barreiras por inveja. No meu primeiro concerto, assistiram seiscentas pessoas. No segundo, os Aborted tiveram mais de mil pessoas, e não foi num festival, foi apenas um concerto de Aborted, e isso criou mal-estar. Cinco minutos antes de os Sepultura começarem a tocar apareceu a polícia, munidos de metralhadoras, e prenderam-me. Foi um pesadelo do caralho. Entretanto, os tribunais consideraram-me inocente, e processei o Sindicato. A sentença será lida em Junho, veremos como corre, mas caso eu ganhe o processo, vou organizar imensos concertos de metal no Egipto. As pessoas aparecem, há miúdas e mulheres que aparecem nos concertos de burca.»

«O Egipto está repleto de metaleiros, meu!»

Desculpa?! O metal no Egipto é assim tão popular? «O Egipto está repleto de metaleiros, meu! Como te disse, só Aborted teve mais de mil pessoas na audiência; aqui, OK, é um festival, é na Europa, mas lá, é um número impressionante. Ainda há uns dias falei com o pessoal dos Inquisition, e eles ficaram espantados com tamanha afluência de gente a um concerto de black metal. Nós somos artistas, isto não é religião, é arte. Podes gostar muito de Inquisition mas, no fim das contas, estás a consumir arte, e não a praticar um culto. É esta a batalha que travo presentemente no Egipto: liberdade de expressão, direitos civis, com a lei do meu lado. Embora o meu advogado não seja metaleiro, ele é um defensor incansável dos direitos humanos e da liberdade de expressão, pois sabe que a arte é importante.» Dá a entender que os egípcios têm sede de cultura ocidental. «Têm. Recebi centenas de mensagens de motivação após tocar no Egipto. Há uns tempos atrás fui agressivo e disse mesmo que as bandas de metal no Egipto são péssimas; fui injusto, pois se as bandas nem sequer conseguem ter acesso ao que nós temos, como conseguirão melhorar? Sinto-me um bocado estúpido, porque elas não têm culpa.» Entendo bem a sensação, assim era Portugal em meados dos anos 80.

Com o tempo a acabar, voltamos ao princípio, e visto que existem cerca de 20 temas prontos para serem incluídos, fiquei curioso em relação a uma de edição de um novo álbum. «O novo álbum já tem as músicas prontas, agora é uma questão de as gravar. Terá bastantes convidados: o Glen [Benton, Deicide], o Attila [Csihar, Mayhem], o Alex [Webster, Cannibal Corpse], o Novy [Vader], o Dominique LaPointe [Beyond Creation], o Jacob [Schmidt, Defeated Sanity], o Johan e o Jonas [Katatonia}… Convidei também uma cantora de ópera, e ainda mais uns poucos, uns menos conhecidos, outros mais, mas tudo músicos de alta qualidade. Quero fazer de Nader Sadek uma instituição, não me interessa se os músicos são famosos ou não, mas sim que sejam talentosos. Como o Richie Brown, dos Trivium, que é fantástico. Quanto a uma data, estou a pensar, na melhor das hipóteses, ainda este ano; na pior, em 2018. Mas depois deste álbum, vou estar muito mais activo e, a cada seis meses, prevejo lançar um EP.» Dito da boca do próprio. Se “The Malefic: Chapter III” reservou um lugar vitalício na primeira linha do metal extremo para os Nader Sadek, só podemos imaginar como será o próximo álbum.

 

 

Recorda a antevisão ao XX SWR Barroselas Metalfest com Nader Sadek AQUI.

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