Nadimac: da Sérvia com amor, humor e revolução (entrevista c/ Danilo “Dača” Trbojević) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Nadimac: da Sérvia com amor, humor e revolução (entrevista c/ Danilo “Dača” Trbojević)

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Nadimac é uma banda sérvia de crossover (com maior destaque para o thrash metal) que se formou em 2003 e que já tem mais de vinte lançamentos. “Besnilo” é o álbum mais recente e foi isso mesmo que nos levou a querer fazer esta entrevista, mas também vale a pena frisar que foi o sentido crítico e modificador de sociedades que a banda ostenta que fortaleceu os laços entre a Ultraje e os Nadimac. Numa extensa conversa centrada no conceito da banda e no território que habitam, de lá longe é Danilo “Dača” Trbojević quem nos responde fervorosa e detalhadamente a tudo o que perguntámos.

«Se tiveres [em conta] factores culturais e sociopolíticos poderás compreender quão importante é o humor para recordar e descrever acontecimentos políticos e sociais traumáticos.»

Os Nadimac conseguem ser muito políticos, mas também humorísticos. Como é que essas duas coisas se encontram para que se modifique a sociedade?
Bem… Imagina um país e uma sociedade que enfrenta guerra civil, e outras guerras, constantemente – manifestações, revoltas e revoluções são parte da tradição. Tradição não só feita por nós; pelo contrário, principalmente [feita] por factores estrangeiros e contexto político. Por outro lado, imagina o mesmo país onde coisas importantes são o humor, comunicação geral e mentalidade amigável, assim como partilha e festa. Se tiveres estes dois factores culturais e sociopolíticos, entre outros, poderás compreender quão importante é o humor para recordar e descrever acontecimentos políticos e sociais traumáticos. Se não se quer estar deprimido ou triste, fala-se destes assuntos usando diferentes ângulos de perspectiva e representação. Por exemplo, em canções como “Znakovi or Palikuca” cantamos sobre traumas reais de guerra na infância, da perspectiva de um adulto cuja vida ainda é influenciada por uma continuada luta social. A faixa “Palikuca” fala sobre como as crianças costumavam poupar dinheiro apenas para comprar fósforos e atear fogos à volta dos prédios. Na canção há essa continuidade de atear fogos, mas desta vez os alvos são as casas e tudo aquilo que é ganho por políticos e “homens de negócio” através de corrupção e crime. Noutros temas cantamos sobre a chatice que é conseguir erva para os teus parentes que estão a sofrer com doenças, uma vez que não há dinheiro para tratamento médico apropriado. Ou cantamos sobre pescadores revoltados pelo facto de todos os lagos estarem poluídos e também porque os novos pescadores usam bombas da guerra para ter mais peixe para vender… Assim, os nossos pescadores andam à espreita e começam a matar outros pescadores. Como vês não é um humor de “ah-ah”, mas bizarro, negro e sarcástico que usamos como ferramenta para oferecer a nossa crítica própria e global. A nossa mascote é um “palhaço sarcástico”.

«Acho que o capitalismo em geral é uma ideologia política do mundo moderno muito perigosa.»

Adorei a forma como representaram o mundo na vossa capa. Achas que as grandes corporações têm muito para responder?
A ideia original para a capa era mais detalhada e simbólica, mas o nosso artista é da Indonésia e foi um bocado complicado descrever a narrativa numa forma que compreendesse a 100%. E outra coisa: o artista tem algumas regras que não permitem desenhar certas coisas… Foi duro, mas no fim espelha bem a história que queríamos.
Quanto às corporações e ao nosso estilo de vida… Sim, acho que o capitalismo em geral é uma ideologia política do mundo moderno muito perigosa. Corporações independentes e multinacionais são ferramentas e parte da globalização moderna e de um processo de desconstrução cultural, fazendo de países, nações e culturas umas colónias consumidoras uniculturais. Capitalismo moderno é perigoso da mesma forma que o imperialismo britânico, português, espanhol e turco foi, da mesma forma que a sociedade esclavagista foi e da mesma forma que o fascismo rígido foi… É a mesma coisa, se não queres falar de capitalismo, não fales de fascismo. Tens uma ilusão de escolha; tens escolha em milhões de coisas que não interessam e não tens qualquer escolha em coisas que realmente importam. Por exemplo, da forma como a tua sociedade vai evoluir, o teu país vai ficar arruinado – o sistema de educação, saúde, vender fábricas nacionais ou produtos culturais. Pessoalmente sou contra a União Europeia, mas o nosso país aprendeu que não é liberdade que ganha ao juntar-se, mas sim um novo conjunto de sanções se a nossa sociedade escolher não juntar-se.
As corporações estão em todo o lado, não estão? Não apenas fisicamente mas nos media e nas redes sociais, construindo não apenas respostas para as tuas necessidades, mas construindo mais e mais necessidades artificiais e formas de quereres mais e mais para consumires e alcançares um micro-status ou uma classe dentro da tua classe… Consumir, estar lá, ser moderno, abolir tradições e ser parte da cultura global… Não, obrigado. Não é só isso, como cantamos na “Jednom nogom u gradu”; corporações estrangeiras têm impacto nas culturas tradicionais de produção. Por exemplo: a produção em aldeias é muito boa no meu país, mas agora compram produtos estrangeiros baratos e fracos, e vendem de barato o nosso próprio produto embora seja orgânico e com mais qualidade ou vendem a nossa força de trabalho tão barata como a americana – ganhamos menos. O negócio nacional está a morrer, assim como as produções e sociedades tradicionais, e quando as corporações decidirem abandonar o nosso país para irem para um ainda mais fodido – como sociedades pós-guerra – para lucrarem às custas doutras nações… Isso vai deixar desordem na nossa sociedade e semelhantes. Tornam-se mestres e vamos implorar para que voltem – é uma nova forma de escravatura psicológica, física e económica. Não nos esqueçamos que eles não trabalham isolados; clima político e social é muito importante para isto, e é por isso que precisamos de semanas artificiais, guerras, manipuladores de fantoches e governos marionetas… E todos temos de lutar contra este tipo de corrupção a todos os níveis.

«As pessoas protestam e reagem mais na internet do que na vida real, quando podiam mostrar algum tipo de exemplo ou acção..»

Este tipo de atitude punk e em alerta esteve em voga nas décadas recentes, mas as coisas mudaram e parece que a maioria está estupidificada e descuidada. Tendo isso em conta, quanta coragem é necessária para engajar em tamanha postura?
Bem… Acho que a internet trouxe coisas boas mas também mudou outras, como mobilização social, ligações e formas de cooperação. Hoje em dia, as pessoas protestam e reagem mais na internet do que na vida real, quando podiam mostrar algum tipo de exemplo ou acção. É na boa, mas embora a internet possa ser uma ferramenta de luta anti-sistema, na maioria dos casos é território para palavras ásperas e comentários furiosos e nada mais… É esse o problema. Por outro lado, acho que as pessoas devem ser mais politizadas ou, pelo menos, envolveram-se na mudança social, começando por elas próprias ou pelos vizinhos, e a seu tempo será possível alcançar algo.
Quanto ao punk, foi e é um acontecimento importante, mas não creio que seja um movimento já que não tinha um objectivo político – alguns grupos tinham e outros apenas usavam as temáticas; o mesmo para o satanismo no metal. Não acredito que 99% das bandas metal sejam satânicas. Quanto ao nosso país e nós, não acho que seja necessária muita coragem, pois já vimos guerras, revoltas e sanções, e sabemos quão fodidos estamos, mas também sabemos que isso não é o pior que pode acontecer… E todos temos aquele sentimento que outras sociedades não sentiram, mas infelizmente vão sentir em breve. Quanto a mim, estou em antropologia política e social, portanto isto surge naturalmente para que esteja lírica e artisticamente envolvido em temas e críticas sociais locais e globais. Para além da banda, muitas pessoas no nosso país partilham do desconforto geral para com o governo, mas também para com a política regional e global. Somos apenas uma voz, há muito mais para além da música e isso é o mais importante.
Há uma palavra na nossa língua que é inat. Basicamente significa que vais actuar de livre vontade apesar de qualquer pressão, sem querer saber das consequências.

«É divertido misturar coisas que gostas, especialmente do underground, o que faz o crossover soar relativamente refrescante e mais genuíno.»

O termo crossover vem dos EUA, com bandas como Agnostic Front, e já atravessou a Europa. Lembras-te como o descobriram e o que vos fez ir por aí?
Pessoalmente sempre estive rodeado de música, especialmente rock e depois hardrock e punk, seguidamente heavy metal, grindcore, death metal, thrash, speed, hardcore. Estou sempre apto para novos tipos de música. Para mim sempre foi importante ouvir música com atitude e letras boas e honestas, especialmente se for veloz. [risos] Penso que é a mesma coisa com outros membros da banda. Todos gostamos de bandas desde Hammerfall a The Exploited, de Terrorizer a SOD, de Tankard a Anal Cunt, de Motörhead a Gorilla Biscuits. Se começas a tocar thrash, vais querer soar a Kreator ou Sodom, mas a seu tempo envolves-te com novas coisas e percebes que não é importante soar a isto ou àquilo, mas sim em envolveres outras influências, não na música mas em termos de paixão, ideologia, narrativa, engajamento social. Odeia ouvir um milhão de novas bandas que soam ao mesmo. Penso que é importante trazer novas e variadas influências à música ou então torna-se chato, matando o que há de bom na cena e na sua diversidade.
Quanto ao crossover, bem, não pensamos muito nisto. Só queríamos bandas diferentes e que tocassem música rápida. [risos] No geral penso que é importante compreender que as reais raízes do thrash metal não eram Slayer ou Metallica, mas bandas de punk e hardcore rápido que influenciaram essas bandas a tocarem mais agressivamente, como é exemplo o speed metal dos Judas Priest. É divertido misturar coisas que gostas, especialmente do underground, o que faz o crossover soar relativamente refrescante e mais genuíno. A primeira pessoa que nos descreveu como crossover foi o Wang, dono da chinesa ADP, que lançou os nossos dois primeiros álbuns. Não tivemos problemas com isso e ficou.

«Depois do colapso da Jugoslávia houve trauma social em todos os lados, portanto ao princípio foi estranho tocar e cooperar em países que cresces a ver como zona de guerra.»

Devido ao nosso trabalho no meio, temos encontrado muitas bandas da ex-Jugoslávia. Como vai a cena metal por aí? Especialmente na Sérvia…
Na Jugoslávia tínhamos bandas únicas de metal, punk e hardcore no final dos anos 1970, durante os 1980 e 1990. Muitas dessas bandas pararam, mas há uma espécie de legado. Depois dos 2000, começaram a emergir novas cenas e algumas bandas que começaram a tocar, incluindo Nadimac. Ainda há bandas dos 1980s que existem, como os Bombarder, ou dos 1990s, como Saht, Acroholia e SMF, ou dos finais dos 1990s, como The Stone e Doghouse. Infelizmente há muitas bandas que tocaram nos tempos piores e nunca chegaram ao seu potencial, como Azazel, Kramp e Dead Before Dying.
A cena metal na Sérvia está estável, mas não existe; está numa fase de estagnação. Há muitas bandas e concertos, mas pouca cooperação entre pessoas, bandas, media alternativos e publicidade. Também há o problema do público e interesse geral no underground. As pessoas escolhem sentar-se numa sala de concertos ou parques e beber cerveja, parecendo metálicos ou punks, mas sem irem aos concertos ou envolverem-se na cena. É uma porra. No nosso caso, tocamos com bandas de diferentes estilos e é bom, porque as pessoas que realmente ainda gostam de uma experiência offline vêm, sem importar que sejam thrashers, punks, hardcore ou grinders. Uma vez que estas cenas se estão a tornar mais pequenas no nosso país e noutros, acho que esta abordagem é mais importante do que se manter exclusivo a um tipo de música ou pessoas. É a melhor maneira de se trocar ideias e energia. Depois do colapso da Jugoslávia houve trauma social em todos os lados, portanto ao princípio foi estranho tocar e cooperar em países que cresces a ver como zona de guerra, mas à medida que o tempo passa todos temos cooperado e tocado na Croácia, Macedónia, Eslovénia e Bósnia, e temos partilhado palcos noutros países com bandas da ex-Jugoslávia. É totalmente diferente de se tocar com bandas estrangeiras, porque falamos basicamente a mesma língua e alguns nasceram no mesmo país que depois se “balcanizaram” em estados independentes. Penso que é uma experiência única.

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A review a “Besnilo” pode ser acedida AQUI.

 

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