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Nadimac: da Sérvia com amor, humor e revolução (entrevista c/ Danilo “Dača” Trbojević)

Diogo Ferreira

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Nadimac é uma banda sérvia de crossover (com maior destaque para o thrash metal) que se formou em 2003 e que já tem mais de vinte lançamentos. “Besnilo” é o álbum mais recente e foi isso mesmo que nos levou a querer fazer esta entrevista, mas também vale a pena frisar que foi o sentido crítico e modificador de sociedades que a banda ostenta que fortaleceu os laços entre a Ultraje e os Nadimac. Numa extensa conversa centrada no conceito da banda e no território que habitam, de lá longe é Danilo “Dača” Trbojević quem nos responde fervorosa e detalhadamente a tudo o que perguntámos.

«Se tiveres [em conta] factores culturais e sociopolíticos poderás compreender quão importante é o humor para recordar e descrever acontecimentos políticos e sociais traumáticos.»

Os Nadimac conseguem ser muito políticos, mas também humorísticos. Como é que essas duas coisas se encontram para que se modifique a sociedade?
Bem… Imagina um país e uma sociedade que enfrenta guerra civil, e outras guerras, constantemente – manifestações, revoltas e revoluções são parte da tradição. Tradição não só feita por nós; pelo contrário, principalmente [feita] por factores estrangeiros e contexto político. Por outro lado, imagina o mesmo país onde coisas importantes são o humor, comunicação geral e mentalidade amigável, assim como partilha e festa. Se tiveres estes dois factores culturais e sociopolíticos, entre outros, poderás compreender quão importante é o humor para recordar e descrever acontecimentos políticos e sociais traumáticos. Se não se quer estar deprimido ou triste, fala-se destes assuntos usando diferentes ângulos de perspectiva e representação. Por exemplo, em canções como “Znakovi or Palikuca” cantamos sobre traumas reais de guerra na infância, da perspectiva de um adulto cuja vida ainda é influenciada por uma continuada luta social. A faixa “Palikuca” fala sobre como as crianças costumavam poupar dinheiro apenas para comprar fósforos e atear fogos à volta dos prédios. Na canção há essa continuidade de atear fogos, mas desta vez os alvos são as casas e tudo aquilo que é ganho por políticos e “homens de negócio” através de corrupção e crime. Noutros temas cantamos sobre a chatice que é conseguir erva para os teus parentes que estão a sofrer com doenças, uma vez que não há dinheiro para tratamento médico apropriado. Ou cantamos sobre pescadores revoltados pelo facto de todos os lagos estarem poluídos e também porque os novos pescadores usam bombas da guerra para ter mais peixe para vender… Assim, os nossos pescadores andam à espreita e começam a matar outros pescadores. Como vês não é um humor de “ah-ah”, mas bizarro, negro e sarcástico que usamos como ferramenta para oferecer a nossa crítica própria e global. A nossa mascote é um “palhaço sarcástico”.

«Acho que o capitalismo em geral é uma ideologia política do mundo moderno muito perigosa.»

Adorei a forma como representaram o mundo na vossa capa. Achas que as grandes corporações têm muito para responder?
A ideia original para a capa era mais detalhada e simbólica, mas o nosso artista é da Indonésia e foi um bocado complicado descrever a narrativa numa forma que compreendesse a 100%. E outra coisa: o artista tem algumas regras que não permitem desenhar certas coisas… Foi duro, mas no fim espelha bem a história que queríamos.
Quanto às corporações e ao nosso estilo de vida… Sim, acho que o capitalismo em geral é uma ideologia política do mundo moderno muito perigosa. Corporações independentes e multinacionais são ferramentas e parte da globalização moderna e de um processo de desconstrução cultural, fazendo de países, nações e culturas umas colónias consumidoras uniculturais. Capitalismo moderno é perigoso da mesma forma que o imperialismo britânico, português, espanhol e turco foi, da mesma forma que a sociedade esclavagista foi e da mesma forma que o fascismo rígido foi… É a mesma coisa, se não queres falar de capitalismo, não fales de fascismo. Tens uma ilusão de escolha; tens escolha em milhões de coisas que não interessam e não tens qualquer escolha em coisas que realmente importam. Por exemplo, da forma como a tua sociedade vai evoluir, o teu país vai ficar arruinado – o sistema de educação, saúde, vender fábricas nacionais ou produtos culturais. Pessoalmente sou contra a União Europeia, mas o nosso país aprendeu que não é liberdade que ganha ao juntar-se, mas sim um novo conjunto de sanções se a nossa sociedade escolher não juntar-se.
As corporações estão em todo o lado, não estão? Não apenas fisicamente mas nos media e nas redes sociais, construindo não apenas respostas para as tuas necessidades, mas construindo mais e mais necessidades artificiais e formas de quereres mais e mais para consumires e alcançares um micro-status ou uma classe dentro da tua classe… Consumir, estar lá, ser moderno, abolir tradições e ser parte da cultura global… Não, obrigado. Não é só isso, como cantamos na “Jednom nogom u gradu”; corporações estrangeiras têm impacto nas culturas tradicionais de produção. Por exemplo: a produção em aldeias é muito boa no meu país, mas agora compram produtos estrangeiros baratos e fracos, e vendem de barato o nosso próprio produto embora seja orgânico e com mais qualidade ou vendem a nossa força de trabalho tão barata como a americana – ganhamos menos. O negócio nacional está a morrer, assim como as produções e sociedades tradicionais, e quando as corporações decidirem abandonar o nosso país para irem para um ainda mais fodido – como sociedades pós-guerra – para lucrarem às custas doutras nações… Isso vai deixar desordem na nossa sociedade e semelhantes. Tornam-se mestres e vamos implorar para que voltem – é uma nova forma de escravatura psicológica, física e económica. Não nos esqueçamos que eles não trabalham isolados; clima político e social é muito importante para isto, e é por isso que precisamos de semanas artificiais, guerras, manipuladores de fantoches e governos marionetas… E todos temos de lutar contra este tipo de corrupção a todos os níveis.

«As pessoas protestam e reagem mais na internet do que na vida real, quando podiam mostrar algum tipo de exemplo ou acção..»

Este tipo de atitude punk e em alerta esteve em voga nas décadas recentes, mas as coisas mudaram e parece que a maioria está estupidificada e descuidada. Tendo isso em conta, quanta coragem é necessária para engajar em tamanha postura?
Bem… Acho que a internet trouxe coisas boas mas também mudou outras, como mobilização social, ligações e formas de cooperação. Hoje em dia, as pessoas protestam e reagem mais na internet do que na vida real, quando podiam mostrar algum tipo de exemplo ou acção. É na boa, mas embora a internet possa ser uma ferramenta de luta anti-sistema, na maioria dos casos é território para palavras ásperas e comentários furiosos e nada mais… É esse o problema. Por outro lado, acho que as pessoas devem ser mais politizadas ou, pelo menos, envolveram-se na mudança social, começando por elas próprias ou pelos vizinhos, e a seu tempo será possível alcançar algo.
Quanto ao punk, foi e é um acontecimento importante, mas não creio que seja um movimento já que não tinha um objectivo político – alguns grupos tinham e outros apenas usavam as temáticas; o mesmo para o satanismo no metal. Não acredito que 99% das bandas metal sejam satânicas. Quanto ao nosso país e nós, não acho que seja necessária muita coragem, pois já vimos guerras, revoltas e sanções, e sabemos quão fodidos estamos, mas também sabemos que isso não é o pior que pode acontecer… E todos temos aquele sentimento que outras sociedades não sentiram, mas infelizmente vão sentir em breve. Quanto a mim, estou em antropologia política e social, portanto isto surge naturalmente para que esteja lírica e artisticamente envolvido em temas e críticas sociais locais e globais. Para além da banda, muitas pessoas no nosso país partilham do desconforto geral para com o governo, mas também para com a política regional e global. Somos apenas uma voz, há muito mais para além da música e isso é o mais importante.
Há uma palavra na nossa língua que é inat. Basicamente significa que vais actuar de livre vontade apesar de qualquer pressão, sem querer saber das consequências.

«É divertido misturar coisas que gostas, especialmente do underground, o que faz o crossover soar relativamente refrescante e mais genuíno.»

O termo crossover vem dos EUA, com bandas como Agnostic Front, e já atravessou a Europa. Lembras-te como o descobriram e o que vos fez ir por aí?
Pessoalmente sempre estive rodeado de música, especialmente rock e depois hardrock e punk, seguidamente heavy metal, grindcore, death metal, thrash, speed, hardcore. Estou sempre apto para novos tipos de música. Para mim sempre foi importante ouvir música com atitude e letras boas e honestas, especialmente se for veloz. [risos] Penso que é a mesma coisa com outros membros da banda. Todos gostamos de bandas desde Hammerfall a The Exploited, de Terrorizer a SOD, de Tankard a Anal Cunt, de Motörhead a Gorilla Biscuits. Se começas a tocar thrash, vais querer soar a Kreator ou Sodom, mas a seu tempo envolves-te com novas coisas e percebes que não é importante soar a isto ou àquilo, mas sim em envolveres outras influências, não na música mas em termos de paixão, ideologia, narrativa, engajamento social. Odeia ouvir um milhão de novas bandas que soam ao mesmo. Penso que é importante trazer novas e variadas influências à música ou então torna-se chato, matando o que há de bom na cena e na sua diversidade.
Quanto ao crossover, bem, não pensamos muito nisto. Só queríamos bandas diferentes e que tocassem música rápida. [risos] No geral penso que é importante compreender que as reais raízes do thrash metal não eram Slayer ou Metallica, mas bandas de punk e hardcore rápido que influenciaram essas bandas a tocarem mais agressivamente, como é exemplo o speed metal dos Judas Priest. É divertido misturar coisas que gostas, especialmente do underground, o que faz o crossover soar relativamente refrescante e mais genuíno. A primeira pessoa que nos descreveu como crossover foi o Wang, dono da chinesa ADP, que lançou os nossos dois primeiros álbuns. Não tivemos problemas com isso e ficou.

«Depois do colapso da Jugoslávia houve trauma social em todos os lados, portanto ao princípio foi estranho tocar e cooperar em países que cresces a ver como zona de guerra.»

Devido ao nosso trabalho no meio, temos encontrado muitas bandas da ex-Jugoslávia. Como vai a cena metal por aí? Especialmente na Sérvia…
Na Jugoslávia tínhamos bandas únicas de metal, punk e hardcore no final dos anos 1970, durante os 1980 e 1990. Muitas dessas bandas pararam, mas há uma espécie de legado. Depois dos 2000, começaram a emergir novas cenas e algumas bandas que começaram a tocar, incluindo Nadimac. Ainda há bandas dos 1980s que existem, como os Bombarder, ou dos 1990s, como Saht, Acroholia e SMF, ou dos finais dos 1990s, como The Stone e Doghouse. Infelizmente há muitas bandas que tocaram nos tempos piores e nunca chegaram ao seu potencial, como Azazel, Kramp e Dead Before Dying.
A cena metal na Sérvia está estável, mas não existe; está numa fase de estagnação. Há muitas bandas e concertos, mas pouca cooperação entre pessoas, bandas, media alternativos e publicidade. Também há o problema do público e interesse geral no underground. As pessoas escolhem sentar-se numa sala de concertos ou parques e beber cerveja, parecendo metálicos ou punks, mas sem irem aos concertos ou envolverem-se na cena. É uma porra. No nosso caso, tocamos com bandas de diferentes estilos e é bom, porque as pessoas que realmente ainda gostam de uma experiência offline vêm, sem importar que sejam thrashers, punks, hardcore ou grinders. Uma vez que estas cenas se estão a tornar mais pequenas no nosso país e noutros, acho que esta abordagem é mais importante do que se manter exclusivo a um tipo de música ou pessoas. É a melhor maneira de se trocar ideias e energia. Depois do colapso da Jugoslávia houve trauma social em todos os lados, portanto ao princípio foi estranho tocar e cooperar em países que cresces a ver como zona de guerra, mas à medida que o tempo passa todos temos cooperado e tocado na Croácia, Macedónia, Eslovénia e Bósnia, e temos partilhado palcos noutros países com bandas da ex-Jugoslávia. É totalmente diferente de se tocar com bandas estrangeiras, porque falamos basicamente a mesma língua e alguns nasceram no mesmo país que depois se “balcanizaram” em estados independentes. Penso que é uma experiência única.

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A review a “Besnilo” pode ser acedida AQUI.

 

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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