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Nadimac: da Sérvia com amor, humor e revolução (entrevista c/ Danilo “Dača” Trbojević)

Diogo Ferreira

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Nadimac é uma banda sérvia de crossover (com maior destaque para o thrash metal) que se formou em 2003 e que já tem mais de vinte lançamentos. “Besnilo” é o álbum mais recente e foi isso mesmo que nos levou a querer fazer esta entrevista, mas também vale a pena frisar que foi o sentido crítico e modificador de sociedades que a banda ostenta que fortaleceu os laços entre a Ultraje e os Nadimac. Numa extensa conversa centrada no conceito da banda e no território que habitam, de lá longe é Danilo “Dača” Trbojević quem nos responde fervorosa e detalhadamente a tudo o que perguntámos.

«Se tiveres [em conta] factores culturais e sociopolíticos poderás compreender quão importante é o humor para recordar e descrever acontecimentos políticos e sociais traumáticos.»

Os Nadimac conseguem ser muito políticos, mas também humorísticos. Como é que essas duas coisas se encontram para que se modifique a sociedade?
Bem… Imagina um país e uma sociedade que enfrenta guerra civil, e outras guerras, constantemente – manifestações, revoltas e revoluções são parte da tradição. Tradição não só feita por nós; pelo contrário, principalmente [feita] por factores estrangeiros e contexto político. Por outro lado, imagina o mesmo país onde coisas importantes são o humor, comunicação geral e mentalidade amigável, assim como partilha e festa. Se tiveres estes dois factores culturais e sociopolíticos, entre outros, poderás compreender quão importante é o humor para recordar e descrever acontecimentos políticos e sociais traumáticos. Se não se quer estar deprimido ou triste, fala-se destes assuntos usando diferentes ângulos de perspectiva e representação. Por exemplo, em canções como “Znakovi or Palikuca” cantamos sobre traumas reais de guerra na infância, da perspectiva de um adulto cuja vida ainda é influenciada por uma continuada luta social. A faixa “Palikuca” fala sobre como as crianças costumavam poupar dinheiro apenas para comprar fósforos e atear fogos à volta dos prédios. Na canção há essa continuidade de atear fogos, mas desta vez os alvos são as casas e tudo aquilo que é ganho por políticos e “homens de negócio” através de corrupção e crime. Noutros temas cantamos sobre a chatice que é conseguir erva para os teus parentes que estão a sofrer com doenças, uma vez que não há dinheiro para tratamento médico apropriado. Ou cantamos sobre pescadores revoltados pelo facto de todos os lagos estarem poluídos e também porque os novos pescadores usam bombas da guerra para ter mais peixe para vender… Assim, os nossos pescadores andam à espreita e começam a matar outros pescadores. Como vês não é um humor de “ah-ah”, mas bizarro, negro e sarcástico que usamos como ferramenta para oferecer a nossa crítica própria e global. A nossa mascote é um “palhaço sarcástico”.

«Acho que o capitalismo em geral é uma ideologia política do mundo moderno muito perigosa.»

Adorei a forma como representaram o mundo na vossa capa. Achas que as grandes corporações têm muito para responder?
A ideia original para a capa era mais detalhada e simbólica, mas o nosso artista é da Indonésia e foi um bocado complicado descrever a narrativa numa forma que compreendesse a 100%. E outra coisa: o artista tem algumas regras que não permitem desenhar certas coisas… Foi duro, mas no fim espelha bem a história que queríamos.
Quanto às corporações e ao nosso estilo de vida… Sim, acho que o capitalismo em geral é uma ideologia política do mundo moderno muito perigosa. Corporações independentes e multinacionais são ferramentas e parte da globalização moderna e de um processo de desconstrução cultural, fazendo de países, nações e culturas umas colónias consumidoras uniculturais. Capitalismo moderno é perigoso da mesma forma que o imperialismo britânico, português, espanhol e turco foi, da mesma forma que a sociedade esclavagista foi e da mesma forma que o fascismo rígido foi… É a mesma coisa, se não queres falar de capitalismo, não fales de fascismo. Tens uma ilusão de escolha; tens escolha em milhões de coisas que não interessam e não tens qualquer escolha em coisas que realmente importam. Por exemplo, da forma como a tua sociedade vai evoluir, o teu país vai ficar arruinado – o sistema de educação, saúde, vender fábricas nacionais ou produtos culturais. Pessoalmente sou contra a União Europeia, mas o nosso país aprendeu que não é liberdade que ganha ao juntar-se, mas sim um novo conjunto de sanções se a nossa sociedade escolher não juntar-se.
As corporações estão em todo o lado, não estão? Não apenas fisicamente mas nos media e nas redes sociais, construindo não apenas respostas para as tuas necessidades, mas construindo mais e mais necessidades artificiais e formas de quereres mais e mais para consumires e alcançares um micro-status ou uma classe dentro da tua classe… Consumir, estar lá, ser moderno, abolir tradições e ser parte da cultura global… Não, obrigado. Não é só isso, como cantamos na “Jednom nogom u gradu”; corporações estrangeiras têm impacto nas culturas tradicionais de produção. Por exemplo: a produção em aldeias é muito boa no meu país, mas agora compram produtos estrangeiros baratos e fracos, e vendem de barato o nosso próprio produto embora seja orgânico e com mais qualidade ou vendem a nossa força de trabalho tão barata como a americana – ganhamos menos. O negócio nacional está a morrer, assim como as produções e sociedades tradicionais, e quando as corporações decidirem abandonar o nosso país para irem para um ainda mais fodido – como sociedades pós-guerra – para lucrarem às custas doutras nações… Isso vai deixar desordem na nossa sociedade e semelhantes. Tornam-se mestres e vamos implorar para que voltem – é uma nova forma de escravatura psicológica, física e económica. Não nos esqueçamos que eles não trabalham isolados; clima político e social é muito importante para isto, e é por isso que precisamos de semanas artificiais, guerras, manipuladores de fantoches e governos marionetas… E todos temos de lutar contra este tipo de corrupção a todos os níveis.

«As pessoas protestam e reagem mais na internet do que na vida real, quando podiam mostrar algum tipo de exemplo ou acção..»

Este tipo de atitude punk e em alerta esteve em voga nas décadas recentes, mas as coisas mudaram e parece que a maioria está estupidificada e descuidada. Tendo isso em conta, quanta coragem é necessária para engajar em tamanha postura?
Bem… Acho que a internet trouxe coisas boas mas também mudou outras, como mobilização social, ligações e formas de cooperação. Hoje em dia, as pessoas protestam e reagem mais na internet do que na vida real, quando podiam mostrar algum tipo de exemplo ou acção. É na boa, mas embora a internet possa ser uma ferramenta de luta anti-sistema, na maioria dos casos é território para palavras ásperas e comentários furiosos e nada mais… É esse o problema. Por outro lado, acho que as pessoas devem ser mais politizadas ou, pelo menos, envolveram-se na mudança social, começando por elas próprias ou pelos vizinhos, e a seu tempo será possível alcançar algo.
Quanto ao punk, foi e é um acontecimento importante, mas não creio que seja um movimento já que não tinha um objectivo político – alguns grupos tinham e outros apenas usavam as temáticas; o mesmo para o satanismo no metal. Não acredito que 99% das bandas metal sejam satânicas. Quanto ao nosso país e nós, não acho que seja necessária muita coragem, pois já vimos guerras, revoltas e sanções, e sabemos quão fodidos estamos, mas também sabemos que isso não é o pior que pode acontecer… E todos temos aquele sentimento que outras sociedades não sentiram, mas infelizmente vão sentir em breve. Quanto a mim, estou em antropologia política e social, portanto isto surge naturalmente para que esteja lírica e artisticamente envolvido em temas e críticas sociais locais e globais. Para além da banda, muitas pessoas no nosso país partilham do desconforto geral para com o governo, mas também para com a política regional e global. Somos apenas uma voz, há muito mais para além da música e isso é o mais importante.
Há uma palavra na nossa língua que é inat. Basicamente significa que vais actuar de livre vontade apesar de qualquer pressão, sem querer saber das consequências.

«É divertido misturar coisas que gostas, especialmente do underground, o que faz o crossover soar relativamente refrescante e mais genuíno.»

O termo crossover vem dos EUA, com bandas como Agnostic Front, e já atravessou a Europa. Lembras-te como o descobriram e o que vos fez ir por aí?
Pessoalmente sempre estive rodeado de música, especialmente rock e depois hardrock e punk, seguidamente heavy metal, grindcore, death metal, thrash, speed, hardcore. Estou sempre apto para novos tipos de música. Para mim sempre foi importante ouvir música com atitude e letras boas e honestas, especialmente se for veloz. [risos] Penso que é a mesma coisa com outros membros da banda. Todos gostamos de bandas desde Hammerfall a The Exploited, de Terrorizer a SOD, de Tankard a Anal Cunt, de Motörhead a Gorilla Biscuits. Se começas a tocar thrash, vais querer soar a Kreator ou Sodom, mas a seu tempo envolves-te com novas coisas e percebes que não é importante soar a isto ou àquilo, mas sim em envolveres outras influências, não na música mas em termos de paixão, ideologia, narrativa, engajamento social. Odeia ouvir um milhão de novas bandas que soam ao mesmo. Penso que é importante trazer novas e variadas influências à música ou então torna-se chato, matando o que há de bom na cena e na sua diversidade.
Quanto ao crossover, bem, não pensamos muito nisto. Só queríamos bandas diferentes e que tocassem música rápida. [risos] No geral penso que é importante compreender que as reais raízes do thrash metal não eram Slayer ou Metallica, mas bandas de punk e hardcore rápido que influenciaram essas bandas a tocarem mais agressivamente, como é exemplo o speed metal dos Judas Priest. É divertido misturar coisas que gostas, especialmente do underground, o que faz o crossover soar relativamente refrescante e mais genuíno. A primeira pessoa que nos descreveu como crossover foi o Wang, dono da chinesa ADP, que lançou os nossos dois primeiros álbuns. Não tivemos problemas com isso e ficou.

«Depois do colapso da Jugoslávia houve trauma social em todos os lados, portanto ao princípio foi estranho tocar e cooperar em países que cresces a ver como zona de guerra.»

Devido ao nosso trabalho no meio, temos encontrado muitas bandas da ex-Jugoslávia. Como vai a cena metal por aí? Especialmente na Sérvia…
Na Jugoslávia tínhamos bandas únicas de metal, punk e hardcore no final dos anos 1970, durante os 1980 e 1990. Muitas dessas bandas pararam, mas há uma espécie de legado. Depois dos 2000, começaram a emergir novas cenas e algumas bandas que começaram a tocar, incluindo Nadimac. Ainda há bandas dos 1980s que existem, como os Bombarder, ou dos 1990s, como Saht, Acroholia e SMF, ou dos finais dos 1990s, como The Stone e Doghouse. Infelizmente há muitas bandas que tocaram nos tempos piores e nunca chegaram ao seu potencial, como Azazel, Kramp e Dead Before Dying.
A cena metal na Sérvia está estável, mas não existe; está numa fase de estagnação. Há muitas bandas e concertos, mas pouca cooperação entre pessoas, bandas, media alternativos e publicidade. Também há o problema do público e interesse geral no underground. As pessoas escolhem sentar-se numa sala de concertos ou parques e beber cerveja, parecendo metálicos ou punks, mas sem irem aos concertos ou envolverem-se na cena. É uma porra. No nosso caso, tocamos com bandas de diferentes estilos e é bom, porque as pessoas que realmente ainda gostam de uma experiência offline vêm, sem importar que sejam thrashers, punks, hardcore ou grinders. Uma vez que estas cenas se estão a tornar mais pequenas no nosso país e noutros, acho que esta abordagem é mais importante do que se manter exclusivo a um tipo de música ou pessoas. É a melhor maneira de se trocar ideias e energia. Depois do colapso da Jugoslávia houve trauma social em todos os lados, portanto ao princípio foi estranho tocar e cooperar em países que cresces a ver como zona de guerra, mas à medida que o tempo passa todos temos cooperado e tocado na Croácia, Macedónia, Eslovénia e Bósnia, e temos partilhado palcos noutros países com bandas da ex-Jugoslávia. É totalmente diferente de se tocar com bandas estrangeiras, porque falamos basicamente a mesma língua e alguns nasceram no mesmo país que depois se “balcanizaram” em estados independentes. Penso que é uma experiência única.

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A review a “Besnilo” pode ser acedida AQUI.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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