Nailed To Obscurity: mestres da (des)ilusão (entrevista c/ Jan-Ole Lamberti e Raimund Ennenga) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Nailed To Obscurity: mestres da (des)ilusão (entrevista c/ Jan-Ole Lamberti e Raimund Ennenga)

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Quem tem um fraquinho por escuridão nórdica completa com requintes góticos precisa de descobrir o death/doom metal atmosférico dos alemães Nailed To Obscurity. O quinteto da Baixa Saxónia mistura os elementos musicais imortalizados por bandas como Opeth, Paradise Lost ou October Tide e molda-os numa sonoridade própria, actualizada, plena de melodias sofisticadas e estruturas inteligentes. Falámos com o guitarrista Jan-Ole Lamberti e com o vocalista Raimund Ennenga sobre “King Delusion”, o terceiro disco da banda, que chega por estes dias aos escaparates.

«Temos uma ideia bastante clara de como queremos soar.»

 Começaram a composição e gravação deste novo álbum com algum objectivo específico em mente, algo que sabiam que queriam fazer?
Jan-Ole Lamberti: Sabíamos definitivamente o que queríamos fazer diferente dos outros dois álbuns, tanto musicalmente como ao nível dos processos de composição e produção. Mas, obviamente, a maior parte das coisas não podem ser realmente planeadas, especialmente no que diz respeito a escrever música.

Este foi o primeiro disco que compuseram com o Raimund já na banda. Quais foram as principais diferenças no processo? Ele teve ideias para a música e as letras?
JOL: Correcto, mas as letras do [álbum anterior] “Opaque” também foram basicamente todas escritas pelo Raimund. A grande diferença é que ele desta vez esteve envolvido no processo de composição desde o início e teve mais tempo para trabalhar nas letras. Também conhecíamos os estilos de vocalização dele muito melhor desta vez e, por isso, deixámos algum espaço para a voz nos arranjos e escrevemos temas que destacassem as vocalizações, em oposição a ele limitar-se a acrescentar voz a canções que tinham sido escritas mais ou menos como instrumentais. Essa foi definitivamente a principal diferença.
Raimund Ennenga: Existiram também algumas pequenas mudanças, por exemplo na bateria, para destacar determinadas partes vocais depois de ter terminado o fraseamento com o Carsten [Schorn, baixista] e o Ole. Por isso, desta vez o processo foi mais orgânico. No “Opaque” as partes instrumentais já estavam completamente compostas mas agora, como o Ole referiu, existiu muito espaço para mim.

Este é o vosso terceiro disco. Tiveram muitas situações, durante a composição, em que se encontraram numa encruzilhada entre necessidade de evolução e a vossa sonoridade ‘típica’ que as pessoas esperam que pratiquem?
JOL: Temos uma ideia bastante clara de como queremos soar. Existem algumas coisas que sempre fizemos e que podem caracterizar a nossa ‘sonoridade-tipo’. Mas era igualmente importante para nós experimentar coisas novas. Acho que conseguimos encontrar um bom equilíbrio entre os dois mundos e nunca perdemos muito tempo a pensar nisso.

As comparações a Opeth, Katatonia e mesmo Insomnium são lisonjeadoras para vocês ou começam a odiá-las secretamente, porque vos impedem de serem encarados como uma banda com personalidade musical verdadeiramente própria?
JOL: Não é nada irritante. Essas bandas são algumas das nossas influências e podiam haver comparações bem piores. [risos] Chatear-me-ia se alguém dissesse que somos uma mera cópia de uma dessas bandas. Mas isso nunca aconteceu, por isso tudo bem.

«Gostamos de música em geral e as nossas influências vêm de uma enorme variedade de bandas.»

As vossas influências são, neste momento, as mesmas de quando a banda começou, em 2005?
JOL: Diria que sim. Mas é claro que descobrimos imensas novas bandas ao longo dos anos que também nos influenciam agora. Por isso diria que é um grupo ligeiramente diferente de nomes que nos influenciam hoje em dia.
RE: Gostava de acrescentar que há muito mais grupos que têm ou tiveram influência em nós do que aqueles que são imediatamente reconhecíveis desde o primeiro acorde que tocamos. Somos cinco indivíduos e pode ser surpreendente quando menciono nomes como Sepultura ou mesmo Iron Maiden. Gostamos de música em geral e as nossas influências vêm de uma enorme variedade de bandas.

Sobre o que falam as letras das canções do “King Delusion”? Qual foi a abordagem?
RE: As letras em si são muito pessoais. Não existe um conceito hermético por detrás delas, mas todas se referem a situações em que perdemos o controlo ou colapsamos mesmo. Tento encontrar imagens fortes relacionadas com esse tipo de situações e que podem ser interessantes para quem ouve. Assim, as pessoas podem procurar a sua própria interpretação para as letras. Acho que o tema “Memento” é um bom exemplo disto. A letra é sobre uma pessoa que oprime uma parte importante dela própria, forçando-se a si própria a encaixar no ambiente que a rodeia. Mas depois colapsa e acaba num estado entre a vida e a morte, onde encontra fotos do seu passado que abrem um acesso à pessoa que era. É assim que funcionam as letras do “King Delusion”. Contam histórias ligadas a pensamentos e emoções. Acho que este tipo de letras encaixam melhor num tipo de música cheio de atmosferas e humores diferentes.

À medida que a banda cresce em reconhecimento e popularidade, vão tendo cada vez mais requisições para tocar ao vivo. Como equilibram isso com as vossas vidas profissionais e pessoais?
JOL: Até agora só tivemos um problema sério uma vez. Fomos convidados para uma digressão muito boa, mas tivemos de cancelar. Depois disso sentámo-nos todos e discutimos como lidaríamos com situações dessas no futuro e o resultado dessa discussão foi falarmos com as nossas famílias, amigos e colegas e prepará-los para algumas coisas que podem acontecer no futuro. Por isso agora já estamos preparados para uma situação como essa. Para as nossas vidas pessoais, uma vida de extensas digressões não seria problema. E vamos ver como funciona com os empregos.

«Temos todos personalidades muito diferentes, mas no que diz respeito à banda pensamos da mesma maneira.»

Essa discussão causou algum tipo de cisão na banda?
JOL: Já tivemos algumas cisões no seio do grupo. O resultado foi a separação do nosso anterior vocalista e o recrutamento do Raimund. Falámos muito sobre os nossos objectivos, prioridades e visão da banda e espero que estejamos todos no mesmo tipo de registo agora.
RE: Acho que essa é uma das principais forças dos Nailed To Obscurity. Temos todos personalidades muito diferentes, mas no que diz respeito à banda pensamos da mesma maneira e estamos prontos a arriscar para cumprirmos os nossos sonhos de carreira.

Quais consideram ser as maiores recompensas em tocar numa banda como os Nailed To Obscurity e as maiores dificuldades que têm como grupo?
JOL: As maiores dificuldades são bastante óbvias: é preciso muito tempo e, por vezes, muito dinheiro. Essas são as duas coisas que dão sempre mais problemas. Por vezes sentimos que temos um segundo emprego, porque trabalhamos tantas horas por dia apenas para manter tudo a rolar. Mas não faríamos tudo isto se não compensasse de alguma forma. Ensaiar e escrever canções é sempre óptimo. Já o fazemos juntos há tanto tempo que não consigo imaginar melhor maneira de passar tempo com os meus melhores amigos. Depois, claro, tocar ao vivo é ainda melhor. Adoramos tocar a nossa música em palco e, especialmente nos concertos maiores, o sentimento de recompensa é óptimo. Para além disso as reacções das pessoas, seja num espectáculo ao vivo ou quando nos dizem o quanto gostaram dos nossos discos, são excelentes.
RE: Concordo perfeitamente; é incomparável o sentimento de trazer algo de novo à vida. Criar uma canção, gravá-la, editá-la e depois tocá-la ao vivo em frente a pessoas que gostam genuinamente do que fazemos é impagável. É o maior tipo de motivação que podemos ter.

 

 

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