Napalm Death: cheiro a Napalm pela manhã (entrevista c/ Marc “Barney” Greenway) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Napalm Death: cheiro a Napalm pela manhã (entrevista c/ Marc “Barney” Greenway)

Napalm Death 3(Napalm Death no Moita Metal Fest / Foto: João Correia)

«Sempre o disse sobre os Napalm Death: não existem uniformes, regras, manuais… Tudo isso me aborrece.»

Depois de uma tournée americana intensa, os Napalm Death tocaram no Moita Metal Fest antes de iniciarem a tour europeia com Brujeria, LockUp e Power Trip. Estivemos presentes e captámos as palavras de Marc “Barney” Greenway sobre o passado, presente e futuro da banda, da cena e do mundo.

Por falta de tempo, não tive oportunidade de contactar a Century Media para acordar uma entrevista com a banda, o que significa que esta só foi possível graças à cortesia de um bem-disposto “Barney” Greenway. «Sabes como é», começa, «o tempo entre chegar e tocar e, no dia seguinte, rumar a outro país, nem sempre é o que desejamos». Não, não sei o ritmo de vida de toda a máquina por detrás de uma das bandas mais icónicas do planeta, mas imagino.

Da mesma forma, imagino o desgaste sofrido pelos integrantes até à data, com a tour americana finalizada e com concertos agendados até Julho, onde terminam em apoteose no Wacken Open Air. A parte americana da tournée ultrapassou de longe as expectativas da banda, tanto ou tão pouco que várias salas esgotaram pelo país fora. Posto isto, será que as expectativas para a tour europeia estão tão altas? «Sabes, gosto de encarar as coisas com espírito aberto», começa por dizer um pragmático e realista Greenway. «As pessoas costumam ir com expectativas disto ou daquilo, mas eu não. Acho que é muito mais emocionante chegar e ver que sala A, B ou C esgotaram. Quero dizer, sei que não vai correr mal, claro que não, e por isso mesmo é que evito expectativas. No entanto, sei que todas as noites daremos 100% de nós para que corra tudo bem, e isso sim é o que nos interessa. Sabemos que vai ser emocionante e que daremos o nosso melhor, e isso chega-me.»

É justo. De facto, as expectativas costumam ser óptimas para arruinar planos, logo, um dia de cada vez parece ser boa política. Nesse sentido de um dia de cada vez, na tour europeia, composta por Napalm Death, LockUp, Brujeria e Power Trip, o baixista Shane Embury toca três vezes por noite, visto ser membro integrante das três primeiras bandas. Fiz as contas e, números redondos, o baixista tocará quase 75 concertos em menos de um mês, o que é surreal em termos de esforço. Fui à procura da fonte da juventude do baixista. «Pois, de facto, são muitos shows», concorda. «A cena é que já conheço o Shane há mais de 30 anos, e se ele me diz que consegue, vou fazer o quê? Força nisso!», sorri.

«Logicamente, não gostei da forma como principalmente Grécia e Portugal foram tratados [pela troika].»

Os sorrisos são de pouca dura quando começamos a falar sobre o futuro da Europa. Dois dias antes do Moita Metal Fest, Theresa May, primeira-ministra inglesa, despoletou o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que permite que qualquer Estado-Membro da União saia da mesma. Misturar política com música não é higiénico, mas, quando se trata dos Napalm Death, a coisa muda de figura, não fosse a banda tão (a)politicamente consciente e revolucionária, principalmente na figura do seu vocalista. Greenway não só fica sério como preocupado. «Existem alguns problemas com essa situação. Logicamente, não gostei da forma como principalmente Grécia e Portugal foram tratados. Se eles queriam que as pessoas não se tornassem mais pobres, fizeram o exacto oposto do que deveriam ter feito. Assim, não posso criticar a saída porque o Brexit é bem mais do que apenas isso. Acontece que existe na Grã-Bretanha um inchaço injustificado de ilusão de superioridade, devido ao passado imperial e colonial da Inglaterra, e isso é um perfeito disparate! Aquilo que me horroriza, e isto não é relativo ao mecanismo da U.E., é a ideia de haver alguém superior a alguém. Em primeiro lugar, sou um ser humano, e sinto-me mais europeu que inglês. Passei maior parte da minha vida a viajar pela Europa e adoro as diferentes experiências que ela oferece. Pessoalmente, isso é mais importante para mim. Quanto ao facto da União: o Brexit prende-se com a desunião dos povos, e isso é preocupante. Antes de a Europa ser unida, à frente dela estiveram pessoas como Hitler, Franco, Mussolini, Salazar… E isso não é bom.»

Não é, de facto. Mas a pergunta essencial é: estaremos condenados a cometer os mesmos erros do passado? Com Nutall/May em Inglaterra, Geert Wilders na Holanda e Trump nos Estados Unidos, quão seguros estaremos e quão preocupados deveremos estar? «Sabes, o mundo nunca foi um conto de fadas – mesmo quando as coisas parecem estar a melhorar, de repente, a realidade assenta e as tuas esperanças são goradas. No entanto, e particularmente no presente, existe uma agenda, um propósito populista, com declarações muito superficiais e fracas que dão a entender que são benéficas para o povo, mas que não são. A intenção delas é o restabelecimento do poder, de um poder das elites em todo o mundo, e isso não é bom, pá.»

A entrevista é interrompida por um roadie, que bate à porta do camarim para entregar uma sandes vegan a Greenway. A porta está fechada e não abre nem por dentro, nem por fora, e rimo-nos à custa disso. O vocalista abre a janela do camarim, recebe a sandes e pede para chamarem alguém para abrir a porta. Aproveito a entrega da comida para virar o rumo para “Apex Predator – Easy Meat”, último trabalho da banda. Se em “Utilitarian” a banda incluiu passagens de saxofone dignas de um John Zorn em ácidos para inovar o maravilhoso barulho que faz há mais de 30 anos, desta feita lançam talvez o álbum mais violento da sua longa carreira, mesclando vozes limpas com a habitual gritaria de Greenway, e não será descabido compará-lo ao novo de LockUp (“Demonization”), de tão actual que é. E é graças a estes pormenores que se distingue uma banda de topo de apenas mais uma banda de grindcore.

«O próximo álbum será muito Napalm Death e, assim como com “Apex Predator”, muito diferente.»

Imagino se o próximo álbum será mais um registo inovador, mas sempre visceral. «Com certeza que sim! Actualmente, não posso dar-te mais informações que estas, mas temos tendência a desenvolver o nosso som, tanto que nem programamos como será o próximo, flui tudo muito naturalmente e sem pressões. Sempre o disse sobre os Napalm Death: não existem uniformes, regras, manuais… Tudo isso me aborrece. O próximo álbum será muito Napalm Death e, assim como com “Apex Predator”, muito diferente. Haverá novidades, com certeza.»

Preparo-me para agradecer pela entrevista quando Greenway me pergunta se quero que ele desenvolva um pouco mais a pergunta sobre a União Europeia, já que ele acha que ficaram coisas por dizer aquando da interrupção pelo roadie. O homem é isto, odeia que algo fique por dizer. Claro que sim! Fala, homem! «Em relação a cometermos os mesmos erros do passado, sim, é uma possibilidade, e tudo aponta para isso. Há sinais de perigo evidentes – se olhares para os países do sudeste europeu, como a Bulgária, que está a tornar-se numa ditadura a olhos vistos, entendes que as coisas poderão correr muito mal, muito depressa. Não é que não tenha acontecido anteriormente, mas pensemos por este prisma: os ciganos romani sempre foram reprimidos, mas hoje em dia… Pá, as coisas estão a escalar muito rapidamente. Na Bulgária há movimentos de nacionalistas nas ruas à procura deles, e noutros países também, como…» – pausa.

Como na Letónia, por exemplo, de onde os estrangeiros começam a ouvir ventos nacionalistas/populistas, turistas incluídos. «Letónia, isso!» – retoma. «Acho que esses países poderão enfrentar, muito em breve, uma situação similar à da Alemanha nazi. Basta ver a ascensão de Hitler e de Mussolini – eles subiram ao poder nas mesmas condições que alguns países europeus apresentam hoje em dia. Mesmo os que dizem que devemos preservar os nossos países, certamente não gostariam de uma situação dessas no país deles. É que é preciso ter mesmo muito cuidado com aquilo que desejas, porque pode acontecer.»

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