Ne Obliviscaris: o génio da urna (entrevista c/ Benjamin Baret) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Ne Obliviscaris: o génio da urna (entrevista c/ Benjamin Baret)

rsz_neo-06-small-xenoyrFoto: Xenoyr

“Urn” marca o regresso dos Ne Obliviscaris aos álbuns, após um intervalo de três anos. Com um trabalho que roça as definições de absoluto génio, estes australianos comprovam que o outro lado do mundo continua a ser terreno fértil para a originalidade e a excelência. Com este novo trabalho como deixa, falámos com o guitarrista Benjamin Baret sobre vários assuntos para além deste novo fôlego dos Ne Obliviscaris, incluindo Ne Obluminati e a passagem por Portugal.

«Todas as vezes que componho uma música, não interessa o quão rápida e caótica é – tem sempre que ter melodia.»

Misturam diversos elementos na vossa música, desde a melancolia do violino à aspereza do black metal, e, no entanto, em cada um desses elementos, seja o violino, o death ou mesmo o black, dotam a vossa música de uma especial beleza. Como explicas isto?
Isso não é algo que façamos muito conscientemente, creio eu. Todas as vezes que componho uma música, não interessa o quão rápida e caótica é – tem sempre que ter melodia. Fico contente por saber que a consideras imbuída de beleza, nem toda a gente o dirá, parece-me.

Desde “The Aurora Veil” (2007) que têm vindo a usar todos estes elementos musicais, mas, embora ainda estejam todos presentes em “Urn”, a importância que cada um traz à música tem vindo a variar com o passar do tempo. Esta mudança foi premeditada ou apenas evolução natural?
Não creio que haja nada premeditado na nossa música, por isso devo dizer que isto é uma evolução natural. Estamos a envelhecer e as músicas estão a ficar menos violentas. Estamos sempre a tentar refinar a composição, já que isso é a verdadeira essência de compor boa música. Estamos sempre a descobrir música nova e a ser inspirados por ela a diversos níveis. A experiência de vida também é muito importante para a composição de novos temas.
O Mark Lewis fez a mistura e a masterização deste álbum, e o seu estilo é muito diferente de Jens Bogren, que o fez para os nosso dois primeiros trabalhos, por isso a percepção da nossa música varia para o novo trabalho, já que foi misturado de forma completamente diferente.

Para “Urn”, Robin Zielhorst ocupou o lugar do Brendan Brown, uma passagem de brutal baixista para baixista brutal. Porquê a alteração e como está a situação do lugar do baixista, já que o Robin não veio para ficar?
A saída do Brendan não foi indolor, mas, mesmo assim, necessária. Estávamos a um par de meses de entrar em estúdio e ficámos sem baixista. Decidimos contratar um excelente baixista que compusesse e gravasse grandes passagens para o álbum. Escolhemos o Robin, cujo génio e trabalho não necessitam de qualquer introdução, e ele fez um trabalho brilhante. Com o álbum pronto ficámos com mais tempo livre para procurarmos um novo baixista permanente, e creio que o encontramos na pessoa de Martino Garattoni, de Itália, que irá tocar connosco nas próximas turnés, e depois vemos.

Podes falar-nos um pouco sobre Ne Obluminati? Como tem sido a reacção dos fãs a essa ideia
Quando a banda começou a crescer e as pessoas a querer que nós actuássemos em quase todo o lado, deparámo-nos com o problema com o qual todas as bandas se deparam: a questão do dinheiro. Sendo um sexteto do fundo do mundo, a Austrália, ir seja onde for é ridiculamente caro. Já não estamos na casa dos vinte anos e já não podemos ir em turné a perder dinheiro todos os dias, o que é o caso da maioria das bandas da nossa dimensão que andam por aí, e depois regressar à casa dos pais. Toda a gente sabe que a indústria da música não é o que era há dez anos, quanto mais há trinta ou mais, quando as bandas podiam ter expectativas de fazer dinheiro com a venda dos álbuns. Assim, tivemos a ideia de usar o Patreon, para nos mantermos na estrada, em troca de serviços, toneladas de novidades e vídeos. Ainda é um trabalho em evolução, mas já percorremos um longo caminho e eu sei que os nossos Ne Obliminati estão muito felizes com aquilo que estão a receber. Nós, como é óbvio, enfrentámos muita animosidade quando iniciamos este processo, mas essas pessoas já mudaram o foco do seu ódio, e cada vez mais bandas se estão a juntar a nós, pois estamos em 2017 e esta indústria está cada vez mais dura.

«Isto dos serviços de crowdfunding é simples: se não o queres subscrever, (…) simplesmente não o faças, problema resolvido.»

Por falar nesta indústria, sinto que a mesma estava a caminhar para uma ditadura das editoras que procuravam decidir que música deveria estar disponível para os fãs, mas a internet e as iniciativas como estes patrocínios, ou o crowdfunding, entre outras, estão a dar luta a esse objectivo. No entanto, isto são apenas ferramentas que as bandas têm ao seu dispor e, no fundo, a verdadeira responsabilidade está com os fãs, pois são eles que têm que as usar para demonstrar o seu apoio às bandas, para retribuir àqueles que lhes dão a música. Concordas com esta perspectiva?
Concordo em absoluto. São apenas ferramentas, não estamos a tomar ninguém como refém. Isto dos serviços de crowdfunding é simples: se não o queres subscrever, se o odeias, se achas que é um sinal de fraqueza subscrever, simplesmente não o faças, problema resolvido.

Para além de todas as dificuldades que as bandas enfrentam, vocês têm a geografia a jogar contra vós, como já referiste. Quão difícil é para uma banda fazer-se conhecida quando tem a sua base na Austrália?
É uma espada de dois gumes, na verdade, já que a Austrália é um país rico com imensas oportunidades, bandas, músicos e até locais de concertos, tendo em conta que tem uma população de 25 milhões, por isso tocar aqui é relativamente fácil, mas sair do país é extremamente complicado. Quando as bandas australianas tocam fora do país fazem-no na Ásia, já que é mais próximo e logo mais barato que os Estados Unidos ou a Europa, locais que são os tradicionais mercados para as bandas em turné. Nós não somos nenhuma excepção à regra, já que actuamos no Japão, China, Hong-Kong, Taiwan, Tailândia e até na Índia, antes de irmos à Europa ou aos Estados Unidos.

Devo dizer que a Austrália é a casa de algumas bandas fantásticas e fora do vulgar, do passado e presente. The Berzerker, Virgin Black e Ne Obliviscaris são as minhas preferidas, todas muito diferentes, todas únicas. Qual achas que é a razão disto? Será a geografia, a cultura, as pessoas ou uma mistura de todos estes elementos?
A Austrália é, definitivamente, um excelente lugar para a música. Está cheia de talentos e, vindo da Europa como eu vim, foi algo que me fascinou quando me instalei na Austrália. Não sei muito bem como o explicar, mas talvez seja o facto de o país ser relativamente recente e de ser um grande caldeirão de culturas onde podes encontrar uma grande mistura de estilos musicais. As pessoas não ficam presas a este ou àquele estilo, como pode acontecer na Europa. Os concertos em casa, em Melbourne, são excelentes e podem ser bastante grandes, o ambiente é fantástico.

Já passaram por Portugal. Como foi tocar aqui e que memórias levaste do nosso país? Estão a planear regressar um dia?
Tocámos no Vagos Open Air em 2015 e foi um dia completamente louco, já que não dormíamos há três dias. Quarenta e oito horas antes do Vagos tocámos no festival Bloodstock, na Inglaterra, conduzimos para o aeroporto, voámos para a Republica Checa para tocar no Brutal Assault, depois regressámos ao aeroporto para ir para o Porto para tocar no Vagos Open Air. Foram três festivais em três países diferentes em três dias. Foi um dia especialmente quente, eu estava quase a ter alucinações pela privação de sono e, no entanto, conseguimos dar uma das nossas melhores actuações daquele Verão. Depois disso tivemos uma pausa de dois dias no Porto onde recuperámos e apreciámos aquela bela cidade. Regressaremos certamente mal tenhamos uma nova oportunidade.


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