Night Viper: extermínio implacável (entrevista c/ Tom Sutton) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Night Viper: extermínio implacável (entrevista c/ Tom Sutton)

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«É um pouco triste que, por vezes, quando algumas pessoas tocam thrash metal old-school pensarem que cada música pode ser trocada com outra qualquer porque seguem todas o mesmo estilo.»

«Acho que as nossas músicas são muito bem escritas e catchy. Para além disso sinto que, no álbum, cada canção soa de modo diferente da que tocou antes. É um pouco triste que, por vezes, quando algumas pessoas tocam thrash metal old-school pensarem que cada música pode ser trocada com outra qualquer porque seguem todas o mesmo estilo.» É assim que o australiano Tom Sutton, guitarrista e fundador dos suecos Night Viper, responde quando lhe perguntamos qual o elemento diferenciador que se pode encontrar no seu projecto. E tem toda a razão. Os Night Viper são uma espécie de brisa de ar fresco na noite morna de Verão em que se ameaça transformar o heavy metal depois de esgotado o entusiasmo da terceira vaga. O segundo disco do colectivo, “Exterminator”, acabado de editar pela Listenable Records, prova-o com uma dezena de murros no estômago da previsibilidade. Mas Sutton tem outra explicação para isso: «Acho que temos um alcance de géneros um pouco mais vasto nas canções que fazemos», explica. «Depois a Sofie-Lee [Johansson], a nossa vocalista, é uma metalhead como qualquer um de nós mas também adora Abba, Tina Turner, Whitney Houston e essas coisas. Por isso o sentido de melodia dela é único e o swing dela nas melodias é espantoso. Fui eu e ela que iniciámos a banda e, na demo da primeira música que lhe dei para ela trabalhar, ela enviou-me de volta uma ideia vocal para a faixa, e eu pensei “oh meu deus, parece Judas Priest com a Tina Turner a cantar”.» Tudo isto faz dos Night Viper algo mais do que o one trick pony da vaga de heavy metal retro que varre a cena há já alguns anos: é certamente tradicional, mas com elementos de thrash e mesmo death metal («tipo Entombed», diz o nosso interlocutor) que torna a música da banda mais dura, mais pesada e mais orientada para o riff. O músico resume a coisa de forma bastante simples: «Não é tanto o modelo de Iron Maiden; é mais pesado e riffy que isso.»

E pronto, logo nos primeiros dois minutos de conversa Tom Sutton mencionou duas das suas principais influências. Não era difícil perceber, ouvindo “Exterminator” com atenção, mas esta conversa das influências e dos riffs mais ou menos tradicionais volta sempre à baila quando falamos de bandas com um som (mais ou menos) bem definido. «Eu tenho outra banda chamada The Order Of Israfel, que é uma banda de doom tradicional», diz-nos o guitarrista a propósito. «E temos uma canção em que, por total coincidência, o riff principal soa como um riff de Death. Eu adoro Death, mas só oiço realmente os [álbuns] “Leprosy” e “Human”; não gosto assim tanto dos outros álbuns. Por isso foi uma total coincidência. Mas no vídeo dessa música, que colocámos no YouTube, há montes comentários do género: “Oh meu deus, este riff é gamado a Death”. E foi um completo acidente. Mas existem, na verdade, um ou dois riffs dessa banda em que não roubei, mas tive uma grande influência de outra banda e nunca ninguém disse nada sobre eles. [risos] Às vezes as pessoas dizem que uma banda roubou um riff, mas na verdade aconteceu por acidente. Outras vezes as pessoas pedem coisas “emprestadadas” e ninguém repara.» E, entre risos, dá-nos ainda um exemplo retirado do novo disco de Night Viper: «Na verdade existe um riff que não é super-reconhecível se não estivermos a pensar nisso, mas se estivermos muito familiarizados com o “Disposable Heroes” dos Metallica vamos reconhecê-lo. Mas quando estava a escrever a música, mesmo à saída do solo, ouvi muito claramente na minha cabeça que tinha de ser aquele riff. Não é exactamente o mesmo, mas tem muitas parecenças. Acho que este é o exemplo mais claro de algo desse género. Não posso dizer em mais música nenhuma “ooops, roubei isto”. [risos] Mas naquela não me posso defender dizendo que aquele riff não é da “Disposable Heroes”.» Ainda assim, Sutton refuta o argumento de que os Night Viper são meros copycats: «Não é bem como quando ouvimos os Airbourne, em que pensamos “bem, isto basicamente é AC/DC”. [risos] As pessoas podem ouvir um riff nosso e perceber que é “emprestado” dos Metallica, mas depois ouvem a Sofie-Lee a cantar e ficam: “Isto soa a Metallica? Nem por isso”. Não planeamos fazer músicas parecidas com nenhuma outra banda. Mas quem conhece bem metal pode obviamente perceber que algumas partes são influenciadas por Entombed, Slayer ou o que seja.»

«Estou consciente de que os dias das bandas super-populares terminaram. Quando os Iron Maiden, os Judas Priest e os Metallica se forem, acho que nunca mais vamos ter grupos daquela dimensão.»

Apesar de os Night Viper contarem com meros três anos de actividade, a viagem musical de Tom Sutton não é recente. A sua dedicação a sério começou em 2006, quando vivia no Japão, quando se juntou aos Church Of Misery. Depois disso acumulou passagens por Firebird e Horisont e um trabalho como técnico de guitarras dos Pentagram antes de co-fundar os supramencionados The Order Of Israfel e a banda que nos trouxe a esta conversa telefónica. E, por isso, existe uma notória diferença de idades entre o guitarrista de 41 anos e o resto dos elementos dos Night Viper. «Na verdade as pessoas chamam-me o “papá da banda”», ri-se. «O Johan [Frick], o nosso outro guitarrista, tem 25 anos, acho eu. A Jonna [Karlsson, baterista] e o Ruben [Åhlander Persson, baixista] têm 28 e a Sofie-Lee tem uns 34. É uma grande variedade de idades.» Ainda assim, o músico não se considera assim tão mais experiente que os seus colegas de grupo: «Quanto entrei para os Church Of Misery já tinha 29 anos. Por isso não andei em digressões nem nada disso até essa altura. Já passaram 10 anos, mas acho que as outras pessoas da banda se começaram a dedicar à música não muito tempo depois de mim. [risos] A Suécia é um excelente sítio para músicos e bandas. Quem quer mesmo tocar música consegue encontrar uma forma de fazê-lo numa idade muito precoce. Basta olhar para as bandas de death metal old-school clássicas suecas… Os músicos tinham 16 ou 17 anos quando gravaram os seus primeiros discos. É de loucos.»

Voltando a “Exterminator”, não é preciso ter muita imaginação para perceber que, lançado nos anos 80, seria uma disquinho que colocaria os Night Viper no trono da popularidade. Que, neste momento, o colectivo de Gotemburgo esteja ao nível de uns Slingblade ou Satan’s Hallow em termos de reconhecimento público é sintomático do estado actual da indústria musical extrema. E Sutton, como quase toda a gente envolvida na cena, tem uma teoria sobre isso. «Estou consciente de que os dias das bandas super-populares terminaram. Quando os Iron Maiden, os Judas Priest e os Metallica se forem, acho que nunca mais vamos ter grupos daquela dimensão. Qual é a maior banda dos tempos mais modernos? Talvez os Ghost? Eles são realmente muito populares, mas nada que se pareça com os Iron Maiden, isso é certo. Toda a gente gosta de Iron Maiden ou Judas Priest, pelo menos dentro do heavy metal. E esse tipo de consensualidade não voltará a haver. Por isso questiono-me o que irá acontecer ao Wacken e ao Hellfest… Quem irá ser cabeça-de-cartaz desses festivais daqui a 15 ou vinte anos? Não sei bem.» Já em jeito de despedida – Tom está ao telefone do bar onde trabalha, em Gotemburgo – não podíamos deixar de indagá-lo sobre um dos factos mais estranhos do comunicado de imprensa que acompanha o disco: afinal como é que raio uma banda sueca acaba a gravar o disco num estúdio em Madrid? «Há algum tempo demos um concerto com uma banda daqui chamada Dead Lord e eles tinham como engenheiro de som um tipo chamado Ola Ersfjord», começa Sutton. «Ele viu-nos tocar e gostou muito de nós. Também éramos fãs dele, porque ele produziu o último álbum dos Tribulation, “Children Of The Night”, que é um disco fantástico e que foi um enorme passo em frente para eles. Então, nessa ocasião, o Ola disse-nos: “Se alguma vez quiserem gravar um álbum comigo, adoraria produzi-lo”. E nós dissemos: “Oh meu deus, sim, absolutamente!” [risos] Ele é um tipo com uma enorme variedade de gostos musicais… Adora death metal, mas também adora Motown. Ele gosta de heavy metal tradicional, mas também gosta de hip-hop old-school. Tem um alcance musical enorme e achamos que isso encaixa perfeitamente na banda que somos; ou seja, um grupo de heavy metal tradicional mas que não é 100% directo. E há uns tempos ele mudou-se para Madrid, onde vive actualmente. Montou o estúdio na cave de uma loja de discos chamada Cuervo… É um estúdio pequeno, mas muito bom. Quando chegou a altura de fazermos o novo disco discutimos as várias hipóteses que tínhamos e a vantagem em trabalharmos com ele era que não teríamos de pagar o estúdio, apenas a ele. Mesmo apesar de termos de pagar os voos para Madrid, termos de pagar o tempo que íamos lá viver, os táxis, a comida e tudo isso, continuava a ser um orçamento mais baixo gravar em Madrid do que num estúdio aqui. Também nos pareceu que ia ser mais relaxado, porque o estúdio era dele e não teríamos de estar sempre a olhar para o relógio. Acabou por revelar-se a decisão certa, porque adorámos estar em Madrid, é uma cidade fantástica, divertimo-nos imenso a gravar o álbum com ele.»

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