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Night Viper: extermínio implacável (entrevista c/ Tom Sutton)

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«É um pouco triste que, por vezes, quando algumas pessoas tocam thrash metal old-school pensarem que cada música pode ser trocada com outra qualquer porque seguem todas o mesmo estilo.»

«Acho que as nossas músicas são muito bem escritas e catchy. Para além disso sinto que, no álbum, cada canção soa de modo diferente da que tocou antes. É um pouco triste que, por vezes, quando algumas pessoas tocam thrash metal old-school pensarem que cada música pode ser trocada com outra qualquer porque seguem todas o mesmo estilo.» É assim que o australiano Tom Sutton, guitarrista e fundador dos suecos Night Viper, responde quando lhe perguntamos qual o elemento diferenciador que se pode encontrar no seu projecto. E tem toda a razão. Os Night Viper são uma espécie de brisa de ar fresco na noite morna de Verão em que se ameaça transformar o heavy metal depois de esgotado o entusiasmo da terceira vaga. O segundo disco do colectivo, “Exterminator”, acabado de editar pela Listenable Records, prova-o com uma dezena de murros no estômago da previsibilidade. Mas Sutton tem outra explicação para isso: «Acho que temos um alcance de géneros um pouco mais vasto nas canções que fazemos», explica. «Depois a Sofie-Lee [Johansson], a nossa vocalista, é uma metalhead como qualquer um de nós mas também adora Abba, Tina Turner, Whitney Houston e essas coisas. Por isso o sentido de melodia dela é único e o swing dela nas melodias é espantoso. Fui eu e ela que iniciámos a banda e, na demo da primeira música que lhe dei para ela trabalhar, ela enviou-me de volta uma ideia vocal para a faixa, e eu pensei “oh meu deus, parece Judas Priest com a Tina Turner a cantar”.» Tudo isto faz dos Night Viper algo mais do que o one trick pony da vaga de heavy metal retro que varre a cena há já alguns anos: é certamente tradicional, mas com elementos de thrash e mesmo death metal («tipo Entombed», diz o nosso interlocutor) que torna a música da banda mais dura, mais pesada e mais orientada para o riff. O músico resume a coisa de forma bastante simples: «Não é tanto o modelo de Iron Maiden; é mais pesado e riffy que isso.»

E pronto, logo nos primeiros dois minutos de conversa Tom Sutton mencionou duas das suas principais influências. Não era difícil perceber, ouvindo “Exterminator” com atenção, mas esta conversa das influências e dos riffs mais ou menos tradicionais volta sempre à baila quando falamos de bandas com um som (mais ou menos) bem definido. «Eu tenho outra banda chamada The Order Of Israfel, que é uma banda de doom tradicional», diz-nos o guitarrista a propósito. «E temos uma canção em que, por total coincidência, o riff principal soa como um riff de Death. Eu adoro Death, mas só oiço realmente os [álbuns] “Leprosy” e “Human”; não gosto assim tanto dos outros álbuns. Por isso foi uma total coincidência. Mas no vídeo dessa música, que colocámos no YouTube, há montes comentários do género: “Oh meu deus, este riff é gamado a Death”. E foi um completo acidente. Mas existem, na verdade, um ou dois riffs dessa banda em que não roubei, mas tive uma grande influência de outra banda e nunca ninguém disse nada sobre eles. [risos] Às vezes as pessoas dizem que uma banda roubou um riff, mas na verdade aconteceu por acidente. Outras vezes as pessoas pedem coisas “emprestadadas” e ninguém repara.» E, entre risos, dá-nos ainda um exemplo retirado do novo disco de Night Viper: «Na verdade existe um riff que não é super-reconhecível se não estivermos a pensar nisso, mas se estivermos muito familiarizados com o “Disposable Heroes” dos Metallica vamos reconhecê-lo. Mas quando estava a escrever a música, mesmo à saída do solo, ouvi muito claramente na minha cabeça que tinha de ser aquele riff. Não é exactamente o mesmo, mas tem muitas parecenças. Acho que este é o exemplo mais claro de algo desse género. Não posso dizer em mais música nenhuma “ooops, roubei isto”. [risos] Mas naquela não me posso defender dizendo que aquele riff não é da “Disposable Heroes”.» Ainda assim, Sutton refuta o argumento de que os Night Viper são meros copycats: «Não é bem como quando ouvimos os Airbourne, em que pensamos “bem, isto basicamente é AC/DC”. [risos] As pessoas podem ouvir um riff nosso e perceber que é “emprestado” dos Metallica, mas depois ouvem a Sofie-Lee a cantar e ficam: “Isto soa a Metallica? Nem por isso”. Não planeamos fazer músicas parecidas com nenhuma outra banda. Mas quem conhece bem metal pode obviamente perceber que algumas partes são influenciadas por Entombed, Slayer ou o que seja.»

«Estou consciente de que os dias das bandas super-populares terminaram. Quando os Iron Maiden, os Judas Priest e os Metallica se forem, acho que nunca mais vamos ter grupos daquela dimensão.»

Apesar de os Night Viper contarem com meros três anos de actividade, a viagem musical de Tom Sutton não é recente. A sua dedicação a sério começou em 2006, quando vivia no Japão, quando se juntou aos Church Of Misery. Depois disso acumulou passagens por Firebird e Horisont e um trabalho como técnico de guitarras dos Pentagram antes de co-fundar os supramencionados The Order Of Israfel e a banda que nos trouxe a esta conversa telefónica. E, por isso, existe uma notória diferença de idades entre o guitarrista de 41 anos e o resto dos elementos dos Night Viper. «Na verdade as pessoas chamam-me o “papá da banda”», ri-se. «O Johan [Frick], o nosso outro guitarrista, tem 25 anos, acho eu. A Jonna [Karlsson, baterista] e o Ruben [Åhlander Persson, baixista] têm 28 e a Sofie-Lee tem uns 34. É uma grande variedade de idades.» Ainda assim, o músico não se considera assim tão mais experiente que os seus colegas de grupo: «Quanto entrei para os Church Of Misery já tinha 29 anos. Por isso não andei em digressões nem nada disso até essa altura. Já passaram 10 anos, mas acho que as outras pessoas da banda se começaram a dedicar à música não muito tempo depois de mim. [risos] A Suécia é um excelente sítio para músicos e bandas. Quem quer mesmo tocar música consegue encontrar uma forma de fazê-lo numa idade muito precoce. Basta olhar para as bandas de death metal old-school clássicas suecas… Os músicos tinham 16 ou 17 anos quando gravaram os seus primeiros discos. É de loucos.»

Voltando a “Exterminator”, não é preciso ter muita imaginação para perceber que, lançado nos anos 80, seria uma disquinho que colocaria os Night Viper no trono da popularidade. Que, neste momento, o colectivo de Gotemburgo esteja ao nível de uns Slingblade ou Satan’s Hallow em termos de reconhecimento público é sintomático do estado actual da indústria musical extrema. E Sutton, como quase toda a gente envolvida na cena, tem uma teoria sobre isso. «Estou consciente de que os dias das bandas super-populares terminaram. Quando os Iron Maiden, os Judas Priest e os Metallica se forem, acho que nunca mais vamos ter grupos daquela dimensão. Qual é a maior banda dos tempos mais modernos? Talvez os Ghost? Eles são realmente muito populares, mas nada que se pareça com os Iron Maiden, isso é certo. Toda a gente gosta de Iron Maiden ou Judas Priest, pelo menos dentro do heavy metal. E esse tipo de consensualidade não voltará a haver. Por isso questiono-me o que irá acontecer ao Wacken e ao Hellfest… Quem irá ser cabeça-de-cartaz desses festivais daqui a 15 ou vinte anos? Não sei bem.» Já em jeito de despedida – Tom está ao telefone do bar onde trabalha, em Gotemburgo – não podíamos deixar de indagá-lo sobre um dos factos mais estranhos do comunicado de imprensa que acompanha o disco: afinal como é que raio uma banda sueca acaba a gravar o disco num estúdio em Madrid? «Há algum tempo demos um concerto com uma banda daqui chamada Dead Lord e eles tinham como engenheiro de som um tipo chamado Ola Ersfjord», começa Sutton. «Ele viu-nos tocar e gostou muito de nós. Também éramos fãs dele, porque ele produziu o último álbum dos Tribulation, “Children Of The Night”, que é um disco fantástico e que foi um enorme passo em frente para eles. Então, nessa ocasião, o Ola disse-nos: “Se alguma vez quiserem gravar um álbum comigo, adoraria produzi-lo”. E nós dissemos: “Oh meu deus, sim, absolutamente!” [risos] Ele é um tipo com uma enorme variedade de gostos musicais… Adora death metal, mas também adora Motown. Ele gosta de heavy metal tradicional, mas também gosta de hip-hop old-school. Tem um alcance musical enorme e achamos que isso encaixa perfeitamente na banda que somos; ou seja, um grupo de heavy metal tradicional mas que não é 100% directo. E há uns tempos ele mudou-se para Madrid, onde vive actualmente. Montou o estúdio na cave de uma loja de discos chamada Cuervo… É um estúdio pequeno, mas muito bom. Quando chegou a altura de fazermos o novo disco discutimos as várias hipóteses que tínhamos e a vantagem em trabalharmos com ele era que não teríamos de pagar o estúdio, apenas a ele. Mesmo apesar de termos de pagar os voos para Madrid, termos de pagar o tempo que íamos lá viver, os táxis, a comida e tudo isso, continuava a ser um orçamento mais baixo gravar em Madrid do que num estúdio aqui. Também nos pareceu que ia ser mais relaxado, porque o estúdio era dele e não teríamos de estar sempre a olhar para o relógio. Acabou por revelar-se a decisão certa, porque adorámos estar em Madrid, é uma cidade fantástica, divertimo-nos imenso a gravar o álbum com ele.»

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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