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Entrevistas

Occulta Veritas: lamentações interiores de verdades escondidas (entrevista c/ Daniele Vergini)

Diogo Ferreira

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Occulta Veritas é o projecto a solo de Daniele Vergini e por mais que o nome e o logótipo possam fazer parecer não se trata de uma banda inteiramente black metal. O álbum “The Inner Wail” possui elementos disso mas há também os do hardcore, o que leva a uma conversa interessante sobre a atitude e o estado da música extrema. Importante também é a mensagem – que afinal não é uma mensagem – que Vergini quer passar, uma lamentação interior que tem de se expressar, aqui através de música.

«Enquanto seres conscientes, somos a verdadeira e primordial verdade escondida, mais até do que a vida em si. Quanto mais ando, mais sinto que somos uma confusão interior.»

Para quem não te conhece, o nome, o logótipo e até a capa podem levar as pessoas ao erro e pensarem que Occulta Veritas é uma banda de black metal. Quão frequentemente enfrentas este “problema”?
Bem, pode parecer surpreendente, mas por acaso foi intencional! O que quero dizer é que black metal é dos meus géneros preferidos, mas com este projecto não quis fazer uma one-man-band de black metal. Há demasiadas one-man-bands de black metal notáveis e não senti que fizesse sentido escolher essa direcção de um ponto de vista criativo. Com “The Inner Wail”, a minha ideia foi basicamente criar algo que não fosse black metal em si, mas que tenha influências perceptíveis de black metal, o que soa coerente no seu todo. Espero mesmo que sim ou então fiz um desastre!
Quando estava a compor o álbum, gostei da ideia de que quando alguém encontrasse “The Inner Wail” online esperasse por um álbum de black metal tradicional e depois, após ouvir, percebesse que não era, ainda que, de certa forma, se sinta o black metal. Mesmo que não seja black metal tradicional, algumas partes da música têm um estado de espírito negro e alguns riffs ou a abordagem da bateria tendem a fazer lembrar o estilo do black metal.
Uma grande parte de todo o processo de composição foi, de facto, tentar fazer uma tradução para a “linguagem do black metal” algo que não fosse black metal, e tentei reforçar o aspecto ao dar uma certa forma a alguns elementos específicos do álbum, incluindo a capa e o logótipo, mas também outras coisas, como a decisão de evitar o tipo de produção que soa demasiado moderna e demasiado alta.

Quanto ao nome do projecto, que verdade estás a tentar esconder?
Quando escolhi esse nome era uma criança que tinha acabado a escola secundária e que tinha mudado de cidade para começar a universidade. Penso que o nome do projecto tem algo a ver com o facto de ter percebido que tinha problemas em dar-me bem com o meu lado irracional (surpresa: ainda os tenho) e com a forma como, instintivamente, reagia a certas coisas e situações. Portanto, a “verdade escondida” nessa altura foi tipo uma fonte para esses sentimentos incontroláveis que o meu interior sentia e que tentava censurar na minha vida social.
Hoje em dia, o significado que daria ao nome é que nós, enquanto seres conscientes, somos a verdadeira e primordial verdade escondida, mais até do que a vida em si. Quanto mais ando, mais sinto que somos uma confusão interior. Honestamente não deixo de pensar nos humanos como meadas emaranhadas, cada vez mais presas do que já estavam por coisas como as nossas irracionalidades embutidas, as dinâmicas sociais maldosas que construímos e a treta cultural de qualquer tipo.

«Uma das muitas razões pelas quais adoro música é porque lida mais com abstracções do que com mensagens.»

É claro que só som oferece sentimentos, mas com a falta de vozes como é que canalizas as tuas mensagens?
Não sinto que tenha mensagens a enviar. Uma das muitas razões pelas quais adoro música é porque lida mais com abstracções do que com mensagens; é mais sobre comunicar um certo sentimento do que uma ideia precisa e racional. Ou pelo menos é assim que funciona comigo.
A única coisa que se pode encontrar no álbum e que pode parecer uma mensagem – e continua a não ser uma mensagem, mas mais uma coisa pessoal que me mudou a vida e que, de certa forma, senti ligação com o conceito do álbum – é a parte falada no final da faixa “Nonsense, Oblivion”, que é um excerto que retirei de um discurso, mas não vou falar disso porque não era suposto ser uma mensagem e sei que 90% das pessoas não iriam concordar com a minha opinião.

O álbum pode ser furioso, mas também muito emocional. Achas que é raiva e comoção o que melhor definem “The Inner Wail”?
Sim, é por aí! Mas não diria raiva. A lamentação que refiro não é sobre raiva, mas sobre desespero. Já não tenho sentimentos de verdadeira raiva para com ninguém e acho que é uma coisa boa. Para mim, a lamentação interior é um acto primordial imaginário que nos deixa ir embora, uma tentativa desesperada para comunicar o incomunicável que nos come por dentro todos os dias. Algo semelhante a chorar – uma das coisas mais puras e bonitas que faz parte da nossa vida –, mas mais extremo, mais radical, mais intenso. Descreveria isso como uma ferramenta ideal perfeita que substitui engenhos terrenos por expressão e comunicação, como linguagem e relações humanas, o que, tristemente na minha opinião, são maneiras falhadas e muito aproximadas para se interagir e partilhar os nossos sentimentos.
Dei o meu melhor para traduzir o sentimento que tenho desta ideia para a música.

«O meu maior problema com muito do metal de agora é sentir a dificuldade em encontrar o elemento “puro de coração” que encontro mais facilmente em muitas bandas de hardcore.»

Há muitas influências na tua sonoridade, mas creio que a mais destacada vem da cena hardcore. É, musicalmente, um dos teus antecedentes mais fortes?
Sim, com certeza! Estou mesmo contente que tenhas notado isso, até porque acho que não era assim tão óbvio. Há muitas influências de hardcore no álbum, especialmente de bandas tipo Converge. Adoro Converge, acho que [o álbum] “Jane Doe” é uma obra-prima que mudou muitas coisas no mundo da música extrema, tanto a nível musical como de produção. Também gosto de muitas outras bandas de hardcore e screamo, como The Secret, Loma Prieta, Cursed, Storm{o} e Birds In Row.
Na verdade, o meu encontro com o mundo do hardcore deu-se apenas há quatro anos. A minha relação com a música enquanto guitarrista começou com o típico rock e heavy metal e depois passei anos a explorar todos os subgéneros do metal, mas, de alguma forma, o mundo do hardcore escapou-me até que conheci os gajos do meu projecto principal, Noise Trail Immersion, que estão muito por dentro disso. Fiquei imediatamente fascinado pela atitude. Pareceu-me como se metal e hardcore, sendo duas formas de música extrema, apontassem a expressar o mesmo tipo de sentimentos, mas a forma como o fazem é tão diferente. O que me fez apaixonar pelo hardcore foi a atitude directa e pura que, hoje em dia, falta ao metal. O meu maior problema com muito do metal de agora é sentir a dificuldade em encontrar o elemento “puro de coração” que encontro mais facilmente em muitas bandas de hardcore, como se houvesse demasiada padronização e demasiado pensamento fictício no processo de composição e de gravação, o que torna o material menos “genuíno” e artificialmente construído. Claro que é a minha opinião pessoal. Nem tenho ouvido muito metal ultimamente, à excepção da nova onda de black/death metal dissonante que adoro mesmo, post-metal e doom metal, o que, de facto, são, na minha opinião, o menos metal dos subgéneros do metal.
Basicamente, o que queria alcançar com “The Inner Wail” era combinar o meu passado progressive/black metal com a atitude directa típica do hardcore, de modo a fazer com que tudo soasse mais “espontâneo” apesar dalguns riffs intrincados e tempos.

Música instrumental tende a ser experimental, mas com Occulta Veritas ouvimos canções orientadas à guitarra com muito músculo. Vais manter isso ou vamos ter surpresas no futuro?
Já tenho algumas ideias novas e desse material posso dizer que, talvez, o próximo não seja radicalmente diferente, mas vai ser outra coisa e vai ser mais experimental com acordes em vez de riffs intrincados. Logo verei onde isto me levará, é sempre divertido explorar outros terrenos!

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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