Oceans Of Slumber: corações selvagens (entrevista c/ Cammie Gilbert) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Oceans Of Slumber: corações selvagens (entrevista c/ Cammie Gilbert)

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«Estamos a tornar-nos cada vez mais uma banda de doom de tons pesados e elementos mais sérios e atmosféricos.»

«A música do “The Banished Heart” surgiu directamente da turbulência pessoal e das experiências de perda, desespero, amor, esperança e refúgio que ambos experimentámos quando nos redescobrimos um ao outro e nos aproximámos cada vez mais ao longo do último ano.» Cammie Gilbert, vocalista dos Oceans Of Slumber, fala-nos placidamente, do outro lado do Atlântico, de uma das épocas mais negras da sua vida e de como ela afectou a escrita do novo álbum da sua banda e uma aproximação pessoal ao baterista Dobber Beverly. Ambos destroçados – ele a braços com uma separação turbulenta com um filho pelo meio e ela ainda a recuperar da perda do pai para o cancro há alguns anos – encontraram refúgio um no outro. E isso reflectiu-se no disco. «É um produto desse período e uma acumulação das nossas perspectivas, bem como as experiências dos nossos companheiros de banda ao longo daquilo que foi um ano incrivelmente turbulento e emocionalmente exigente para todos nós», continua Cammie. «A arte imita a vida, sendo que as nossas vidas eram difíceis e abrasivas. Tivemos finais de relacionamentos, vidas defeituosas, desastres naturais, desilusões com pessoas em quem confiávamos, que pensávamos que conhecíamos ou pelo menos tinham o benefício da dúvida, bebés a nascer, marcos históricos a serem atingidos, corações a serem reparados. A vida real continua sempre, mas como artista sinto que o nosso dever é traduzi-la para algo com que toda a gente se possa identificar, que qualquer pessoa possa ouvir estas experiências de uma forma que a desarme, mantendo ao mesmo tempo intactas a integridade e a intensidade do momento.»

O resultado, materializado no terceiro longa-duração da banda norte-americana, é uma espécie de viagem ao lado mais negro da psique humana com banda-sonora de doom metal progressivo e uma espécie de luz ao fim do túnel. Com voz confiante e descontraída, a vocalista explica-nos como vai reviver as experiências negativas que o álbum retrata sempre que cantar as músicas ao vivo e falar com um novo jornalista sobre o trabalho – «Esse é um receio que estou pronta a enfrentar.» – e acede a partilhar connosco o momento em que a vida passa a ser arte. «Quando uma canção é criada, a música é como uma oferenda. Como eu, pessoalmente, não tenho muito a ver com a construção musical das canções, normalmente estão terminadas quando me são enviadas. É nessa altura que tenho uma atitude muito egoísta e possessiva em relação à música. Nesses momentos, sozinha com ela, exploro o seu alcance e profundidade, decido onde quero ceder ou retrair-me e a partir daí a melodia e as letras são criadas. E, antes de ser partilhada com alguém, durante um breve período a versão completa dessa canção é apenas minha. Ao abordar a escrita das músicas desta forma asseguro-me que vêm de vêm lugar muito real. Não as crio com a mentalidade de partilhá-las, antes pelo contrário. Ao fazê-lo, preparo-me para uma inspecção muito desarmante quando elas são partilhadas e quando chega a altura de gravar estas palavras dolorosas e sentimentos tristes. Gravar é a parte pior. O teu momento bonito e privado torna-se algo dissecado pelo microscópio mágico do estúdio. Mas é uma parte compreensivelmente necessária do processo. Actuar é diferente. Terapêutico. Abraço completamente as emoções em palco. Sei que, se me abrir, isso pode servir de catarse e alívio para alguém que esteja a passar por algo similar. Sou apenas um recipiente. Algo da canção viaja a partir desse lugar mágico em que a música e a emoção nascem até aos que anseiam o seu toque

 

Se todos os artistas precisam de situações extremas e intensas para servir de inspiração, será que os Oceans Of Slumber não receiam o momento em que a sua vida seja estável e monotonamente feliz? Cammie não antevê esse momento. «Como pessoa muito sensível não posso dizer que alguma vez me tenha encontrado com falta de reverência ou intriga», diz-nos. «O mundano pode muito rapidamente dar lugar à loucura. A serenidade muda repentinamente para o cinismo. As cores da vida estão onde as colocamos. O que pode parecer simples para uma pessoa encerra um caleidoscópio de cores para outra. Acredito que um verdadeiro artista tem sempre o HD ligado. A vida não é fácil para a maioria das pessoas. Se a nossa própria vida parece demasiado complacente então exploremos alguém que não a tenha. O espectro de emoções e experiências que a vida tem para oferecer é demasiado largo para alguma vez ser aborrecido ou aborrecer. Para além disso, e talvez infelizmente, temos um armazém de dores para uso… As nossas vidas não têm sido um passeio no parque.» E, tendo como novo standard um trabalho como “The Banished Heart”, a cantora não vê problemas em que o quinteto vá ainda mais fundo, fique ainda mais negro. «Isso é algo em que penso desde que terminámos o “The Banished Heart”. Acho assustador pensar que podemos ficar ainda mais negros, mas devo dizer que sim, acho que podemos, e vamos. É um pouco como abrir a Caixa de Pandora, agradou-me bastante explorar estes sentimentos e deitá-los cá para fora e, apesar de o meu comportamento nem sempre o sugerir, existe uma série de locais negros e perturbados que combato emocionalmente.»

Do lado estritamente musical, com composições tortuosas, mudanças rítmicas e fraseamento nem sempre simples, os Oceans Of Slumber podem também não ser o produto do momento para quem consome metal de audição fácil. E para quem tenta vendê-lo. Ou sequer colocá-lo numa simples prateleira estilística. «Estamos a tornar-nos cada vez mais uma banda de doom de tons pesados e elementos mais sérios e atmosféricos. É o que é, e o nosso objectivo é fazer a música de que gostamos, o que nos colocou num sítio difícil de vender e de categorizar», confirma Cammie. «Se por um lado as pessoas podem apreciar o facto de sermos únicos e termos uma sonoridade refrescante, por outro lado torna difícil por vezes sermos postos ao lado de bandas similares. A internet funciona com base em algoritmos que tendem a usar palavras para ligar conteúdos semelhantes. Se as pessoas usam demasiadas palavras diferentes, ou palavras que não se adequam muito, isso pode gerar alguma confusão e deslocamento da nossa banda. No entanto, com o passo em frente que damos com o “The Banished Heart” vamos ver menos disso acontecer, uma vez que apontámos para um som e estrutura mais decisivos.»

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