[Opinião] Não vejas a vida através de um ecrã – Ultraje – Metal & Rock Online
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[Opinião] Não vejas a vida através de um ecrã

Em 2014 assisti a um concerto de Peter Hook em Aveiro em que o baixista inglês interpretava alguns temas de New Order e os dois álbuns de Joy Division integralmente. Para mim, aquele momento constituía um pedaço de História e Peter Hook estava mesmo ali à minha frente… Era o baixista de New Order e Joy Division, o amigo/sócio de Tony Wilson da Factory Records e da Haçienda. Acontecia História em Aveiro. À minha frente estavam também duas pessoas que passaram o concerto a tirar fotos, a olhar para as duas ou três que tinham sacado e a escolher as melhores para guardar. Garanto-vos que estas duas pessoas passaram mais tempo de cabeça baixada para a câmara fotográfica e a conversar sobre a qualidade da foto do que a desfrutar realmente de um concerto tão bom como foi aquele. Eventualmente saí de onde estava e fui ainda mais para a frente – para além da irritação que me estavam a causar, também me estavam a distrair e eu tinha pago 25€ para ver Peter Hook pelo menos uma vez na vida.

E lembrei-me disto porque hoje de manhã, ao entrar no Facebook, deparei-me com uma enxurrada de lives do concerto de Marilyn Manson em Lisboa. É que já nem são fotos… São lives! Isso significa que já não se gastam uns 5 segundos para tirar uma foto, mas sim 5 minutos com o telemóvel ao alto para se obter gratificação instantânea numa rede social. Não é esse vídeo com má qualidade de som e com uma imagem que só se vê fumo e luzes que vai satisfazer a pessoa que não foi a um evento. Eu não fui, e não vai ser o teu live que me vai fazer sentir lá, também não me vai deixar triste por não ter ido, nem tão pouco me vai provocar inveja. Assim como não vai ser o meu – que não vou fazer! – que te vai fazer sentir em Iron Maiden. Sim, também tiro fotos, uma ou duas no início de um concerto e se possível mais atrás – muitas vezes acabo por nem as partilhar nas redes sociais. Mas depois meto o telemóvel no bolso e de lá não sai até ao fim, a não ser que esteja a fazer uma reportagem e precise de tomar notas porque a memória já não é a mesma que era quando tinha 18 anos. Mas até isso me irrita! Por breves momentos não usufruo do concerto na sua plenitude, possivelmente estou a irritar pessoas ao meu lado e, como já testemunhei, posso até arreliar o artista. “Como está a bolsa de Nova Iorque?”, perguntou Mazgani a uma pessoa que mexia no telemóvel durante um concerto intimista em Albergaria-a-Velha.

Não estou armado em moralista, tão pouco me importa o que fazem com a vossa vida, mas pensem em duas coisas: estão a perder pedaços de um concerto ao vivo que nenhum vídeo ou foto substituirá e poderão estar a inquietar pessoas que ali estão genuinamente a venerar uma música ou uma banda. Não sejam injustos convosco mesmo ao ponto de verem a vida através de um ecrã, mas também não sejam injustos com quem, à volta, quer ver e sentir a vida de uma maneira mais humana.

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