[Opinião] Que poder tem uma review no Séc. XXI? – Ultraje – Metal & Rock Online
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[Opinião] Que poder tem uma review no Séc. XXI?

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Nasci em 1987. Já não sou do tempo dos tops que figuravam no final dos jornais, especialmente britânicos e norte-americanos, onde se indicava o que mais passava na rádio. Já não sou do tempo em que um DJ ditava o que estava na berra e acabava, muitas vezes, por pôr certa banda no estrelato (mais uma coisa que acontecia frequentemente no Reino Unido e nos EUA). Já não sou do tempo do tape-trading, ainda que tenha gravado muitas cassetes a ouvir a Rádio Comercial quando passava rock, mas sou do tempo dos CDs piratas e do peer-to-peer. Ainda apanhei a fase mais decadente do Top+ da RTP e a revigoração do formato na TVI com o Top Rock em que Red Hot Chili Peppers, Smashing Pumpkins, Bush e Guano Apes passavam invariavelmente. Já não sou do tempo em que se corria às lojas para comprar um disco, agora corre-se aos websites de leaks – mas, sim, sou um resistente que compra vinis. Enfim, também já não sou do tempo em que uma review definia se aquele álbum valeria o teu dinheiro ou não. Sou da Era Digital, do fácil, da borla, do descartável. Ainda assim sou um dos criadores e editores da Ultraje, que começou em formato digital – foi a génese da marca – mas que depressa evoluiu para papel, porque mais uma vez impera a paixão pelo item físico, pelo cheiro, pelo desfolhar, pelo olhar, pela arte de escrever e pela arte de construir visualmente uma peça palpável e documental.

Isto tudo para perguntar: que poder tem uma review no final da segunda década do Séc. XXI? De facto, hoje em dia dificilmente uma análise a um disco define a quantidade das suas vendas. Há leaks (algo contra o qual as editoras lutam e daqui a nada já nem a imprensa terá os álbuns com um mês de antecedência), teasers, singles, lyric-videos, videoclipes, amostras de track-by-track muitas vezes com comentário dos próprios músicos e no dia do lançamento está tudo escarrapachado no Spotify. As editoras perceberam que o poder do full-length está moribundo, que as massas contentam-se com 4 das 10 faixas que um LP pode ter e que podem sacar bom dinheiro se determinado vídeo no YouTube atingir milhões de visualizações. As próprias bandas perceberam isso, e o Bandcamp é uma ferramenta fantástica: pões lá a tua música e vende-la sem intermediários. Ainda assim, uma Nuclear Blast ou uma Season Of Mist são um atestado de competência e qualidade. E também é aí que entram as revistas: para uma editora, o papel continua a ser mais prestigiante do que um blog. Mas afinal qual é o poder de uma review? Hoje é muito pouco. Escrevemo-las porque faz parte do processo de se ter uma revista ou uma webzine, porque adoramos escrever, porque gostamos de dar a nossa opinião directa a um circuito de pessoas que ainda lê e porque compor uma análise a um álbum significa agradar às editoras e às bandas quando assim o merecem. O pior é quando se vira o bico ao prego e afinal não agradamos assim tanto, chegando mesmo a ser ameaçados ou classificados como gente que não percebe nada disto. Neste ramo somos presos por ter cão e por não ter, simplesmente porque fazemos o nosso trabalho com seriedade e imparcialidade – é isso que defendemos e foi isso que fez a Ultraje chegar onde está hoje, mesmo que não saibamos o dia de amanhã. Trememos quando a Terrorizer não lança um número há meses ou quando a Metal Hammer passa por processos de falência, mas cá estamos a dar notícias, a fazer entrevistas e, claro está, a escrever reviews, porque por pouco poder que hoje em dia aquelas 200 palavras possam ter sabemos que a nossa opinião conta para alguém – para uma banda, para uma editora, mas sobretudo para quem lê a Ultraje e a segue fielmente desde 2015, mesmo quando desse lado não concordas porque a diversidade de opinião é prezada nesta redacção e ainda é isso que faz uma review ser importante.

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