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[Entrevista] Pando: ficam doidos porque não sabem que são doidos

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Black metal, dark ambient, noise… Podemos arranjar uns quantos rótulos para os Pando, mas o melhor será mesmo este: experiência. Pando, com este “(in)human(e)”, desenvolvem uma experiência estranha, obscura e psicológica de modo a explorar doenças mentais, mas desengane-se quem pensa que é mais um projecto musical que tenciona apoiar o holocausto e destruição da raça humana. Com este disco, o duo pretende dissecar o maltrato físico e psicológico para que o possa prevenir e combater, até porque ambos têm um historial nesse campo medonho – no entanto, “(in)human(e)” não deixa de ser horripilante.

«Tenho muita dificuldade em aceitar que as pessoas possam ser humanos terríveis.»

Em poucas palavras como definem o som e conceito de Pando? Há black metal ruidoso e dissonante, partes acústicas, momentos dark ambient, segmentos electrónicos, discursos – toda uma paleta para explorar.
B: Não é que queríamos soar àquilo que soamos. Já nos fizeram uma pergunta idêntica e percebo porquê, especialmente quando eu próprio sou um audiófilo, mas tocamos aquilo que nos dá na gana ou que se encaixa na canção. Não tentamos forçar nada e penso que se ouve aquilo que acontece quando duas mentes-abertas não se preocupam com coisas bonitas, como que género se enquadra melhor. Há sempre muita tensão ao criar-se um som particular e é surpreendente não se ver outros músicos a explorarem coisas diferentes apenas para se encaixarem num certo molde. Nenhum ser humano mantém as mesmas emoções o dia todo, portanto não faz sentido que um álbum, criado através de um médium tão expressivo, tenha todas as canções a soar ao mesmo.

Sobre o conceito de maltratar pessoas, podemos ver o álbum como uma precaução e aviso ou o apoio desse maltrato?
F: Ambos temos uma carreira passada em serviços humanos com o foco de apoiar indivíduos com problemas cognitivos e de desenvolvimento. Tenho ajudado pessoas com autismo e [criado] várias habilidades únicas para desenvolver a vida de modo a ajudá-las a viverem independentemente. Com uma educação na arte, também ensino música e diferentes formas de arte visual para essas pessoas que possam não ter a voz ou a maneira de se exprimirem nas normas sociais padronizadas. As lutas pelas quais estas pessoas passam têm de ser endereçadas e foi essa a nossa tentativa ao lançarmos “(in)human(e)”.
B: Tenho um historial familiar com problemas neurológicos e psicológicos, portanto é algo com que cresci e tem sido parte do meu quotidiano. Tenho muita dificuldade em aceitar que as pessoas possam ser humanos terríveis, porque tenho tentado o meu melhor pela vida fora para compreender o porquê de as pessoas funcionarem como funcionam. Por isso, penso que as injustiças sociais tornam-se no espinho e é preciso extraí-lo.

Diriam então que “(in)human(e)” vem do que viram na vossa vida e pretendem exteriorizar, certo?
Ambos: Já todos passámos por injustiças sociais. Não importa que cor ou continente.

«O corpo não pode operar sem a mente e é por essa exacta razão que somos o nosso maior inimigo.»

No entanto, pelo meio de todos o caos sonoro há secções calmas. Qual é a explicação para isso?
B: Se alguma vez estiveste perto de alguém com problemas mentais, [sabes que] há muitos altos e baixos ou momentos de ‘calma antes da tempestade’. Esteticamente, penso que ao estabelecer um espaço os momentos mais barulhentos têm mais impacto, o que se desenrola naquilo que os temas são. Também é importante ter-se tempo para digerir as coisas dentro de ti e meditar sobre quem és enquanto pessoa, especialmente quando se discute sobre pessoas com problemas mentais – algumas estão completamente cientes daquilo que estão a fazer, mas são incapazes de o controlar. Nunca usaria a comparação para denegrir um indivíduo, mas tenho uma criança com alguns problemas neurológicos e é quase um sinal de maturidade vê-lo retroceder e ficar tipo ‘isto foi marado, desculpa por ser um idiota’. Também quero esclarecer que ele não diz ‘idiota’, só queria usar um exemplo.

Se calhar estamos habituados a filmes de terror macabros e apenas pensamos em celas desoladoras, corredores escuros, água a pingar nos cantos e coisas assim, mas maltrato psicológico pode ser mais perigoso e mais comum. Na vossa perspectiva, pode a dor mental ser mais perigosa e mais difícil do que a dor física?
F: A dor física tem soluções. Temos médicos, terapeutas físicos e rios de dinheiro direccionados para as doenças. O cérebro humano, quando não funciona devidamente, tem dificuldade em expressar aquilo que sente, sendo assim torna-se complicado diagnosticar o problema. Sem a questão adequada torna-se quase impossível dar a resposta adequada.
B: O corpo não pode operar sem a mente e é por essa exacta razão que somos o nosso maior inimigo. A luta pelo controlo da tua própria complexidade é o aspecto mais destrutivo da vida, porque a sobrevivência está sempre em debate com a psique.

Já alguma vez pensaram num holocausto de doenças mentais ou já o estamos a viver sem sabermos?
Ambos: Citando Jim Jefferies: «É mesmo isso sobre os doidos… Não sabem que são doidos… É o que faz deles doidos.»

 

 

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