Process Of Guilt: semear e colher (entrevista c/ Hugo Santos – parte 1) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Process Of Guilt: semear e colher (entrevista c/ Hugo Santos – parte 1)

PoG-Pedro_AlmeidaFoto: Pedro Almeida

«Nós nunca tivemos uma abébia, a verdade é essa.»

Hugo Santos é um daqueles tipos com que é fácil simpatizar. De discurso escorreito e sorriso fácil, cativa pela voz grave e pela articulação dos seus argumentos. Mas é quando abre a boca em frente a um microfone – e o peso do mundo se abate sobre a cabeça de quem o ouve – que ele mais impressiona. Fá-lo há década e meia numa das mais trabalhadoras bandas da cena nacional, os Process Of Guilt, onde também toca guitarra e representa um quarto da equipa que gere, opera e faz todo o processo andar para a frente. Centímetro a centímetro, de pequena vitória em pequena vitória até chegaram ao seu quarto álbum de originais, “Black Earth”, editado no final do ano passado. «Nós sempre quisemos mais do que o que tínhamos», diz-nos, de voz nasalada, quando lhe perguntamos se acredita que a banda já encontrou o seu espaço nas cenas nacional e internacional ou se acha que os Process Of Guilt ainda têm margem para crescer. «Várias vezes fomos confrontados com impasses da mais variada ordem, ou porque as editoras que se interessaram por nós não eram as que maior poderio económico podiam ter para fazer uma promoção a sério ou porque o tipo de som que fazemos nunca interessou às grandes editoras, porque é uma espécie de nicho. Mas bem ou mal fomos encontrando sempre uma luzinha e fomos conseguindo crescer mais em cada disco, seja em vendas, exposição ou resultado de concertos. E isso só é possível porque almejamos sempre mais do que o que temos.» E a conversa volta à questão do nicho em que o projecto se encontra. «Estamos sempre metidos num nicho a que supostamente ninguém liga. E eu sei ao que as pessoas ligam: as pessoas ligam àquilo que as editoras acharem que elas devem ligar, que é aquilo que tiverem dinheiro para apostarem e para promoverem. Algumas vezes o meu gosto musical há-de estar em consonância com essas editoras, mas posso dizer que desta vez tentámos, fizemos muitos contactos – mais do que tínhamos feito anteriormente – e a maior parte deles são inglórios. Ou porque não temos um gimmick que nos destaque de uma coisa qualquer ao lado, ou porque não temos tatuagens, ou porque não temos uma vocalista, ou porque não temos um tipo conhecido na banda, ou porque não temos uma editora que tenha agarrado no disco e o tenha lançado para um mercado maior, ou porque nunca participámos numa tour que tivesse um alcance de 30 datas com uma banda conhecida em que tivéssemos ido a reboque. Nós nunca tivemos uma abébia, a verdade é essa.» Apesar do estado de espírito bem patente neste discurso, Hugo refere que a banda nunca se deixou abater por esta realidade. «Nunca deixámos que isso fosse impeditivo de tentarmos fazer sempre mais e de tentarmos ir àquele festival porque achamos que é positivo e de tentarmos mover os nossos contactos e a nossa vontade para determinado evento acontecer. Mas às vezes não dá… E é isso que nós hoje sabemos. Às vezes não dá. E temos de saber fazer o melhor com aquilo que temos à nossa mão. E o “Black Earth” foi a melhor lição que tivemos para isso.»

“Black Earth”, o álbum lançado pela Bleak Recordings – editora operada pela própria banda – é uma espécie de acelerador de partículas da sonoridade dos Process Of Guilt. É mais estruturado, mais intenso, mais esclarecido e com um som mais poderoso. E uma das coisas que mais salta à vista quando olhamos para os créditos é o facto de, pela primeira vez num longa-duração, o projecto não ter feito nascer a música nos Estúdios Quinta Dimensão, em Évora. Hugo Santos explica que terem experimentado gravar a bateria dos temas do split com os Rorcal nos Atlantic Blue Studios, em Paço de Arcos, foi um ponto basilar para a banda. «Do ponto de vista técnico e do ponto de vista dos recursos de captação, a Quinta Dimensão era algo rudimentar e só se justificava à luz dos nossos primeiros trabalhos. Para tirarmos partido daquelas condições éramos obrigados a um esforço de tempo e a um certo grau de insatisfação com o que de lá saía. Já no “Fæmin” só o usámos mesmo para captar as guitarras e as vozes, e já nessa altura ficámos a pensar que poderíamos ter optado por outra situação. O nosso principal drama ali era a bateria e isso resolveu-se com os Atlantic Blue», diz-nos. «Tentámos principalmente garantir que conseguíamos aceder a estúdios cujo material nos permitisse captar os instrumentos como nós queríamos que eles soassem: com um som o mais ao vivo possível e que de alguma forma possibilitassem transmitir aquilo que é a nossa sonoridade em concerto. Apesar de não termos gravado tudo ao mesmo tempo, conseguimos ter por exemplo duas guitarras a gravar em simultâneo – ou pelo menos ter duas pistas de guitarra a tocar com o Gonçalo [bateria] enquanto ele está a gravar – o que já é uma grande diferença também. Entre o Atlantic Blue e o Dynamix, do Ricardo [Fernandes, produtor], acho que foram os sítios onde melhor conseguimos a base para esse objectivo que era poder aspirar a outro nível de captação, para depois podermos aspirar a outro nível de mistura e masterização. Esta era apenas uma questão técnica, porque do ponto de vista de paz de espírito para gravar, certamente que a localização da Quinta Dimensão tinha outras características. Mas está a milhas de distância daquilo que hoje precisamos para captar um disco de Process Of Guilt.»

Esta mudança de estúdios, juntamente com a mudança de residência de alguns dos elementos da banda, levou a uma distância de cinco anos entre o “Black Earth” e o álbum anterior “Fæmin”. Mas não foram apenas motivos logísticos. «No início de 2016 já tínhamos vários riffs, dezenas de horas de ensaios gravadas e achámos que estávamos com bom material, quando comparado com o “Fæmin”. E aí pensámos ‘não, vamos fazer algo novo, vamos mandar tudo fora’ e o álbum que gravámos – o “Black Earth” – corresponde a um momento de Process mais ou menos entre Março e Julho de 2016. Houve um concerto no Music Box, com o Stephen O’Malley, em que tocámos o primeiro tema que viria a fazer parte do “Black Earth”, que foi o “Servant”, e essa música que está no meio do disco, apesar de não ser o Equador do álbum, foi o mote para tudo o que veio a seguir», refere o vocalista/guitarrista. «A linearidade de composição que tínhamos [no “Fæmin”], que já pensávamos que era uma evolução em relação ao [álbum anterior] “Erosion”, para nós foi muito evidente no “Black Earth” e obrigou-nos a olhar a forma como fazemos música de uma maneira completamente diferente, muito mais rítmica. Enquanto não estamos efectivamente satisfeitos com a base do baixo e da bateria, enquanto não temos essa base de força, por muitas linhas, riffs e melodias que existam de guitarra, enquanto aquilo não estiver certo na nossa cabeça nós não avançamos. E essa é a principal diferença.»

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