Projecto Sem Nome: entre sentir o rock e ser o rock (entrevista c/ Rui A. Cardoso) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Projecto Sem Nome: entre sentir o rock e ser o rock (entrevista c/ Rui A. Cardoso)

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“Bulas Para Dedos e Corações” é o álbum dos Projecto Sem Nome e foi lançado na segunda metade de 2016. Com um som rock e cantado em português, esta banda pode ser, entre muitas coisas, considerada uma combinação bizarra entre vozes como a de António Variações e riffs pesadões que podem fazer lembrar grupos como Alice In Chains. O baterista Rui A. Cardoso concedeu-nos uma entrevista onde nos fala da criação dos Projecto Sem Nome, do álbum em si e, claro, do panorama onde estão inseridos.

«Por vezes somos muito mais do que aparentamos ser. É mesmo essa dualidade entre o ser e o sentir.»

Pensado para musicar poemas do Cristóvão Siano e actuar no lançamento do seu livro “Entulho”, alguma vez pensaram que o Projecto Sem Nome podia seguir o caminho que está a fazer enquanto banda?
A verdade é que musicar os poemas para o lançamento do livro foi apenas a desculpa para colocarmos em prática um projecto e sonho, de já alguns meses, entre duas pessoas. A música não foi o que nos uniu, mas foi sempre algo que esteve muito presente na nossa amizade.
Desde cedo tive a ideia bem concreta do que pretendia fazer com este projecto. Como tive outros projectos, neste queria fazer algo menos complexo, mais rock e mais livre. Depois foi reunir as pessoas que se identificassem com a proposta e trabalharmos para conseguir o que pretendíamos realizar.
Engraçado usares o termo ‘caminho’, pois realmente se antes tinha uma visão bem definida dos objectivos a realizar e o que pensamos ser o melhor para a banda, com o lançamento do disco, e a realização desse grande objectivo, sinto que estou cada vez mais de apenas desfrutar do caminho.

Olhando para o título do disco, “Bulas Para Dedos e Coração”, podemos encontrar alguma conotação sexual?
Não de todo, esse era o título de um poema engraçado do Cristóvão e basicamente usurpei-o para o título do disco, pois penso que reflecte bem o que somos, ou não somos. Se bem que por vezes somos muito mais do que aparentamos ser. É mesmo essa dualidade entre o ser e o sentir.

O Cristóvão é o letrista, portanto como é que os restantes membros olham para o processo de tentar fazer com que a música seja relacionada às letras? Ainda para mais é tudo em português…
A coisa fluiu tão bem que nunca tinha pensado nessa questão. É mesmo um processo natural de composição. Não mudamos nada no instrumental para que o poema encaixe e vice-versa. Como os temas são quase todos compostos em sala de ensaio entre todos, esse aspecto nunca foi relevante na composição dos temas. Por vezes podemos modificar um pouco um tema para dar mais espaço à voz e às palavras, mas é sempre algo natural e nunca nada muito pensado.

Quão importante é para vocês fazer rock em português?
Não era importante, foi o que surgiu e o que melhor fica na interpretação do Cristóvão, sempre o conheci a escrever e a cantar em português por isso só fazia sentido seguir por aí.

Sobre António Variações: «Foi uma espécie de visionário e percebia muito de muitas coisas.»

Quando se lê que Projecto Sem Nome passa por um cruzamento de António Variações e de bandas como Alice In Chains é de uma pessoa ficar perplexa e só acreditar quando ouve. Foi algo que perceberam logo de início ou só à medida que a voz do Cristóvão Siano se ia unindo ao rock da restante banda?
Foi algo quase intencional, sempre tive bem presente a sonoridade dos Projecto Sem Nome e qual o universo sonoro em que nos poderíamos enquadrar.
Eu e o Cristóvão, nas várias viagens que fizemos, escutámos muito a obra do António Variações, a visão que ele tinha da vida vai muito de encontro à minha visão, foi uma espécie de visionário e percebia muito de muitas coisas.
O Cristóvão é um camaleão, o Paulo é um guitarrista muito criativo e assume muitas facetas musicais, como tal seria óbvio aproveitar essa polivalência.
Depois há todas as influências pessoais que dão à nossa música uma amálgama de referências que por vezes é difícil dizermos que somos e soamos a isto. Para muitos somos ‘pesados’, para outros somos ‘pop’, para outros somos ‘estranhos’.
As músicas surgiram naturalmente, a forma como as apresentamos em disco e como estruturamos o alinhamento do disco é que não.
Agora com um distanciamento emocional à obra criada, posso dizer que é realmente um disco ecléctico, e nem sempre fácil de o entender. Pode parecer naífe e simples, directo e cru – assim o pretendíamos.

“Marcha Gole” é um tema muito intenso que tem a Sandra Oliveira (Blame Zeus) como convidada especial. Foi uma escolha pessoal ou aproveitaram juntar o útil ao agradável no seio da Raising Legends?
Esta foi a primeira música criada e é também a mais fiel à melodia inicial trazida pelo Cristóvão. É para mim um tema muito especial, como tal queria que tivesse uma diferenciação em relação às demais criações.
Uma semana antes de entrarmos em estúdio, disse em ensaio: «Quero mudar o “Marcha Gole” e fazer uma cena mais ‘Type O Negative meets Madder Mortem in a The Gathering concert’.» Pretendia dar uma roupagem diferente ao tema e torná-lo mais intenso e menos monótono.
Como sempre gostei de bandas com voz feminina, e tive a felicidade de realizar esse sonho com os Mantra Projekt, queria também que o disco dos Projecto Sem Nome tivesse a colaboração e a sensibilidade do elemento feminino. Aliás, no disco temos também a colaboração da Mafalda Brògueira (Frame Pictures, Perfume) que criou o piano para o tema “Ele”, que fecha do disco.
A relação de amizade com a Sandra Oliveira vem já desde dos tempos de Mantra Projekt, pois partilhamos alguns concertos juntos, para além de como salientado sermos colegas de editora. Basicamente, como muitas pessoas do meio dizem: fazemos parte da ‘panelinha’. Tão errados que estão, para mim lobbies ainda continuam e sempre serão as entradas de hotéis.
O que me levou a decidir pela Sandra foi a sua voz e profissionalismo e por saber que era a colaboração perfeita para este tema.
Estava tão certo disso que poderão verificar quantas vezes depois de Agosto de 2015 a Sandra já foi convidada para gravar vozes em outros discos.
Neste caso, falei mais na primeira pessoa, pois a escolha foi mesmo pessoal.

«Os nossos temas [ao vivo] são mais intensos, pesados e dramáticos em relação ao trabalho de estúdio.»

Quem já ouviu o álbum e ainda não teve a oportunidade de ver um concerto vosso pode ficar com a ideia que isto ao vivo poderá ficar ainda mais pesado. É mesmo assim?
De facto, enquanto baterista tenho esse poder, o de regular a intensidade dos temas, e assim o faço. Se vamos tocar com bandas mais ‘pesadas’, o nosso alinhamento é um pouco mais rock pesadão e a nossa intensidade é também influenciada pelo ambiente dos espaços e bandas com quem partilhamos o palco.
Tocamos muito por feeling. A única coisa que utilizo de modo mecânico é mesmo o metrónomo no início dos temas para manter a cadência original dos temas. Como já tocámos com bandas de black e death metal haveria uma grande probabilidade de quase tornar os nossos temas muitos pesados e rápidos, o que poderia ser um risco.
Pelo feedback que nos tem chegado, os nossos temas são mais intensos, pesados e dramáticos em relação ao trabalho de estúdio.
Sempre que possível, quando as condições técnicas assim o permitem, os nossos concertos são também acompanhados de imagens. Em todos os projectos que fiz parte sempre pretendi dar um pouco mais ao público. Seja pelo decor do palco, seja pelas projecções ou pelo incenso. Somos mesmo assim, um projecto estranho. Se nos apetece fazer algo diferente, fazemos.

Enquanto banda portuguesa que faz pela vida, o que gostariam de ajudar a melhorar no panorama nacional?
Há uma ideia generalizada de que é tudo muito difícil e que o Sol brilha apenas para alguns. Não deixa de ser verdade em alguns casos, mas será que influencia assim tanto o trabalho que nos propomos a fazer? O nosso maior objectivo, mais do que tocar, é mostrar que podemos fazer rock cantado em português, sem limitações, orientações ou rótulos.
A maior motivação é fazer música que nos realize, se esta for aceite pelo público e difundida pelos media para nós já é motivo de nos orgulharmos do nosso caminho até aqui.
Pessoalmente gostaria de combater pelo lado positivo muitos dos “Velhos dos Restelo”. Se analisarmos bem as coisas, ninguém faz isto obrigado, e a nossa filosofia é se estamos mal, mudamos. É simples, ou tentamos pelo menos mudar a forma como fazer as coisas acontecer.
Temos uma tendência nata para o fado e lamentações; por vezes também faço, sou bastante exigente comigo e com quem está ligado a este projecto, por isso muitas vezes sou o ranhoso que nos concertos diz que os horários são para se cumprir. Temos de ser exigente connosco e principalmente respeitar o público apreciador de concertos.

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