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RDB “Era Matarruana” [Nota: 8/10]

Pedro Felix

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Editora: Vomit Your Shirt
Data de lançamento: 27 Abril 2018
Género: grindcore

O que atrai as pessoas para o grind? Será a melodia? Será o virtuosismo técnico? Será a originalidade? Será a diversidade? Não, nenhum destes motivos é o atractivo do grind, pois dificilmente os encontramos neste estilo. Aquilo que verdadeiramente atrai no grind é a sua honestidade. Aqui não há presunção, não há a seriedade de outros estilos, não há a necessidade de afirmação de algo, apenas uma honesta, directa, terra-a-terra necessidade de descarregar a carga que todos acumulamos no nosso dia-a-dia, seja pelo stress, pelas preocupações ou pelas frustrações que a vida nos presenteia, sem excepção de ninguém, embora de forma e intensidade diferente para cada um de nós. O grind é um estilo explosivo, não só de forma inerente ao seu som, mas da forma como explode com aquilo que nos massacra no quotidiano, libertando-nos desse peso, nem que seja temporariamente, e dando-nos um novo alento para o enfrentar de novo.

No que toca a estas principais características – honestidade e natureza explosiva –, elas são pilares daquilo que os Raw Decimating Brutality fazem. Nada mais honesto do que num estilo onde compreender as palavras do vocalista é quase um sacrilégio, ter letras – e passo a citar uma passagem do tema de abertura “Trono Nocturno do Matarruano”: “Woh, woh woh wagh, woh woh wagh” – só demonstram a forma honesta como a banda encara o seu estilo e a sua capacidade de se satirizarem a si próprios e ao estilo que tocam. Costuma-se dizer que o verdadeiro sentido de humor está naqueles que se conseguem rir de si próprios, e os RDB demonstram ter carradas dele. Por outro lado poderíamos também afirmar que, sendo este um álbum que versa sobre os tempos dos Cro-Magnon, as letras reproduzem aquele que seria o dialecto usado na altura… A dúvida fica no ar… Mas esta faceta humorística não implica, como muitos podem pensar, que a música não seja encarada de forma profissional. Nada mais errado. O grind apresentado neste trabalho é de primeiro calibre, notando-se uma saudável evolução desde “Obra Ó Diabo” (2011), não só nos temas em si mas na qualidade de produção. O som está mais limpo, mas sem perder identidade, e a intensidade dada a cada um dos instrumentos encontra-se em ponto de rebuçado, o que contribui para um equilíbrio sonoro perfeito.

Para quem não conhece os RDB, apenas referir que a sua sonoridade tem raízes nos grandes do estilo, como os incontornáveis Napalm Death ou até os mais recentes Lock Up. Quinze faixas curtas, oscilando entre 1:27 e 2:42 como manda a sapatilha, compõem o conjunto e temas como o revisitado “Calhau No Quintal”, o excelente “As Forças Ocultas dos Cromeleques“, o “Falos Em Pedra” ou aquele com as honras de encerramento, “Eterno Cro-Magnon Solsticial” demonstram que o grind dos RDB tem crescido, colocando-os em lugar de destaque no panorama nacional.

Para quem gostar de música intensa, honesta e bem confeccionada, dentro dos parâmetros específicos do grind, este é um trabalho de visita obrigatória. Última nota vai para a qualidade gráfica da edição física onde a simplicidade do preto-e-branco aliado a pequenos apontamentos de cor se conjugam num resultado bem atractivo.

Agora deixem-me pisgar daqui que os Cro-Magnon já vêm no meu encalço!

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Arsis “Visitant”

Pedro Felix

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Editora: Agonia Records
Data de lançamento: 02 Novembro 2018
Género: death metal

Com dezoito anos de carreira assegurados, os Arsis apresentam agora o seu sexto álbum de originais. Senhores de um estilo muito peculiar de death metal, este quarteto norte-americano volta a surpreender pela capacidade que tem de pegar em diversos elementos e fundi-los em uníssono numa sonoridade de inegável qualidade. Desde a melodia a uma técnica apuradíssima, isto no que toca a death metal melódico e técnico, à rapidez e raiva mais própria de um black e a uma voz límpida, apesar de rouca e feroz, mas em sintonia com o thrash, os Arsys fazem deste “Visitant” mais um tratado de death metal tornado original pela mistura de elementos não-originais. Temas como o colossal “Easy Pray” ou o furioso “Funeral Might” demonstram que a experiência e a maioridade são, para esta banda, sinónimo de constante melhoria. Pejado de solos primorosos, riffs orelhudos q.b., melodia e uma fúria imparável, os temas são complexamente simples e de uma diversidade de ritmos que alternam constantemente, sem por isso perderem vitalidade e fluidez. Para isto muito contribui um trabalho de bateria soberbo que, ao ser escutado com atenção, dá a entender o porquê da música ser de primeiro calibre, não apenas pela excelente execução técnica das guitarra e pela qualidade da composição.

“Visitant” é, assim, um álbum que conquista lugar na primeira liga do death metal e que demonstra, mais uma vez, que os Arsis são uma força do death metal a ter em consideração.

Nota Final

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1914 “The Blind Leading The Blind”

Diogo Ferreira

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Editora: Archaic Sound
Data de lançamento: 11 Novembro 2018
Género: death/doom metal

Formados precisamente no ano em que se assinalou o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, esta banda ucraniana versa precisamente sobre isso através de um death/doom metal melódico com apetrechos bélicos à mistura, como conversas entre soldados ou sons de material de guerra. Curiosamente, o novo trabalho que aqui analisamos foi lançado no dia em que se assinala também um outro centenário, o do término da contenda.

Sendo um dos conflitos mais desastrosos e horríveis de toda a História Mundial, a Guerra de 1914-1918 fica invariavelmente em segundo plano quando se fala do remake (no pun intended) ocorrido entre 1939-1945 por vários motivos, destacando-se, por exemplo, a falta de documentos visuais ou de grandes operações de bravura. No entanto, não deixamos de frisar que foi um dos momentos mais negros de sempre em que milhares e milhares de jovens pereceram não só em combate por uns metros de terra mas também nas execráveis trincheiras de onde não se saía durante Invernos a fio. Com este empreendimento musical, os 1914 não tomam partidos nem se querem apresentar como instigadores de guerra, são apenas amantes da História e querem contar o que naqueles quatro anos aconteceu desde Gallipoli à Itália, de Ypres à Rússia, passando pela Áustria e Hungria.

Neste segundo longa-duração, o quinteto de Lviv proporciona aos ouvintes uma produção plena e atmosférica que equilibra bastante bem todos os elementos que necessitam forçosamente de se ouvir como um todo. Voz, guitarras, baixo e bateria ouvem-se em uníssono como um tanque a avançar perante artilharia pesada e todos os músicos são os seus fiéis operadores. Como dito anteriormente, é de death/doom metal que se trata este “The Blind Leading The Blind”, por isso as longas faixas vão oscilar entre arrastados segmentos (não muitos, diga-se) e portentos lances de death metal corrido que acabam por seguir brevemente por abordagens ao black metal. Os temas, que são melódicos q.b., não incorrem por melosas melancolias mas também não soam a glória desenfreada; há, sim, um pesado sentido de angústia, martírio, solidão e responsabilidade que, surpreendentemente para alguns, não se esbarra em composições dissonantes.

“The Blind Leading The Blind” é, em última análise, uma homenagem a todos os que marcharam sem nada ver à frente, mas que tinham a certeza quase absoluta de que era a Morte quem os esperava a cada passo que davam. A guerra é onde a morte é absurda e a vida ainda mais…

Nota Final

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The Smashing Pumpkins “Shiny And Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.”

Diogo Ferreira

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Editora: Napalm Records / Martha’s Music
Data de lançamento: 16 Novembro 2018
Género: rock alternativo

Amado e odiado em escalas semelhantes, Billy Corgan é, sem sombra de dúvidas, uma das figuras mais relevantes do rock alternativo, especialmente durante a década de 1990, não só pela música que criou mas também pela forma directa com que diz o que pensa e pelas polémicas mais pessoais em que esteve envolvido com, por exemplo, Courtney Love . Longe vão os constantes discos de platina, mas os The Smashing Pumpkins nunca deixaram de rodar aqui e ali à custa dos singles de sucesso que foram lançando ao longo da sua carreira. Estiveram na berra durante cerca de 12 anos e em 2000 foi cada um à sua vida. Billy Corgan e Jimmy Chamberlin prosseguiram a sua carreira com os pontuais Zwan e James Iha tem vindo a dar o seu contributo nos A Perfect Circle.

Corgan viria a reunir a banda algures em 2005-2006, mas só agora conseguiu ter ao seu lado Chamberlin, Iha e Jeff Schroeder (no grupo desde 2007). Com estes recursos humanos, que fazem os fãs rejubilar de entusiasmo, os The Smashing Pumpkins reaparecem com o longo título “Shiny And Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.”

A abertura com “Knights of Malta” é uma agradável mistura de pop sedutora entre uns Soulsavers (que têm incluído Dave Gahan, dos Depeche Mode, nas suas fileiras) e Editors para, seguidamente, ouvirmos uma típica canção de The Smashing Pumpkins chamada “Silvery Sometimes (Ghosts)”. Nela recebemos um ritmo bem corrido e melódico, uma espécie de remake de outros feitos antigos mas que funcionou muito bem como single porque representa bem a reconhecida sonoridade da banda de Chicago. A quarta “Solara” será, porventura, a única directa recuperação do som grunge dos anos 90 que tanto significa para a banda e para o próprio género. A abordagem pop que já estava vincada, mas bem executada, na faixa inaugural volta a dar ar de si na quinta “Alienation” com o problema de nos fazer lembrar Coldplay… E faz doer o coração com toda a aflição de um enfarte do miocárdio. Ninguém é perfeito. Já em “Machin’ On”, os efeitos da guitarra bebem fortemente daquilo que Nigel Pulsford fez nos 10 anos que esteve nos Bush.

Não podemos dizer que este seja um regresso realmente bombástico, a não ser se tivermos em conta a formação actual da banda. Sem músicas insossas mas que também não arregalam os ouvidos ao máximo, este álbum poderá ser visto como um exemplo de falta de inspiração muito à custa de ouvirmos detalhes que já foram explorados vezes sem conta pela própria banda, mas, e por outro lado, desfrutemos de um Billy Corgan vocalmente em forma, dos arranjos orquestrais que acompanham grande parte das faixas e da prova que esta importante banda está viva e para as curvas. Esperemos que se mantenham por cá e que nos voltem a surpreender um dia destes, mesmo com 30 anos de carreira.

Nota Final

 

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