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[Reportagem] SWR Barroselas Metalfest XXII – A Convocação do Norte

João Correia

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À XXII edição, o SWR Barroselas Metalfest conseguiu enganar-nos de forma contundente devido a ter-nos habituado tão mal na XX.ª edição. Se bem se recordam, o cartaz dos vinte anos do festival estragou-nos com mimos: Venom Inc., Cobalt, Dead Congregation, Extreme Noise Terror, Master, Mayhem, Inquisition, Ackercocke, Aborted… Poucos festivais conseguem esta proeza no estrangeiro, quanto mais em Portugal; logo, foi um ano especial tanto para o Ricardo e o Tiago Veiga como para quem compareceu. Olhando para o cartaz de 2019, e comparando-o com o de 2017, sentiu-se uma ausência de tantos nomes grandes, mas foram precisamente os nomes pequenos que nos surpreenderam.

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DIA 1
Pouco passava das 17 horas quando os espanhóis Nakkiga iniciaram a sua descarga de black metal peculiar no palco SWR Arena. Ainda que tradicional e pouco dado a inovação, a banda apresenta um som coeso e seguro, o que lhes permitiu arrecadar os primeiros aplausos do dia. Seguiram-se-lhes no mesmo palco os flamengos Turbowarrior of Steel, praticantes de crossover thrash clássico, mas desinteressante e enfadonho, mais do mesmo, ainda que sempre bom para o circle-pit. Cerca das 18:30, agora no palco Loud! Dungeon, os thrashers brasileiros Woslom fizeram-nos esquecer rapidamente a banda anterior devido à sua dedicação e som francamente mais aperfeiçoado; mesmo que não disfarcem severas influências de Slayer, Megadeth e afins, sabem o que fazem e percebe-se que vivem para isto. Barroselas registou a primeira trepidação a sério do dia com a chegada dos Analepsy ao palco Warriors Abyss onde, uma vez mais, conseguiram exemplificar o porquê da sua boa reputação a nível mundial. Acabados de chegar de uma digressão no Japão, fizeram o que lhes competia durante cerca de 50 minutos, abrindo as comportas e despejando um dilúvio de riffs espessos e blastbeats mecânicos com a inicial “Apocalyptic Premonition”. Daí em diante, presentearam o público com a dose de gravidade a que já nos habituaram. Resta-nos dizer apenas que o set ainda é pouco variado, o que é natural quando a banda só dispõe de um longa-duração. Por esta altura, a impressão com que ficámos foi que o som estava demasiado alto, mas talvez fosse apenas imaginação nossa.

Analepsy (Foto: João Correia)

No palco 2 foi a vez do concerto dos Morte Incandescente, uma banda que nos foi sugerida uns dias depois por Joakim Karlsson (Craft). O projecto de Vulturius e Nocturnus Horrendus é dos que faz correr mais tinta lá fora graças ao black metal primitivo e sem merdas que praticam. Pensando bem, qualquer outro projecto de ambos assenta nos mesmos moldes, por mais ou menos primitivo que seja. Uma vez mais, pareceu que o som estava demasiado alto, o que viemos a confirmar via terceiros que referiram exactamente o mesmo, o que de certa forma prejudicou ligeiramente a actuação de Morte Incandescente, bem como de outras bandas ao longo dos três dias. Posteriormente, foi a vez de os Venenum subirem ao palco principal para darem um dos melhores concertos do fim-de-semana. A juntar ao seu som de marca, o black metal com toques de blackened death metal clássico, ofereceram ainda um espectáculo de luzes e outras regalias cénicas em palco, o que fez sobressair ainda mais o registo musical. Começaram com a já clássica “Merging Nebular Drapes”, passando também revista a temas como “Trance of Death, Part I”. Embora alto, o som primou pela qualidade a que os guerreiros das régies do Barroselas já nos habituaram, o que é bastante importante para bandas com os pormenores sonoros diversificados dos Venenum. Ao mesmo tempo, mas no palco 3, tocavam os Humanart, outra banda de black metal com outros moldes sonoros. Tantas vezes ignorados em detrimento de outros colectivos nacionais, sentimos que os Humanart estiverem de pedra e cal. Das várias vezes que já os vimos, ficámos com essa sensação – simples, pouco inovadores, mas certamente dedicados ao seu som, o que é muito mais do que se pode pedir.

Às 21:20, os italianos repetentes Grime acidificaram a coisa com o seu sludge/post-metal de forma exclamativa. Não é que os Grime sejam motivo de grande entusiasmo, já ouvimos imensas banda como esta, mas a mordacidade em palco e alguns temas bastante orelhudos fizeram com que fossem louvados amiúde pelos presentes. Uma das maiores expectativas do primeiro dia residia nos norte-americanos Midnight, a superpotência do heavy-black/speed metal revivalista que anda nas bocas do mundo. Percebemos porquê ao fim de uma hora de um concerto (e movimentação em palco) irrequieto, com o omnipresente Athenar a descarregar bile atrás de bile, sem descanso, como se o mundo acabasse amanhã. A presença em palco dos Midnight é, de facto, 50% do concerto, que o público respeitou com imenso crowdsurfing e slam. Ainda na ronda da digressão Midnight Prowling Europe como desculpa e com temas como “Endless Slut” ou “Black Rock ‘n’ Roll” no cardápio, os Midnight não desiludiram e acabaram por prestar um dos três melhores concertos do festival sem pensarmos duas vezes. Às 23:00, os franceses Sublime Cadaveric Decomposition tiveram a fineza de nos rebentar os tímpanos no palco 2 com o seu death/grind pujante e (uma vez mais) exageradamente alto. Por esta altura, concluímos que o som estava assim em todos os palcos. Felizmente que o SWR vende protecções auriculares baratinhas, or else!

Midnight (Foto: João Correia)

Em seguida, no palco principal, os norte-americanos The Black Dahlia Murder satisfizeram a curiosidade dos fãs e mais ainda dos menos conhecedores da banda; o que começou por ser um colectivo de deathcore, coisa olhada com suspeitas pelo público do Barroselas, deu uma volta de 180 graus com “Nightbringers”, uma ode ao death metal sueco de meados dos anos 90, logo a começar com a capa do mítico Necrolord. Após a já clássica “Widowmaker”, a banda seguiu a pegada de “Nightbringers” com “Jars” e a homónima “Nightbringers”, o ponto mais alto do novo disco. Goste-se ou odeie-se, com “Nightbringers”, os TBDM superaram-se em termos de composição, peso e agressividade. Em palco, é claro que o foco das atenções recai em Trevor Strnad, mas tanto os solos surrealmente técnicos de Brian Ellis como as estruturas groovalhentas de Brian Eschebach são a cola dos TBDM actuais. A reacção do público não se fez esperar, com circle-pits, crowdsurfing e slam a falarem pela actuação da banda. De volta ao palco 2 e ao heavy/speed metal, os canadianos Skull Fist espalharam magia nas cabeças do público com um som simples, muito à maneira da era de platina do heavy metal. Com solos longos e inspirados nitidamente  bebidos das taças dos Iron Maiden e dos Helloween, pouco poderia correr mal aos nativos de Toronto, principalmente numa época em que o revivalismo dos géneros mais de nicho se faz sentir junto dos fãs. “You Belong To Me” foi a grande vencedora do set, que resultou bem em estúdio e continua a resultar da mesma forma ao vivo. Certas bandas perdem algum charme quando transpostas do estúdio para os concertos, mas não é esse o caso dos Skull Fist.

The Black Dahlia Murder (Foto: João Correia)

Faltavam cerca de vinte minutos para as duas da manhã quando os imortais Godflesh chegaram ao palco principal com pouco mais do que 30 anos de História aos ombros de Justin Broadrick e G. C. Green. Pouco mais há a dizer sobre os Godflesh do que visionários: de uma assentada, apadrinharam o rock/metal industrial, influenciaram incontáveis bandas de post-metal que injectam na jugular a substância conhecida como “Streetcleaner” e fazem parte do limitadíssimo lote de bandas que fez da Earache Records o que ela é hoje. Quase sempre de cerveja na mão, o duo-dinâmico de Birmingham debitou malha atrás de malha sem tempo para conversa num concerto já por si curtíssimo: “Sterile Prophet”, “Parasite”, “Post Self”, “Defeated” e a seminal “Like Rats” foram cinco das músicas mimetizadas. Ao vivo, os Godflesh valem cada tostão e cada minuto de atenção investidos, criando um ambiente hipnótico e histórico que tem o defeito de durar pouco mais de 50 minutos, muito pouco para quem esteve presente no primeiro dia por eles (e não foi assim tão pouca gente). Ao comando do seu Apple e da guitarra, Broadrick roubou todas as atenções do tipicamente discreto Green, cujo baixo insistia constantemente em lembrar o público da sua presença nas sombras azuis do palco. Lá mais para o fim da actuação, vimos um público completamente rendido, quase todo comprometido pelo headbanging lento que assiste a este tipo de som. De 0 a 10, dar-lhes-íamos um seguríssimo 8.

Godflesh (Foto: João Correia)

Para terminar o primeiro dia, a actuação dos Scúru Fitchádu seguidos dos Acid Cannibals no palco 3 fez-nos regressar ao caos dos festivais de metal. Em palco, Sette Sujidade e o seu gangue revelam uma natureza tribalista, um festival de ninjarias, facas e movimentação incessante ao som de punk, funaná, metal, noise e o que mais quiserem, sempre com instrumentos invulgares como a concertina e o ferro a norteá-los. Já os segundos, escoceses de herança, praticam uma mistura de punk, metal, rock, hardcore… Em suma, talvez a melhor aposta para concluir o primeiro dia, uma espécie de sessão chill out de qualidade, a tal que o SWR já nos habitua há 22 anos. Ainda nesta altura, o volume sonoro estava para lá de recomendável, o único ponto negativo do primeiro dia. Em resumo, o dia inicial da XXII edição fez-nos ter expectativas pouco elevadas para o resto do certame, tal foi a qualidade representada no primeiro, mas tínhamos pela frente dois dias de mais e melhores surpresas, apenas ainda não o sabíamos.

DIA 2
O segundo dia começou com os Archaic Tomb, banda de death metal old-school cavernoso com ligeiros toques de black metal de Lisboa. Construíram uma parede sonora robusta em cerca de 40 minutos e reparámos que se concentram em riffs maciços para criarem relevância e interesse. Os também lisboetas Summon seguiram o compasso dos Archaic Tomb, mas o nível de caos e de cacofonia indicou-nos outra coisa. Estes blackened death metallers reduzem o compasso geralmente rápido do DM para criarem paisagens que ecoam desespero e apatia, introduzindo também elementos sonoros étnicos bastante invulgares, mas muito interessantes. Às 18:30 os ingleses Vacivus começaram as hostilidades no palco 2. Praticantes de death metal à moda antiga, lento e forte, tanto bebem da cena metal de Birmingham a nível musical como da atitude punk inglesa numa faceta mais estética; o vocalista Nick Craggs faz lembrar um hooligan saído das batalhas campais das claques inglesas dos anos 70, sempre pronto para mandar abaixo quantos vierem, tal é a ferocidade que expressa naturalmente em palco. A primeira banda a pisar o palco principal foi Namek, nome mais do que lendário na cena nacional. O death/grind do quinteto, potente por associação, sofreu uma vez mais com o volume absurdamente elevado do som em geral, que chegou a criar momentos de distorção previsível. Em termos técnicos, proporcionaram um concerto isento de falhas, mas o volume em si chegou a afastar gente do recinto.

Archaic Tomb (Foto: João Correia)

Quarenta minutos depois, os  Barshasketh fizeram-nos regressar ao palco 2 para testemunhar o seu black metal com origem neozelandesa, agora sedeado na Escócia. Depois do melódico “Ophidian Henosis” (2015), os Barshasketh enegreceram com o seu álbum homónimo (2019) e isso saldou-se num concerto violento que, por vezes, aparentou algum atabalhoamento, fruto da rebeldia e da postura don’t care que visam oferecer. Os finlandeses Demilich e os nacionais Son of Cain tocaram em simultâneo nos palcos 1 e 3 respectivamente, o que nunca é tarefa grata quando queremos ver ambas. Os Demilich dispensam apresentações, tudo devido a “Nespithe”, um dos álbuns de culto mais celebrados de sempre do death metal undeground. Aproveitando a qualidade sonora de que dispuseram, desfiaram clássicos como “Emptiness of Vanishing” e “The Sixteenth Six-Tooth Son of Fourteen Four-Regional Dimensions (Still Unnamed)” para gáudio dos bastantes fãs que esperavam pela banda, cientes da raridade que é ver Demilich ao vivo. Já os Son of Cain deram-nos razão com o seu concerto atempado de promoção a “Closer To The Edge”, do final do ano passado. A prestação de rock a deux foi descomplicada, com uma forte característica de desbunda e prazer no que se faz. Alexandre Mota (bateria, voz) acompanha na perfeição Hugo Conim (guitarra) e, espante-se, tem um registo vocal limpo que não imaginaríamos e que muito beneficia este projecto. Talvez tenham sido a banda que melhor tenha beneficiado do som alto desta edição, principalmente Alexandre, que desanca na bateria em geral com muita força, o que imprime ainda mais poder ao seu som.

Demilich (Foto: João Correia)

Também os Dopelord pulavam de boca em boca, muito com certeza devido ao seu stoner rock arrastado, mas melódico, por vezes fundindo-se com doom metal. Os polacos aproveitaram a oportunidade proporcionada pelo SWR e não desiludiram, particularmente com “Children Of The Haze”. Também o volume alto beneficiou os Dopelord, que necessitam de mais pastilha, tendo em conta a natureza do seu som. Resumidamente, surpreenderam pela sua criatividade e à-vontade, e recomendamo-los vivamente. Às 22:10 presenciámos o melhor concerto dos três dias sem margem para dúvidas. Quando os Benediction subiram ao palco 1, o recinto já se encontrava intransitável, tal é o culto de que a banda goza em Portugal. Os Benediction tiveram o público na mão desde os instantes iniciais da clássica “Divine Ultimatum”, a faixa de “Subsconscious Terror” que deu início ao concerto e à tempestade entre o público, que não parou por um instante ao longo de quase 60 minutos. Com Dave Hunt de saída dos Benediction (uma notícia avançada pela Ultraje Magazine mesmo antes do anúncio oficial da banda), sentimos que os Benediction vão perder um foco carismático que poucos outros vocalistas poderão substituir à mesma escala. De facto, no final da segunda música, Hunt comunicou ao público e ao stage staff que a banda chegou a munição de palco para trás o mais possível para que os fãs que assim desejassem pudessem subir para cima dele e festejarem com os Benediction. Escusado será dizer que o caos se instalou daí em diante, com vagas sucessivas de stagedivers a subirem para cima do estrado e a mergulharem pouco após na enorme massa humana à sua frente. O concerto decorreu com a rendição de vários clássicos, dentre os quais “They Must Die Screaming”, “Nothing On The Inside”, “Jumping At Shadows” ou “The Dreams You Dread”, sempre acompanhados dos maiores circle-pits de todo o fim-de-semana. Despediram-se com a missão cumprida de forma exemplar e a sensação de ter sido o melhor concerto foi ecoada por bastantes outras vozes.

Benediction (Foto: João Correia)

Aos ingleses sucederam os norte-americanos Imperial Triumphant, que foram a banda que mais nos impressionou nesta XXII edição. É difícil categorizar o som dos Imperial Triumphant sem recorrer a hipérboles e a figuras de estilo; aquilo que podemos dizer e que melhor se assemelha ao som da banda são ideias divergentes como a noite do dia: fazem lembrar a megalomania cosmopolita de Gershwin e a viscosidade do crude expelido pelos Portal, bem como nos trazem à ideia qualquer trabalho dos Carnival in Coal, mas escrito por um Franz Kafka sob os efeitos da heroína. Difícil de entender, certo? Nada como ouvirem e tirarem as vossas próprias conclusões; mas é algo definitivamente fresco, avantgarde e de uma genialidade rara, e chamar-lhe apenas black metal avantgarde é não fazer justiça a toda a opulência dos Imperial Triumphant.

Imperial Triumphant (Foto: João Correia)

Os cabeças-de-cartaz do dia 2 apresentaram-se após no palco principal e não há nada como um concerto de Saint Vitus para aliviarmos os neurónios da sobrecarga mental que foi Imperial Triumphant. Naturais da Califórnia e a comemorarem 40 anos de actividade, são só e unicamente uns dos pais do doom metal como o conhecemos, tendo contribuído significativamente para a criação do stoner rock e do sludge. Conhecidos por muitos que os esperavam e por gerações nitidamente alheias ao seu som, os Saint Vitus aproveitaram a dica deixada por Dave Hunt e estenderam o mesmo convite ao público para celebrar em cima do palco caso desejasse. Claro que o tipo de som dificilmente instiga ao stagediving, mas ficou a atitude. “Dark World”, “WhiteMagic/Black Magic”, “Remains” e a orelhudíssima “Hourglass” (ambas extraídas do novo disco, “Saint Vitus”, com data de saída prevista para 17 de Maio), “War Is Our Destiny” ou “One Mind” foram alguns dos muito temas pregados pelos santos norte-americanos, deixando para o final a faixa mais atípica da sua carreira, “Useless”, um petardo de minuto e meio, também ele do próximo registo, que mistura punk puro com NYHC e que não deixou ninguém indiferente. À segunda visita a Portugal, fincaram os pés e converteram um rebanho de novos acólitos.

Saint Vitus (Foto: João Correia)

Ainda houve tempo para apreciar os Ascension, cujo primeiro álbum “Consolamentum” (2010) teve um impacto inicial forte, mas foi “Under Ether” (2018), o seu terceiro LP, que nos revelou uma banda de black metal plena de ideias ao incorporar elementos progressivos. Depois do vanguardismo de Imperial Triumphant, o SWR não podia ter apostado em melhor no segundo dia, transformando o recinto num ritual negro e mórbido. Devido ao cancelamento dos Birdflesh, os checos Purulent Spermcanal aproveitaram a oportunidade e tocaram pela sua vez em cima do palco principal, o que encerrou a noite com um som superagressivo, que não pudemos deixar de apoiar e sorrir devido à simplicidade e humildade destes checos. Praticam death/grind/gore corriqueiro, mas a atitude e os agradecimentos à enchente que se deslocou ao palco Warriors Abyss para os ver tocar e apoiar deixou a banda felicíssima.

Os portuenses Grindead foram os penúltimos a subir ao palco para perpetuarem o death metal da velha-guarda e os Greengo encerraram as portas do segundo dia com o seu stoner rock bastante pesado.

DIA 3
O terceiro dia abriu com os experimentais Darsombra seguidos pelos thrashers Corpsia no palco 3. As caras zombificadas e ainda em fase recuperação etílica dos metaleiros em geral ao nosso redor faziam prever um dia mais calmo. Os death metallers old-school Auroch deram início ao massacre no palco 2, despejando riffs maciços e solos caóticos cabeça abaixo dos presentes. Às 19:10, os Martelo Negro iniciaram o seu set no Warriors Abyss, conquistando rapidamente quem ainda não os conhecia com as suas doses fartas de heavy metal tradicional, black metal e rock, fazendo lembrar nomes como Venom, Celtic Frost e Motörhead. Ainda a promoverem “Parthenogenesis”, talvez o trabalho mais completo da banda, cumpriram com o pedido e causaram alguma movimentação nas fileiras da frente. As brasileiras Rakta vieram a seguir e desfilaram os seus temas meio tribais, meio oníricos, mas muito electrónicos no palco 2, sempre com imenso experimentalismo e música ambiental a darem um cheirinho de Roadburn ao SWR. De tantas representações brasileiras, foram seguramente a mais deslocada, mas ainda assim muito interessante. Enquanto os espanhóis Wormed rebentavam com a escala decibélica com o seu death metal técnico no palco principal, os norte-americanos Crowhurst espalhavam caos e magia no palco secundário. É difícil descrever o som destes últimos, mas podemos avançar as ideias de black metal avantgarde e ambiental, tendo sido mais uma banda que nos fez virar a cabeça na sua direcção.

Martelo Negro (Foto: João Correia)

Seguiram-se os franceses Arkhon Infaustus, uma das coqueluches gaulesas do blackened death metal técnico. Lançaram nos suspiros finais de 2018 um mini-CD que logrou entrar na lista de registos do ano de muita gente, tal é a vitalidade e assinatura própria presente em “Passing The Nekromanteion”. Em cerca de 50 minutos não deixaram dúvidas de que já poderiam estar numa liga mais acima, mas teremos de esperar pelo novo disco da banda para melhor julgar. Os Vomitory continuaram a dose do death metal no palco principal e ficámos impressionados pelo trajecto da banda até aos dias de hoje: de banda underground do princípio dos anos 90 a banda de culto em 2019 devido à sua persistência e amadurecimento musical. Reviram temas de basicamente todos os registos, com alguma incidência em “Opus Mortis VIII”, último trabalho editado em 2011. E foi a seguir que a maior surpresa dos três dias começou o seu concerto no Palco Loud! – conheçam os brasileiros Deafkids, um colectivo que mistura inteligentemente SPK, Ministry, Jesus Lizard e ares de Aphex Twin para criar um industrial electrónico experimental e repleto de ritmo, noise e violência. Junte-se a isso os sons tribalistas afro-brasileiros de que usam e abusam, e obtemos uma banda completamente distinta do que conhecemos. Vão ser grandes dentro do circuito, sabemos que sim.Arkhon Infaustus (Foto: João Correia)

E os cabeças-de-cartaz da noite apresentaram-se no palco principal com 20 minutos de antecedência; por algum motivo, algumas bandas começaram a tocar antes do tempo, o que confundiu um pouco o público. Ver Craft ao vivo é coisa rara devido ao historial da banda, o que criou enormes expectativas da parte do público que conhece bem uma das bandas mais singulares dentro do panorama black metal. Ao metermos o peso do muito aclamado “White Noise and Black Metal” (o recente e último trabalho dos suecos), tínhamos pela frente uma experiência assinalável. Acontece que os Craft são exímios em estúdio, mas ao vivo situam-se uns furos abaixo do esperado. O concerto foi sólido, teve bom som e alguma movimentação em palco (principalmente da parte Nox, o vocalista que mais parece um cadáver), mas na nossa opinião ficou muito aquém do esperado; parecia faltar algo na química ao vivo. Ainda assim, levantaram a moral dos fãs mais hardcore. Não desapontaram totalmente, mas também não foram um dos momentos mais altos da XXII edição do SWR.

Craft (Foto: João Correia)

Essa distinção estava guardada para as brasileiras Nervosa, na ronda de promoção do muito badalado “Downfall Of Mankind”. Fernanda Lira & Cia. subiram ao palco 2 para conquistarem território e chegaram, viram e venceram. O thrash/death das paulistanas não deixa ninguém indiferente e muito menos fica a dever seja o que for a qualquer formação masculina do género: tocam com alma, vão beber à fonte dos anos 80 e 90, aplicando-lhe um som moderno e usam e abusam da brutalidade que este género engloba. “Raise Your Fist!” e “Masked Betrayer” foram dois dos momentos mais violentos de todo o concerto, se bem que a banda agarrou o público logo na inicial “Horrordrome” e dele não mais se descolou, causando circle-pits e muito stage-diving. Com pouco tempo para falar com os fãs, Fernanda sentiu-se agradecida por poder comunicar em português. A resposta sobre os concertos das Nervosa tem sido idêntica um pouco por toda a Europa: violento, milimetricamente preciso e de alta qualidade. Foi o caso da prestação no SWR.

Nervosa (Foto: João Correia)

A última banda a tocar no palco principal foi Serrabulho. Nada de novo a apontar: caos, almofadas rasgadas, zés pereiras convidados e muita gente exterior à banda em cima do palco, numa actuação que pecou por ser longa – afinal, já estávamos todos de rastos. O último dia teve na lista a presença dos Purulent Spermcanal e dos britânicos Pulmonary Fibrosis no palco 3.

Retomando a nossa ideia inicial, a XXII edição do SWR Barroselas Metalfest teve a particularidade de apresentar alguns nomes raros (caso de Craft, Godflesh e Arkhon Infaustus), mas vingou realmente quando apresentou nomes basicamente desconhecidos e que deixaram grande parte do público perplexo, caso de Triumphant Imperial, Deafkids ou Auroch, o que nos leva a crer que a ausência de mais nomes significativos é sempre bem compensada com bandas underground de uma qualidade inquestionável.

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SWR BARROSELAS METAL FEST XXII – 5 COISAS QUE (QUASE) NINGUÉM (OU)VIU

Fernanda Lira (Nervosa) a dançar samba na sala de imprensa;

– Joakim Carlsson (Craft) a sugerir-nos que ouvíssemos Morte Incandescente;

– Dan Bate (Benediction) a pedir-nos para lhe oferecermos a Ultraje Magazine #17 para ler a entrevista a Sinsaenum e vermos a reacção na cara dele quando percebeu que a revista está escrita em português;

– Uma das seguranças do festival, na casa dos 45 anos, a dizer-nos que adorava fazer o SWR porque esta música em particular a relaxava;

– Justin Broadrick (Godflesh) a tentar pronunciar alguns nomes portugueses sem sucesso, a desistir a meio e a convidar-nos para tirar fotografias no camarim.

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Texto e fotos: João Correia

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Nuno Bettencourt, Tom Morello e Scott Ian tocam tema de Game Of Thrones

Diogo Ferreira

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Consagrada como uma das séries mais populares de sempre, Game Of Thrones, que terminou na última madrugada, teve a capacidade de exultar nos seus fiéis seguidores todas as emoções desde o seu início com o genérico criado por Ramin Djawadi.

No clip abaixo, Djawadi é acompanhado por Dan Weiss (criador da série), Tom Morello (Rage Against The Machine), Scott Ian (Anthrax), Nuno Bettencourt (Extreme) e Brad Paisley numa jam session com as novas guitarras Fender em que tocam precisamente o tema principal de Game Of Thrones com muito free-style solista pelo meio.

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Sabaton History Channel, ep. 15: o Barão Vermelho

Diogo Ferreira

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No novo episódio do Sabaton History Channel, Joakim Brodén e Indy Neidell escolhem falar do tema “The Red Baron” que pertence ao próximo álbum “The Great War”, a ser lançado a 19 de Julho pela Nuclear Blast.

O Barão Vermelho é um do ícones heróicos da I Guerra Mundial que, simultaneamente, engloba a mecanização e a romantização da guerra moderna com as suas habilidades e heroísmo. Manfred von Richthofen é o nome verdadeiro do piloto que é, então, recordado em mais um episódio do Sabaton History Channel.

Mais episódios AQUI.

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Jinjer ao vivo no Resurrection 2018 (c/ vídeo)

Diogo Ferreira

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Foto: Veronika Gusieva

Abaixo podes assistir à prestação dos Jinjer no Resurrection de 2018. Recentemente disponibilizado pelo próprio festival, este vídeo servirá para aguçar a vontade que os fãs desta banda têm para os ver no Vagos Metal Fest deste ano. Nos quase 40 minutos de concerto, os Jinjer executaram temas como “Words Of Wisdom”, “I Speak Astronomy”, “Pisces” ou “Captain Clock”.

O EP “Micro”, lançado em Janeiro de 2019 pela Napalm Records, é o registo mais recente dos ucranianos que, como referido, actuarão no Vagos Metal Fest, evento que se realiza entre 8 e 11 de Agosto. Stratovarius, Six Feet Under, Satyricon, Candlemass, Death Angel, Watain e Alestorm são alguns dos nomes do cartaz.

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