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[Reportagem] Voivod + Nightrage (26.09.2018 – Porto)

João Correia

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Foto: João Correia

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Voivod + Nightrage
26.09.2018 – Hard Club, Porto

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Para bem da honestidade, temos de afirmar que os Voivod não lançaram um único disco que alterasse o paradigma metálico desde “Angel Rat” – um disco como “Killing Technology”, “War and Pain” ou “Nothingface”, um disco que apanhasse a cena de surpresa pela improbabilidade do que nele se ouve. Se tivermos em conta que “Angel Rat” demorou décadas a ser reconhecido como um álbum transcendental, mesmo que seguido do excelente “The Outer Limits” e de outros discos bonzinhos (mas pouco mais do que isso), poderíamos crer que tinha chegado o anoitecer dos Voivod, que é uma coisa tão comum em bandas lendárias ao fim de mais de 10 discos de estúdio. Às vezes, nem tantos. Entre “Angel Rat” e “Target Earth” ficou para trás a dissonância da guitarra de Piggy, que ascendeu cedo de mais. Pese o facto da existência de muitos altos e baixos, a notícia de um disco novo dos Voivod é sempre motivo de entusiasmo, e “The Wake”, o último registo, é uma proeza que chega a roçar o impossível. A comemorarem 35 anos de carreira, e com data marcada no Porto, era essencial presenciar como se porta o novo disco ao vivo.

Os greco-suecos Nightrage foram os convidados de honra da celebração em Portugal. Quem se recordava deles nos seus tempos áureos sabia ao que vinha e que não sairia desapontado. Deram um concerto sólido, ainda que, com tanta energia, acabaram por partir duas cordas da viola-baixo, o que interrompeu a prestação durante alguns minutos. Com ex-membros dos Slapdash, Carnal Forge ou Atrocity, os actuais Nightrage dão um concerto pleno de electricidade e movimento, ainda que com pouca interacção com o público. Aparte o problema técnico, cumpriram no apoio aos reis da noite, promovendo principalmente “The Venomous”, datado de 2017. É uma pena que tenham caído um tudo-nada no esquecimento. No exterior do recinto, a venda de artigos das duas bandas corria de vento em popa.

Com muito fumo e luzes predominantemente vermelhas, os Voivod subiram ao palco e começaram a disparar balas de prata vintage em todas as direcções – começaram com “Post Society” e deram-lhe seguimento com “Ravenous Medicine”, um dos clássicos absolutos dos canadianos; era altura de testemunhar o poder de “The Wake” in situ – venha de lá essa “Obsolete Beings”, single de avanço que deixou toda a gente em polvorosa. “O solo do Chewy faz-me lembrar tanto o Piggy…”, ouvimos ao nosso lado. Realmente, se os Voivod queriam apostar tudo o que tinham para promover o novo disco, este tema abriu-lhes as portas sem precedentes, com excelentes críticas um pouco por todo o mundo. “Os Voivod que conhecemos estão de volta”, lemos algures. A banda fez uma retrospectiva dos 35 anos de carreira, revisitando temas como o genial “Into My Hypercube” (“Nothingface”), “Technocratic Manipulators” (“Dimension Hatröss”), “Order of the Blackguards” (“Killing Technology”), “The Lost Machine” (“The Outer Limits”)… Enfim, uma mão cheia de temas dados à estampa desde 1983 e que ainda hoje soam  a novidade. Regressaram a “The Wake” via “Iconspiracy”, apenas mais um tema que cimenta a prodigalidade do novo disco e, em seguida, Snake (sempre de Super Bock na mão) pergunta ao público: “Quem é que gosta de dançar? Vocês gostam de dançar?” – estava dado o mote para “The Prow” (“Angel Rat”), um tema radio friendly que causou a primeira movimentação séria em frente ao palco. Mas não foram apenas estas as palavras com que Snake interagiu com o público, longe disso, já que o eterno vocalista passou toda a sessão a meter-se com a audiência. “POOOOOOORTO!” – gritou, aludindo ao amor dos nortenhos pelo seu clube de futebol. O melhor ficou para o fim com a incontornável “Voivod” (“War and Pain”), tema de guerra de longa data que cria sempre um circle pit, seja em Portugal ou na Rússia. Snake voltou ao ataque, tripartindo o público e fazendo-o gritar o mítico refrão “Voivod” à vez. Retiraram-se por instantes entre uma sala rendida e regressaram para o encore com “Overreaction” (“Killing Technology”), dando por terminada uma noite com quatro ases.

A vitalidade dos Voivod em 2018 é de uma estranheza tão singular como os conceitos que a banda abordou desde sempre: guerra, tecnologia, ficção científica, vida extraterrestre, holocausto nuclear, a Terra depois dos humanos, etc.. Tanto Chewy, como Snake, como Rocky (que teve uma apresentação ao público ao som de um tema particularmente notável) desdobram-se em movimentos em cima de palco, sempre com Snake a orientar o quarteto e a despender litros de suor a cada prestação. Away, que como o nome indica comanda a bateria, é obviamente menos visível, mas sempre presente, sempre sorridente, como se todos os dias fizesse anos. No final, fizeram questão de se reunirem com os fãs no exterior do Hard Club para fotos, dois dedos de conversa, autógrafos e contar histórias. Em suma, uma das bandas lendárias de metal mais autêntica e despretensiosa de que há memória. Regressemos ao título – será “The Wake” o álbum do ano e o concerto dos Voivod em Portugal o melhor do ano? Debatível. O que é certo é que, no concerto, we were all connected.

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Texto e fotos: João Correia

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[Reportagem] Brujeria + Simbiose + Systemik Viølence (09.12.2018 – Lisboa)

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Brujeria (Foto: Solange Bonifácio)

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Brujeria + Simbiose + Systemik Viølence
09.12.2018 – RCA Club, Lisboa

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A noite começou em literal “anarquia violência” musical – nome que se associa por diversas razões aos Systemik Viølence que nos fizeram viajar até ao underground d-beat japonês, onde manifestaram a sua prática musical e atitude punk de desobediência, agressividade e sujidade, onde o frontman Iggy Musashi conseguiu cativar o público de formas variadas. E como já é costume, misturou-se dentro da multidão, com uma performance absolutamente incansável, cativante e esmagadora.

De seguida, os Simbiose – com toda a eficiência a que já nos habituaram também – descarrilaram a sua energia característica. Com o vocalista Jonhie comunicativo e a cumprimentar o público como usual, ecoaram desdém e repulsão de manifesto com o seu punk / crust / grindcore, reforçando mais uma vez que são a grande instituição musical dentro do género a nível nacional.

Não é usual ter a oportunidade de ver ao vivo superbandas e, ainda para mais, uma tão peculiar como Brujeria o é. Poder assistir, no mesmo palco, a artistas gigantes e de culto, como Shane Embury dos Napalm Death ou o Nicholas Barker – um dos bateristas mais rápidos da história do metal, com uma técnica musical absolutamente explosiva – é um grande privilégio, e assim o foi.  “Juan Brujo” e “Fantasma” abriram as hostilidades de uma celebração ao death grind em que se revistaram temas clássicos. Os Brujeria são uma força musical absolutamente bruta, divertida, barulhenta e politicamente carregada – elementos que tornaram este concerto memorável. Finalizou-se a noite com parte do público – que foi incansável e envolvente desde o início do concerto – em palco e em ambiente de festa no tema “Marijuana”, que encerrou este grande concerto.

Texto e fotos: Solange Bonifácio

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[Reportagem] Alestorm + Skálmöld (05.12.2018 – Graz, Áustria)

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Alestorm (Foto: Lukas Dieber)

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Alestorm + Skálmöld
05.12.2018 – Dom Im Berg, Graz, Áustria

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Ancoramos a nau longe da margem e remamos o nosso barco em direcção a terra. As águas do rio Mur estavam escuras e agitadas. Passei o dedo na esteira da água e saboreei algo doce que se espalhava. Rum. Estávamos no caminho certo. Olhei para o topo da montanha e vi o X do nosso mapa: a torre com o Grazer Uhrtum, o relógio construído pouco antes da batalha de Cartagena, que marcava o tesouro da lenda de Alestorm. Ao chegar ao sopé da montanha, barris de rum, ganchos e tricórnios! Casacos de veludo e bandoleiras, espadas curvas e canecas de madeira a transbordar, inundando o chão.

Não éramos os únicos nesta caça ao tesouro e a entrada da caverna estava barrada. Antes de ouvirmos as crónicas do velho escocês e do seu fiel pato de ar, teríamos de enfrentar os guardiões Skálmöld.

Vindos da terra fria, estes sobreviventes da Sturlungaöld, a maior batalha ocorrida na Islândia, e que já lutaram lado-a-lado com a orquestra Sinfóníuhlijómsveit Íslands, aqueceram as hostes com histórias de “Baldur”, “Börn Loka” ou “Sorgir”, álbum lançado em Outubro deste ano.

Os temas narrados em fornyrðislag (técnica nórdica repleta de aliterações) e sléttubönd (versos islandeses com rimas palindrómicas) garantem um groove e um balanço único ao vivo, como cânticos de batalha.

“Áras”, “Gleipnir”, “Sverðið” ou “Móri”, esta com uma introdução vocal de Helga Ragarsdóttir, que substitui o talentoso Gunnar Ben nos teclados, foram cantadas em uníssono, para surpresa dos próprios guardiões.

Visivelmente agradecidos e entusiasmados, debitaram cacetadas com o seu martelo nórdico, fazendo abanar cabeças ao som de riffs NWOBHM com algum balanço de thrash metal, mantendo a base épica folk sempre presente. E antes de se tornarem um ancião chato, caquéctico e repetitivo, terminaram a sua torrente com “Að Vetri” e “Kvaoning”, empurrando os ventos da montanha para os mares navegados por Alestorm.

Guardiões enfrentados, a caverna estava agora à nossa mercê.
Aguardávamos um velho escocês de perna de pau e pala no olho. Apareceram-nos cinco marmanjos com ar de skaters dos anos 80 viciados no Porkys, prontos para a depravação, histórias bebedolas de piratas e infinitos brindes aos seus elixires predilectos: rum e cerveja.

Com Christopher Bowes ao leme, os Alestorm começaram a festa… E os piratas não precisaram de ordens. Sentaram-se no chão e remaram ao ritmo de “1741 The Battle of Cartagena”; abraçados, balouçaram-se com a canção de embalar “Nancy the Tavern Wench”; vibraram com os solos a la 80s do guitarrista Bobo; “Bar und Imbiss” levou-os ao rubro com a sugestão de que era uma música sobre matar alemães e beber até não poder mais… E quando “Hangover” foi antecedida por Beef Guy a emborcar quatro cervejas de penalti e “Captain Morgan’s Revenge” por uma wall of death desengonçada, a demência de alto mar tomou lugar, permanecendo até ao encore com “Drink”, “Wolves of the Sea” e “Fucked with an Anchor”.

No final, como verdadeiros piratas depois de uma noite de deboche, muitos por ali ficaram a afogar as mágoas… Lado-a-lado com os membros da banda que não arredaram pé.

Não percam a oportunidade de enfrentar Alestorm em alto mar, em breve atracados em Lisboa, pois é dos concertos mais divertidos que poderão assistir. Alestorm vivem o que propõe: True Scottish Pirate Metal com humor mordaz, histórias de antologia, excelente profissionalismo e muita cerveja.

Texto: Daniel Antero
Fotos: Lukas Dieber

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[Nacional] Equaleft: o desafio que se segue (c/ Miguel Inglês)

Diogo Ferreira

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Foto: João Fitas

Quase cinco anos depois de “Adapt & Survive”, os portuenses Equaleft chegam finalmente ao segundo longa-duração – chama-se “We Defy” e, segundo o vocalista Miguel Inglês, «o desafio deste álbum é a forma mais dinâmica com que soamos e a própria mistura do peso e do groove que nos caracteriza». O repto deste novo trabalho passa ainda por experiências que, garantimos, têm tudo para resultar: «Temos agora alguns ambientes através de sintetizadores, o que fez com que o álbum soe muito mais intenso», refere Inglês, aguçando o apetite auditivo ao rematar que «o primeiro single, que em breve vamos disponibilizar, espelha isso mesmo». «Com a gravação do álbum sinto que já que crescemos musicalmente e isso vai-se reflectir também em palco», esperando «poder surpreender quem já nos conhece e também chegar cada vez mais a um público variado».

Na derradeira recta no que à finalização do disco diz respeito, o vocalista conta que «falta só a masterização e uns pequenos toques no artwork». O lançamento de “We Defy” acontecerá no início de Fevereiro de 2019 e pela Raising Legends e Raging Planet.

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