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[Reportagem] XXI SWR Barroselas Metal Fest: Crisma (dia 3)

João Correia

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Carpathian Forest (Foto: Pedro Félix)

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Os dois primeiros dias do festival confirmaram que o SWR está de pedra e cal. Suffocation, Mortiis, Nifelheim, Filii Nigrantium Infernalium, Mortuary Drape, Exhorder, Master’s Hammer… em Portugal – só no SWR é que se consegue assistir a tanta banda lendária em apenas dois dias. Mas ainda estavam reservadas algumas surpresas para o último capítulo da XXI edição do festival. O terceiro dia começou com a presença de nada menos do que três bandas brasileiras: Helllight (funeral doom metal) e Jackdevil (thrash metal) no palco SWR Arena e os Andralls (thrash metal) no palco 2. Cerca das 19:10, agora no palco principal, os bascos Altarage abençoaram o público com o seu blackened death metal muito peculiar. Conhecemo-los melhor com “Endinghent”, lançado em 2017 pela Season of Mist, e estávamos particularmente interessados em ver a banda ao vivo. Não desapontam, qual relógio de alta gama perfeitamente síncrono, ainda que pequem pelas caras completamente cobertas com túnicas/panos/toalhetes/o-que-lhe-quiserem-chamar que os Portal criaram e que os Mgła ou os The Ominous Circle continuaram quando a coisa ainda era fresca. Após estas bandas, esse truque tornou-se num cliché irritante de que os Altarage só se redimem graças ao seu potente som.

Altarage (Foto: Pedro Félix)

Seguiram-se-lhes os galegos Black Panda, praticantes de punk/crust/d-beat. Considerámos este concerto como o pior dos três dias. Desinspirados, aborrecidos por vezes e sem um fio condutor que nos tivessem orientado durante a narcolepsia que se sentiu durante quase toda a sua actuação. Depois os portugueses Dead Meat e os ingleses Dyscarnate tocaram em simultâneo no palco 3 e no palco 1 respectivamente. Os primeiros a executar uma raça de brutal death metal invulgarmente pesada mesmo para o género e os segundos a trilhar o death metal old-school com uma toada moderna e técnica. Os albicastrenses, que perfazem este ano 25 anos de carreira, andam na senda de promoção de “Preachers of Gore”, datado de finais de 2017, e este é o género de som clássico do SWR – extremamente agressivo, cada vez mais técnico e com contornos brutais graças à adição de Rolando Barros na bateria, bem como perfeitamente profissionais em termos de atitude e desempenho musical. Os Dyscarnate não são tão brutais quanto os Dead Meat, mas em compensação pegam numa fórmula mais do que batida e adicionam-lhe pozinhos de 2018, ora a lembrar nomes de vulto do passado, como Bolt Thrower, ora a lembrar nomes de vulto do presente, como Hour of Penance, e resulta! Para além de um inteligente jogo de vozes, adicionam ritmos bastante groovy, blastbeats estratégicos e uma secção rítmica geral esmagadora. Também a promoverem o seu último registo datado de 2017 (“With All Their Might”), deixaram uma impressão positiva duradoura em quem se deslocou ao palco principal para os receber.

Dead Meat (Foto: Pedro Félix)

Às 21:20 a temperatura de um dia já por si frio desceu 10 graus com a aparição dos Irae no palco 2. Quem já ouviu “Crimes Against Humanity” sabe bem que Vulturius & Cia. não brincam em serviço. Datado de 2017, rapidamente se tornou numa das obras mais badaladas entre os círculos do velho bode e foi certamente um dos melhores registos nacionais do ano passado. À excepção de ligeiros problemas com o som do baixo de J. Goat, rapidamente resolvidos, os Irae deram uma lição de profissionalismo em pouco mais de 40 minutos. A inicial “In The Name Of Satan” e a final “A Um Passo Do Fim” tiveram o efeito desejado: um público rendido à qualidade de um dos nomes mais sonantes do género um pouco por todo o lado e à toada tipicamente conservadora de “no fun/no core/no mosh/no trends”.

Irae (Foto: Pedro Félix)

E os nomes mais sagrados do terceiro dia começaram a subir ao púlpito da catedral com a chegada dos Agathocles. Pouco há para dizer de relevante em relação a uma banda que anda na estrada desde 1987, que foi seminal na evolução do grindcore e que influenciou tanta gente durante quatro gerações com os fundamentais “Theatric Symbolisation Of Life” e “Black Clouds Determinate”. Em 50 minutos, Jan Frederickx e seus acólitos despejaram cerca de duas dezenas de temas extraídos principalmente dos dois discos acima referidos, e de outros, como “Commence to Mince”, “Electrifarce” e “Who Cares”, todos eles clássicos à sua maneira especial. «Olha… estão a tocar Napalm Death!», ouviu-se dizer. Na verdade tratava-se de “The Fog”, uma réplica basicamente exacta de “Scum”, ainda que muito mais cáustica. Bom som e luzes que uma vez mais realçaram a actuação da banda fizeram deste concerto um dos mais esperados do festival. Após, no palco 2, os suecos Suma debitaram uma dose generosa de stoner rock/doom metal com traços de sludge com uma actuação potente, uma das marcas d’água desta banda. Fizerame lembrar outras coisas também, como Melvins, Ministry e Godflesh, e só espanta ser tão ignorada pela generalidade. Malhas que a globalização tece.

Agathocles (Foto: Pedro Félix)

Às 23:40, os cabeças-de-cartaz Carpathian Forest sobem ao palco perante um recinto cheio para os ver. Afinal, a banda de Nattefrost sofreu transformações profundas nos últimos quatro anos e já não tocavam em Barroselas há 12. Apostados em experimentar, alteraram recentemente o seu black metal tradicional e conservador para uma espécie de black n’ roll menos agressivo, mas não menos interessante.  Nattefrost e restante banda apresentaram-se como manda a lei – muito corpse paint, muitas cruzes invertidas, muita roupa dilacerada e a mesma atitude de sempre. Se é verdade que clássicos seminais como “Morbid Fascination Of Death” são fundamentais na setlist dos noruegueses, a meio da actuação interpretaram uma versão de “A Forest”, dos The Cure, o que revelou uma banda apostada em divergir do conceito clássico de “banda de black metal faz cover  de clássico do black metal”. Foi nesta altura que a comunidade mais fashion… perdão… que a comunidade mais trve kvlt abandonou o concerto em vagas, o que só proporcionou aos amantes de música mais espaço para melhor ver a banda. Apresentaram ainda temas novos do seu próximo registo, como “Rock n’ Roll Glory Hole”, durante os quais o frontman não se cansou de brindar o público com bolacha torrada portuguesa. Embora a voz de Nattefrost não estivesse nos melhores dias, uma vez mais as luzes em palco (e o bom som) fizeram com que um concerto acima da média se tornasse numa óptima experiência visual.

Church Of Misery (Foto: Pedro Félix)

Também da Noruega, mas agora a prestar culto ao thrash, seguiram-se os Nekromantheon. Ainda que o seu último registo nobre date de 2012, a contemporaneidade do seu som é marcante e são recomendados sem reservas, tanto para amantes de thrash tradicional como para fãs de bandas menos ortodoxas como Rigor Mortis ou Sadus. Muita atitude e muita agressão em palco fizeram dos Nekromantheon a nossa escolha óbvia para concerto thrash desta edição do SWR. Os sinos batiam 1:30 quando os nipónicos Church Of Misery ocuparam o palco principal e durante uma hora ninguém que estivesse a apreciar o concerto quis saber de mais nada. É interessante verificar que é possível pegar em serial killers e transformar as suas vidas em temas rock contagiantes, mas mais ainda que os irmãos Veiga tiveram a visão de os incluir num festival que geralmente privilegia apenas o som mais extremo. Para finalizar o sermão, os Theriomorphic apresentaram o seu novo EP “Of Fire And Light” e os RDB o seu último LP “Era Matarruana”. Desde que vimos Theriomorphic pela última vez no MHF 2016 que o som da banda sofreu alterações que lhe conferiram mais melodia e mantiveram a agressividade de sempre, e este concerto no SWR teve tudo o que era necessário para a banda se fazer ouvir: bom som e boa resposta por parte do público a uma actuação acima de sólida. Os RDB mudaram a sua toada de grindcore da construção civil para os druidas, as serras, os serranos e os matarruanos. Nada disto faz sentido? Sim, não faz, mas isso não importa, porque um menir de cartão de dois metros de altura em palco faz-nos esquecer de tudo o resto. Destaque para “A Massa Gretou-me A Mão”, com um Gamelas a quase engolir o microfone.

Nekromantheon (Foto: Pedro Félix)

O saldo do XXI SWR Barroselas Metalfest foi muito positivo e é fácil de ver que a organização continua a procurar mais e melhores meios para servir a imensa família que se desloca religiosamente à mesma vila todos os anos. A maior diferença desta edição foi, sem margem para dúvidas, as novas luzes presentes no palco principal e quem quer que as tenha comandado em cada concerto, pois elevaram-nos para experiências visuais inéditas no festival. Mantiveram-se as actividades de sempre: Brutal Soccer, Talks variados, meet and greets das bandas principais e uma atitude que não se encontra em parte alguma do nosso país. A juntar a esta festa rija, conhecem-se sempre caras novas e reencontram-se antigas, sempre de bem com o mundo e com a música. Os organizadores desfazem-se como podem para proporcionar o melhor ambiente e cartaz possível, conscientes de que o crescimento e a evolução são contínuos. Agradecimentos especiais aos irmãos Veiga por uma vez mais facilitarem o nosso trabalho, bem como à Rita Limede por ter sido incansável e à Sofia pela compreensão e apoio prestado durante o festival. E nunca mais chega Abril de 2019…

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Texto: João Correia
Fotos: Pedro Félix

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Out Of Sight Fest 2018: Fitacola

Joel Costa

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É já amanhã que arranca o Out Of Sight Fest! A Ultraje teve uma breve conversa com os Fitacola antes de partirem para Faro.

Quais são as vossas expectativas para o Out Of Sight e o que poderá o público esperar do vosso concerto?

É sempre um prazer para nós poder participar em novos festivais. Esperamos um dia cheio de boa música e um público cheio de energia. O nosso concerto vai ter um reportório que passa pelos pontos altos dos 15 anos da banda e, claro, uma ou duas músicas do novo álbum.

Qual é a banda do cartaz que mais têm curiosidade em ver ao vivo e porquê?

Os To All My friends. É uma banda da qual já acompanhamos o trabalho desde o início e temos curiosidade em ver como resulta ao vivo.

Como avaliam o estado actual da cena punk rock em Portugal?

A cena punk rock tem os seus altos e baixos mas nunca morre. Neste momento está a atravessar um bom período com bandas como Viralata, Artigo21, Tara Perdida ou Fonzie a trabalharem em novos álbuns e a mostrarem que o punk rock em Portugal está vivo. Ainda este ano vamos lançar o nosso novo álbum, que baseia-se na aprendizagem e vivências dos 15 anos de banda. A cena está viva e recomenda-se!

Os Fitacola sobem ao palco do Out Of Sight sexta-feira, dia 14 de Setembro.

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Out Of Sight Fest: Em cartaz (Parte 2)

Joel Costa

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Um novo festival nascerá em Faro! Será nos próximos dias 14 e 15 de Setembro que a cidade algarvia recebe o primeiro Out Of Sight Fest, apresentando um cartaz onde são os nomes do punk e do hardcore que saltam à vista mas que oferece também espaço ao death metal e até mesmo ao rock. A Ultraje destaca alguns dos nomes que vão marcar presença nesta primeira edição do festival.

FITACOLA

Os Fitacola cantam em português e têm uma sonoridade que se aproxima de uns Pennywise ou até mesmo de uns The Offspring. Prestes a lançar um novo disco intitulado “Contratempo”, a banda de Coimbra acrescentará no Out Of Sight um novo parágrafo a uma história com 15 anos.

PRIMAL ATTACK

A cena groove/thrash nacional – principalmente a que se vivia para os lados de Lisboa e Setúbal – precisava de encontrar uma banda capaz de reinventar uma receita antiga e algo gasta, e foi precisamente aí que os Primal Attack entraram. Com uma sonoridade que tem como base um thrash moderno, a banda não segue nenhum atalho quando se trata de providenciar peso, complexidade e diversidade. Um dos nomes com mais potencial que temos no nosso Portugal.

GRANKAPO

As bandas que se vão apresentar no palco do Out Of Sight Fest vão ter diante de si um público bem aquecido e sedento por hardcore, pois por essa altura os Grankapo já lá terão passado. Ainda que não tenham grandes novidades no campo discográfico há alguns anos, os lisboetas vão activar o moshpit e fazer com que haja trovoada nessa noite.

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Semana Bizarra Locomotiva: Hip-hop, Jorge Palma e ginásio

Joel Costa

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Numa conversa onde o tema principal foram os discos que fazem parte da vida de Rui Sidónio, a Ultraje quis saber o que o vocalista e letrista dos Bizarra Locomotiva gosta de ouvir em determinadas situações.

Antes e depois de um concerto dos Bizarra Locomotiva: «Antes ou depois de um concerto de Bizarra não sou muito de ouvir coisas pesadas ou mais carregadas. Normalmente a escolha musical nem é minha. Nós vamos na carrinha e o nosso motorista é quase sempre o Alpha [máquinas], então ouvimos coisas mais alternativas, como hip-hop. [risos] Ouvimos muito hip-hop quando vamos para os concertos de Bizarra, ou então uma coisa mais alternativa. Temos que ter plena noção de que o som que fazemos cansa. É uma coisa que tens que reconhecer quando chegas ao fim de um dia. É intenso, faz sentido mas é algo que também cansa um bocado. Não cansa ouvir mas depois de um concerto eu procuro outra paz para depois extravasar tudo o que tenho a extravasar em cima do palco.»

A dada altura o músico menciona Jorge Palma. A Ultraje pediu para que Rui Sidónio tecesse um pequeno comentário: «No Jorge Palma atraiu-me a palavra. Não sei se conheces o disco “Só”, mas é um disco com ele ao piano, com versões de temas que já tinha. Fez em 2016 vinte e cinco anos e eu fui ver um dos concertos comemorativos, no CCB. É um escritor de letras maravilhoso; quem me dera escrever como ele.»

No ginásio: «No ginásio recorro a duas bandas, que são os Iron Maiden e os Suicidal Tendencies. Nunca falham para treinar! Eu ouço tanta coisa… Mas naqueles dias em que mais nada funciona diria que seria um álbum dos Iron Maiden ou dos Suicidal Tendencies, que é algo que me faz treinar. Músicas como “You Can’t Bring Me Down” e aquelas palavras de ordem que o Mike [Muir, vocalista] tem, são mais ou menos inspiradoras para quem está ali a lutar contra o ferro e muitas vezes contra a falta de vontade.»

Visita a loja online da Rastilho para conheceres as últimas novidades discográficas dos Bizarra Locomotiva, entre elas o mais recente longa-duração “Mortuário” e a re-edição do “Álbum Negro”.

 

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