[Reportagem] Vagos Metal Fest 2017: Vagos, só há um! (Dia 1) | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Reportagem] Vagos Metal Fest 2017: Vagos, só há um! (Dia 1)

DSC_0347(Arch Enemy)

Mais um ano, mais um Vagos Metal Fest (VMF). Depois de desfeitas as dúvidas no ano passado sobre a continuidade de um dos festivais de heavy metal mais icónicos do país, a segunda edição do VMF voltou a apostar no ecletismo metálico a que nos tem habituado: power metal, thrash metal, gothic metal, death metal e grindcore marcaram o primeiro dia do evento de forma faseada e proporcionalmente intensa.

A abrir o certame, os conimbricenses Tales For The Unspoken não deixaram a coisa pela metade – Marco Fresco & Cia. sentem-se como peixes dentro de água em cima do palco, o público sente isso e está criada uma comunhão que tem tanto de simples como de agressiva. Para o final, os “estudantes” escolheram partilhar “N’Takuba Wena” com o público, o que resultou num despique de cantos tribais entre o vocalista e os festivaleiros. “Vocês conseguem fazer melhor”, desafiou Fresco, que recebeu em troca mais e melhores cânticos. Embora curta, a actuação centrou-se imenso no público e, com isso, o colectivo ganhou a aposta. Seguiram-se os germânicos And Then She Came que, mais rock do que metal, trouxeram uma faceta ainda mais catchy e friendly com refrães de rádio e guitarradas que preenchem em conjunto com algumas ferramentas electrónicas na onda daquilo que várias bandas francesas, como Kells e outros, fizeram há uns anos. Aqueles berrinhos de Ji-In Cho no final dalguns versos é que eram dispensáveis…

DSC_0068(Tales For The Unspoken)

Posteriormente, frescos de várias datas em Espanha, foi a vez de os Revolution Within mostrarem por que é que, cada vez mais, chegam, convencem e vencem – a receita resulta no seu híbrido de thrash metal e hardcore pontuado por algum death à mistura e muita, mas mesmo muita dedicação e suor deixados em palco. Assim como aconteceu com os Tales For The Unspoken, o grupo norteado por Raça sofreu de problemas de som durante quase toda a actuação, mas o público presente estava tão concentrado em fazer circle pits e crowd surfing que não deve ter dado pela falha. “From Madness to Sanity” foi o momento mais aclamado da curta (mas, ainda assim, implacável) prestação da banda da Feira; temos a certeza de que ainda ouviremos falar deles este ano. Logo após, tempo para os Gama Bomb e o seu crossover/thrash revivalista. Verdade seja dita: qualquer concerto destes irlandeses do norte é motivo de festa, e esta não foi uma excepção. Vestido com um fato amarelo-esverdeado ou verde-amarelado (ninguém sabe ao certo o que era aquilo) e munido de tesouras azuis (não perguntem, que nós também não encontrámos uma explicação), Philly Byrne agraciou o público com anedota atrás de anedota, muito humor, diversão e, claro, com “Beverly Hills Robocop”, um dos clássicos que melhor interagem com o público. De ressalvar o contacto em português com os festivaleiros – “É muito bom estar aqui a tocar para vocês hoje”, disse num português quase perfeito, levando o público à loucura.

DSC_0142(Revolution Within)

O primeiro grande momento deste Vagos Metal Fest seria construído pelos italianos Rhapsody que estão a despedir-se de vez daquela formação de 1997 que nos deu o álbum “Legendary Tales”. Com Luca Turilli e Fabio Lione – sem querer desfazer nos restantes membros –, a banda de power metal clássico debitou o referido disco e ainda efectuou incursões a “Dawn Of Victory” (2000). Ressalvar, por fim, a excelente forma física destes quarentões – tantos os músculos de Turilli para sacar solos àquela velocidade, como a voz impressionante de Fabio Lione. Como italianos a cantar em inglês, Lione esforçou-se, e bem, para interagir com o público em português quase perfeito.

DSC_0304(Arch Enemy)

E da Suécia com amor, era altura de Arch Enemy. Alissa, Michael, Daniel, Sharlee e Jeff estão no tecto do mundo e foi mesmo com “The World Is Yours” (pertencerá ao novo álbum “Will To Power”) que a banda iniciou hostilidades. Como se não bastasse o início com o último sucesso do quinteto, os suecos não pararam de debitar bala após bala: “War Eternal”, “We Will Rise”, “As The Pages Burn”, “You will Know My Name”, “Dead Eyes See No Future” ou “Nemesis” deixaram o público visivelmente exausto depois da sessão gratuita de agressividade que decorreu do princípio ao fim da actuação. Aforma física e entrega em palco está para lá do impressionante e, quando assim é, só temos de esperar temas oferecidos com exactidão – foi o que aconteceu. Por esta altura, o som parecia já ter melhorado substancialmente, mas, com a entrada em palco dos Wintersun, que tiveram uma prestação irrepreensível em todos os sentidos, os problemas sonoros regressaram, algo que os maestros finlandeses não mereciam depois da exibição de puro virtuosismo musical com que presentearam pela primeira vez o público português. Ainda assim, conseguiram eclipsar a polémica sobre o seu último registo (“The Forest Seasons”) ao apostar nas diversas fases da sua carreira, incluindo “Time” numa performance geral de luxo.

DSC_0360(Wintersun)

Se a Escandinávia já estava em força no primeiro dia, com a chegada dos Therion, a audiência rendeu-se ao inevitável. Os suecos têm a particularidade de agradar a fãs mais antigos e a novos devido a um som fácil de absorver e pleno de criatividade, e prova disso foram temas como “Son of the Sun”, “Typhoon”, “Lemuria” e “Ginnungagap”, sem esquecer “To Mega Therion” e “Cults of the Shadow”, as duas músicas finais do concerto e que fazem parte do imprescindível “Theli”. Ouviu-se o público a gritar “We want more!” Prova superada.

DSC_0455(Therion)

E qual é a banda que, depois das duas da manhã, ainda consegue provocar os circle pits mais violentos do dia? Os Grunt, claro. Boy-Z, Boy-D e Boy-G tomaram o palco de assalto com a sua escrava de serviço para espanto de alguns que não faziam ideia do que esperar de um concerto de Grunt. Sem tempo a perder, os portuenses castigaram os presentes com vergastadas sónicas do melhor grindcore que por cá se faz, aliando ao extremo do metal o extremo da música eletrónica. Se a escrava esteve submissa e imóvel durante mais de metade do concerto, ao som da voz do mestre Boy-G tudo mudou, o que a levou a ser arrastada para a frente do palco para desempenhar a sua função. Curiosamente, a banda mais agressiva do dia acabou por obter o melhor som do dia, algo que foi mais do que merecido para premiar uma prestação sem espinhas. No misogynism – just grind!

DSC_0663(Grunt)

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Texto: Diogo Ferreira e João Correia
Fotos: João Correia

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