[Reportagem] Vagos Metal Fest 2017: “É AQUI, C*RALHO!” (Dia 3) | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Reportagem] Vagos Metal Fest 2017: “É AQUI, C*RALHO!” (Dia 3)

HAMMERFALL 2(Hammerfall)

Ao começo do terceiro e último dia (e após o apocalipse sonoro da véspera), o Vagos Metal Fest (VMF) 2017 já era considerado um sucesso absoluto. Nomes como Soulfly, Primordial, Batushka, Powerwolf e Korpiklaani, que tocaram no segundo dia e que ainda estavam bem presentes nas mentes dos festivaleiros, dançavam de boca em boca num misto de emoção e satisfação. Ainda que o terceiro dia sugerisse uma assistência mais moderada em termos de números, ainda faltavam nove bandas para saciar a gula dos presentes, e coube aos espanhóis Reaktion iniciar a chacina. Praticantes de thrash metal clássico com os pés assentes no presente, nuestros hermanos deram o litro para tentar motivar o público madrugador com uma actuação bastante sólida, mas sem grande sucesso: às 16h ainda se encontrava muito pouco público frente ao palco, o que impediu que a banda promovesse o seu som da melhor forma. Valeu o profissionalismo do colectivo, que mais parecia estar a tocar para uma casa cheia.

Cinquenta minutos depois, e 366 dias passados sobre a edição de “Let’s Raise Hell”, os portugueses Attick Demons regressaram a um dos palcos nacionais mais importantes das sonoridades pesadas. Com uma qualidade de som a roçar a perfeição, e agora perante uma plateia muito mais composta para os apoiar, os nossos demónios centraram a sua prestação no seu último registo, sempre com Artur Almeida a comandar as investidas de heavy metal melódico tradicional do grupo. “Let’s Raise Hell” foi, seguramente, o tema mais cantado pelo público, sempre pronto a repetir “Fomos um povo conquistador. O passado foi de glória. Honremos os egrégios avós – LET’S RAISE HELL!”. Por esta altura, a audiência já era suficiente para sessões de crowdsurfing, coisa que aconteceu amiúde ao longo do concerto dos Attick Demons.

ATTICK DEMONS(Attick Demons)

Seguiram-se os Miss Lava, pregadores de um stoner rock grave e propício para apreciar com uma cerveja na mão. Com um som relativamente deslocado da natureza do certame, não baixaram os braços e carregaram no pedal do peso, o que lhes valeu uma afluência generosa de público interessado no seu evangelho. Em relação ao segundo dia, a qualidade de som aumentou substancialmente, o que muito beneficiou a prestação das bandas em geral. Sem tempo para pausas, foi dos Estados Unidos da América que chegaram os Chelsea Grin, uma das bandas mais esperadas pela quantidade considerável de millenials presentes no VMF. O colectivo de Salt Lake City não estava para delicadezas, a julgar pela inicial “Skin Deep”, e foi mesmo isso que se verificou ao longo dos seus cerca de sessenta minutos em palco com temas como “My Damnation” e “Scratching and Screaming”. Alex Koehler deixou claro o porquê de ser um dos frontman mais badalados entre as novas gerações, não parando quieto por um instante, e encerrou a sua actuação com “Broken Bonds”, um dos temas basilares do grupo. A boa qualidade sonora manteve-se e a assistência crescente começava a preparar-se para os grandes nomes ainda para vir.

MISS LAVA(Miss Lava)

A primeira grande afluência da tarde ocorreu com os thrashers norte-americanos Havok que, cheios de potência, rapidez e solidez, fizeram soar os riffs mais rasgados de todos os três dias passados em Vagos. O Sol arrasador e o cansaço de 48 horas (e ainda faltavam mais algumas para acabar) não foram inimigo de um público que foi sempre incitado por David Sanchez a participar. Caso o lado político da música ainda não tivesse sido propriamente abordado, os Havok fizeram questão de relembrar que os tempos actuais não são fáceis e que a Democracia mais parece uma falsidade, o que os levou, seguidamente, a entoar a famosa “Give Me Liberty… Or Give Me Death”, fechando a actuação com chave de ouro.

De volta à toada core, os norte-americanos Whitechapel subiram ao palco cerca das 21h para gáudio dos milhares de adolescentes – e não só – que marcaram presença no VMF. Apostados em fazer a ponte de ligação entre as diversas faixas etárias, a organização não se esqueceu da camada mais jovem de fãs de metal, contratando para isso alguns dos maiores nomes nacionais e internacionais dentro do metalcore/deathcore para criar uma simbiose intergeracional perfeita. Embora muito mais pesados e com mais groove que os compatriotas Chelsea Grin, o agrupamento não esteve nos seus melhores dias – para além de alguns problemas pontuais de som, a banda apresentou-se visivelmente cansada, o que se reflectiu numa fraca interacção com o público. Nem “Elitist Noes”, que costuma ser sempre o ponto mais alto de um concerto de Whitechapel, foi suficiente para convencer a extensa massa humana presente da vontade da banda. Ainda assim, é de realçar a actuação simplesmente perfeita de Chason Westmoreland (ex-Hate Eternal, ex- The Faceless, ex-Abigail Williams), o prodígio da bateria que substituiu Ben Harclerode dias antes do concerto em Portugal. Fomos informados de que os músicos estavam aborrecidos com problemas pessoais no backstage, possivelmente relacionados com a saída de Harclerode – o Sol não brilha todos os dias.

Se por alguma razão o público presente no recinto para ver Hammerfall achasse que a banda ainda não tinha recuperado da pior forma dos últimos 6 anos, então é com regozijo que dizemos: estavam errados! Considerada a banda de heavy metal que melhor carregou o espírito e o som durante os conturbados anos 90, o colectivo liderado por Oscar Dronjak ofereceu, pura e simplesmente, a ética heavy metal com distinção. Com todos os membros em forma, Joacim Cans é das vozes mais carismáticas do género e Dronjak ainda tem a chama dentro de si. Sempre muito coordenados em palco – quase como uma dança -, o som que saía das colunas era límpido e certinho, o que facilitou a performance de temas como “Blood Bound”, “Glory to the Brave”, “Renegade”, “Bushido”, “Hearts on Fire” ou “Hammer High”, entre outros.

GORGUTS(Gorguts)

De regresso à visceralidade descomprometida, era tempo de Gorguts. Os canadianos já andam nisto há quase trinta anos, tempo suficiente para os colocar no panteão das lendas do death metal mundial, visto que ajudaram a redefinir o género desde o princípio. Luc Lemay e os seus companheiros deram “apenas” um dos melhores concertos do dia, com a particularidade de terem mesmo tido o melhor som da jornada, tal foi a nitidez sonora com que presentearam o público. Focaram a sua actuação principalmente em “Colored Sands”, de 2013, dedicando inclusivamente “Le Toît Du Monde” a um colega da imprensa especializada. “The Carnal State”, “Obscura” e a seminal “An Ocean of Wisdom” foram alguns dos temas mais marcantes que ajudaram a sodomizar os tímpanos da sólida quantidade de público que se encontrava presente para prestar culto aos mestres do death metal progressivo. Raro que é ver uma actuação de Gorguts em Portugal, só podemos agradecer à inteligência emocional da organização pela oferta de mais um concerto de primeira linha em Portugal.

Por fim, foi a vez dos Cough, o nome mais insólito de todo o festival. De facto, e tendo em conta a toada mais tradicional do VMF, a inclusão da banda da Virginia foi de um risco elevado, tanto devido ao som de nicho que pratica (doom/stoner/sludge) como à hora tardia a que tocou; se os norte-americanos seriam uma adição de luxo em qualquer cartaz do SWR Barroselas Metal Fest, no VMF tratava-se de algo muito exótico. Contudo, a banda já tinha à sua espera uma fiel legião de fãs que aguentaram até ao final para mais um concerto raro em terras lusas. Ainda que penosamente arrastados, os temas da banda, hipnóticos e trágicos, causaram curiosidade junto dos presentes menos habituados. Bom som, prestação a roçar o shoegazing e um final original para o maior festival de metal português.

COUGH(Cough)

Durante a actuação de Hammerfall, a Ultraje teve a oportunidade de recolher o feedback de Luís Salgado (Amazing Events) e Silvério Regalado (presidente da Câmara Municipal de Vagos) em relação ao festival: com cerca de 15 000 festivaleiros presentes ao longo dos três dias, a organização considerou que a mesma foi um retumbante sucesso. Salgado prometeu mais e melhor para a edição de 2018, já em andamento, anunciando algumas alterações em termos de infraestruturas e de um compromisso maior da parte da organização em relação ao público fiel do VMF. Por seu lado, Silvério Regalado frisou a importância de um evento como o VMF para a vila de Vagos, enfatizando até que não acreditaria se lhe tivessem dito «há quinze anos atrás que Max Cavalera, um dos nomes de culto do metal mundial, iria um dia tocar em Vagos». Vincou ainda que não só o festival e a vila continuarão a usufruir mutuamente com a cooperação, como esta «nunca será perdida, antes reforçada». Num tom mais jocoso, o autarca afirmou sentir-se tão deslocado que iria equacionar «comprar roupas mais metaleiras» para entrar na normalidade dos três dias do festival.

Grosso modo, o VMF excedeu as expectativas dos mais desconfiados devido a um cartaz tão eclético e por vezes atípico, o que indica que não há fome que não acabe em fartura. Embora ainda se comente a celeuma ocorrida há cerca de três anos com outro festival de nome similar, a frase que mais se ouviu durante os três dias do VMF explica bem o que os festivaleiros pensam sobre o Vagos: «É AQUI, C*RALHO!». Os nossos agradecimentos finais vão para a Margarida Chrystêllo e o Manuel Salvador, que foram incansáveis durante todo o festival e que muito agilizaram as necessidades da Ultraje para realizar uma melhor reportagem e várias entrevistas repartidas pelos três dias.

 

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Texto: Diogo Ferreira e João Correia
Fotos: João Correia

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