Resurrection Fest: Deutsche Technologie [Dia 2] | Ultraje – Metal & Rock Online
Concertos

Resurrection Fest: Deutsche Technologie [Dia 2]

Depois de um primeiro dia em que Suicidal Tendencies, Anthrax e Dropkick Murphys puseram quatro gerações a fazer continência à bandeira americana, era a vez da Germânia provar todo o seu valor – afinal, era dia de Rammstein. Os dados iniciais eram surpreendentes: lotação esgotada, gente de pelo menos oito países presentes e, um pouco por todo o lado, uma enchente de t-shirts da banda saxónica. Ainda assim, seria ilusão pensar que os Rammstein estariam à altura de destronar os concertos do dia anterior? Já lá vamos.

Legacy of Brutality 1

(Legacy Of Brutality, por João Correia)

Ravenblood, Vice-Presidentes (que debitam um grindcore bem fofo) e Tragic Vision iniciaram as invasões teutónicas, tudo ao comando dos nossos sturmtruppen nacionais, os Holocausto Canibal. Ricardo e companhia saíram das trincheiras de motosserra em punho para rechaçar temas como “Necrópsia Cadaverina”, “Lactofilia Destalhada” e com tempo ainda para “Zombie Apocalypse”, um clássico de Mortician que contou com a colaboração de Simón, vocalista dos Legacy of Brutality. Anima, Reality Slap, Boira, The Inspector Cluzo e Teething foram afiando os machados enquanto não chegavam as forças especiais alemãs. Seguiram-se os Legacy of Brutality e, ó meus amigos, não havia mesmo necessidade: o quinteto das Astúrias pratica um death metal brutal, técnico, irrequieto e pujante. Provocaram o primeiro circle pit do dia, bem como crowdsurfing e slam a rodos. A banda já era (bem) esperada, a julgar pelos muitos festivaleiros que trajavam a sua t-shirt.

ANNIHILATOR 1

(Annihilator, por João Correia)

No palco principal, tocaram Killus e Northlane, duas bandas de metalcore que tiveram a infelicidade de tocar para uma audiência composta por fãs dos Rammstein: cuspidelas, garrafas de água atiradas aos membros das bandas e vários outros exemplos de uma falta de respeito vergonhosa. Quem fica com a imagem manchada é o público espanhol, claro. Ainda no palco principal, foi a vez de um dos maiores magos das guitarras de todos os tempos do heavy metal agraciar os milhares de fãs que o esperavam: Jeff Waters e os seus Annihilator preparavam-se para deixar marcas negras. Assim o fizeram – ao som de “W.T.Y.D”, “King of The Kill” e “Never, Neverland”, entre outros clássicos, levaram o público à loucura em apenas 45 minutos. Com tanto thrasher presente ao longo dos três dias, não seria de prever outra coisa.

O segundo dia, muito focado no hardcore e seus derivados, apresentou bandas como Terror, Reality Slap e Deez Nuts, que desempenharam bem o seu trabalho, ainda que algo negligenciado pelo público – parece que ainda existem barreiras e preconceitos no estilo de música mais diverso que é o metal. No palco principal, Architects e Enter Shikari deram dois concertos irrepreensíveis; a grande qualidade do som em geral na segunda etapa do festival ajudou à festa. O público, composto maioritariamente por adolescentes, não se queixou. No Chaos Stage, os Vita Imana muito tentaram, mas não me convenceram – são potentes, são brutais e são iguais a 150 bandas que já ouvi em todo o lado. Já os californianos Warbringer animaram, e bem! Andam na estrada a promover o seu último registo, “Woe To The Vanquished”, que lhes tem valido louvores por toda a imprensa especializada. “Woe To The Vanquished” foi um dos estilhaços da sua actuação, impregnada por muito slam e por uma nuvem de poeira que fazia lembrar uma tempestade no deserto.

ALCEST

(Alcest, por João Correia)

De seguida, Neige e a sua alcateia auxiliaram as forças terrestres a tomar o Desert Stage de assalto, criando uma aliança improvável entre Francónia e Saxónia. Pouco há que dizer dos Alcest para lá de fundamentais nos tempos que correm, e “Kodama”, lançado no ano passado, só ajudou a fortificar ainda mais a paliçada de post-rock/black metal que defende a grande aldeia do metal progressivo e experimental. Percorrendo um pouco a sua carreira, focaram a actuação em “Kodama” para um público visivelmente hipnotizado pela melancolia e desespero tão bem interpretados por Neige. No fim do concerto, saí com a certeza de que tinha presenciado algo de especial, uma daquelas coisas que acontecem muito de vez em quando e que são uma das melhores desculpas para ouvir metal que conheço. Bravo, copains! Entretanto, e ao longe, começavam a avizinhar-se ventos de guerra, com o troar iminente da divisão panzer, em marcha lenta, mas garantida. Depois dos Alcest, tive a oportunidade de, finalmente, ver um dos grupos mais impressionantes do thrash metal actual, os finlandeses Lost Society. Não bastasse a qualidade musical de todos os integrantes da banda, a interacção com o público atinge níveis épicos para uma rapaziada de tão tenra idade. Ainda a promoverem “Braindead”, de 2016, dão gosto de ouvir pelo revivalismo de primeira qualidade que apresentam a cada tema. Entre momentos musicais, Samy (vocalista) sua as estopinhas para manter o público entretido, sem nunca falhar.

Rammstein Oscar Corral 1

(Rammstein, por Oscar Corral – El País)

Precisamente às 00h15, ouve-se uma contagem decrescente em alemão: “zehn, neun, acht, sieben, sechs, funft, vier, drei, zwei, eins… RAMMSTEIN!” Começar sem dizer que, actualmente, os Rammstein são a maior potência mundial dentro da música pesada seria injusto. Na minha inocência de quem nunca tinha assistido a um concerto de Rammstein ao vivo, tinha considerado a prestação de Alcest como a melhor do dia até então, e julguei que os Rammstein não conseguiriam fazer melhor que o colectivo liderado por Neige. Chegado a este concerto, posso dizer com total convicção de que foi o melhor que vi até hoje, e isto é dizer muito quando conheço bem o meu grau de exigência. Após a contagem, duas salvas de fogo de artifício ladearam o local e caiu a enorme cortina que tapava totalmente o bunker… Perdão, o palco. Paul Landers e Richard Kruspe começaram a descer em plataformas elevatórias criadas para o efeito e pouco foi preciso para começarem os clássicos, que duraram até ao final do espectáculo: “Reise, Reise”, “Seemann”, Du Riechst So Gut”, “Stripped” (um original dos Depeche Mode), “Links 2, 3, 4” e “Feuer Frei”, entre outros. Contudo, os momentos que ficarão claramente na memória para os anos vindouros terão que ser “Du Hast”, em que, quase no final da música, o frontman Till Lindemann lançou dois rockets em direcção à torre de controlo de som, a 300 metros, e que, depois de lá embaterem, ricochetearam de volta e, ao atingi-lo, criaram uma explosão de luz, e “Engel”, durante o qual o vocalista se equipou com asas mecânicas que cuspiam labaredas a vários metros de distância. Durante todo o espectáculo, os generais alemães usaram e abusaram da pirotecnia, tanto que, do lado direito do palco, na zona de imprensa, o chão encontrava-se literalmente repleto de cartuchos das explosões que troaram toda a noite. O que diriam as forças combatentes da 2ª Guerra Mundial se soubessem que o futuro seria assim?

Rammstein Oscar Corral 3

(Rammstein, por Oscar Corral – El País)

Ainda houve tempo para assistir aos concertos de Napalm Death e, claro está, dos Animals As Leaders. A banda de Marc Greenway nunca passou de moda, como se viu tão recentemente durante a sua actuação no Moita Metal Fest. Desta feita, e sempre senhores do título de reis do grindcore, semearam o campo à sua frente com minas e outras armadilhas escondidas a apoiar a inquestionável vitória das forças alemãs. Para terem a certeza de que tudo correria como previsto, activaram engenhos clássicos como “Suffer The Children”, “Dead” e “You Suffer”. No outro lado do recinto apresentaram-se ao chamado da pátria os Animals As Leaders, os limpa-trincheiras mais meticulosos de todo o festival. Comandados pelo sempre-pronto Tosin Abasi, os norte-americanos emburreceram os presentes com a sua propaganda musical, nomeadamente com panfletos como “Ka$cade” e “Physical Education”. Depois do concerto dos Animals As Leaders, fui para casa a pensar que, se tivesse uma guitarra… vendia-a.

Limpas todas as trincheiras, e por muito que as forças aliadas tivessem lutado e resistido, a vitória alemã foi esmagadora e não fizeram prisioneiros. Não é que Anthrax, Suicidal Tendencies e Dropkick Murphys não tenham sido fantásticos, de todo – acontece que, ao lado do concerto dos Rammstein, todos os outros concertos empalideceram. De forma mais sucinta, foi seguramente o melhor concerto do festival quando ainda faltava um dia repleto de nomes de primeira linha mundial. Uns marcham, outros mandam marchar.

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