Resurrection Fest: Com Odin do nosso lado [Dia 3] | Ultraje – Metal & Rock Online
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Resurrection Fest: Com Odin do nosso lado [Dia 3]

Com um primeiro dia bem representado pelos Estados Unidos e um segundo dia em que a Alemanha nos presenteou com o que tem de melhor, só faltava cobrir uma região do globo que tanto nos deu ao longo de quase 25 anos – a Escandinávia. Desta feita, os festivaleiros que compareceram ao XII Resurrection Fest puderam contar com quatro bandas mundialmente reconhecidas no cartaz do terceiro dia: os lendários black metallers noruegueses Mayhem e Taake, os death metallers suecos Arch Enemy e os power metallers (também) suecos Sabaton. Ainda que com bandas de muitas outras paragens, tais como Portugal, Estados Unidos, Itália, Inglaterra, Holanda e França, este four of a kind veio a ser a força motriz do terceiro dia do festival.

rsz_heart_attack(Heart Attack, por João Correia)

E foi mesmo a última da lista, a França, que nos apresentou a primeira pérola escondida do dia na forma dos Heart Attack, um exercício de thrash metal moderno com tudo o que o género deve apresentar: muito peso, solos magistrais, uma voz aterradora, blast beats pontuais e uma produção épica. Serão falados muito em breve no panorama de elite musical, seguramente. Bolu2 Death, The Blackjaw e Degraey abriram para a nossa prata da casa, os Revolution Within, que em meia hora tiveram tempo de sobra para mostrar aos presentes de que massa são feitos.

O primeiro concerto no palco principal foi dos espanhóis Morphium. Não sabia bem o que esperar do seu concerto, mas tendem a misturar death metal com gótico e alguma música industrial com metalcore, proporcionando uma abordagem diferente ao metal extremo como o conhecemos. De seguida, mas no Chaos Stage, os Mutant, praticantes de um híbrido de thrash/groove metal progressivo e que muito recomendo, ajudaram, juntamente com os Bury Tomorrow (mais uma banda de metalcore inglesa que não impressionou minimamente), a aquecer as hostes para os Arch Enemy, que depressa se fariam ouvir.

Infelizmente, e devido às cheias ocorridas em Madrid, os brasileiros Krisiun foram forçados a cancelar o seu concerto, o que é apenas mais um sinal do azar que a banda tem tido ultimamente em digressão. Os Quaoar, Adhesive, os nossos grinders Besta e os D.Y.S. beneficiaram desta ausência, com público sedento de som mais agressivo a encontrá-lo no Ritual Stage e no Desert Stage. Foi neste último palco que assistimos ao concerto de Conan, a coqueluche britânica de stoner/doom metal que tem dado que falar um pouco por todo o lado. É compreensível: com “Revengeance” ainda fresco nas memórias de muitos, e graças aos seus temas nórdicos e som com pinceladas de sludge, são o tipo de banda perfeito para pisar o Desert Stage, mais orientado para o progressivo, o experimental e o anything goes; Renata Castagna não fez notar a ausência de Chris Fielding, tal foi o seu à-vontade com o baixo.

rsz_arch_enemy_ultraje-3(Arch Enemy, por Filipe Gomes)

A primeira grande representante do primeiro escalão do heavy metal mundial subiu ao palco encabeçada pela carismática Alissa White-Gluz que, diz-se, trouxe sangue novo aos Arch Enemy. Seja isso verdade ou não, a banda encontra-se nos píncaros da popularidade, atraindo sempre milhares de festivaleiros aos seus concertos. O grupo de Michael Amott beneficiou imenso da adição do mestre da guitarra Jeff Loomis, tão bem conhecido dos tempos dos Nevermore e prova disso foram as rendições de “Ravenous”, “You Will Know My Name” e “We Will Rise”, que se resumem a simplesmente perfeitas. Antes do fim do concerto da banda sueca, dirigi-me ao Ritual Stage para presenciar a magia que os norte-americanos All Out War costumam espalhar nos seus concertos, e a única desilusão que apanhei resumiu-se à pouca quantidade de pessoas que acolheram os mestres do crossover oriundos do outro lado do Atlântico. Ainda deu para ouvir “Claim Your Innocence” e “Condemned to Suffer”, lamentando a ignorância do público em relação ao baluarte que tocava para ele, já em actividade desde 1991.

rsz_lords_of_black_ultraje-1(Lord of Black, por Filipe Gomes)

Parar é morrer, e lá fui eu a correr para apanhar os para mim desconhecidos Lords of Black, uma banda de heavy/power metal espanhola que nos deixou com os queixos a bater no chão, tudo por culpa do virtuosismo de Tony Hernando, que simplesmente disparou solos atrás de solos com um grau de mestria invulgar. Não é que os restantes elementos da banda sejam amadores, tanto que o colectivo foi recentemente considerado uma das novas esperanças do power metal – acontece que, quando Hernando começa a solar, parece que o som dos outros músicos passa para segundo plano. No entanto, o prémio da categoria “concerto mais aguardado do dia” foi directamente para os Mastodon, e não é preciso pensar muito para perceber por quê: Brent Hinds, Brann Dailor, Bill Kelliher e Troy Sanders passaram um mau bocado na vida nos últimos anos devido ao diagnóstico de cancro da mama da esposa de Sanders, bem como das mortes do irmão de Hinds, da irmã de Dailor e da mãe de Kelliher pela mesma maleita, o que resultou no álbum mais ambicioso e sensível dos Mastodon até à data, “Emperor of Sand”. Os norte-americanos iniciaram com “Sultan’s Curse” e acabaram com “Blood and Thunder”, sempre homenageando os seus entes caídos ao longo do set com temas como “Precious Stones”, “Andromeda” e “Steambreather”. Os milhares presentes cantaram vários temas em uníssono, como que a tentar mitigar a dor dos quatro seres vivos em palco, e vi mesmo gente emocionada em determinados momentos do concerto.

rsz_mastodon_ultraje-1(Mastodon, por Filipe Gomes)

Devido a compromissos promocionais, perdi as actuações dos Taake, dos Rancid e dos Orange Goblin, mas a hora das aparições norueguesas estava prestes a iniciar-se com mais uma celebração da missa negra que é “De Mysteriis Dom Sathanas”. Em comparação com o espectáculo do SWR Barroselas em Abril último, o som esteve mais vivo e cristalino – mais tarde, conversámos com Jan Axel “Hellhammer” Blomberg (baterista) e chegámos à mesma conclusão: no Resurrection, o som tinha sido menos cru, mas melhor em termos de qualidade geral. A prestação dos Mayhem foi o que se esperava: coesa, sem pausas para respirar, sempre com o troar dos timbalões de Hellhammer a marcar o ritmo do destino dos perdidos. Para não variar, Attila Csihar deu mais uma lição de teatralidade em palco, assemelhando-se sempre a um espectro que veio para nos ceifar, ainda que com menos adereços. Como pontos altos, destaca-se sempre as três músicas mais intensas da celebração, que neste concerto (e talvez em todos os outros) foram “Funeral Fog”, “Life Eternal” e “De Mysteriis Dom Sathanas”. Por causa do concerto de Mayhem não pude assistir aos não menos lendários Agnostic Front no Ritual Stage, não entendendo a ideia da organização em colocar dois dos nomes maiores do último dia a tocar exactamente em simultâneo, mas seja.

rsz_mayhem(Mayhem, por João Correia)

Sem pausas, e agora no palco principal, foi a vez de Sabaton. Comecemos pelos clichés que toda a gente quer saber: sim, o baterista toca em cima de um tanque; sim, o tanque é real e pesa duas toneladas (imagino o amor que a stage crew sente pelos Sabaton…); sim, o tanque é personalizado e contém duas torretas com lança-chamas; por fim, sim, quando começam a tocar, os Sabaton têm todos os olhos virados para si graças a este mastodonte mecânico. Para não variar, e embora goste do tema belicista da banda, a música diz-me rigorosamente nada, ainda que reconheça o talento dos suecos e das multidões que arrastam a cada concerto.  A interação com o público foi genial, mas também não foi preciso muito devido à ‘orelhudice’ dos temas da banda. No final, disparos de serpentinas coloridas ao som da já clássica “To Hell and Back” deixaram cerca de metade do público presente em Rammstein satisfeito com a actuação.

rsz_sabaton_ultraje-1(Sabaton, por Filipe Gomes)

Mais tarde, encontrámo-nos com Trevor Peres e ainda tivemos tempo de discutir um pouco da actuação dos Sabaton. Também ele não aprecia o tipo de som dos suecos, mas ficou visivelmente impressionado com o tanque e com os gimmicks utilizados pela banda em palco. Despedimo-nos e da próxima vez que o vi foi em cima do palco. «Sinto a vibração das guitarras no corpo todo», disse-me um miúdo, que eu desconhecia, às primeiras notas do concerto de Obituary. Como o entendi bem: em detrimento da técnica ou de temas orelhudos, nenhuma outra banda dentro do espectro do death metal consegue soar como os Obituary, tão potentes que são as guitarras utilizadas de álbum para álbum e tão única que é a voz de John Tardy. Temas intemporais como “Turned Inside Out” e “Chopped in Half” (que me causaram uma bela dor de pescoço no dia seguinte) ou “Don’t Care” foram mote mais que suficiente para as vagas de crowdsurfing que se seguiram a cada tema. John Tardy saudou o público espanhol de forma sucinta: «Salud, Resurrection.» Que os Obituary também tenham muita salud por muitos e bons anos.

rsz_1obituary(Obituary, por João Correia)

Pese o facto de terem existido alguns contratempos menores, o XII Resurrection Fest foi uma experiência totalmente compensadora para os fãs: as bandas em cartaz, as sessões de autógrafos com Suicidal Tendencies, Alcest, Anthrax e Agnostic Front, uma qualidade de som quase sempre perfeita, uma banca gigante de merchandise para as bandas que tocaram ao longo dos três dias e excelentes acessos internos fizeram do festival um dos pontos de paragem obrigatórios na Europa. Se é verdade que há pontos a melhorar em termos gerais por parte da organização, na generalidade tudo decorreu de forma a quebrar as expectativas dos presentes e, nisso, o Resurrection cumpriu. Se esta edição foi a consagração definitiva do festival em todo o mundo, a de 2018 só poderá ser mais do mesmo, ou seja, nada abaixo de impressionante.

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