Sacred Sin: o lado mais negro (entrevista c/ José Costa) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Sacred Sin: o lado mais negro (entrevista c/ José Costa)

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 «Tem sido um processo de aprendizagem, sempre de coração aberto e sempre predisposto a aceitar desafios.»

Em 1993, o panorama do death metal português era o primo mais afastado de toda a Europa. É irrelevante ir ao extremo mencionando a Escandinávia, que dominou o género sem igual durante toda a década de 90; ainda assim, pode-se dar o exemplo da França, um país modesto em relação ao heavy metal e tão próximo de nós e que já contava com uma grande vantagem no que toca a lançamentos e bandas de qualidade: Loudblast, Suppuration, Agressor, Massacra ou Misanthrope serão os exemplos mais expressivos. Faltavam ainda dois anos para Portugal sair de vez do anonimato quando os Sacred Sin, um grupo recente de Sintra, invade os ecrãs dos metaleiros de todo o globo com “Darkside” através do programa Headbanger’s Ball, da MTV. Com esta jogada lograram ser a primeira banda portuguesa divulgada pela MTV em horário nobre e quebraram o tabu do amadorismo com um disco complexo mas fácil de assimilar, técnico q.b. e com uma produção cuidada para a época em cujos riffs e solos de guitarra profissionais e sintetizadores futuristas na linha de Nocturnus foram o incentivo que faltava a tantas e tantas bandas nacionais posteriores que não só se reviam na imagem dos Sacred Sin como tinham sede de, pelo menos, alcançarem o seu sucesso.

Vinte e cinco anos passados sobre “Darkside”, ao nono longa-duração os Sacred Sin entraram numa fase minimalista (mas não menos relevante) com “Grotesque Destructo Art”, o registo de início de 2017 que faz vénia ao death metal da velha-guarda, apontando na direcção de bandas como Grave, Unleashed ou Dismember. De entre os diversos concertos realizados em 2017, apanhámos o José Costa no Butchery At Christmas Time XVIII, na Covilhã, e aproveitámos a oportunidade para saber como correm as coisas no seio da banda. Presentemente reduzidos ao formato de trio, José Costa (baixo/voz), André Silva (bateria) e Marcelo Costa (guitarras) não decresceram a qualidade musical a que os Sacred Sin sempre nos habituaram, não estivesse a banda a três anos de completar três décadas de existência. Certamente que o balanço de quase trinta anos de carreira será o resultado esperado. José Costa concorda. «Pessoalmente, é um balanço positivo. Aprendi e desaprendi muita coisa, a vida ensina-nos sempre muitas coisas, mas enquanto fã e membro de uma banda, faço um balanço positivo. Penso que tem sido um processo de aprendizagem, sempre de coração aberto e sempre predisposto a aceitar desafios.»

O LP anterior a “Grotesque Destructo Art” é hoje adolescente. Em 14 anos acontece muita coisa e geralmente evolui-se proporcionalmente, mas os Sacred Sin preferiram voltar às raízes do género. A diferença entre os dois registos é, aliás, significativa – se “Hekaton – The Return to Primordial Chaos” apresenta composições técnicas, vozes femininas, uma sonoridade limpa e uma produção esmerada, “Grotesque Destructo Art” tem uma produção intencionalmente suja, é primitivo, díssono e directo. Tenha sido por necessidade de variar ou de tomar outro rumo musical, a banda sente-se satisfeita com o produto final. «Depois de lançarmos o EP que sucedeu o “Hekaton” parámos durante quatro anos. Na altura falei com o Tó Pica e fizemos concertos de comemoração dos nossos primeiros trabalhos e, entretanto, surgiu a ideia de gravarmos um disco com o pessoal da velha-guarda. Ou seja, foi também pelo reencontro de velhos amigos que partilhavam a mesma visão, como se nos tivéssemos encontrado nos anos 90 e decidíssemos gravar um disco juntos. [risos] Nesse espírito juntámos ideias e aconteceu. Quanto à produção: acho que devia ser ainda mais suja! [risos] As produções de hoje em dia são plásticas, inorgânicas, demasiado limpas; nós queríamos um som vindo dos anos 90, aqueles discos que gravámos. Nesse sentido não fugimos muito à regra: gravámos a bateria directamente, sem triggers, puro som natural. Utilizámos apenas quatro micros para a bateria, não utilizámos micros para tudo e mais alguma coisa, gravámos como se estivéssemos num estúdio pequeno. A única coisa do disco que difere dos anos 90 é que não o gravámos em simultâneo – cada um de nós foi fazendo a sua parte e o membro seguinte recebia-a. Não é que estivéssemos fartos de um som polido ou técnico, mas boa música também se faz com apenas um micro. Não quero dizer que se deva empobrecer o trabalho final com uma produção fraca, mas a simplicidade da produção faz-me crer que o trabalho ganhou bastante com isso. O que as críticas mais mandam abaixo é a produção, que é precisamente o que eu mais gosto no novo disco. [risos]»

rsz_dsc_0850Foto: João Correia

A produção levanta uma questão: o formato trio (uma raridade na carreira dos Sacred Sin) foi uma orquestração da banda para enfatizar o sentimento old-school? É certo que minimalismo não é sinónimo de indigência, mas acrescentar mais do factor-menos parece ser uma decisão quase propositada. «O formato trio não foi intencional. Começámos com quatro membros. A ideia era o [Luís] Simões tocar connosco, mas não pôde. Experimentámos a três e a cena tem corrido bem. Acho que nos faz falta mais uma guitarra, pois certas partes das nossas músicas são feitas para duas guitarras por causa da questão de harmonia, power, etc.. Já tivemos muitas fases em que fomos três – o nosso disco de 98 foi no formato trio, mas com um teclista, não com um guitarrista. [risos] Fomos um trio desde 97 até 2000, quando saiu o Tó Pica. O “Anguish… I Harvest” foi gravado no formato trio também, apenas com uma guitarra. Ou seja, o núcleo duro foram três elementos durante muito tempo.» Falando no Tó Pica, e a juntar a esse núcleo duro, os Sacred Sin convidaram o Tó, o Rafa e o João Alves, acabando por fazer uma versão dos V12, “Comandos”, um dos hinos do heavy metal português. «[risos] Foi uma experiência óptima. Já tocávamos a música nas festas e quando surgiu a ideia de gravar o disco decidimos incluir o “Comandos” com o Rafa na voz, como é óbvio, e correu muito bem.»

2017 foi um ano de celebração para o death metal, mesmo a nível nacional – Analepsy, Sacred Sin e Disaffected editaram três discos robustos, cada um com o seu estilo dentro do género. No entanto, os Disaffected foram a banda que mais expectativas criou. Afinal, “Vast” é considerado como uma mudança de paradigma no heavy metal português, tanto que, mais de vinte anos após o seu lançamento, ainda é recordado como uma das obras-primas da música pesada nacional. Dada a relevância do disco, ficou a dúvida de por quê um hiato de 17 anos entre esse e o disco seguinte, até porque José Costa foi o vocalista de serviço em ambos. O que teria levado os Disaffected ao silêncio durante tantos anos? «A seguir ao “Vast”, o Joaquim Aires foi o primeiro a sair da banda, pois parou de tocar; a seguir, fui eu por motivos pessoais: trabalho, bandas… Não tínhamos hipótese de estar em mais de uma ou duas bandas. Ele parou durante dois anos porque foi tirar um curso de design de programação. Antes disso era empregado de balcão… Isto para dizer que a vida dá voltas, são opções que tomamos, são prioridades e cada um seguiu a sua vida. Saímos quase todos de bem uns com os outros; com o Quim foi um choque, pois era a pedra basilar dos Disaffected, ficámos chocados com a decisão dele, mas entendemos perfeitamente, ele tinha que seguir a vida dele, não houve rancor.»

Embora o seu “filho” seja Sacred Sin, José Costa multiplica-se entre funções: vocalista, crew-member, baixista, roadie, trabalhos com Tiago Bettencourt, David Fonseca, live musician de Corpus Christii… A música é o estilo de vida a que Costa se dedicou. Há outro projecto interessante em carteira, os Eterna Saudade, um colectivo que pratica um misto de post-metal/shoegaze com doom, música tradicional portuguesa e folk à mistura. «Os Eterna Saudade não são bem metal, embora tenham traços; é outra coisa, mas não é outra coisa. [risos] Mas sim, é um projecto diferente. Já lancei um EP desse projecto, e vem outro a caminho, falta apenas gravar umas vozes. Vou fazendo as coisas com os Eterna Saudade durante os meus tempos livres, vai-se compondo e gravando, e quando aparecem novos elementos para a banda reunimos e damos uns concertos. Temos estado parados, mas quando lançarmos o novo EP, em 2018, voltamos aos espectáculos. É a carta mais forte do baralho, extra Sacred Sin, lógico.»

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