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Sanctuary: pecado original (entrevista c/ Lenny Rutledge)

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Há qualquer coisa de especial e mágico no disco de estreia que os Sanctuary editaram em 1988. “Refuge Denied” marcou uma era do heavy/power metal e influenciou uma quantidade de bandas que, com os olhos postos naquele colectivo que vinha precisamente do berço do estilo que ameaçava matar o heavy metal – Seattle – resistiu, perseverou e carregou a tocha do Som Eterno durante os anos 90. Agora, em mais um acontecimento que parece envolto numa aura de magia, o guitarrista dos Sanctuary, Lenny Rutledge, encontrou num celeiro (!) que fica por cima do seu estúdio de gravação as maquetas originais de “Refuge Denied”, gravadas em 1986, e que tinham tido dois temas apenas editados na demo do mesmo ano. É esse o material, devidamente remasterizado e remisturado por Zeuss, de “Inception”, o disco que chega agora ao mercado. Lenny Rutlege falou connosco sobre ele.

 «Não posso dizer que nos tínhamos esquecido completamente [das gravações originais]. Sabia que tinha algum material (…) e que estava espalhado.»

O comunicado de imprensa distribuído pela editora diz que tinhas as gravações originais deste lançamento num celeiro. Tinhas-te esquecido completamente delas ou pura e simplesmente não sabias onde estavam?
Um pouco das duas coisas. Não posso dizer que nos tínhamos esquecido completamente delas. Sabia que tinha algum material, principalmente de outras bandas com que trabalhei no passado, e que estava espalhado. Não me tinha apercebido, agora que penso nisso, que tinha toda a maquete “Inception” em fita naquele celeiro. E quando a encontrei, estava uma desgraça.

Porque decidiste lançar este material como um título próprio e não, por exemplo, como bónus de um álbum de originais ou de uma compilação?
Pensei que estas eram versões muito boas das músicas. As gravações tinham qualquer coisa, uma abordagem completamente diferente. Havia ali qualquer coisa muito crua, muito própria daquela época. Pensei que era mais do que apenas uma maqueta e agora… Todo o lançamento vai ser muito especial. Vai haver um vinil, um CD, um enorme livro com o vinil e o CD, vai haver um poster, montes de fotos antigas e histórias daquela época para manter tudo dentro do espírito. Até mesmo com o artwork quisemos certificar-nos que o Ed [Repka, designer da capa] fazia algo próximo do “Refuge Denied”, muito daquela altura. Não creio que fosse algo que usássemos necessariamente para uma capa agora, em 2017, mas acho que encaixa mesmo muito bem naquelas gravações daquela era.

Consideraram várias hipóteses para a remistura e remasterização do material ou pensaram imediatamente no Zeuss?
Pensei imediatamente no Zeuss. Ele é um bom amigo nosso e adoramo-lo. Quando encontrei as fitas, levei-as imediatamente a um sítio onde as desidrataram. É um processo que é suposto restaurá-las e impedi-las de se deteriorarem tanto. Depois disso convertemo-las para digital. Depois, por acaso, o Zeuss estava nas redondezas – a produzir o novo disco dos Queensrÿche – e convidei-o a vir até cá e a ouvir o material quando tivesse uma folga. Ele adorou-o, sentiu que havia alguma coisa ali e acreditava que podia melhorá-lo com a remistura e remasterização. E tinha razão… Adoro a forma como ficou. Estou chocado e espantado.

Esta qualidade de som não era possível há uns dez anos, certo?
Seria bem mais difícil, acho eu, porque não fizemos overdubs, não regravámos partes, nada disso. Só queríamos remisturar e remasterizar, porque conheço muitas bandas que regravam os seus álbuns de estreia… E era algo que não queríamos fazer. Queríamos que as pessoas conseguissem ouvir, mesmo de uma forma algo crua, que o material original tinha sido remisturado e remasterizado por um profissional que sabe mesmo obter o som certo, usar o processamento certo e fazer as coisas bem. Há alguns anos atrás não sei se ele teria conseguido fazer isto. Existe imensa tecnologia agora.

«Queríamos que este lançamento tivesse a sua própria identidade separada.»

Há pouco falaste da capa do disco. Deram liberdade total ao Ed Repka para desenhar a capa ou passaram-lhe algum briefing de que queriam uma ligação à capa do [álbum de estreia] “Refuge Denied”?
Mencionámos-lhe que queríamos algo na onda do “Refuge Denied”, mas diferente; não queríamos exactamente uma cópia da capa dos disco. Ele falou em fazer uma espécie de sketch anterior da capa do “Refuge Denied”, mas não achámos assim tão boa ideia. Queríamos que este lançamento tivesse a sua própria identidade separada. Dissemos-lhe que o revólver e o padre teriam que fazer parte do desenho… Essas eram as duas condições essenciais. Depois ele sugeriu a igreja e todo o resto do fundo. Também tivemos um tipo na Century Media – o Stefan Franke – que nos ajudou com algumas ideias conceptuais. Foi um trabalho conjunto da banda, do nosso gestor de produto e do Ed Repka.

O que te lembras da vida da banda na altura destas gravações? Tens uma recordação clara desses tempos?
Lembro-me de algumas coisas. Lembro-me que fizemos as gravações em duas sessões diferentes. Gravámos as [faixas] “Battle Angels” e “Soldiers Of Steel” num estúdio muito bom – o mesmo em que os Queensrÿche fizeram os seus dois primeiros discos –, mas como não tínhamos dinheiro suficiente e estávamos a pagar do nosso bolso só lá captámos duas canções, na altura com um baixista diferente, que se chamava Rich Furtner. Foi uma experiência muito boa. Mas depois também queríamos gravar as outras sete músicas, por isso fomos para um estúdio mais barato, que gravava em 16 pistas. E essa experiência foi um pouco mais desafiadora… Era um estúdio pequeno num bairro muito mau. Acho que ainda encontrámos alguma coca numa das fitas. Havia muitos problemas técnicos, nem tudo o que gravámos foi devidamente arquivado… Uma vez havia tão poucas pistas disponíveis, só tínhamos alguns microfones na bateria e os címbalos não foram correctamente micados. O Zeuss teve de fazer um trabalho quase criativo para que algumas partes da bateria fossem audíveis. Teve de recuperar muito do trabalho que gravámos ali… Chamava-se Studio One e era no White Center [em Seattle]. Ele fez um excelente trabalho em trazer essas músicas de volta à vida.

«Estávamos bastante entusiasmados e esta foi a maqueta que entreguei ao Dave Mustaine quando o conheci, e isso definitivamente abriu-nos a porta.»

Tinhas alguma ideia na altura que estavam a gravar música que se destacaria e levaria a banda longe no mundo do metal?
Estávamos bastante entusiasmados e esta foi a maqueta que entreguei ao Dave Mustaine quando o conheci, e isso definitivamente abriu-nos a porta. Estávamos satisfeitos com o que tínhamos e considerávamos que as canções tinham qualidade, mas não sabíamos onde podíamos chegar.

Que balanço podes fazer da reunião dos Sanctuary até agora?
Até agora divertimo-nos muito, tocámos em imensos festivais e fomos em digressão com os Overkill, que são um grupo de tipos fantásticos com os quais nos divertimos muito na Europa. Temos uma série de festivais onde vamos estar este ano na Europa também… Esperamos cumprir uma nova digressão em nome próprio ou com outra banda ainda este ano também nos Estados Unidos.

Como estão em termos de material novo para um álbum de originais?
Estamos a trabalhar nisso. Já temos boa parte da música escrita e até agora é bastante agressiva e mordaz. Diria que já temos mais de metade da música composta, mas ainda estamos um pouco longe das gravações. Não me parece que entremos em estúdio nos próximos seis a oito meses. Ainda devemos demorar algum tempo.

«Estamos a trabalhar [no novo álbum]. Já temos boa parte da música escrita e até agora é bastante agressiva e mordaz.»

Como é que este material antigo te afecta a ti e à composição de nova música dos Sanctuary? Achas que pode constituir uma influência?
Não sei… De certa maneira acho que sim. Julgo que a mordacidade, a agressividade e o poder cru destas gravações podem ser. Há qualquer coisa [nas gravações agora recuperadas] que nos faz considerar aquele vibe antigo. Por isso suponho que nos influencie um pouco. Não acho que acabemos a soar assim, claro, mas podemos definitivamente ser influenciados pelo espírito e continuar o nosso caminho para a frente.

Achas que a decisão do Warrell Dane de ressuscitar os Nevermore pode atirar os Sanctuary para um novo hiato no futuro?
[Risos] Não tenho a certeza se os Nevermore vão voltar. Sei que ele faz digressões com a banda com que toca a solo e tocam material de Nevermore, mas tenho as minhas dúvidas que a banda regresse ao activo a não ser que ele recrute pessoas completamente diferentes. Não quero falar por ninguém, mas não creio que isso vá acontecer. Tenho a certeza que ele vai continuar a tocar com a banda a solo, mas em relação ao resto apenas o tempo o dirá. Quanto aos Sanctuary, aceitaremos o que quer que aconteça. Se ele conseguir fazer ambas as coisas, fará ambas as coisas. É difícil dividir o tempo entre várias bandas, mas estamos a gerir as coisas.

Não tocaste em nenhuma banda conhecida de metal entre 1992 e 2010. O que fizeste nesse período de tempo?
Toquei em algumas bandas locais, produzi algumas maquetas, produzi inclusivamente a maqueta que os Nevermore gravaram antes de editarem o [álbum de 1999] “Dreaming Neon Black”. Continuei a ser músico, a tocar cenas pesadas, mas por volta de 1999 arrumei a maior parte do meu material e continuei a tocar apenas guitarra acústica por muitos anos. Depois em 2009 decidi tentar uma nova oportunidade no metal, eu e o Darrell voltámos a juntar-nos, reactivámos a nossa amizade, começámos a falar de uma possível reunião e assim que reparámos estávamos a escrever canções. Correu bem e acho que o facto de eu ter feito uma pausa e ter tocado música diferente a solo fez-me encarar as coisas de um modo um pouco diferente a abordar o meu estilo de composição de outra forma. Antigamente era uma abordagem meio sob pressão; de certa forma a pausa ajudou.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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