Sanctuary: pecado original (entrevista c/ Lenny Rutledge) | Ultraje – Metal & Rock Online
Entrevistas

Sanctuary: pecado original (entrevista c/ Lenny Rutledge)

16196684_1384865938253984_1113351966_o

Há qualquer coisa de especial e mágico no disco de estreia que os Sanctuary editaram em 1988. “Refuge Denied” marcou uma era do heavy/power metal e influenciou uma quantidade de bandas que, com os olhos postos naquele colectivo que vinha precisamente do berço do estilo que ameaçava matar o heavy metal – Seattle – resistiu, perseverou e carregou a tocha do Som Eterno durante os anos 90. Agora, em mais um acontecimento que parece envolto numa aura de magia, o guitarrista dos Sanctuary, Lenny Rutledge, encontrou num celeiro (!) que fica por cima do seu estúdio de gravação as maquetas originais de “Refuge Denied”, gravadas em 1986, e que tinham tido dois temas apenas editados na demo do mesmo ano. É esse o material, devidamente remasterizado e remisturado por Zeuss, de “Inception”, o disco que chega agora ao mercado. Lenny Rutlege falou connosco sobre ele.

 «Não posso dizer que nos tínhamos esquecido completamente [das gravações originais]. Sabia que tinha algum material (…) e que estava espalhado.»

O comunicado de imprensa distribuído pela editora diz que tinhas as gravações originais deste lançamento num celeiro. Tinhas-te esquecido completamente delas ou pura e simplesmente não sabias onde estavam?
Um pouco das duas coisas. Não posso dizer que nos tínhamos esquecido completamente delas. Sabia que tinha algum material, principalmente de outras bandas com que trabalhei no passado, e que estava espalhado. Não me tinha apercebido, agora que penso nisso, que tinha toda a maquete “Inception” em fita naquele celeiro. E quando a encontrei, estava uma desgraça.

Porque decidiste lançar este material como um título próprio e não, por exemplo, como bónus de um álbum de originais ou de uma compilação?
Pensei que estas eram versões muito boas das músicas. As gravações tinham qualquer coisa, uma abordagem completamente diferente. Havia ali qualquer coisa muito crua, muito própria daquela época. Pensei que era mais do que apenas uma maqueta e agora… Todo o lançamento vai ser muito especial. Vai haver um vinil, um CD, um enorme livro com o vinil e o CD, vai haver um poster, montes de fotos antigas e histórias daquela época para manter tudo dentro do espírito. Até mesmo com o artwork quisemos certificar-nos que o Ed [Repka, designer da capa] fazia algo próximo do “Refuge Denied”, muito daquela altura. Não creio que fosse algo que usássemos necessariamente para uma capa agora, em 2017, mas acho que encaixa mesmo muito bem naquelas gravações daquela era.

Consideraram várias hipóteses para a remistura e remasterização do material ou pensaram imediatamente no Zeuss?
Pensei imediatamente no Zeuss. Ele é um bom amigo nosso e adoramo-lo. Quando encontrei as fitas, levei-as imediatamente a um sítio onde as desidrataram. É um processo que é suposto restaurá-las e impedi-las de se deteriorarem tanto. Depois disso convertemo-las para digital. Depois, por acaso, o Zeuss estava nas redondezas – a produzir o novo disco dos Queensrÿche – e convidei-o a vir até cá e a ouvir o material quando tivesse uma folga. Ele adorou-o, sentiu que havia alguma coisa ali e acreditava que podia melhorá-lo com a remistura e remasterização. E tinha razão… Adoro a forma como ficou. Estou chocado e espantado.

Esta qualidade de som não era possível há uns dez anos, certo?
Seria bem mais difícil, acho eu, porque não fizemos overdubs, não regravámos partes, nada disso. Só queríamos remisturar e remasterizar, porque conheço muitas bandas que regravam os seus álbuns de estreia… E era algo que não queríamos fazer. Queríamos que as pessoas conseguissem ouvir, mesmo de uma forma algo crua, que o material original tinha sido remisturado e remasterizado por um profissional que sabe mesmo obter o som certo, usar o processamento certo e fazer as coisas bem. Há alguns anos atrás não sei se ele teria conseguido fazer isto. Existe imensa tecnologia agora.

«Queríamos que este lançamento tivesse a sua própria identidade separada.»

Há pouco falaste da capa do disco. Deram liberdade total ao Ed Repka para desenhar a capa ou passaram-lhe algum briefing de que queriam uma ligação à capa do [álbum de estreia] “Refuge Denied”?
Mencionámos-lhe que queríamos algo na onda do “Refuge Denied”, mas diferente; não queríamos exactamente uma cópia da capa dos disco. Ele falou em fazer uma espécie de sketch anterior da capa do “Refuge Denied”, mas não achámos assim tão boa ideia. Queríamos que este lançamento tivesse a sua própria identidade separada. Dissemos-lhe que o revólver e o padre teriam que fazer parte do desenho… Essas eram as duas condições essenciais. Depois ele sugeriu a igreja e todo o resto do fundo. Também tivemos um tipo na Century Media – o Stefan Franke – que nos ajudou com algumas ideias conceptuais. Foi um trabalho conjunto da banda, do nosso gestor de produto e do Ed Repka.

O que te lembras da vida da banda na altura destas gravações? Tens uma recordação clara desses tempos?
Lembro-me de algumas coisas. Lembro-me que fizemos as gravações em duas sessões diferentes. Gravámos as [faixas] “Battle Angels” e “Soldiers Of Steel” num estúdio muito bom – o mesmo em que os Queensrÿche fizeram os seus dois primeiros discos –, mas como não tínhamos dinheiro suficiente e estávamos a pagar do nosso bolso só lá captámos duas canções, na altura com um baixista diferente, que se chamava Rich Furtner. Foi uma experiência muito boa. Mas depois também queríamos gravar as outras sete músicas, por isso fomos para um estúdio mais barato, que gravava em 16 pistas. E essa experiência foi um pouco mais desafiadora… Era um estúdio pequeno num bairro muito mau. Acho que ainda encontrámos alguma coca numa das fitas. Havia muitos problemas técnicos, nem tudo o que gravámos foi devidamente arquivado… Uma vez havia tão poucas pistas disponíveis, só tínhamos alguns microfones na bateria e os címbalos não foram correctamente micados. O Zeuss teve de fazer um trabalho quase criativo para que algumas partes da bateria fossem audíveis. Teve de recuperar muito do trabalho que gravámos ali… Chamava-se Studio One e era no White Center [em Seattle]. Ele fez um excelente trabalho em trazer essas músicas de volta à vida.

«Estávamos bastante entusiasmados e esta foi a maqueta que entreguei ao Dave Mustaine quando o conheci, e isso definitivamente abriu-nos a porta.»

Tinhas alguma ideia na altura que estavam a gravar música que se destacaria e levaria a banda longe no mundo do metal?
Estávamos bastante entusiasmados e esta foi a maqueta que entreguei ao Dave Mustaine quando o conheci, e isso definitivamente abriu-nos a porta. Estávamos satisfeitos com o que tínhamos e considerávamos que as canções tinham qualidade, mas não sabíamos onde podíamos chegar.

Que balanço podes fazer da reunião dos Sanctuary até agora?
Até agora divertimo-nos muito, tocámos em imensos festivais e fomos em digressão com os Overkill, que são um grupo de tipos fantásticos com os quais nos divertimos muito na Europa. Temos uma série de festivais onde vamos estar este ano na Europa também… Esperamos cumprir uma nova digressão em nome próprio ou com outra banda ainda este ano também nos Estados Unidos.

Como estão em termos de material novo para um álbum de originais?
Estamos a trabalhar nisso. Já temos boa parte da música escrita e até agora é bastante agressiva e mordaz. Diria que já temos mais de metade da música composta, mas ainda estamos um pouco longe das gravações. Não me parece que entremos em estúdio nos próximos seis a oito meses. Ainda devemos demorar algum tempo.

«Estamos a trabalhar [no novo álbum]. Já temos boa parte da música escrita e até agora é bastante agressiva e mordaz.»

Como é que este material antigo te afecta a ti e à composição de nova música dos Sanctuary? Achas que pode constituir uma influência?
Não sei… De certa maneira acho que sim. Julgo que a mordacidade, a agressividade e o poder cru destas gravações podem ser. Há qualquer coisa [nas gravações agora recuperadas] que nos faz considerar aquele vibe antigo. Por isso suponho que nos influencie um pouco. Não acho que acabemos a soar assim, claro, mas podemos definitivamente ser influenciados pelo espírito e continuar o nosso caminho para a frente.

Achas que a decisão do Warrell Dane de ressuscitar os Nevermore pode atirar os Sanctuary para um novo hiato no futuro?
[Risos] Não tenho a certeza se os Nevermore vão voltar. Sei que ele faz digressões com a banda com que toca a solo e tocam material de Nevermore, mas tenho as minhas dúvidas que a banda regresse ao activo a não ser que ele recrute pessoas completamente diferentes. Não quero falar por ninguém, mas não creio que isso vá acontecer. Tenho a certeza que ele vai continuar a tocar com a banda a solo, mas em relação ao resto apenas o tempo o dirá. Quanto aos Sanctuary, aceitaremos o que quer que aconteça. Se ele conseguir fazer ambas as coisas, fará ambas as coisas. É difícil dividir o tempo entre várias bandas, mas estamos a gerir as coisas.

Não tocaste em nenhuma banda conhecida de metal entre 1992 e 2010. O que fizeste nesse período de tempo?
Toquei em algumas bandas locais, produzi algumas maquetas, produzi inclusivamente a maqueta que os Nevermore gravaram antes de editarem o [álbum de 1999] “Dreaming Neon Black”. Continuei a ser músico, a tocar cenas pesadas, mas por volta de 1999 arrumei a maior parte do meu material e continuei a tocar apenas guitarra acústica por muitos anos. Depois em 2009 decidi tentar uma nova oportunidade no metal, eu e o Darrell voltámos a juntar-nos, reactivámos a nossa amizade, começámos a falar de uma possível reunião e assim que reparámos estávamos a escrever canções. Correu bem e acho que o facto de eu ter feito uma pausa e ter tocado música diferente a solo fez-me encarar as coisas de um modo um pouco diferente a abordar o meu estilo de composição de outra forma. Antigamente era uma abordagem meio sob pressão; de certa forma a pausa ajudou.

Topo