Santa Maria Summer Fest: Arrastando cadáveres por Amesterdão, Barcelona, Berlim e Lisboa (dia 2) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Santa Maria Summer Fest: Arrastando cadáveres por Amesterdão, Barcelona, Berlim e Lisboa (dia 2)

Ao segundo dia, percebi que “é já ali” se traduz por “30 minutos a andar”. Bem-vindos a Beja, onde os conceitos de espaço e tempo desaparecem e onde a única constante é o calor.

Tenho que insistir no ecletismo de festival: no segundo dia, tudo começou com um cantautor alentejano, de seu nome Paulo Colaço. O músico toca viola campaniça, um instrumento folclórico de 10 cordas, e alia o humor alentejano a um tipo de som endémico ao sudoeste alentejano. Dizer que se trata de um stand-up comedian com uma viola não é fugir à verdade, e o headbanging mais violento que vi ontem foi durante a sua actuação. No palco secundário, logo após, tocou A Coruja, um colectivo de Beja que mescla música folclórica com algum rock progressivo, utilizando para isso piano, violino e flauta a acompanhar os instrumentos clássicos do rock. Agradáveis ao ouvido, foram mais uma mostra do que melhor se faz numa região geralmente esquecida pelo resto do país.

E o peso começou às 19h com os eborenses Process of Guilt. Fornecedores de uma mistura de sludge/doom a que se alia uma dose de industrial à la Godflesh/Pitchshifter em princípio de carreira, detonaram os presentes com o sol ainda no alto. Três anos passados sobre o seu último trabalho, seria interessante ouvir falar um pouco mais sobre este agrupamento, visto que tem tudo para resultar. Realço o vocalista Hugo Santos, a quem justamente chamo o Justin Broadrick português.

NADRA(Naðra)

Enquanto limava arestas para a entrevista com Krisiun, ia ouvindo os Naðra a uns escassos 50 metros. O black metal islandês está na moda por boas razões, e os Naðra fazem parte desse rol. Na estrada a promover “Form”, revisitaram também “Allir vegir til glötunar”, o seu primeiro trabalho, onde apresentam um black metal moderno, mas sempre incisivo e cortante. É curioso verificar que os elementos da banda são todos muito jovens e que partilham funções com os Misþyrming.

KING DUDE(King Dude)

Mas King Dude tocou de seguida, e quase que foi injusto para todas as outras bandas que se apresentaram no segundo dia. Bastante esperados pelo público, os norte-americanos iniciaram as hostilidades delicodoces com “Holy Christos”, extraído do último álbum, “Sex”. Ao longo de uma hora, foi perfeitamente visível que uma grande fatia do público estava lá para ver Thomas Jefferson Cowgill e seus acompanhantes. Centrado num universo musical muito específico, o dark neo-folk, é impressionante verificar quão bem se adequa a presença destes nativos de Seattle num festival de metal. Cruzando pelos caminhos menos percorridos de Bauhaus e de toda a galeria de mitos dos anos 80, o colectivo ainda oferece bastante Americana (por vezes, fazem lembrar Reverend Horton Heat), mas o que mais impressiona é o facto de os seus integrantes parecerem personagens saídas de Twin Peaks. Para quem nunca os tinha visto ao vivo, como eu, foi certamente o melhor concerto do segundo dia.

URFAUST(Urfaust)

Logo após, o dueto holandês Urfaust brindou-nos com o seu black metal atmosférico, quase ritualístico. Se o último longa-duração não recebeu grandes louvores por parte da imprensa, ao vivo a coisa muda de figura: emergem o público na sua prestação e fazem questão de que se lhes preste culto; focaram a sua prestação em “Empty Space Meditation”, o que resultou numa performance moderadamente original.

MÃO MORTA1(Mão Morta)

Cerca das 23h subiram ao palco os novos/velhos poetas de várias gerações, norteados pelo exuberante Adolfo Luxúria Canibal. Os Mão Morta não precisam de provar rigorosamente nada a quem quer que seja, mas insistem em abrir feridas já por si profundas com cada actuação. O simbolismo e a imagética que Adolfo tão bem representa parecem saídos directamente do Grand Guignol, onde loucura, morte e depravação unem esforços para fazer passar a mensagem ao público. “Oub’lá”, “Anarquista Duval”, “Amesterdão”, “Barcelona”, “Berlim” e “Lisboa” foram devidamente revisitados, bem como “Arrastando o Seu Cadáver”, culminando numa prestação um pouco acima de morna e que foi devidamente acompanhada pelo público. Num festival onde pontuam bandas de metal, “Cão da Morte” e “Vamos Fugir” teriam feito as delícias de alguns, com certeza.

KRISIUN2(Krisiun)

Seguiram-se os islandeses Misþyrming, que praticam um black metal épico e melódico. São competentes, energéticos e orelhudos, apenas gostaria de perceber melhor o que se passa em termos líricos. No entanto, por volta da uma da manhã todos se juntaram no palco principal no meio da escuridão total. Ainda com o palco completamente às escuras, ouvimos alguém dizer em português do Brasil “Portugal, se prepare: nós vamos lhe usar!”. Na verdade, isto não aconteceu, mas quando os Krisiun começaram a sua actuação, poderia muito bem ter acontecido. O power trio de Porto Alegre veio, viu e venceu perante uma plateia especada com tamanha agressão: “Ravager”, “Bloodcraft”, “Blood of Lions”, “Descending Abomination” e a cover “Ace of Spades”, dos Motörhead, a homenagear Lemmy Kilmister, coroaram a prestação da banda mais extrema da América do Sul, com Alex Camargo sempre agradecendo aos seus irmãos portugueses e estando gratos por falarem de novo “a língua de Camões”.

Para finalizar, os Reactive Lust apresentaram uma sonoridade gótica/industrial dançável, mas não menos obscura. O segundo dia foi, de longe, o melhor do festival até ao momento, algo que com certeza irá mudar com o dia de hoje, terceiro e último, muito por causa das tão esperadas actuações dos israelitas Orphaned Land e dos norte-americanos Exodus. A Ultraje lá estará, com a energia redobrada e pronta a noticiar tudo o que se vai passando no Santa Maria Summer Fest.

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