Santa Maria Summer Fest: Uma lição em violência de que tão cedo não nos esqueceremos (dia 3) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Santa Maria Summer Fest: Uma lição em violência de que tão cedo não nos esqueceremos (dia 3)

«Os israelitas Orphaned Land levaram da minha parte o rótulo de “Melhor concerto do festival”.»

Ao terceiro e último dia do festival, fiz uma retrospectiva dos dois dias anteriores e perguntei-me até que ponto é que a edição do Santa Maria Summer Fest de 2017 poderia ser mais bem coroada. Quero dizer, tanto no primeiro como no segundo dia, os artistas que se apresentaram elevaram de tal forma a fasquia que ainda não tinha a mínima ideia de quem seriam, na minha opinião de espectador, os autores do melhor concerto do festival. Se os Krisiun foram incansáveis e deixaram em palco sangue, suor e lágrimas, os Mão Morta transportaram-nos para uma dimensão de fumo e espelhos onde são reis e senhores. Depois, os Trollfest deram um espectáculo raríssimo em termos de profissionalismo, interacção com o público e entretenimento do mais alto nível. Decisions, decisions.

1 - RANCOR(Rancor)

Mas ainda faltava um dia, por isso, fiz-me às bandas e decidi deixar os prognósticos para o fim do jogo. Tudo começou como acabou: com agressão e violência desmedidas e gratuitas – às 17h, os madrilenos Rancor deram início às hostilidades com o seu thrash purista e desprovido de aborrecimento. Tanto a voz como a garra de Freddy Krueger utilizadas por DarthDani convenceram os presentes, que se renderam ao som dos Rancor na faixa inicial, seguindo-se slam com fartura na audiência como forma de demonstrar o apreço do público português.

2 - DARK EMBRACE(Dark Embrace)

Quarenta e cinco minutos depois, mas no palco principal, os galegos Dark Embrace presentearam os festivaleiros com o seu dark metal com toques sinfónicos e claras influências de Amon Amarth. Na estrada a promover “The Call of the Wolves”, de 2017, conseguiram transmitir a sua mensagem alto e bom som: são bons músicos, mas falta-lhes um som próprio e que os afaste do som genérico de tanta banda que, hoje em dia, segue as pisadas dos Amon Amarth.

3 - TALES FOR THE UNSPOKEN(Tales For The Unspoken)

Mas a minha primeira grande surpresa do dia foi o concerto dos Tales for the Unspoken, colectivo de Coimbra que prefiro denominar de “metal” e de “metal” apenas. Em poucas palavras, Marco Fresco e restantes elementos tiveram uma recepção melhor que os Krisiun, no dia anterior, e o por quê é simples: embora menos complexos e selvagens que os Krisiun, envolvem-se mais com o público, comunicam e são fiéis à legião de seguidores que sobrelotou o já por si pequeno recinto do palco 2. “Fodam dinheiro e apoiem o movimento”, instigou Fresco. Precisam-se de mais bandas assim.

4 -HOCHIMINH(Hochiminh)

Logo após, os bejenses Hochiminh deram a entender no palco 1 por que é que continuam a liderar as listas dos metalheads portugueses. Trata-se de um caso atípico de longevidade e insistência num género saturado, o metalcore, mas que é desempenhado com a garra e vitalidade de qualquer banda de topo mundial. Apenas estranho a longa ausência e lista de trabalhos do grupo, que está a promover o recente EP “Shout It Out”, de Fevereiro de 2017. Não sendo um género que me atraia, a prestação do grupo foi um exemplo de perfeição, principalmente com toda a raiva que Guadalupe, baixista, debitava a cada acorde.

Fuse, dos Dealema, foi o intérprete seguinte, e só posso dizer que gostei do que vi: uma prestação cuidada à qual afluiu uma quantidade considerável de público, metaleiros incluídos, o que só faz bem em termos de diversificação. Ao contrário do que muita gente possa pensar, e por detrás da t-shirt de Aborym que enverguei orgulhosamente neste terceiro dia, tenho uma primeira edição de “3 Feet High and Rising” assinada e não sou estranho a intérpretes como Wiseguys, Freddie Foxxx, Lords of the Underground, Big L ou Gang Starr. Contudo, e isto deve ser falha ou incompreensão minha, não encontro no hip-hop nacional algo que me faça comprar um álbum ou estar atento às tendências, pois parece-me tudo o mesmo, excepção feita (talvez) a Halloween. Isto dava pano para mangas, mas talvez um dia, noutro sítio e noutro meio.

5.1 - ORPHANED LAND(Orphaned Land)

E foi assim que, logo de seguida, os israelitas Orphaned Land levaram da minha parte o rótulo de “Melhor concerto do festival”. Não façamos confusões: qualquer banda que, à terceira música, já tenha o público a comer-lhe da mão e a entoar refrães e a aceder a qualquer pedido do seu vocalista, certamente que é uma banda versada em magia. Dirigidos por um Kobi Farhi vestido com uma túnica negra até aos pés, os Orphaned Land homenagearam tanto os temas clássicos como os mais recentes, dos quais destaco “All is One”, “The Simple Man” ou “Barakah”, ficando eu sempre desiludido por nunca apanhar temas mais antigos como “Blessed Be Thy Hate”, “The Beloved’s Cry” ou “Sahara’s Storm”. Como não poderia deixar de ser, as odaliscas que acompanham a banda estiveram presentes, realçando ainda mais o concerto. Aproveitei para lhes fazer uma entrevista antes do concerto, e a generosidade e simplicidade deste povo vêm sempre ao cimo.

Os Malthusian tiveram a ingrata tarefa de convencer o público que regressava do concerto dos Orphaned Land, mas conseguiram-no com o seu death/doom/black metal expressivo, depressivo e épico, como se quer. Ainda que tivessem editado o seu primeiro trabalho na forma de EP em 2015, entretanto (obviamente) esgotado, prometem como poucos, e penso que, em breve, serão os porta-vozes do death metal moderno juntamente com os Dead Congregation. Estou farto de esperar por um longa-duração destes irlandeses, esperemos que venha em breve.

6 - EXODUS(Exodus)

Mas foi às 23h que a banda mais esperada do festival subiu a um palco perante uma casa bastante cheia. Pensar que um concerto de Exodus possa ser mediano é um erro crasso: são quase quarenta anos de vida, pontuados por muitos reveses, mas também por álbuns intemporais, e facilmente os coloco na lista dos Big 4 retirando, para isso, os Anthrax. Ainda que com o fundador Gary Holt ausente, Steve “Zetro” Sousa fez questão de não deixar as coisas pela metade e debitou, bala após bala, uma enxurrada de sucessos que marcaram quatro gerações – “Piranha”, “And Then There Were None”, “The Toxic Waltz”, “A Lesson in Violence”, “Blood In, Blood Out” e “Bonded by Blood” foram apenas alguns dos temas cantados a plenos pulmões por uma audiência rendida ao inevitável. O concerto foi bom, apenas desconheço o que se passa com as bandas de topo que, ultimamente, pelo menos em Portugal, nunca aparecem na sua totalidade.

Já os Dread Sovereign, fronteados pelo enigmático Nemtheanga (Primordial), não tiveram qualquer tipo de problema em contagiar a assistência com o seu dark/doom metal clássico e orelhudo. Na estrada a promover o seu último registo “For Doom The Bell Tolls”, de 2017, convenceram-me ao ponto de ir buscar uma t-shirt da banda. É uma pena que o doom com laivos de Candlemass tenha morrido aos ouvidos de tanta gente, e é curioso verificar que Nemtheanga faz um trabalho notável como vocalista deste side-project. Dread Sovereign hoje, Primordial no Vagos – vai ser um ano de barriga cheia de metal irlandês de alta qualidade!

7 - WOLFBRIGADE(Wolfbrigade)

Cerca da 01h20, os lendários Wolfbrigade acordaram todos os que pensavam que o festival já tinha acabado com o seu crust/punk/d-beat. Apostaram no novo trabalho de 2017, “Run With The Hunted”, para uma audiência completamente inebriada com a sua prestação, passando ainda por “Prey to the World” e o fortíssimo e muito metálico “Damned”. In crust we trust!

8 - RDB(RDB)

Por fim, a banda mais inenarrável de todo o festival, os veteraníssimos RDB, que fizeram questão de nos lembrar que a construção civil é amor. Os clássicos foram muitos: “Estrume à Forquilha”, “Andaime Infernal” e a intemporal “Fluido Vaginal” ficaram a escorrer… perdão, a ecoar nos ouvidos de toda a gente até à manhã seguinte. Com uma dupla dinâmica de vocais nas figuras de Daniel Gamelas e Micael Olímpio, e com um video-jockey sempre emp(r)enhado em distrair os festivaleiros, foi um regresso mais que bem-vindo a uma cena estagnada por tanto empreiteiro com mau feitio que por aí anda.

Dito isto, foram três dias intensos com (felizmente) mais altos do que baixos, muito som de qualidade, umas quantas anedotas para recordar em breve e a nítida consagração do SMSF como um festival de primeira linha nascido em 2017 e a ter em conta para 2018. Para o ano que vem, aposto que haverá mais, e certamente melhor.

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