Saor: Guardiões Escoceses (entrevista c/ Andy Marshall) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Saor: Guardiões Escoceses (entrevista c/ Andy Marshall)

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«Penso que “Guardians” tem um som mais triste do que os discos anteriores.»

Ao fim de três anos, o nome Saor já é algo incontornável no panorama folk/black metal europeu e “Guardians”, o terceiro disco do projecto escocês, lançado pela Northern Silence, é para a Ultraje, como descrito na edição impressa, o melhor álbum saído da mente de Andy Marshall.

Para este trabalho, Andy Marshall decidiu compor a sua música e repescar cinco poemas de cinco poetisas e poetas escoceses: Sir Walter Scott (o nome mais alto), Horatius Bonar, Robert Burns, Alice Macdonell of Keppoch e Tobias Smollet. Serão estes os guardiões que Marshall evoca? «O título “Guardians” tem mais a ver com o conteúdo dos poemas do que os poetas em si. Lidam com temas como batalhas, heróis caídos e natureza. Com toda a honestidade, apenas achei que seria um bom título e encaixa com os temas das letras.» As canções e letras podem ser tristes, galantes e cheias de orgulho, mas o lado bélico, que muitas vezes casa com folk e black metal, é sentido mais nos versos do que propriamente nas músicas, como o artista explana: «“The Declaration” é sobre a Batalha de Bannockburn e “Autumn Rain” é sobre as consequências da Batalha de Culloden – portanto há temas bélicos.» Uma vez que as letras apresentadas foram escritas há séculos, o escocês diz que as palavras «são mais importantes do que a música», mas afirma que, por outro lado, se preocupa «mais com a música do que com as letras» e que «a música vem sempre primeiro». E acaba por confessar: «Prefiro usar poesia, porque acho que não sou muito bom a escrever letras.» Quanto à escolha destes cinco poemas, conta que não houve nenhum processo em especial: «Apenas gosto destes poemas e pareceu-me que se enquadravam bem com a música.»

Uma das coisas que habitualmente prende a atenção dos ouvintes é a qualidade de produção e Andy Marshall revela que as pessoas lhe têm dito que “Guardians” está melhor do que “Aura” nesse departamento: «Diria que a produção e mistura de “Guardians” estão melhores [do que em “Aura”] e consegues mesmo ouvir todos os instrumentos claramente.» E vai ainda mais longe: «O som geral de “Aura” é muito mau e poderei regravá-lo no futuro.» “Guardians” é muito emocional – o som de Saor sempre o foi, mas desta vez isso aumentou – e o nosso entrevistado explica porquê: «Pode soar muito emocional, porque os instrumentos – como violinos e tin whistles [flautas de metal] – assentam melhor na mistura em comparação com álbuns anteriores. Também há mais influências folk e post-metal e menos partes ‘pesadas’. Também penso que “Guardians” tem um som mais triste do que os discos anteriores.» Mas convenhamos que não é apenas por causa desses factores técnicos que “Guardians” é assim descrito e sentido – as highlands escocesas continuam a ser uma forte inspiração para o músico: «Diria que as únicas e épicas paisagens altas são uma inspiração sem fim. Tenho uma cabana de família na Ilha de Skye e escrevo muita música lá.»

«Diria que as únicas e épicas paisagens altas são uma inspiração sem fim.»

Com um novo álbum pode esperar-se concertos, mesmo sendo Saor uma one-man-band, até porque já noutras ocasiões Andy Marshall reuniu os amigos de Cnoc An Tursa para alguns espectáculos, mas o curso de eventos modificou-se: «Decidi parar de dar concertos este ano, porque estava a ser muito stressante e não estava a gostar muito. Preciso de uma pausa disso, mas não descarto dar concertos no futuro.»

Por último, mas não menos importante para aqueles que querem saber mais do que simplesmente música, conhece-se em Andy Marshall um fervoroso apoio à independência escocesa. Depois da derrota no referendo da independência, parece que a questão voltou por causa do Brexit e a maioria dos escoceses quer continuar na UE, tendo a primeira-ministra Nicola Sturgeon ameaçado com um novo plebiscito. Marshall reflecte: «A maioria dos escoceses votou para se manter na UE, mas isso não importa, porque foi uma votação de todo o Reino Unido. Sempre serei um apoiante da independência escocesa e se houver um segundo referendo votarei novamente para deixar o Reino Unido. Muitos dos apoiantes da UE tornaram-se apoiantes da independência, porque acreditam que isso trará melhores hipóteses à Escócia para se manter na UE quando o Reino Unido sair. É muito complicado neste momento.»

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