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Scúru Fitchádu: bruxaria selvagem e caos urbano (entrevista c/ Sette Sujidade)

Diogo Ferreira

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Foto: Ana Viotti

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«Scúru Fitchádu representa outra África, eu sou outra África.»

Foi depois de um concerto intenso no GrETUA, em Aveiro, durante a passagem do circuito Supernova pela cidade, que fui ao backstage procurar por Marcus Veiga aka Sette Sujidade, dos Scúru Fitchádu, para levar a cabo a entrevista combinada durante a semana. À porta estava o rapper Chullage, que anda na estrada com a banda para controlar a ala electrónica e parte da percussão, que indicou que podia entrar para ir procurar pelo Marcus. «Então, já descansaste tudo?», perguntei. «Gostaste?», retorquiu um Marcus sorridente e ao mesmo tempo atarefado enquanto arrumava algumas coisas e procurava por roupa lavada. «Vou só aqui trocar de roupa e já te encontro lá fora», pediu. E assim foi. Depois de me ter ido abastecer com mais uma cerveja para não estar sozinho à espera, Sette Sujidade aparece para nos irmos sentar a um canto do largo do GrETUA e conversar enquanto centenas de pessoas se mostravam animadas por terem acabado de ver Sunflowers e Scúru Fitchádu e por ainda poderem assistir ao concerto de Stone Dead.

O que é afinal Scúru Fitchádu? Para a Ultraje é uma mistura de bruxaria selvagem e caos urbano, tudo interligado através de sonoridades funaná, punk, metal e noise. Nem mesmo Marcus sabe muito bem definir o seu projecto, respondendo inicialmente com gargalhadas afáveis quando se fala em bruxaria selvagem e caos urbano. «Há tanta forma de descrever e até hoje ainda não consegui. Quando me perguntam o que é que faço, epá, não sei. Desde o punk, dance mais dançante ou com mais groove talvez, funaná mais má onda.» Funaná má onda? Mas que grande rótulo! «Funaná má onda é uma definição que o Pedro Coquenão, de Batida, uma vez disse numa conversa. Como isto não foi premeditado, o caminho está-se a fazer; isto basicamente é fruto das minhas influências todas – a música tradicional de Cabo Verde, que é o funaná, punkalhada, metal e o hip-hop também, por causa da construção frásica. Não podia ser doutra maneira que não esta, uma cena que não é nada, não soa a nada… É isto. Como já disse antes: mijei no meu canto, os outros que façam a guerra deles, eu mijo no meu canto e o meu quadradinho é muito pequeno. O pessoal tem aderido cada vez mais à cena. Às vezes até fico um bocado surpreso, porque não é propriamente uma música fácil. Às vezes estou a falar com a malta sobre isto e chegamos à mesma conclusão: isto acaba por ser uma identidade, um conceito, uma linguagem muito própria. Isto é uma música para ser experienciada. É uma libertação. Imagina que somos três escravos fugitivos, conseguimo-nos libertar e agora vamos festejar à nossa maneira no meio do mato, dos chamados quilombos, a zona onde os escravos se reuniam depois de fugirem. Quando o pessoal está à espera que eu vá ali… [berros] Tu-pá-tu-pá-tu-pá! É quando faço a cena com mais groove, mais dançante. E vice-versa. Há pessoal que me contrata quando quer ir dançar funaná e levam com esta violência. [risos]»

«Eu ouvia Pantera e Sepultura escondido. (…) Ratos de Porão era a minha cena!»

Sendo português mas de origens africanas, vale a pena perguntar o que apareceu primeiro – o funaná ou o punk e o metal? –, numa espécie de ovo ou galinha. É que nem sempre, por mais fecundadas que estejam as nossas raízes, o suposto óbvio é a evidência mais gritante. «O funaná estava comigo, em casa, por herança cultural dos meus pais», começa. «Na verdade – eu, os meus primos e as minhas irmãs –, não gostávamos. Pronto, chega o domingo, é cachupa, cozido à portuguesa, feijoada e lá vamos ter que ouvir o tum-catum-catum-cá… Eu queria era rapalhada! Nasci em Lisboa e depois fui muito cedo para a zona do Oeste – entre o Bombarral e as Caldas da Rainha –, ali não havia a cena afro… Era a minha família! A malta da minha escola era tudo malta do thrash, do crust… Aquilo acabava por ser uma Babilónia de cultura, porque toda a gente junta-se ali. Ouvia muita rádio… Tipo, sei lá, Antena 3 com os programas do Henrique Amaro, Nuno Calado, José Marinho com a cena do rap, António Freitas com o Hipertensão. Ouvia metal, mas às escondidas dos meus primos, porque os gajos diziam logo: ‘Ah foda-se, já está armado em branco…’ ‘Tás a ver? Bué conservadores. Só podias ouvir rap, Michael Jackson ou Prince. Eu ouvia Pantera e Sepultura escondido. Os gajos azucrinavam-me!» Até que se lembra do evidente e repentinamente: «Ratos de Porão era a minha cena! Fui construindo a minha cena até que tive tomates para assumir as coisas que ouço.»

 

À medida que a idade avançou, não só metal e punk começaram a fazer parte da vida de Marcus, mas também, como é agora assegurado com Scúru Fitchádu, o funaná, devido à sua postura em palco entre a dança africana – seja ela sensual ou bélica – e os moves típicos do hardcore com joelhadas e saltos por todo o lado. «Sai espontâneo, é uma mistura. É a maneira como me expresso e como quero que Scúru Fitchádu seja visto para além da música – como um conceito», esclarece, para continuar: «É uma personagem que levo lá para cima [do palco]. Não quer dizer que ande na rua com facas. É uma cena dramática, opressiva, de libertação, quase um haka. Não ensaio nada à frente do espelho, é o que sai ali naquele momento. É um caminho que se está a fazer. Ontem toquei em Guimarães e hoje [em Aveiro] já acrescentei mais umas merdas. Nunca é igual. Até a maneira como interpretamos as músicas…» Interrompendo o seu raciocínio para dizer que aquilo que faz não é ao improviso, mas sim ao feeling, o artista responde com prontidão: «Exactamente. Os meus músicos têm direcções minhas para extravasar. Se o Ronnie quiser deixar de tocar bateria e ir cuspir lá para o outro o lado, ele vai. É esta cena meio jazzística; vamos respondendo uns aos outros nos olhares, nas caretas, no cuspir – há uma envolvência que só conseguimos explicar ali em cima [do palco], que não é premeditada.»

Já se referiu punk e metal, mas não podemos esquecer o hardcore, já mencionado em relação às suas movimentações em palco, até porque neste concerto em Aveiro houve tempo para uma cover da “Attitude” dos Bad Brains. «Não posso vir aqui dizer que sempre curti Bad Brains. Comecei a ouvir Bad Brains quando comecei a ouvir hardcore mesmo a sério… Madball, Cro-Mags… Fui dar aos Bad Brains para aí em 2005, já bué tarde.» Do nosso lado mostramos outro caminho até Bad Brains: de Minor Threat, passando por Youth Of Today. «Minor Threat! Adoro! É uma grande influência, e o gajo nem usa melodias a cantar, é quase monocórdico. Também vou beber aí um bocadinho, assumidamente. Henry Rollins com Black Flag, Discharge já com a cena do d-beat e do anarco-punk. Gosto muito do anarco-punk da Suécia, que é muito d-beat… Tá-tá-tá! Um gajo está sempre a descobrir bandas novas no Obscene Extreme [da República Checa]. Vejo ali muita coisa que meto na minha música assumidamente. É partir pedra, desbravar caminho.»

Portanto, tudo isto embrenhado numa só coisa, que é Scúru Fithádu, pode levar um monte de gente distinta – de punks a metálicos, passando por afros – a um recinto, como aconteceu em Aveiro, o que só deixa o músico em estado de felicidade. «Quando comecei a mostrar as minhas músicas, o pessoal chegava ao pé de mim e dizia: ‘Pá, tu tanto podes tocar em cenas de world music, como em festas mais electrónicas, como em cenas mais violentas.’ Por acaso, abri mais os horizontes quando fiz a primeira parte de Sinistro [em Lisboa, no Music Box], e foi do caralhão. Ninguém conhecia, e eu fiquei ‘isto vai correr mal’, mas correu tudo muito bem.»

 

Quem segue e compra a edição física da Ultraje sabe que temos uma missão clara: pegar num país estranho ao metal, devido a problemas sociais, económicos, políticos e/ou religiosos, e contactar bandas para que nos elucidem sobre a sua cena metal. Nada melhor do que saber algo sobre Cabo Verde do que perguntar a alguém que, mesmo fazendo vida cá, tem conhecimento do que se passa além-fronteiras, como nos conta Sette Sujidade: «Sei que agora, pelo menos em Cabo Verde, já começa a haver festivais e manifestações a sério de cena mais rock, mais pesadão, e não outro caminho que seria mais habitual haver lá. Há um festival chamado Grito Rock, da Praia… Já começa a haver bandas e circuitos, mas são micros. Sei que Angola também tem metal, Moçambique também tem bandas de death metal. O pessoal pensa que é metal com aqueles clichés todos do meio tropical, gajos com cenas tribais e não sei quê… Não, não! É metal convencional, feito lá, com a linguagem de lá, com os problemas de lá. Eles não têm que falar da espada, de Odin e daquela mitologia toda nórdica.» Bruxaria africana é fodida, indagamos. «É uma cena pagã muito fodida. Eles vivem aquilo…» O que nos leva ao black metal, até porque antes já tínhamos discutido a força que black e death metal têm em países como, por exemplo, a Arménia. «Não é a minha cena pela sonoridade. Depois fui criado no meio de Testemunhas de Jeová. Isso ficou impregnado em mim e deixei a cena satânica de lado, apesar de eu saber de onde vem – da Noruega –, sei de Mayhem, sei de Burzum.» Logo, Marcus não está alienado da realidade, mesmo que não faça parte desse meio mais extremo quanto a conceitos anti-religiosos e até, numa facção do black metal, de supremacia racial: «Adorava a “Dunkelheit” [de Burzum]. Até percebia os gajos lá na Noruega; aquela cena completamente conservadora católica e os gajos passarem-se lá no Helvete, ‘vamos queimar isto tudo!’. Eu entendo, ‘tás a ver? Agora quando começam a meter aquelas divindades nórdicas para a cena estúpida de supremacia… [pausa] Mas eu reprovo isso em qualquer que seja a comunidade, reprovo a cena de supremacia – não é para mim, mesmo!»

Claramente, o artista do sul do país precisa de um anti, mas um anti-rotina, como se prova na música que ouvimos em Scúru Fitchádu e na forma como se mexe em palco. «Sim, sim! Exactamente!», exclama. «Eu sou anti-inércia, porque passei muito tempo na inércia. Estou a sair agora com esta cena… Tenho 37 anos e já tinha isto na cabeça há 10, 15 anos. ‘Não, não, agora hei-de fazer!’ E nunca mais. E depois um gajo chega a velho e diz: não fiz porra nenhuma. Não quero viver a rock n’ roll life. Não, man… Estou bem como estou, atingi muita coisa, muita coisa não atingi. Estou óptimo. Se continuar a tocar aqui para estas pessoas, neste registo, vou morrer feliz. E mais para lá acho que perde um bocado a piada.»

«Se continuar a tocar aqui para estas pessoas, neste registo, vou morrer feliz.»

Cada um é como é e cada um vem de onde vem. Se toda a gente tivesse a mentalidade que somos do mundo, não seria tudo melhor? «Então não era? Seria tão bom…», idealiza Marcus. E onde entraria Scúru Fitchádu nesse universo? – perguntei a mim próprio no decorrer da construção deste artigo. Marcus Veiga já tinha dado resposta, era só transcrevê-la: «Metade deste pessoal [em Aveiro] não sabia que três pretos iam entrar em cima do palco. Pensavam que íamos tocar kuduro e levaram uma tareia do caralho! Eu adoro isso! É o que eu digo sempre: Scúru Fitchádu representa outra África, eu sou outra África. Não tenho que estar aqui propriamente com pinturas… [faz caretas] Não estou a dizer que não seja excelente, mas não é a minha cena, não é isso que eu represento. O meu BI é português, eu sou português; a minha família é cabo-verdiana… Eu tenho as duas cenas, eu acumulo, não me digam que eu sou isto e sou aquilo – eu sou tudo! És cabo-verdiano? Sou. És português? Sou. Posso acumular, não tenho que escolher, não tenho que separar.»

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

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