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Scúru Fitchádu: bruxaria selvagem e caos urbano (entrevista c/ Sette Sujidade)

Diogo Ferreira

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Foto: Ana Viotti

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«Scúru Fitchádu representa outra África, eu sou outra África.»

Foi depois de um concerto intenso no GrETUA, em Aveiro, durante a passagem do circuito Supernova pela cidade, que fui ao backstage procurar por Marcus Veiga aka Sette Sujidade, dos Scúru Fitchádu, para levar a cabo a entrevista combinada durante a semana. À porta estava o rapper Chullage, que anda na estrada com a banda para controlar a ala electrónica e parte da percussão, que indicou que podia entrar para ir procurar pelo Marcus. «Então, já descansaste tudo?», perguntei. «Gostaste?», retorquiu um Marcus sorridente e ao mesmo tempo atarefado enquanto arrumava algumas coisas e procurava por roupa lavada. «Vou só aqui trocar de roupa e já te encontro lá fora», pediu. E assim foi. Depois de me ter ido abastecer com mais uma cerveja para não estar sozinho à espera, Sette Sujidade aparece para nos irmos sentar a um canto do largo do GrETUA e conversar enquanto centenas de pessoas se mostravam animadas por terem acabado de ver Sunflowers e Scúru Fitchádu e por ainda poderem assistir ao concerto de Stone Dead.

O que é afinal Scúru Fitchádu? Para a Ultraje é uma mistura de bruxaria selvagem e caos urbano, tudo interligado através de sonoridades funaná, punk, metal e noise. Nem mesmo Marcus sabe muito bem definir o seu projecto, respondendo inicialmente com gargalhadas afáveis quando se fala em bruxaria selvagem e caos urbano. «Há tanta forma de descrever e até hoje ainda não consegui. Quando me perguntam o que é que faço, epá, não sei. Desde o punk, dance mais dançante ou com mais groove talvez, funaná mais má onda.» Funaná má onda? Mas que grande rótulo! «Funaná má onda é uma definição que o Pedro Coquenão, de Batida, uma vez disse numa conversa. Como isto não foi premeditado, o caminho está-se a fazer; isto basicamente é fruto das minhas influências todas – a música tradicional de Cabo Verde, que é o funaná, punkalhada, metal e o hip-hop também, por causa da construção frásica. Não podia ser doutra maneira que não esta, uma cena que não é nada, não soa a nada… É isto. Como já disse antes: mijei no meu canto, os outros que façam a guerra deles, eu mijo no meu canto e o meu quadradinho é muito pequeno. O pessoal tem aderido cada vez mais à cena. Às vezes até fico um bocado surpreso, porque não é propriamente uma música fácil. Às vezes estou a falar com a malta sobre isto e chegamos à mesma conclusão: isto acaba por ser uma identidade, um conceito, uma linguagem muito própria. Isto é uma música para ser experienciada. É uma libertação. Imagina que somos três escravos fugitivos, conseguimo-nos libertar e agora vamos festejar à nossa maneira no meio do mato, dos chamados quilombos, a zona onde os escravos se reuniam depois de fugirem. Quando o pessoal está à espera que eu vá ali… [berros] Tu-pá-tu-pá-tu-pá! É quando faço a cena com mais groove, mais dançante. E vice-versa. Há pessoal que me contrata quando quer ir dançar funaná e levam com esta violência. [risos]»

«Eu ouvia Pantera e Sepultura escondido. (…) Ratos de Porão era a minha cena!»

Sendo português mas de origens africanas, vale a pena perguntar o que apareceu primeiro – o funaná ou o punk e o metal? –, numa espécie de ovo ou galinha. É que nem sempre, por mais fecundadas que estejam as nossas raízes, o suposto óbvio é a evidência mais gritante. «O funaná estava comigo, em casa, por herança cultural dos meus pais», começa. «Na verdade – eu, os meus primos e as minhas irmãs –, não gostávamos. Pronto, chega o domingo, é cachupa, cozido à portuguesa, feijoada e lá vamos ter que ouvir o tum-catum-catum-cá… Eu queria era rapalhada! Nasci em Lisboa e depois fui muito cedo para a zona do Oeste – entre o Bombarral e as Caldas da Rainha –, ali não havia a cena afro… Era a minha família! A malta da minha escola era tudo malta do thrash, do crust… Aquilo acabava por ser uma Babilónia de cultura, porque toda a gente junta-se ali. Ouvia muita rádio… Tipo, sei lá, Antena 3 com os programas do Henrique Amaro, Nuno Calado, José Marinho com a cena do rap, António Freitas com o Hipertensão. Ouvia metal, mas às escondidas dos meus primos, porque os gajos diziam logo: ‘Ah foda-se, já está armado em branco…’ ‘Tás a ver? Bué conservadores. Só podias ouvir rap, Michael Jackson ou Prince. Eu ouvia Pantera e Sepultura escondido. Os gajos azucrinavam-me!» Até que se lembra do evidente e repentinamente: «Ratos de Porão era a minha cena! Fui construindo a minha cena até que tive tomates para assumir as coisas que ouço.»

 

À medida que a idade avançou, não só metal e punk começaram a fazer parte da vida de Marcus, mas também, como é agora assegurado com Scúru Fitchádu, o funaná, devido à sua postura em palco entre a dança africana – seja ela sensual ou bélica – e os moves típicos do hardcore com joelhadas e saltos por todo o lado. «Sai espontâneo, é uma mistura. É a maneira como me expresso e como quero que Scúru Fitchádu seja visto para além da música – como um conceito», esclarece, para continuar: «É uma personagem que levo lá para cima [do palco]. Não quer dizer que ande na rua com facas. É uma cena dramática, opressiva, de libertação, quase um haka. Não ensaio nada à frente do espelho, é o que sai ali naquele momento. É um caminho que se está a fazer. Ontem toquei em Guimarães e hoje [em Aveiro] já acrescentei mais umas merdas. Nunca é igual. Até a maneira como interpretamos as músicas…» Interrompendo o seu raciocínio para dizer que aquilo que faz não é ao improviso, mas sim ao feeling, o artista responde com prontidão: «Exactamente. Os meus músicos têm direcções minhas para extravasar. Se o Ronnie quiser deixar de tocar bateria e ir cuspir lá para o outro o lado, ele vai. É esta cena meio jazzística; vamos respondendo uns aos outros nos olhares, nas caretas, no cuspir – há uma envolvência que só conseguimos explicar ali em cima [do palco], que não é premeditada.»

Já se referiu punk e metal, mas não podemos esquecer o hardcore, já mencionado em relação às suas movimentações em palco, até porque neste concerto em Aveiro houve tempo para uma cover da “Attitude” dos Bad Brains. «Não posso vir aqui dizer que sempre curti Bad Brains. Comecei a ouvir Bad Brains quando comecei a ouvir hardcore mesmo a sério… Madball, Cro-Mags… Fui dar aos Bad Brains para aí em 2005, já bué tarde.» Do nosso lado mostramos outro caminho até Bad Brains: de Minor Threat, passando por Youth Of Today. «Minor Threat! Adoro! É uma grande influência, e o gajo nem usa melodias a cantar, é quase monocórdico. Também vou beber aí um bocadinho, assumidamente. Henry Rollins com Black Flag, Discharge já com a cena do d-beat e do anarco-punk. Gosto muito do anarco-punk da Suécia, que é muito d-beat… Tá-tá-tá! Um gajo está sempre a descobrir bandas novas no Obscene Extreme [da República Checa]. Vejo ali muita coisa que meto na minha música assumidamente. É partir pedra, desbravar caminho.»

Portanto, tudo isto embrenhado numa só coisa, que é Scúru Fithádu, pode levar um monte de gente distinta – de punks a metálicos, passando por afros – a um recinto, como aconteceu em Aveiro, o que só deixa o músico em estado de felicidade. «Quando comecei a mostrar as minhas músicas, o pessoal chegava ao pé de mim e dizia: ‘Pá, tu tanto podes tocar em cenas de world music, como em festas mais electrónicas, como em cenas mais violentas.’ Por acaso, abri mais os horizontes quando fiz a primeira parte de Sinistro [em Lisboa, no Music Box], e foi do caralhão. Ninguém conhecia, e eu fiquei ‘isto vai correr mal’, mas correu tudo muito bem.»

 

Quem segue e compra a edição física da Ultraje sabe que temos uma missão clara: pegar num país estranho ao metal, devido a problemas sociais, económicos, políticos e/ou religiosos, e contactar bandas para que nos elucidem sobre a sua cena metal. Nada melhor do que saber algo sobre Cabo Verde do que perguntar a alguém que, mesmo fazendo vida cá, tem conhecimento do que se passa além-fronteiras, como nos conta Sette Sujidade: «Sei que agora, pelo menos em Cabo Verde, já começa a haver festivais e manifestações a sério de cena mais rock, mais pesadão, e não outro caminho que seria mais habitual haver lá. Há um festival chamado Grito Rock, da Praia… Já começa a haver bandas e circuitos, mas são micros. Sei que Angola também tem metal, Moçambique também tem bandas de death metal. O pessoal pensa que é metal com aqueles clichés todos do meio tropical, gajos com cenas tribais e não sei quê… Não, não! É metal convencional, feito lá, com a linguagem de lá, com os problemas de lá. Eles não têm que falar da espada, de Odin e daquela mitologia toda nórdica.» Bruxaria africana é fodida, indagamos. «É uma cena pagã muito fodida. Eles vivem aquilo…» O que nos leva ao black metal, até porque antes já tínhamos discutido a força que black e death metal têm em países como, por exemplo, a Arménia. «Não é a minha cena pela sonoridade. Depois fui criado no meio de Testemunhas de Jeová. Isso ficou impregnado em mim e deixei a cena satânica de lado, apesar de eu saber de onde vem – da Noruega –, sei de Mayhem, sei de Burzum.» Logo, Marcus não está alienado da realidade, mesmo que não faça parte desse meio mais extremo quanto a conceitos anti-religiosos e até, numa facção do black metal, de supremacia racial: «Adorava a “Dunkelheit” [de Burzum]. Até percebia os gajos lá na Noruega; aquela cena completamente conservadora católica e os gajos passarem-se lá no Helvete, ‘vamos queimar isto tudo!’. Eu entendo, ‘tás a ver? Agora quando começam a meter aquelas divindades nórdicas para a cena estúpida de supremacia… [pausa] Mas eu reprovo isso em qualquer que seja a comunidade, reprovo a cena de supremacia – não é para mim, mesmo!»

Claramente, o artista do sul do país precisa de um anti, mas um anti-rotina, como se prova na música que ouvimos em Scúru Fitchádu e na forma como se mexe em palco. «Sim, sim! Exactamente!», exclama. «Eu sou anti-inércia, porque passei muito tempo na inércia. Estou a sair agora com esta cena… Tenho 37 anos e já tinha isto na cabeça há 10, 15 anos. ‘Não, não, agora hei-de fazer!’ E nunca mais. E depois um gajo chega a velho e diz: não fiz porra nenhuma. Não quero viver a rock n’ roll life. Não, man… Estou bem como estou, atingi muita coisa, muita coisa não atingi. Estou óptimo. Se continuar a tocar aqui para estas pessoas, neste registo, vou morrer feliz. E mais para lá acho que perde um bocado a piada.»

«Se continuar a tocar aqui para estas pessoas, neste registo, vou morrer feliz.»

Cada um é como é e cada um vem de onde vem. Se toda a gente tivesse a mentalidade que somos do mundo, não seria tudo melhor? «Então não era? Seria tão bom…», idealiza Marcus. E onde entraria Scúru Fitchádu nesse universo? – perguntei a mim próprio no decorrer da construção deste artigo. Marcus Veiga já tinha dado resposta, era só transcrevê-la: «Metade deste pessoal [em Aveiro] não sabia que três pretos iam entrar em cima do palco. Pensavam que íamos tocar kuduro e levaram uma tareia do caralho! Eu adoro isso! É o que eu digo sempre: Scúru Fitchádu representa outra África, eu sou outra África. Não tenho que estar aqui propriamente com pinturas… [faz caretas] Não estou a dizer que não seja excelente, mas não é a minha cena, não é isso que eu represento. O meu BI é português, eu sou português; a minha família é cabo-verdiana… Eu tenho as duas cenas, eu acumulo, não me digam que eu sou isto e sou aquilo – eu sou tudo! És cabo-verdiano? Sou. És português? Sou. Posso acumular, não tenho que escolher, não tenho que separar.»

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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