Sectlinefor: insectos anorécticos, heróis e vilões (entrevista c/ Jared) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Sectlinefor: insectos anorécticos, heróis e vilões (entrevista c/ Jared)

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Numa dualidade entre homem-real e homem-personagem, Jared apresenta-nos uma comédia negra de nome “Anorexic Insect”, o novo álbum dos cinemáticos e contadores-de-histórias Sectlinefor. Num mundo ficcional habitado por heróis e vilões encontram-se também metáforas do mundo onde vivemos, mas não é só isso que a seguinte conversa pretende desvendar – também iremos conhecer um pouco mais Jared algures entre a loucura, o humor e a sensibilidade.

«Sinto que todo o álbum é uma reflexão do mundo onde já vivemos.»

Claro que o enredo está escrito na press-release, mas podes fazer um resumo para os nossos leitores?
É segredo! É um pouco complicado, porque este álbum é apenas a primeira parte de uma história muito maior que levará mais álbuns para se terminar. Com as letras quis apresentar as personagens e algumas ideias básicas deste mundo ficcional, mas sei que não é fácil juntar tudo. O que importa anotar agora é que existe uma rapariga nascida como última esperança, como um messias para libertar a aldeia de um monstro muito terrível, mas ela morre durante o álbum, muito antes de alguém perceber que ela era a escolhida, e assim a sociedade fica em grandes apuros. Basicamente, vai ficar-se muito pior antes de se melhorar.

Apontarias algum tipo de metáforas ou isto é apenas uma história ficcional interessante?
Sinto que todo o álbum é uma reflexão do mundo onde já vivemos – sobre como as pessoas negligenciam os seus deveres enquanto pais por estarem tão envolvidos nas redes sociais enquanto as companhias farmacêuticas são um sistema de negócio que se capitaliza com a doença das nossas crianças apenas para enriquecerem mais em vez de tratarem dos problemas centrais. Preocupo-me com as crianças do mundo, meu. Parece cada vez mais difícil – cada geração que passa tem tanta informação, espaço para intimidação e destruição de inocência. Crescer já foi suficientemente duro para mim e nem sequer tinha Facebook nessa altura.

«Acabei por usar humor excêntrico para sabotar o que as pessoas esperam que uma banda de metal faça.»

Olhando para a capa e, claro, ouvindo as canções, fiquei com a ideia que “Anorexic Insect” é tipo uma comédia negra. Posso dizer isso?
Sim, podes! Inicialmente era minha intenção escrever algo como um filme de horror surreal, o que seria mais arrepiante e assustador do que uma comédia, mas sempre senti repulsa pela forma séria que é tomada no metal, por isso acabei por usar humor excêntrico para sabotar o que as pessoas esperam que uma banda de metal faça. Fico muito contente que tenhas achado isto divertido, porque por mais que o mundo pareça um nojo não podemos esquecer quão ridículo tudo se tornou. Às vezes temos de nos rir da tristeza.

É excelente como imitas tantas personagens, e o ouvinte é capaz de compreender isso. Achas que cumpriste essa missão?
Penso que sempre que lês uma história em voz alta, a tua voz tende a alterar-se enquanto falas das diferentes perspectivas de uma personagem, mas em retrospectiva quereria ter-me esforçado mais para trazer as personagens à vida um pouco mais. Mas agradeço teres apontado isso, diz-me muito alguém ter pegado nisso. Talvez possamos escrever uma canção sobre a Ultraje apenas para dizer obrigado.

«É um mundo sem brilho, muito negro, quase como um desenho-animado que te quer devorar. Não é um sítio fixe.»

Acho que seria um esforço muito grande, mas alguma vez imaginaste cenas visuais para cada capítulo da história? Como seriam as expressões das personagens e as paisagens do enredo?
Sabes, visualizo todo o álbum como um romance, por isso algumas das personagens tornaram-se amigos imaginários próximos de mim. A heroína é uma delas – consigo sentir o seu sofrimento, assim como a sua importância não-reconhecida. Também sinto muita compaixão pelo Orange Soda – está a ter um período terrível. É uma pergunta difícil de responder neste início da história sem ter que desvendar muita coisa, mas acho que o artwork dá uma ideia decente daquilo que imagino na minha cabeça. É um mundo sem brilho, muito negro, quase como um desenho-animado que te quer devorar. Não é um sítio fixe.

Penso que uma pessoa não acorda de manhã e começa logo a criar música complexa com influências metal e jazz. Portanto, quanto esforço precisaram de incluir nas vossas vidas para fazer nascer algo como Sectlinefor?
Isso é tudo com Piton, o guitarrista e principal compositor. É o cérebro por detrás da música. Não tenho a certeza como o faz, mas preocupo-me com ele. Acho que bebe muito uísque até que os aliens falem com ele – não tenho a certeza, tenho medo de lhe perguntar.

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