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Son Of Cain “Closer To The Edge”

João Correia

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Editora: Raging Planet Records
Data de lançamento: 30 Novembro 2018
Género: heavy/doom metal / hard rock

Quase que parece uma anedota: um gajo do black metal e um gajo do rock entram num bar… Se trocarmos o bar pelo estúdio, foi isto mesmo que aconteceu relativamente recentemente, sendo o gajo do black metal Alexandre “NH” Mota (Corpus Christii, Morte Incandescente, Storm Legion, etc.) e Hugo “Boss” Conim (Subcaos, Dawnrider, Clockwork Boys, etc.) os dois integrantes veteranos que compõem os Son of Cain. Logo aqui existe uma certa maneira muito sui generis de fazer as coisas – em vez de power-trio, é power-duo. Chega. Alexandre divide-se entre bateria e voz e Hugo trata das cordas para criar “Closer To The Edge”.

É necessário deixar uma advertência inicial – quem estiver à espera de mais uma laje de basalto negro tipicamente associada à pestilência do black metal vai ficar desiludido; por outro lado, quem também estiver à espera de um álbum de rock como o conhecemos, vai ficar desiludido. E é isto que (felizmente) os Son Of Cain tão bem fazem; desiludir e desconstruir estereótipos com um disco que é um pastiche de diversos períodos do rock que já ouvimos em muitos sítios e ocasiões diferentes, mas que é tão honesto e íntimo (leia-se próprio) que não passa despercebido: ele tem tons de cock rock, southern rock, heavy metal, hard rock, tem traços dispersos aqui e ali de Danzig… Em suma, uma miscelânea de cores que acabam por compor uma paisagem pesada, sleazy e apropriada para longas horas ao volante sem destino, apenas porque sim.

A inicial “Hit The Road” deixa-nos colados às colunas da aparelhagem e com vontade de subir o volume segundos após iniciar – tem um riff simples e eficaz que os Metallica gostariam de ter podido utilizar em “Metallica”, por exemplo, bem como um jogo de bateria da velha-guarda – pesado, descomplicado e potente. Mal ouvimos a voz propriamente dita de Alexandre, fortemente similar a um Ian Astbury no seu apogeu, entramos na onda sem dificuldades. Logo após “Born To Fall”, que inicialmente nos transporta para o sul dos Estados Unidos com o seu southern rock misturado com ares de Led Zeppelin e na qual Alexandre varia a sua gama vocal de forma interessante e invulgar, apenas para dar lugar a uma cavalgada final épica e bastante pesada. Seguem-se “Beyond” e “Like Stone”, que trilham pelos caminhos mais pesadões do heavy metal tradicional e do AOR respectivamente, e é nesta altura que percebemos que não existe um único riff abaixo de par no trabalho, sempre muito viciantes e que facilmente farão o ouvinte abanar o capacete em aprovação.

“The Old Man” segue essa linha de southern rock / Led Zeppelin sempre competente, novamente com Alexandre a somar pontos na parte vocal e Conim a debitar ainda mais riffs e um solo inspiradíssimo reminiscente de Black Sabbath. “Reach The End” começa com aquele tipo de introdução épica a la Iron Maiden, mais pesadona, demarcadamente heavy metal, ao passo que “Dead Corner Bastard” nos remete para a tal sleazyness referida em epígrafe – dá a sensação de que entramos num beco mal iluminado que tresanda a urina e que não sabemos se conseguimos sair dele, e é nisto que os Son of Cain vingam ao fazerem com que nos imaginemos em cenas diferentes a cada nova música: a primeira invoca a estrada, a segunda o bayou e os whisky bars e por aí fora. A penúltima, “Human Prey”, é lenta e pesada; nela, Alexandre por vezes parece declamar poesia. Segue-se “Boiled Up”, outro exercício a lembrar uma vez mais os autores de “Kashmir”.

A produção geral está no ponto, sem falhas. O artwork relembra “Go With The Flow”, mesmo que inconscientemente (aliás, certamente que inconscientemente). Não seria estranho ouvirem-no na 90FM um destes dias, por exemplo. Trabalho bastante interessante e pouco comum no nosso mercado, pelo menos no que toca a orelhudice e trabalho geral de composição; se é verdade que não é uma epifania, não o é menos que compensa com alma, com uma toada bastante orgânica. Para finalizar, voltemos ao início – se fossem um power-trio, é bem provável que os Son of Cain complicassem demasiado algo que não necessita de complicação, apenas de alma e inspiração, bem como o estado de espírito certo para ser feita. Não mexamos em equipa vencedora e aproveitemos o que acaba por ser provavelmente o melhor disco de rock nacional dos últimos 20 anos. Daquele a sério, portanto.

Nota Final

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Obliteration “Cenotaph Obscure”

Rui Vieira

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Editora: Indie Recordings
Data de lançamento: 23 Novembro 2018
Género: thrash/death metal

“Cenotaph Obscure” é a quarta investida em formato longo-ataque destes noruegueses oriundos de Kolbotn, local onde se formaram os míticos Darkthrone em 1986 (ainda como Black Death). O quarteto é relativamente ‘recente’ (2004) mas sobressai pela sua produção regular até este último álbum. A Noruega é mais conhecida pelo bacalhau e pelo black metal mas alguns nomes ligados ao death metal – Zyklon, Blood Red Throne, Myrkskog ou Cadaver – têm trilhado o seu ‘árduo’ caminho nos últimos anos e a esses juntam-se os Obliteration na sua batalha pelo reconhecimento, pois há mais vida para além do black metal na Noruega. Digamos que a receita é pouco ortodoxa: death clássico + pitada de black + doom q.b. e voilá! Um som que tem tanto de (semi) original como de difícil digestão. Quarenta minutos desta receita não é para qualquer um, pois não é death metal in your face, aquilo que o comum fã procura nesta sonoridade. As suas divagações por outros géneros musicais poderão dispersar a atenção e, de facto, é isso que acontece. Para além desse factor menos positivo e, pese embora as várias influências referidas, acresce falta de variedade ao longo destas sete faixas. Não transparece ao início com o tema-título mas com o avançar do álbum já não nos lembramos das faixas anteriores e esse é o indicador-mor se estamos perante algo memorável ou apenas passageiro. Gravado nos estúdios Cobra (Estocolmo) com Martin “Konie” Ehrencrona, a produção está óptima e orgânica, ouvindo-se todos os instrumentos na perfeição, e mesmo a bateria, ainda que meio necro, está em bom plano e adequada à sonoridade final. Mas mesmo todas as qualidades técnicas e resultado final não são suficientes para retirar este álbum da mediania.

Nota Final

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Kishi “Depois da Meia Noite”

Diogo Ferreira

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Editora: independente
Data de lançamento: 10 Dezembro 2018
Género: stoner rock

Lá para os lados do Japão há um Ichi the Killer, em Angola há um Kishi que é mestre da dor, um demónio animal, um filho daquela terra. Fundados em Outubro de 2017, o quarteto que toca stoner lançará brevemente o primeiro álbum “Depois da Meia Noite”, trabalho que tem uma abordagem muito directa ao género musical. Sim, é stoner como tantas outras bandas, mas com uma aptidão de espontaneidade interessante. Isto é, a maioria das faixas (são oito ao todo) nem chegam aos três minutos de duração – como uma atitude punk – e são assim comprimidas em malhas distorcidas bastante orelhudas que fornecem um groove que faz o corpo gingar. Soando mais a estrada do que a deserto, há ainda um baixo gordo que se vai ouvindo bem e uma bateria coesa que sabe onde estar neste estilo. Por fim, mas igualmente importante, até porque é dos primeiros elementos que saltam ao ouvido, a voz rouca está muito bem aplicada e pensada.

Apesar de toda a straightness, os Kishi acabam por deixar que outros pozinhos de perlimpimpim extra-stoner se intrometam neste empreendimento – a saber: a faixa “Som da Birra” incute-nos paisagens psicadélicas e a última “Kianda” encarrega-se de nos relembrar de Black Sabbath. Nota mais ainda para a utilização de língua portuguesa no tema homónimo, algo que aparenta assentar de forma sincera, mais do que o inglês, na sonoridade desta banda sediada em África. Não são obviamente a única banda rock/metal vinda de Angola (há, por exemplo, Horde Of Silence e Dor Fantasma) mas, e com este “Depois da Meia Noite”, os Kishi podem muito bem ser a catapulta que falta a esse país para invadirem, pelo menos, o underground português – a língua é a mesma, é de aproveitar!

Nota Final

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Ichor “Hadal Ascending”

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Editora: Unholy Conspiracy Deathwork
Data de lançamento: 07 Dezembro 2018
Género: death metal

Este grupo alemão já ofereceu grandiosas tempestades de death metal, especialmente no álbum anterior “Depths”. Agora voltamos a descer às profundezas submarinas do mundo lovecraftiano onde residem os Ichor; no entanto, estas podem não ser as mesmas que a banda já antes apresentou.

A bruta velocidade que os Ichor praticavam e que aproximava a sua sonoridade à de uns Aversions Crown ou Whitechapel abrandou um pouco, que é como quem diz muito, com uma predominância de temas tocados em mid-tempo e com muito menos camadas do que as que se ouviam em “Depths”, sendo que a banda está deliberadamente a anunciar uma mudança. E o que se quer saber é se é boa ou má.

A quebra de velocidade permitiu aos Ichor incorporar mais melodias através de teclados e de uns poucos riffs que por vezes espreitam por entre os seus irmãos mais rudes e arrastados. Por norma, o pôr de lado o comboio de brutalidade também abriria as portas para explorar mais dinâmicas na composição, e a banda até o faz em “Conquering The Stars” com as vocalizações ‘cibernéticas’ à Cynic e Obscura, e com a atmosfera espacial mas é apenas aí; as restantes são todas muito homogéneas, apesar de não serem necessariamente repetitivas e até existirem temas que irão certamente merecer umas quantas ouvidelas, como “Black Dragons” e “Tales From The Depths”. “Hadal Ascending” soa todo muito igual e a precisar de uma pitada de variedade pelo meio.

Quanto à questão da mudança, a resposta é que depende mesmo do gosto de cada um. Apesar do que foi escrito no parágrafo anterior, este disco não é de todo mau. Os temas que o compõem podem fazer da peça final um bloco de basalto no fundo do mar que não chama assim tanto à atenção, mas, individualmente, são composições muito decentes de death metal com muitas pontas por onde os Ichor podem pegar para que o sucessor deste álbum possa tapar os buracos do mesmo e fazer a banda voar para um patamar mais alto.

Nota Final

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