Sonic Syndicate: paraíso perdido (entrevista c/ Nathan James Biggs) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Sonic Syndicate: paraíso perdido (entrevista c/ Nathan James Biggs)

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Os Sonic Syndicate foram, não há muitos anos, os meninos bonitos e a grande esperança do metal melódico sueco. Agora vamos encontrá-los na Despotz Records, recentemente despedidos pela Nuclear Blast, reduzidos a um trio com apenas um elemento original e ainda bem molhados de um repentino banho de realidade. O lado positivo foi que tudo isso fez a banda crescer brutalmente e lançar um novo álbum, chamado “Confessions”, em que o death metal melódico e moderno encontra uma variedade de outras influências que assentam bem aos Sonic Syndicate. O vocalista Nathan James Biggs falou connosco sobre esta viagem ao Inferno e de volta.

«Libertámo-nos e não colocámos qualquer tipo de barreiras desta vez.»

Qual era o estado de espírito reinante na banda quando iniciaram a composição deste disco? Planearam o que iam fazer ou limitaram-se a começar a escrever?
Acho que foi o completo oposto de planear alguma coisa. [risos] Sabíamos que não queríamos repetir-nos e ficar no mesmo tipo de género e composições que tínhamos feito antes. Tentámos abrir as nossas mentes tanto quanto possível… Não foi difícil, porque temos ouvido todos – eu, o Rob [Robin Sjunnesson, guitarrista e vocalista] e o Mischa [Michel Bärzén, baixista] – muitos estilos diferentes de música. Temos um gosto musical muito vasto e baseámo-nos mais nele, em vez de sermos apenas o tipo de banda de metal a que os Sonic Syndicate estavam associados antes. Por isso libertámo-nos e não colocámos qualquer tipo de barreiras desta vez.

Foram despedidos pela Nuclear Blast depois do vosso último álbum. Foi um golpe duro para vocês?
Sim e não. Num aspecto fez-nos pensar um pouco no que fazemos, porque estávamos habituados a ter uma editora há tanto tempo e era uma espécie de roda, em que fazíamos o disco seguinte e as coisas continuavam a rolar. E foi um grande abre-olhos quando percebemos que não íamos lançar o novo álbum por eles. O disco que lhes apresentámos era muito aquilo que se esperaria que os Sonic Syndicate fizessem, mais death metal melódico, heavy metal e metalcore, com um pouco de evolução também. Mas quando descobrimos que eles não iriam lançar o álbum, percebemos que era porque não estávamos a ser sinceros com as canções e com o que estávamos a fazer. E isso fez-nos crescer imenso enquanto banda. Por isso, chegou uma altura em que tínhamos de decidir o que iríamos fazer a seguir – queríamos desistir da música? Não sabíamos. Teríamos energia para ir lá para fora de novo lutar pela banda e lançar o disco nós próprios ou procurar uma nova editora? Nesse aspecto, foi um processo muito positivo porque nos fez perceber que sim, queríamos mesmo fazê-lo. Ter o apoio de uma editora e depois ser-nos retirado fez-nos perceber que queríamos mesmo fazer isto. Estávamos preparados para lançar o disco mesmo sem editora. Começámos a escrever um álbum novo, deitámos para o lixo a pré-produção do trabalho que tínhamos começado – eram 15 faixas e estávamos a meras três semanas de entrarmos em estúdio com um famoso produtor de metal – e, como foi referido anteriormente, começámos a escrever com uma perspectiva inteiramente diferente, sem nos limitarmos, sem tentarmos ser nada, para percebermos o que sairia dali. A Despotz Records quis assinar-nos e tivemos algumas propostas de outras editoras igualmente interessantes. Foi óptimo sabermos que não teríamos de lançar o disco sozinhos, mas foi igualmente importante percebermos que estávamos preparados para isso se fosse necessário. Isso mostra que estamos apaixonados por este novo álbum e por esta nova música e que ela significa muito para nós. O facto de a Despotz estar a apoiar-nos, a deixar-nos fazer novas coisas, a ajudar-nos financeiramente e ao nível das digressões é um ‘pacote’ excelente e vai permitir que façamos coisas que nunca tivemos possibilidade de fazer antes.

«Acho que o momento em que qualquer banda comece a fazer e a lançar os álbuns que as pessoas esperam dela, é o momento em que começa a ficar caduca e previsível.»

Alguma vez consideraram o que os vossos fãs iriam pensar da música durante a composição do álbum?
Sim e não. Acho que o momento em que qualquer banda comece a fazer e a lançar os álbuns que as pessoas esperam dela, é o momento em que começa a ficar caduca, previsível e deixa de fazer a sua melhor música. E os fãs, pouco a pouco e disco a disco, começam a perceber isso e a banda depressa se tornará famosa por aquele primeiro álbum, pelos seus primeiros tempos ou apenas quando acabar. Não evoluirá, não ultrapassará barreiras e não conseguirá sobreviver na cena musical actual. Não diria que a situação com a Nuclear Blast nos inspirou a isto… Já estava em nós, porque os nossos gostos musicais são muito variados, mas deu-nos uma boa desculpa para experimentarmos tudo o que quiséssemos. E a nova editora incentivou-nos a fazê-lo.

Esse álbum que vocês atiraram para o lixo vai ficar no lixo ou podem reconsiderar e tirá-lo de lá em qualquer altura no futuro?
Não. Decidimos não fazê-lo. Voltar agora a ele… Temos um novo álbum, que consideramos o mais refrescante, moderno e profundo trabalho que alguma vez escrevemos e com o qual vamos fazer imensas digressões de promoção. Voltar atrás e lançar algo que considerámos não ser suficientemente bom e não seria uma boa representação musical de nós, seria fútil. A resposta é não. A resposta é começar a escrever de novo, fazer um novo álbum. Podemos ir lá roubar umas ideias àquelas canções, mas queremos continuar a olhar em frente e a desafiar-nos a nós próprios.

«[A demissão da Nuclear Blast] pôs tudo em movimento, foi o pontapé de saída.»

Consideras que um álbum como o “Confessions” teria sido possível em qualquer outra altura da vossa carreira?
Possivelmente. Acho que eventualmente teríamos chegado a este ponto. Se não fosse neste álbum talvez fosse no próximo. Estava a aproximar-se, porque todos nós gostamos de desafiar-nos na composição, temos interesse em imensos estilos que queremos mostrar. Mas [a demissão da editora] pôs tudo em movimento, foi o pontapé de saída.

Para quem ouve o disco e conhece a história da banda, soa como se tivessem ido ao inferno e regressado. É assim que se sentem?
Às vezes. [risos] Por vezes parece a coisa mais cansativa que alguma vez fizemos. Outras vezes – como agora – é uma autêntica aventura musical, é um processo criativo, um caminho e lidamos com as dificuldades à medida que nos aparecem pela frente. Somos artistas, somos pessoas criativas e divertidas que apreciam cada passo no caminho, seja ele gravar um álbum, escrever novo material ou dar concertos. Vivemos isto, é o que somos e o que fazemos. E adoramos cada minuto.

«Aconteceram coisas tristes no passado, mas tudo o que aconteceu é o que faz de nós quem somos, não podemos mudar isso. Por isso nunca olho para trás.»

Olhando para trás, arrependem-se de alguma decisão que tomaram ao longo desse caminho?
Há causas e efeitos… Temos de olhar para onde estamos agora. Agora tenho na banda dois dos melhores amigos que alguma vez tive, temos uma editora que está a esforçar-se imenso para vencermos nos E.U.A. e na Europa e que nos dá tudo o que precisamos. A vida é óptima. Aconteceram coisas tristes no passado, mas tudo o que aconteceu é o que faz de nós quem somos, não podemos mudar isso. Por isso nunca olho para trás.

A banda teve uma série de alterações de formação no passado. Achas que esse é o principal motivo pelo qual os Sonic Syndicate nunca chegaram verdadeiramente ao topo do metal internacional?
Sim, existiram alguns obstáculos. Lembro-me que na altura do “We Rule The Night” estávamos a tocar em grandes salas e boa parte delas estavam esgotadas ou quase esgotadas… E o sentimento era que estávamos prestes a explodir e conquistar o mundo. E depois alguns elementos saíram e foi uma espécie de travagem nessa ascensão. E não é culpa da editora, não é culpa da música ou dos fãs… Eles estavam a adorar, mas quando travamos durante um par de anos, existe tanta música lá fora hoje em dia, que acabamos por perder a oportunidade. Aconteceu-nos o mesmo no último álbum; tínhamos dois elementos da banda com dois filhos cada um e tiveram de fazer uma pausa para criar os filhos… E decidiram que não podiam fazer tantas digressões. Hoje em dia, uma banda que não faça digressões pura e simplesmente não tem sucesso. As pessoas não vão pedir que as nossas músicas passem nas rádios se não nos virem ao vivo, não vêm aos concertos, não vão fazer download das faixas, não vão voltar a ouvi-las e espalhar a palavra nas redes sociais se não estivermos lá fora a deixar a nossa marca todos os dias. Dou graças a deus por estar feliz com a música neste momento e por ter pessoas à minha volta, membros da banda à minha volta que querem fazer a mesma coisa que eu: estar na estrada 24 horas por dia, 365 dias por ano. E vamos fazê-lo; a nova digressão aproxima-se e estou incrivelmente feliz e agradecido neste momento.

Estão então os três totalmente apostados em viver da banda, mesmo tendo passado o que passaram, mesmo considerando o estado actual da indústria musical?
Cem por cento. Eu, o Rob e o Misha somos como irmãos, as pessoas chamam-nos “Os três amigos”… Mesmo quando não estamos em digressão, ou estamos a ver filmes de terror juntos nas casas uns dos outros, a fazer uma churrascada juntos e com os nossos amigos. O sentimento é parecido com aquele que acompanha o início de uma banda, tipo escola secundária, quando fazemos jams na garagem ou na cave dos amigos. Há uma aura de muita inocência e parecida com quando as coisas começam, quando somos miúdos.

«O “Confessions” é sobre não esconder nada, não nos arrependermos de nada e deitar tudo cá para fora, para toda a gente ver.»

As letras do “Confessions” também reflectem esse estado de espírito de ter ido ao inferno e voltar?
Sim, é uma temática recorrente ao longo do álbum. O “Confessions” é sobre não esconder nada, não nos arrependermos de nada e deitar tudo cá para fora, para toda a gente ver. Se não tivermos segredos ou nada que nos preocupe, se deitarmos tudo cá para fora, então não teremos fraquezas e a única coisa a fazer é partir daí para a frente. E viver a vida da forma que é suposto.

O lado negativo dessa abordagem é que podem expor-se um pouco demasiado. Não tens medo de te expores perante o vosso público?
Não tenho medo de nada na vida. Não temos nada a esconder, estamos a divertir-nos, escrevemos a música de que gostamos e que já percebemos que outras pessoas gostam também… Não existe um lado negativo. Se a parte negativa é algumas pessoas não gostarem… E então? É um mundo enorme, existem um milhão de bandas… Se alguém não gostar de alguma coisa pode queixar-se disso, escrever porcaria sobre isso ou ouvir outra coisa qualquer. Não vai afectar a música que me deixa orgulhoso. Posso apoiar isto a 100% e dizer que estas letras têm um significado enorme para mim. São o reflexo da minha vida, da viagem que eu tenho feito e são 100% honestas.

«Sempre tentei escrever do fundo do coração, mas de alguma forma nunca consegui que saísse tão lá do fundo quanto saiu desta vez.»

Isso é um ponto extra para os concertos… Porque a energia flui melhor quando cantamos algo que vem do coração, certo?
Sempre tentei escrever do fundo do coração, mas de alguma forma nunca consegui que saísse tão lá do fundo quanto saiu desta vez. Desta vez não conseguia, pura e simplesmente, parar. Tinha tanta coisa para dizer sobre amor, relacionamentos, tive de lidar com pessoas queridas que tiveram cancro, estive em relações tóxicas, estive em relações em que fui má pessoa e em que queria estar com outras pessoas… O amor é uma coisa que nos dá imensas coisas positivas e negativas e existe muito para escrever sobre ele. Acho que o importante a reter aqui é que este é um álbum positivo. Mesmo que fale de temas mais negros, gosto sempre de colocar uma luz ao fundo do túnel. Existe sempre um passo seguinte, alguma coisa na próxima esquina pela qual vale a pena viver.

Referiste há pouco que todos vocês têm ouvido coisas mais variadas e diferentes. Pessoalmente, o que tens ouvido e que possa ter sido uma influência para a música deste álbum?
Não houve nada que influenciasse directamente este álbum. Posso listar-te as cinco principais bandas que cada um de nós tem ouvido, mas nenhuma das novas canções são reflexos delas. O Robin tem ouvido imenso U2 e o álbum não reflecte nada U2. Eu tenho ouvido Don Broco, Paris… O que quero dizer é que não nos inspirámos em nada. Inspirámo-nos na música em geral. Existem tantas sonoridades diferentes por aí e formas diferentes de escrevermos o nosso próprio material. Não deixámos nada por fazer.

«[O death metal melódico] tornou-se tão sobrepovoado que já nada consegue ser original.»

Mas existe definitivamente algo diferente no caldeirão desta vez e o álbum reflecte isso.
Quando a banda começou, as nossas únicas influências eram Dark Tranquillity, Soilwork e In Flames. Foi com isso que a banda se fez, embora com alguns pozinhos de bandas americanas como Atreyu e Killswitch Engage. O que quero dizer é que estávamos todos muito envolvidos num certo subgénero de metal. E esse subgénero tornou-se tão sobrepovoado que já nada consegue ser original. Eu só quero pegar no melhor que fizemos e acrescentar-lhe mais coisas, de modo a que soe refrescante de novo. Não é algo que tenhamos feito antes. Queremos abrir-nos, temos ouvido pop, house, metal… Por isso a nossa música irá obviamente soar muito diferente.

Vais ter dificuldade em aceitar se as pessoas nem sequer derem uma oportunidade ao disco por terem uma ideia pré-definida dos Sonic Syndicate e acharem que não vale a pena sequer experimentarem?
Para ser sincero, aprendi uma coisa muito importante com os nossos fãs verdadeiros, aqueles que são fãs da banda agora e não apenas por causa do subgénero a que estávamos associados antes. Os nossos fãs verdadeiros estão connosco desde cerca de 2009, quando começámos a escrever coisas diferentes, tentámos ser nós próprios e deixámos de ser meros clones de outras bandas de metal que existem. E noto que esse tipo de fãs ouvem música muito variada e diferente. E isso é um reflexo do consumidor de música moderno, não do consumidor old school. O apreciador de música moderno faz parte da era digital e pode basicamente ouvir tudo o que lhe apetecer. Pode começar por ouvir, digamos, Children Of Bodom, e quando clicar no botão “artista relacionado” três vezes vai acabar a ouvir algo que a sua irmã ou o seu vizinho andam a ouvir nesse dia. E se pesquisar um pouco mais vai ouvir quatro ou cinco estilos diferentes de música e gravar uma série de bandas diferente na playlist para ouvir mais tarde. A biblioteca de música de uma pessoa pode conter qualquer coisa, desde Lynyrd Skynyrd a Linkin Park, desde Testament a Slayer, passando por Justin Bieber, Rhianna, Eminem, Busta Rhymes, Coldplay, Sonic Syndicate ou Spineshank. Onde quero chegar é que a música é incrivelmente variada agora e ninguém no mundo da música moderna tem vergonha do que ouve. Já não há um guilty pleasure em gostar de géneros diferentes, as pessoas ouvem géneros diferentes. É claro que existem os fãs hardcore que gostam apenas do seu speed metal, é tudo o que ouvem e se a sua banda favorita mudar, fazem os cornos com uma mão, esticam o dedo do meio da outra e dizem “Isto é uma merda e nunca mais vou ouvir isto”. Mas para ser sincero não é esse o tipo de pessoas que somos, gostamos de muita música diferente mas não desrespeitamos quem ouve apenas um estilo. Afinal, eu cresci a ouvir apenas thrash metal durante muitos anos – e ainda adoro. O que quero dizer é que essas pessoas têm direito à sua opinião, podem ouvir as suas bandas thrash favoritas ou novos grupos. Não sinto qualquer tipo de rancor em relação a elas. Da mesma forma, se alguns fãs old school de Sonic Syndicate não gostarem [do novo álbum] podem expressar a sua opinião como quiserem. Nós estamos a crescer, a música está a crescer e existirá sempre espaço para bandas que se atrevem a fazer algo diferente.

Como é a vossa relação pessoal com os irmãos Sjunnesson actualmente?
Não tivemos qualquer tipo de contacto pessoal com eles desde que nos separámos.

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