[Entrevista] Steve Hackett: Farol de Paz | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Entrevista] Steve Hackett: Farol de Paz

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Existem músicos com experiência, estatuto e carreira consolidada que se limitam a repetir a fórmula que lhes deu sucesso, sabendo que é isso que a sua base de fãs pretende. Depois existe Steve Hackett. O guitarrista britânico que foi parte essencial do sucesso dos Genesis nos anos 70 prossegue agora uma carreira a solo e tem em “The Night Siren” o seu 25.º álbum de originais. Nele, Hackett funde as suas origens progressivas e sinfónicas com influências musicais – e convidados – de literalmente todo o mundo, numa aventura musical ambiciosa e deslumbrante que recupera o sentimento de música pela paz dos anos 60. Senhoras e senhores, em discurso directo, ao telefone a partir do Reino Unido, o mestre, o Senhor. Steve Hackett.

 

 

«Num mundo extremamente dividido tentei fazer um álbum que apela à unidade.»

Lembras-te claramente qual era o teu pensamento quando iniciaste a composição do “The Night Siren”?
Sim; queria escrever um álbum que fosse uma mensagem de paz para o resto do mundo. Tive muitos músicos convidados no disco. Vinte pessoas de diferentes lugares: de Israel e da Palestina a trabalharem juntos, da Islândia, da Hungria, dos Estados Unidos, do Reino Unido, do Azerbaijão… Acaba por passar o sentimento de que o álbum foi sendo construído em locais diferentes, por pessoas diferentes e que todas as pessoas contribuíram com as suas partes. Por vezes eram gravações locais que recolhia em vários sítios e depois, alguns anos depois, descobria uma maneira de usá-las. Mas basicamente a mensagem é de paz, porque neste momento toda a gente está preocupada com o estado do mundo e com receio que estejamos a voltar politicamente à idade das trevas. Eu queria demonstrar que é possível os músicos de todo o mundo trabalharem juntos. Músicos e cantores. Posto isso, o álbum é uma mistura de géneros, bem como de regiões geográficas diferentes. Há muitos elementos progressivos mas tem uma abordagem pan-géneros, com muitos estilos diferentes. Gosto do elemento surpresa. Juntar tudo isto e fazer uma espécie de colagem – por vezes uma colisão, mesmo – de diferentes escolas de pensamento. Deu-me um imenso prazer fazer o álbum.

A produção do álbum tinha tudo para ser um pesadelo logístico. Foi-o de facto?
Não creio que tenha sido tanto um pesadelo, foi mais um desafio. Desde o momento em que tive as ideias podia trabalhar cara-a-cara, podia visitar as pessoas ou podia partilhar ficheiros. Existem tantas maneiras de fazer coisas. Escrevi o material com a minha esposa Jo [Hackett] e com o Roger King. Por isso tivemos uma equipa de composição com a qual escrevemos esboços das músicas, mas tudo era flexível. É como realizar um filme com várias unidades de câmaras: tínhamos a unidade principal e depois a segunda unidade para captar a atmosfera. Quando terminámos esse trabalho dissemos “OK, agora vamos viajar pelo mundo com isto”. É uma forma de trabalhar muito flexível e muito diferente do velho método disciplinado de trabalhar com uma pessoa cara-a-cara ou com um grupo. É muito mais como rodar um filme, como disse há pouco. Temos de editar as coisas.

Mas tinhas de ter uma ideia clara daquilo que querias, senão corrias o risco de te dispersares, certo?
De facto. Havia muitas ideias diferentes… Queria ter algum rock, algum flamenco e gaitas-de-foles celtas. Estas eram coisas que eu queria mesmo incluir no álbum. Por isso, era um pouco como montar um puzzle gigante. Uma peça encaixava noutra peça e por aí fora. Para as gravações tive uma banda britânica que fez o núcleo das músicas, mas depois misturámos todas as outras coisas. Tivemos um baterista da Islândia – o Gulli Briem da banda Mezzoforte. Uma das faixas foi escrita na Sardenha, em conjunto com uma banda local, numa espécie de cooperativa de jam. Gosto que as pessoas produzam aquilo de que gostam mais e não desperdiço nada. Fico com muitas opções diferentes.

«Podemos fazer canções pop o resto da nossa vida ou podemos falar de temas como desigualdade e violência que reinam no mundo da política e economia.»

Consegues encontrar uma ligação entre o facto de o mundo estar mais negro e os artistas fazerem música mais inspirada e menos comercial?
Acho que essa ligação existe. Acho que cabe à música dizer algo novamente. Podemos fazer canções pop o resto da nossa vida ou podemos falar de temas como desigualdade e violência que reinam no mundo da política e economia. Acho que, quanto mais velho fico, mais sinto que o comentário social faz parte da música. Mas ao mesmo tempo queria fazer um álbum que fosse uma boa viagem também. Queria que as pessoas se divertissem a ouvi-lo mas, ao mesmo tempo, que escutassem uma faixa como a “Behind The Smoke” e soubessem que é sobre refugiados. Isso é importante para mim. De facto, a minha própria família, no final do Século XIX, fugiu da Polónia, sobrevivendo a pogroms contra o povo judeu. Chegaram a Portugal, que é o vosso país. Originalmente chamavam-se Kalzelski, mas depois o nome mudou para da Costa e da Silva, como o povo da costa e o povo do dinheiro. Depois foram para Inglaterra, para a parte leste de Londres, onde o nome da Costa se tornou Davies, e onde trabalharam como doidos. Daí foram para a Irlanda. É claro que esta história tem um paralelo com os refugiados, que merecem compaixão, a nossa amizade e o nosso companheirismo. Num mundo extremamente dividido tentei fazer um álbum que apela à unidade. É, a todos os níveis, uma mensagem de esperança e paz. Mas por outro lado sou apenas um entertainer, claro.

«Às vezes olhamos para fotos antigas de familiares e perguntamo-nos como seria a vida dele», especula Hackett sobre os seus antepassados.

Não fazia ideia que tens raízes em Portugal.
Sim. Como disse, os meus antepassados fizeram uma longa viagem enquanto escapavam. É interessante a forma como se desenrolou. Foi no final do Século XIX que começou essa saga… Foi uma época interessante. Às vezes olhamos para fotos antigas de familiares e perguntamo-nos como seria a vida deles. A minha bisavó falava de mulheres na Polónia que eram arrastadas pelos cabelos; foi assim tão mau. E claro que tiveram de fugir para sobreviverem. E se não o tivessem feito teriam sido massacrados na Segunda Guerra Mundial devido ao sentimento anti-semítico. Mas se saltarmos para o presente vemos Israel, representado no álbum através do Kobi Farhi, dos Orphaned Land, a trabalhar em conjunto com a Mira Awad, uma cantora palestiniana. Juntos cantam a faixa “West To East” em árabe e hebreu. Acho que é uma forma interessante de mostrar que podemos misturar tudo.

Fizeste imensas viagens pelo mundo para compores e gravares este disco. O que reténs dessas viagens?
Durante essas viagens ou fazia amizade com músicos locais ou trazia instrumentos comigo para trabalhar com eles. Enquanto coleccionava amizades e relacionamentos, tentei conhecer a música local e ter uma ideia de como soava. Por exemplo, eu e a minha esposa fizemos um par de viagens ao Peru e lá foi-me oferecido um charango, que é um pequeno instrumento de cordas e também comprei uma quena, que é uma pequena flauta, que eles tocam num vibrato muito rápido. Esses dois instrumentos é o que faz o som dos Andes, o som das montanhas. Visitei esses locais, trabalhei lá, fui um turista e um entertainer… E é um país fabuloso. Uma das faixas que gravei no álbum chama-se “Inca Terra”, começa pequena e torna-se muito grande… Tem muitas mudanças, partes jazz, partes orquestrais… Começa na floresta e sobe até aos céus.

Existe uma essência desse tipo de descobertas no álbum.
Conheci pessoas e relacionei-me com elas. Conheci alpacas, que são criaturas incríveis. E as pessoas eram incrivelmente abertas. Ao longo das viagens descobri que as pessoas são basicamente muito abertas. Até agora fui compensado com experiências maravilhosas. Viajar pelo mundo é um trabalho excelente que espero continuar por muitos anos.

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