#ChooseUltraje

Entrevistas

Tales For The Unspoken: Coimbra é uma lição (entrevista c/ Marco Fresco e Nuno Khan)

João Correia

Publicado há

-

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

«Surgimos da necessidade de haver metal em Coimbra.»

Ainda hoje, a ligação de Coimbra com a música moderna é falada com nostalgia devido aos intervenientes que fizeram parte dela desde o final dos anos 80 até ao princípio dos 2000 – principal produto exportado da cidade para o mundo, os casos mais sérios de sucesso do rock foram M’as Foice, Tédio Boys, Belle Chase Hotel, Garbage Catz, Voodoo Dolls, Legendary Tigerman, Wraygunn e The Parkinsons. No que toca ao universo do metal, porém, sempre existiu um vazio incompreensível na cidade mais alternativa do país. Se Lisboa e Porto nunca conseguiram, nos seus melhores dias, competir com Coimbra quando o assunto era o rock, Coimbra sempre foi uma das cidades mais pobres do país em termos de bandas de heavy metal: na verdade, o primeiro registo conhecido de uma banda de metal em Coimbra ocorre em 1993 (Katacumba), quando as suas cidades e vilas satélites já tinham representantes desde 1987 (Damage, da Figueira da Foz). Durante mais de 17 anos não houve bandas de metal em Coimbra com continuidade.

Entre 2000 e 2015, a cidade sofreu uma transformação drástica: contrariando o paradigma tradicional, surgiram na cidade dos estudantes, de um dia para o outro, várias bandas, uma marca de roupa, estúdios de gravação e outras iniciativas com o heavy metal como pano de fundo. É seguro afirmar que, a seguir à Grande Lisboa e ao Grande Porto, Coimbra é, actualmente, a cidade portuguesa mais fervilhante em termos de metal. Marco Fresco, vocalista, indica-nos que os Tales For The Unspoken foram um dos principais catalisadores da cena: «Fomos a primeira banda desta nova vaga, que inclui Destroyers of All, Terror Empire e Midnight Priest, entre outros. Surgimos da necessidade de haver metal em Coimbra. Havia metaleiros, havia vontade de tocar e havia músicos, mas não havia locais para tocar e uma banda de metal que representasse Coimbra. Vingar no metal em Portugal é difícil hoje em dia, assim como Ramp e Moonspell fizeram no passado, logo, existem presentemente núcleos de bandas em cada cidade. Coimbra não poderia ficar atrás das outras e acho que, actualmente, temos uma das mais importantes ofertas de metal em Portugal. Os Terror Empire tocaram no VOA há pouco tempo, nós no Vagos Metal Fest. Os Midnight Priest já tocaram no Wacken. Estamos mesmo muito bem representados.»

A comemorar dez anos de actividade, a banda de Coimbra conta com duas edições, “Alchemy” (2011) e “CO2” (2015). É declaradamente pouco quando a vontade de qualquer banda é de avançar e singrar, mas, como em tudo o que fazemos, costumam surgir obstáculos pelo caminho que dificultam uma transição suave para a profissionalização – se não é o alinhamento instável, então é a oferta exagerada de que o género padece hoje em dia; se não é a falta de compromisso com o projecto, então é a falta de apoios com que uma banda underground se costuma deparar. Assim como estes obstáculos, existem muitos outros que vão surgindo com o tempo, o que prejudica qualquer banda que tenha a vontade de viver exclusivamente da música. Nuno Khan, guitarrista e fundador da banda, sabe bem que quando um é superado aparecem de imediato dois para tomar o seu lugar, como uma hidra que se recusa a morrer apenas porque lhe cortámos uma das suas muitas cabeças. «Quando os Tales começaram em 2007, tivemos sempre o sonho de subsistir do metal em full-time, mas confesso que é muito complicado – temos todos trabalhos a tempo inteiro e provavelmente assim deveremos continuar. Neste momento ficamos satisfeitos se festivais como o Vagos Metal Fest reconhecerem o nosso trabalho e nos convidarem e nos colocarem a tocar em boas posições. São 10 anos a trabalhar para isto, para tocarmos em festivais como o Vagos, mas não é fácil. Sou engenheiro informático; apesar de tudo, é uma profissão estável e para a deixar teria que perceber que a música estaria a evoluir consideravelmente para avançar para a profissionalização.»

«Neste momento ficamos satisfeitos se festivais como o Vagos Metal Fest reconhecerem o nosso trabalho.»

Fresco anui, concordando com o guitarrista: «Sou designer gráfico. Embora também seja uma profissão bastante estável, o meu sonho é poder viver da música. Se vais ao Spotify, vês que o metal é um dos géneros mais ouvidos, e não entendo… [pausa] Pensemos em Metallica, que vivem das digressões que fazem. Não consigo perceber como é que existem organizadores que criam eventos com muita gente e têm a coragem de não pagar a uma banda. Enquanto isso acontecer vai ser impossível para as bandas vingarem, principalmente as pequenas. Se uma banda pequena conseguisse fazer uns 5-7 concertos por mês com um cachet de 500 euros, que não é nada, com certeza que as bandas apostariam mais na música e reconsiderariam em ir em digressão porque existiria uma almofada de conforto no final do mês. Em 10 anos, houve meses em que fizemos dinheiro suficiente para viver da música; acontece que o ano tem 12 meses, e nos outros 11 também precisamos de comer. O Vagos é um excelente exemplo em contrário: quando nos convidaram para vir aqui tocar e nos apresentaram a proposta financeira, comecei a rir e pensei: ‘Fosse sempre assim!’ Nós costumamos sempre enviar uma proposta de cachet sabendo de antemão que essa proposta vai ser renegociada para baixo. Dou o exemplo do Mosher Fest, em Coimbra, já que costumo ajudar o Rui [dono da marca Mosher]: sendo que ambos temos uma banda, eu não seria capaz de contratar uma banda com 10 anos de actividade, como os Tales, e oferecer-lhes umas bifanas [risos]. Há pessoal a fazer isto ainda hoje; dá-me para rir, mas mais ainda para chorar. Como é que uma banda de miúdos iniciada há uns meses consegue sonhar e aspirar a melhorar tecnicamente com estas condições? Nesse sentido, não houve evolução em 10 anos.»

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

Dez anos que sempre apresentaram uma multiculturalidade invulgar desde o início da banda. Natural de Moçambique e chegado a Coimbra em 2007, Nuno Khan imaginava que o movimento do heavy metal em Portugal era bastante forte, desabituado que estava à cultura do lado de cá da portugalidade. Ainda assim, encontrou gente motivada que tinha a mesma particularidade em comum (o metal) e que acabou por ser a cola que uniu todas as diferenças culturais entre os elementos da banda. Para além disso, dá sempre para pensar nas diferentes influências culturais de que a música pôde beneficiar quando, à época, só havia um elemento português na banda. Um bom exemplo dessa multiculturalidade está bem presente em “N’Takuba Wena”, uma das faixas do colectivo que inclui cânticos tribais. «Quando cheguei a Coimbra, decidi automaticamente criar uma banda de metal. Foi nessa altura que conheci o Miguel [Gonçalves, ex-guitarrista], de Cabo Verde, e o Guilherme [Busato, ex-guitarrista], do Brasil. Assim como em Portugal, em Moçambique o metal é um nicho, não é seguido pelas massas; lá é para um grupo muito selectivo e eu fazia parte dele. Quando cheguei a Portugal pensava que havia metal em todo o lado e que toda a gente gostava de metal, e não foi isso que vi. No entanto, existia essa língua internacional que é o metal e foi ela que nos uniu juntamente com os traços culturais dos PALOP – gostávamos todos de metal e foi isso que começámos a tocar. No “Alchemy” introduzimos sons associados à cultura de cada um de nós, mas, no final, a base sempre foi e sempre será metal», conclui.

«Assim como em Portugal, em Moçambique o metal é um nicho, não é seguido pelas massas.»

Não se pense, porém, que em 10 anos a banda se limitou a lançar dois registos e a dar um ou dois concertos pelos locais habituais – a verdade é que os Tales For The Unspoken foram a primeira banda europeia de heavy metal a tocar em Cabo Verde, com honras de estado e com reacções populares insólitas: foram esperados por fãs de heavy metal à chegada ao aeroporto e tratados como autênticas estrelas rock, com guia local ao serviço da banda, um apartamento para permanecerem durante a estadia, segurança particular e todas as mordomias geralmente atribuídas a altas personalidades governamentais. Depois disso, a banda foi entrevistada na RTP África, tal é o interesse dos países africanos em relação ao metal. Preconceitos à parte, seria natural entrar em diatribes sobre a cultura musical de Cabo Verde excluir o heavy metal da sua oferta musical por uma questão de lógica cultural, mas a verdade não poderia ser mais distinta, como atesta o vocalista com um brilho nos olhos e com emoção na voz, ainda bem recordado da experiência que viveu: «Foi assim: um rapaz cabo-verdiano que estudou em Coimbra regressou a Cabo Verde quando estavam a organizar o Grito Rock. Perguntaram-lhe por bandas de metal e ele falou nos Tales For The Unspoken. Para juntar à festa, quando o César, um dos organizadores do festival, foi ver qual era a banda, viu que tínhamos um membro cabo-verdiano e que o conhecia. De repente, tudo fez sentido. Só acreditámos que íamos tocar a Cabo Verde quando recebemos os bilhetes de avião. [risos] Era bom de mais para ser verdade. A experiência em Cabo Verde é inesquecível. Antes de mais, foi um marco histórico e lamento que a imprensa especializada e generalista não tivesse noticiado o evento – afinal de contas, fomos a primeira banda europeia a tocar num país. Enviámos a informação para todos os outlets de renome – vocês [Ultraje] foram o único a publicar a notícia. Ou seja, nós não tocámos só no Grito Rock – tocámos num canal de televisão e na Embaixada de Portugal em Cabo Verde, para o Embaixador e staff da embaixada. [risos] Tínhamos o nosso poster ao lado do [Pedro] Abrunhosa. [risos] Passou por lá o Ministro da Cultura e a representante da Embaixada. O concerto em concreto foi surreal, mosh do princípio ao fim. Quem julga que o pessoal em Cabo Verde não curte metal, vive noutra realidade. Cá, o pessoal usa t-shirts de bandas, é comum. Lá, o movimento é tão forte que eles têm grupos de fãs de metal que têm nome e merch próprio e usam as t-shirts desses clubes de que são membros. Não são fãs – são gangues! [risos] No princípio dos concertos, muito antes de nós tocarmos, vimos fãs no mosh a dar tudo o que tinham em concertos de bandas locais de hard rock; dissemos a um gajo da organização que, quando chegasse a nossa vez, eles já não aguentavam de cansaço, porque eram muitas bandas no cartaz. Ele olhou para nós e disse-nos: ‘Ai não? Vais ver. Vocês é que não vão ter pedalada para eles’. O gajo tinha toda a razão. Nós estávamos a fazer soundcheck e os já estavam doidos a fazer mosh! [risos] Mesmo o pessoal que não gostava de metal ficou até ao fim. Senti-me como um gajo dos Metallica. [risos] Não conseguíamos dar dois passos sem tirar uma selfie, sem dar um autógrafo, parecia que eram os Metallica que estavam a tocar. A sério que contado não dá para entender. Nos cinco dias que lá estivemos, gastámos 70 euros no total em cerveja e bolachas [risos]: íamos almoçar ou jantar fora, estava sempre tudo pago; íamos a bares beber, estava sempre tudo pago. Fomos convidados por uma escola de hotelaria para uma visita oficial, almoçámos e jantámos lá. Resumindo: temos muitas saudades de Cabo Verde. [risos]»

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

O concerto em Cabo Verde proporcionou ainda imensos contactos, incluindo do Brasil, onde o movimento heavy metal é de um tamanho incompreensível mesmo para nós, portugueses – afinal, e porque são 350 milhões de habitantes, existe mercado para qualquer estilo de metal. Isto transporta-nos para o futuro próximo dos Tales For The Unspoken que, em fase de composição de novos temas, têm também boas notícias para a comunidade brasileira de metal. Nuno Khan explica: «Estamos em fase de composição de novos temas. Infelizmente, com a saída do Miguel, que regressou a Cabo Verde, atrasámos o processo, a nossa meta arrastou-se. Por nossa vontade, lançávamos álbuns ano após ano, mas é o tal problema de ainda não vivermos da música. Já temos algumas faixas e estamos a investir nelas. E recebemos um convite para ir em digressão pelo Brasil em 2018, começando em Brasília e acabando em São Paulo.» Fresco elabora os planos: «Em Cabo Verde conhecemos duas bandas brasileiras e mantivemos os contactos. Decidimos fazer uma digressão de uma semana entre Brasília a São Paulo, tocando todos os dias e andando num tour-bus a promover os Tales e as restantes bandas. É uma distância enorme [1000 Km]. Ainda que seja um projecto embrionário, é o nosso interesse para 2018.» Khan remata aludindo a novidades no som da banda: «Eu e o Miguel introduzíamos as ideias, mas ele saiu, logo ficará a meu cargo criar as ideias, as minhas influências, e apresentá-las aos restantes elementos e perceber a sua aceitação. Será muito na linha do “CO2” e terá nuances do “Alchemy”, embora não se trate de uma fusão dos dois.»

Trabalho, dedicação, sacrifício pessoal e gosto pelo que se faz são os ingredientes de uma fórmula que tem resultado para os Tales For The Unspoken há uma década e que, pelo andar da carruagem, se saldará numa maior visibilidade internacional muito em breve.

Entrevistas

Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

Continuar a ler

Entrevistas

Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

Publicado há

-

«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

Continuar a ler

Entrevistas

RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

Publicado há

-

«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

Review AQUI.

Continuar a ler

Facebook

#UltrajeRadar

Ultraje #17