#ChooseUltraje

Entrevistas

Tales For The Unspoken: Coimbra é uma lição (entrevista c/ Marco Fresco e Nuno Khan)

João Correia

Publicado há

-

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

«Surgimos da necessidade de haver metal em Coimbra.»

Ainda hoje, a ligação de Coimbra com a música moderna é falada com nostalgia devido aos intervenientes que fizeram parte dela desde o final dos anos 80 até ao princípio dos 2000 – principal produto exportado da cidade para o mundo, os casos mais sérios de sucesso do rock foram M’as Foice, Tédio Boys, Belle Chase Hotel, Garbage Catz, Voodoo Dolls, Legendary Tigerman, Wraygunn e The Parkinsons. No que toca ao universo do metal, porém, sempre existiu um vazio incompreensível na cidade mais alternativa do país. Se Lisboa e Porto nunca conseguiram, nos seus melhores dias, competir com Coimbra quando o assunto era o rock, Coimbra sempre foi uma das cidades mais pobres do país em termos de bandas de heavy metal: na verdade, o primeiro registo conhecido de uma banda de metal em Coimbra ocorre em 1993 (Katacumba), quando as suas cidades e vilas satélites já tinham representantes desde 1987 (Damage, da Figueira da Foz). Durante mais de 17 anos não houve bandas de metal em Coimbra com continuidade.

Entre 2000 e 2015, a cidade sofreu uma transformação drástica: contrariando o paradigma tradicional, surgiram na cidade dos estudantes, de um dia para o outro, várias bandas, uma marca de roupa, estúdios de gravação e outras iniciativas com o heavy metal como pano de fundo. É seguro afirmar que, a seguir à Grande Lisboa e ao Grande Porto, Coimbra é, actualmente, a cidade portuguesa mais fervilhante em termos de metal. Marco Fresco, vocalista, indica-nos que os Tales For The Unspoken foram um dos principais catalisadores da cena: «Fomos a primeira banda desta nova vaga, que inclui Destroyers of All, Terror Empire e Midnight Priest, entre outros. Surgimos da necessidade de haver metal em Coimbra. Havia metaleiros, havia vontade de tocar e havia músicos, mas não havia locais para tocar e uma banda de metal que representasse Coimbra. Vingar no metal em Portugal é difícil hoje em dia, assim como Ramp e Moonspell fizeram no passado, logo, existem presentemente núcleos de bandas em cada cidade. Coimbra não poderia ficar atrás das outras e acho que, actualmente, temos uma das mais importantes ofertas de metal em Portugal. Os Terror Empire tocaram no VOA há pouco tempo, nós no Vagos Metal Fest. Os Midnight Priest já tocaram no Wacken. Estamos mesmo muito bem representados.»

A comemorar dez anos de actividade, a banda de Coimbra conta com duas edições, “Alchemy” (2011) e “CO2” (2015). É declaradamente pouco quando a vontade de qualquer banda é de avançar e singrar, mas, como em tudo o que fazemos, costumam surgir obstáculos pelo caminho que dificultam uma transição suave para a profissionalização – se não é o alinhamento instável, então é a oferta exagerada de que o género padece hoje em dia; se não é a falta de compromisso com o projecto, então é a falta de apoios com que uma banda underground se costuma deparar. Assim como estes obstáculos, existem muitos outros que vão surgindo com o tempo, o que prejudica qualquer banda que tenha a vontade de viver exclusivamente da música. Nuno Khan, guitarrista e fundador da banda, sabe bem que quando um é superado aparecem de imediato dois para tomar o seu lugar, como uma hidra que se recusa a morrer apenas porque lhe cortámos uma das suas muitas cabeças. «Quando os Tales começaram em 2007, tivemos sempre o sonho de subsistir do metal em full-time, mas confesso que é muito complicado – temos todos trabalhos a tempo inteiro e provavelmente assim deveremos continuar. Neste momento ficamos satisfeitos se festivais como o Vagos Metal Fest reconhecerem o nosso trabalho e nos convidarem e nos colocarem a tocar em boas posições. São 10 anos a trabalhar para isto, para tocarmos em festivais como o Vagos, mas não é fácil. Sou engenheiro informático; apesar de tudo, é uma profissão estável e para a deixar teria que perceber que a música estaria a evoluir consideravelmente para avançar para a profissionalização.»

«Neste momento ficamos satisfeitos se festivais como o Vagos Metal Fest reconhecerem o nosso trabalho.»

Fresco anui, concordando com o guitarrista: «Sou designer gráfico. Embora também seja uma profissão bastante estável, o meu sonho é poder viver da música. Se vais ao Spotify, vês que o metal é um dos géneros mais ouvidos, e não entendo… [pausa] Pensemos em Metallica, que vivem das digressões que fazem. Não consigo perceber como é que existem organizadores que criam eventos com muita gente e têm a coragem de não pagar a uma banda. Enquanto isso acontecer vai ser impossível para as bandas vingarem, principalmente as pequenas. Se uma banda pequena conseguisse fazer uns 5-7 concertos por mês com um cachet de 500 euros, que não é nada, com certeza que as bandas apostariam mais na música e reconsiderariam em ir em digressão porque existiria uma almofada de conforto no final do mês. Em 10 anos, houve meses em que fizemos dinheiro suficiente para viver da música; acontece que o ano tem 12 meses, e nos outros 11 também precisamos de comer. O Vagos é um excelente exemplo em contrário: quando nos convidaram para vir aqui tocar e nos apresentaram a proposta financeira, comecei a rir e pensei: ‘Fosse sempre assim!’ Nós costumamos sempre enviar uma proposta de cachet sabendo de antemão que essa proposta vai ser renegociada para baixo. Dou o exemplo do Mosher Fest, em Coimbra, já que costumo ajudar o Rui [dono da marca Mosher]: sendo que ambos temos uma banda, eu não seria capaz de contratar uma banda com 10 anos de actividade, como os Tales, e oferecer-lhes umas bifanas [risos]. Há pessoal a fazer isto ainda hoje; dá-me para rir, mas mais ainda para chorar. Como é que uma banda de miúdos iniciada há uns meses consegue sonhar e aspirar a melhorar tecnicamente com estas condições? Nesse sentido, não houve evolução em 10 anos.»

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

Dez anos que sempre apresentaram uma multiculturalidade invulgar desde o início da banda. Natural de Moçambique e chegado a Coimbra em 2007, Nuno Khan imaginava que o movimento do heavy metal em Portugal era bastante forte, desabituado que estava à cultura do lado de cá da portugalidade. Ainda assim, encontrou gente motivada que tinha a mesma particularidade em comum (o metal) e que acabou por ser a cola que uniu todas as diferenças culturais entre os elementos da banda. Para além disso, dá sempre para pensar nas diferentes influências culturais de que a música pôde beneficiar quando, à época, só havia um elemento português na banda. Um bom exemplo dessa multiculturalidade está bem presente em “N’Takuba Wena”, uma das faixas do colectivo que inclui cânticos tribais. «Quando cheguei a Coimbra, decidi automaticamente criar uma banda de metal. Foi nessa altura que conheci o Miguel [Gonçalves, ex-guitarrista], de Cabo Verde, e o Guilherme [Busato, ex-guitarrista], do Brasil. Assim como em Portugal, em Moçambique o metal é um nicho, não é seguido pelas massas; lá é para um grupo muito selectivo e eu fazia parte dele. Quando cheguei a Portugal pensava que havia metal em todo o lado e que toda a gente gostava de metal, e não foi isso que vi. No entanto, existia essa língua internacional que é o metal e foi ela que nos uniu juntamente com os traços culturais dos PALOP – gostávamos todos de metal e foi isso que começámos a tocar. No “Alchemy” introduzimos sons associados à cultura de cada um de nós, mas, no final, a base sempre foi e sempre será metal», conclui.

«Assim como em Portugal, em Moçambique o metal é um nicho, não é seguido pelas massas.»

Não se pense, porém, que em 10 anos a banda se limitou a lançar dois registos e a dar um ou dois concertos pelos locais habituais – a verdade é que os Tales For The Unspoken foram a primeira banda europeia de heavy metal a tocar em Cabo Verde, com honras de estado e com reacções populares insólitas: foram esperados por fãs de heavy metal à chegada ao aeroporto e tratados como autênticas estrelas rock, com guia local ao serviço da banda, um apartamento para permanecerem durante a estadia, segurança particular e todas as mordomias geralmente atribuídas a altas personalidades governamentais. Depois disso, a banda foi entrevistada na RTP África, tal é o interesse dos países africanos em relação ao metal. Preconceitos à parte, seria natural entrar em diatribes sobre a cultura musical de Cabo Verde excluir o heavy metal da sua oferta musical por uma questão de lógica cultural, mas a verdade não poderia ser mais distinta, como atesta o vocalista com um brilho nos olhos e com emoção na voz, ainda bem recordado da experiência que viveu: «Foi assim: um rapaz cabo-verdiano que estudou em Coimbra regressou a Cabo Verde quando estavam a organizar o Grito Rock. Perguntaram-lhe por bandas de metal e ele falou nos Tales For The Unspoken. Para juntar à festa, quando o César, um dos organizadores do festival, foi ver qual era a banda, viu que tínhamos um membro cabo-verdiano e que o conhecia. De repente, tudo fez sentido. Só acreditámos que íamos tocar a Cabo Verde quando recebemos os bilhetes de avião. [risos] Era bom de mais para ser verdade. A experiência em Cabo Verde é inesquecível. Antes de mais, foi um marco histórico e lamento que a imprensa especializada e generalista não tivesse noticiado o evento – afinal de contas, fomos a primeira banda europeia a tocar num país. Enviámos a informação para todos os outlets de renome – vocês [Ultraje] foram o único a publicar a notícia. Ou seja, nós não tocámos só no Grito Rock – tocámos num canal de televisão e na Embaixada de Portugal em Cabo Verde, para o Embaixador e staff da embaixada. [risos] Tínhamos o nosso poster ao lado do [Pedro] Abrunhosa. [risos] Passou por lá o Ministro da Cultura e a representante da Embaixada. O concerto em concreto foi surreal, mosh do princípio ao fim. Quem julga que o pessoal em Cabo Verde não curte metal, vive noutra realidade. Cá, o pessoal usa t-shirts de bandas, é comum. Lá, o movimento é tão forte que eles têm grupos de fãs de metal que têm nome e merch próprio e usam as t-shirts desses clubes de que são membros. Não são fãs – são gangues! [risos] No princípio dos concertos, muito antes de nós tocarmos, vimos fãs no mosh a dar tudo o que tinham em concertos de bandas locais de hard rock; dissemos a um gajo da organização que, quando chegasse a nossa vez, eles já não aguentavam de cansaço, porque eram muitas bandas no cartaz. Ele olhou para nós e disse-nos: ‘Ai não? Vais ver. Vocês é que não vão ter pedalada para eles’. O gajo tinha toda a razão. Nós estávamos a fazer soundcheck e os já estavam doidos a fazer mosh! [risos] Mesmo o pessoal que não gostava de metal ficou até ao fim. Senti-me como um gajo dos Metallica. [risos] Não conseguíamos dar dois passos sem tirar uma selfie, sem dar um autógrafo, parecia que eram os Metallica que estavam a tocar. A sério que contado não dá para entender. Nos cinco dias que lá estivemos, gastámos 70 euros no total em cerveja e bolachas [risos]: íamos almoçar ou jantar fora, estava sempre tudo pago; íamos a bares beber, estava sempre tudo pago. Fomos convidados por uma escola de hotelaria para uma visita oficial, almoçámos e jantámos lá. Resumindo: temos muitas saudades de Cabo Verde. [risos]»

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

O concerto em Cabo Verde proporcionou ainda imensos contactos, incluindo do Brasil, onde o movimento heavy metal é de um tamanho incompreensível mesmo para nós, portugueses – afinal, e porque são 350 milhões de habitantes, existe mercado para qualquer estilo de metal. Isto transporta-nos para o futuro próximo dos Tales For The Unspoken que, em fase de composição de novos temas, têm também boas notícias para a comunidade brasileira de metal. Nuno Khan explica: «Estamos em fase de composição de novos temas. Infelizmente, com a saída do Miguel, que regressou a Cabo Verde, atrasámos o processo, a nossa meta arrastou-se. Por nossa vontade, lançávamos álbuns ano após ano, mas é o tal problema de ainda não vivermos da música. Já temos algumas faixas e estamos a investir nelas. E recebemos um convite para ir em digressão pelo Brasil em 2018, começando em Brasília e acabando em São Paulo.» Fresco elabora os planos: «Em Cabo Verde conhecemos duas bandas brasileiras e mantivemos os contactos. Decidimos fazer uma digressão de uma semana entre Brasília a São Paulo, tocando todos os dias e andando num tour-bus a promover os Tales e as restantes bandas. É uma distância enorme [1000 Km]. Ainda que seja um projecto embrionário, é o nosso interesse para 2018.» Khan remata aludindo a novidades no som da banda: «Eu e o Miguel introduzíamos as ideias, mas ele saiu, logo ficará a meu cargo criar as ideias, as minhas influências, e apresentá-las aos restantes elementos e perceber a sua aceitação. Será muito na linha do “CO2” e terá nuances do “Alchemy”, embora não se trate de uma fusão dos dois.»

Trabalho, dedicação, sacrifício pessoal e gosto pelo que se faz são os ingredientes de uma fórmula que tem resultado para os Tales For The Unspoken há uma década e que, pelo andar da carruagem, se saldará numa maior visibilidade internacional muito em breve.

Entrevistas

Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

Publicado há

-

«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

Continuar a ler

Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

Continuar a ler

Entrevistas

Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

Continuar a ler

Facebook

#UltrajeRadar

Ultraje #20