Tales For The Unspoken: Coimbra é uma lição (entrevista c/ Marco Fresco e Nuno Khan) – Ultraje – Metal & Rock Online
Entrevistas

Tales For The Unspoken: Coimbra é uma lição (entrevista c/ Marco Fresco e Nuno Khan)

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

«Surgimos da necessidade de haver metal em Coimbra.»

Ainda hoje, a ligação de Coimbra com a música moderna é falada com nostalgia devido aos intervenientes que fizeram parte dela desde o final dos anos 80 até ao princípio dos 2000 – principal produto exportado da cidade para o mundo, os casos mais sérios de sucesso do rock foram M’as Foice, Tédio Boys, Belle Chase Hotel, Garbage Catz, Voodoo Dolls, Legendary Tigerman, Wraygunn e The Parkinsons. No que toca ao universo do metal, porém, sempre existiu um vazio incompreensível na cidade mais alternativa do país. Se Lisboa e Porto nunca conseguiram, nos seus melhores dias, competir com Coimbra quando o assunto era o rock, Coimbra sempre foi uma das cidades mais pobres do país em termos de bandas de heavy metal: na verdade, o primeiro registo conhecido de uma banda de metal em Coimbra ocorre em 1993 (Katacumba), quando as suas cidades e vilas satélites já tinham representantes desde 1987 (Damage, da Figueira da Foz). Durante mais de 17 anos não houve bandas de metal em Coimbra com continuidade.

Entre 2000 e 2015, a cidade sofreu uma transformação drástica: contrariando o paradigma tradicional, surgiram na cidade dos estudantes, de um dia para o outro, várias bandas, uma marca de roupa, estúdios de gravação e outras iniciativas com o heavy metal como pano de fundo. É seguro afirmar que, a seguir à Grande Lisboa e ao Grande Porto, Coimbra é, actualmente, a cidade portuguesa mais fervilhante em termos de metal. Marco Fresco, vocalista, indica-nos que os Tales For The Unspoken foram um dos principais catalisadores da cena: «Fomos a primeira banda desta nova vaga, que inclui Destroyers of All, Terror Empire e Midnight Priest, entre outros. Surgimos da necessidade de haver metal em Coimbra. Havia metaleiros, havia vontade de tocar e havia músicos, mas não havia locais para tocar e uma banda de metal que representasse Coimbra. Vingar no metal em Portugal é difícil hoje em dia, assim como Ramp e Moonspell fizeram no passado, logo, existem presentemente núcleos de bandas em cada cidade. Coimbra não poderia ficar atrás das outras e acho que, actualmente, temos uma das mais importantes ofertas de metal em Portugal. Os Terror Empire tocaram no VOA há pouco tempo, nós no Vagos Metal Fest. Os Midnight Priest já tocaram no Wacken. Estamos mesmo muito bem representados.»

A comemorar dez anos de actividade, a banda de Coimbra conta com duas edições, “Alchemy” (2011) e “CO2” (2015). É declaradamente pouco quando a vontade de qualquer banda é de avançar e singrar, mas, como em tudo o que fazemos, costumam surgir obstáculos pelo caminho que dificultam uma transição suave para a profissionalização – se não é o alinhamento instável, então é a oferta exagerada de que o género padece hoje em dia; se não é a falta de compromisso com o projecto, então é a falta de apoios com que uma banda underground se costuma deparar. Assim como estes obstáculos, existem muitos outros que vão surgindo com o tempo, o que prejudica qualquer banda que tenha a vontade de viver exclusivamente da música. Nuno Khan, guitarrista e fundador da banda, sabe bem que quando um é superado aparecem de imediato dois para tomar o seu lugar, como uma hidra que se recusa a morrer apenas porque lhe cortámos uma das suas muitas cabeças. «Quando os Tales começaram em 2007, tivemos sempre o sonho de subsistir do metal em full-time, mas confesso que é muito complicado – temos todos trabalhos a tempo inteiro e provavelmente assim deveremos continuar. Neste momento ficamos satisfeitos se festivais como o Vagos Metal Fest reconhecerem o nosso trabalho e nos convidarem e nos colocarem a tocar em boas posições. São 10 anos a trabalhar para isto, para tocarmos em festivais como o Vagos, mas não é fácil. Sou engenheiro informático; apesar de tudo, é uma profissão estável e para a deixar teria que perceber que a música estaria a evoluir consideravelmente para avançar para a profissionalização.»

«Neste momento ficamos satisfeitos se festivais como o Vagos Metal Fest reconhecerem o nosso trabalho.»

Fresco anui, concordando com o guitarrista: «Sou designer gráfico. Embora também seja uma profissão bastante estável, o meu sonho é poder viver da música. Se vais ao Spotify, vês que o metal é um dos géneros mais ouvidos, e não entendo… [pausa] Pensemos em Metallica, que vivem das digressões que fazem. Não consigo perceber como é que existem organizadores que criam eventos com muita gente e têm a coragem de não pagar a uma banda. Enquanto isso acontecer vai ser impossível para as bandas vingarem, principalmente as pequenas. Se uma banda pequena conseguisse fazer uns 5-7 concertos por mês com um cachet de 500 euros, que não é nada, com certeza que as bandas apostariam mais na música e reconsiderariam em ir em digressão porque existiria uma almofada de conforto no final do mês. Em 10 anos, houve meses em que fizemos dinheiro suficiente para viver da música; acontece que o ano tem 12 meses, e nos outros 11 também precisamos de comer. O Vagos é um excelente exemplo em contrário: quando nos convidaram para vir aqui tocar e nos apresentaram a proposta financeira, comecei a rir e pensei: ‘Fosse sempre assim!’ Nós costumamos sempre enviar uma proposta de cachet sabendo de antemão que essa proposta vai ser renegociada para baixo. Dou o exemplo do Mosher Fest, em Coimbra, já que costumo ajudar o Rui [dono da marca Mosher]: sendo que ambos temos uma banda, eu não seria capaz de contratar uma banda com 10 anos de actividade, como os Tales, e oferecer-lhes umas bifanas [risos]. Há pessoal a fazer isto ainda hoje; dá-me para rir, mas mais ainda para chorar. Como é que uma banda de miúdos iniciada há uns meses consegue sonhar e aspirar a melhorar tecnicamente com estas condições? Nesse sentido, não houve evolução em 10 anos.»

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

Dez anos que sempre apresentaram uma multiculturalidade invulgar desde o início da banda. Natural de Moçambique e chegado a Coimbra em 2007, Nuno Khan imaginava que o movimento do heavy metal em Portugal era bastante forte, desabituado que estava à cultura do lado de cá da portugalidade. Ainda assim, encontrou gente motivada que tinha a mesma particularidade em comum (o metal) e que acabou por ser a cola que uniu todas as diferenças culturais entre os elementos da banda. Para além disso, dá sempre para pensar nas diferentes influências culturais de que a música pôde beneficiar quando, à época, só havia um elemento português na banda. Um bom exemplo dessa multiculturalidade está bem presente em “N’Takuba Wena”, uma das faixas do colectivo que inclui cânticos tribais. «Quando cheguei a Coimbra, decidi automaticamente criar uma banda de metal. Foi nessa altura que conheci o Miguel [Gonçalves, ex-guitarrista], de Cabo Verde, e o Guilherme [Busato, ex-guitarrista], do Brasil. Assim como em Portugal, em Moçambique o metal é um nicho, não é seguido pelas massas; lá é para um grupo muito selectivo e eu fazia parte dele. Quando cheguei a Portugal pensava que havia metal em todo o lado e que toda a gente gostava de metal, e não foi isso que vi. No entanto, existia essa língua internacional que é o metal e foi ela que nos uniu juntamente com os traços culturais dos PALOP – gostávamos todos de metal e foi isso que começámos a tocar. No “Alchemy” introduzimos sons associados à cultura de cada um de nós, mas, no final, a base sempre foi e sempre será metal», conclui.

«Assim como em Portugal, em Moçambique o metal é um nicho, não é seguido pelas massas.»

Não se pense, porém, que em 10 anos a banda se limitou a lançar dois registos e a dar um ou dois concertos pelos locais habituais – a verdade é que os Tales For The Unspoken foram a primeira banda europeia de heavy metal a tocar em Cabo Verde, com honras de estado e com reacções populares insólitas: foram esperados por fãs de heavy metal à chegada ao aeroporto e tratados como autênticas estrelas rock, com guia local ao serviço da banda, um apartamento para permanecerem durante a estadia, segurança particular e todas as mordomias geralmente atribuídas a altas personalidades governamentais. Depois disso, a banda foi entrevistada na RTP África, tal é o interesse dos países africanos em relação ao metal. Preconceitos à parte, seria natural entrar em diatribes sobre a cultura musical de Cabo Verde excluir o heavy metal da sua oferta musical por uma questão de lógica cultural, mas a verdade não poderia ser mais distinta, como atesta o vocalista com um brilho nos olhos e com emoção na voz, ainda bem recordado da experiência que viveu: «Foi assim: um rapaz cabo-verdiano que estudou em Coimbra regressou a Cabo Verde quando estavam a organizar o Grito Rock. Perguntaram-lhe por bandas de metal e ele falou nos Tales For The Unspoken. Para juntar à festa, quando o César, um dos organizadores do festival, foi ver qual era a banda, viu que tínhamos um membro cabo-verdiano e que o conhecia. De repente, tudo fez sentido. Só acreditámos que íamos tocar a Cabo Verde quando recebemos os bilhetes de avião. [risos] Era bom de mais para ser verdade. A experiência em Cabo Verde é inesquecível. Antes de mais, foi um marco histórico e lamento que a imprensa especializada e generalista não tivesse noticiado o evento – afinal de contas, fomos a primeira banda europeia a tocar num país. Enviámos a informação para todos os outlets de renome – vocês [Ultraje] foram o único a publicar a notícia. Ou seja, nós não tocámos só no Grito Rock – tocámos num canal de televisão e na Embaixada de Portugal em Cabo Verde, para o Embaixador e staff da embaixada. [risos] Tínhamos o nosso poster ao lado do [Pedro] Abrunhosa. [risos] Passou por lá o Ministro da Cultura e a representante da Embaixada. O concerto em concreto foi surreal, mosh do princípio ao fim. Quem julga que o pessoal em Cabo Verde não curte metal, vive noutra realidade. Cá, o pessoal usa t-shirts de bandas, é comum. Lá, o movimento é tão forte que eles têm grupos de fãs de metal que têm nome e merch próprio e usam as t-shirts desses clubes de que são membros. Não são fãs – são gangues! [risos] No princípio dos concertos, muito antes de nós tocarmos, vimos fãs no mosh a dar tudo o que tinham em concertos de bandas locais de hard rock; dissemos a um gajo da organização que, quando chegasse a nossa vez, eles já não aguentavam de cansaço, porque eram muitas bandas no cartaz. Ele olhou para nós e disse-nos: ‘Ai não? Vais ver. Vocês é que não vão ter pedalada para eles’. O gajo tinha toda a razão. Nós estávamos a fazer soundcheck e os já estavam doidos a fazer mosh! [risos] Mesmo o pessoal que não gostava de metal ficou até ao fim. Senti-me como um gajo dos Metallica. [risos] Não conseguíamos dar dois passos sem tirar uma selfie, sem dar um autógrafo, parecia que eram os Metallica que estavam a tocar. A sério que contado não dá para entender. Nos cinco dias que lá estivemos, gastámos 70 euros no total em cerveja e bolachas [risos]: íamos almoçar ou jantar fora, estava sempre tudo pago; íamos a bares beber, estava sempre tudo pago. Fomos convidados por uma escola de hotelaria para uma visita oficial, almoçámos e jantámos lá. Resumindo: temos muitas saudades de Cabo Verde. [risos]»

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11  © André Henriques  www.facebook.com/ahphoto.portugal

Tales for the Uspoken playing live at Vagos Metal Fest 2017.08.11
© André Henriques
www.facebook.com/ahphoto.portugal

O concerto em Cabo Verde proporcionou ainda imensos contactos, incluindo do Brasil, onde o movimento heavy metal é de um tamanho incompreensível mesmo para nós, portugueses – afinal, e porque são 350 milhões de habitantes, existe mercado para qualquer estilo de metal. Isto transporta-nos para o futuro próximo dos Tales For The Unspoken que, em fase de composição de novos temas, têm também boas notícias para a comunidade brasileira de metal. Nuno Khan explica: «Estamos em fase de composição de novos temas. Infelizmente, com a saída do Miguel, que regressou a Cabo Verde, atrasámos o processo, a nossa meta arrastou-se. Por nossa vontade, lançávamos álbuns ano após ano, mas é o tal problema de ainda não vivermos da música. Já temos algumas faixas e estamos a investir nelas. E recebemos um convite para ir em digressão pelo Brasil em 2018, começando em Brasília e acabando em São Paulo.» Fresco elabora os planos: «Em Cabo Verde conhecemos duas bandas brasileiras e mantivemos os contactos. Decidimos fazer uma digressão de uma semana entre Brasília a São Paulo, tocando todos os dias e andando num tour-bus a promover os Tales e as restantes bandas. É uma distância enorme [1000 Km]. Ainda que seja um projecto embrionário, é o nosso interesse para 2018.» Khan remata aludindo a novidades no som da banda: «Eu e o Miguel introduzíamos as ideias, mas ele saiu, logo ficará a meu cargo criar as ideias, as minhas influências, e apresentá-las aos restantes elementos e perceber a sua aceitação. Será muito na linha do “CO2” e terá nuances do “Alchemy”, embora não se trate de uma fusão dos dois.»

Trabalho, dedicação, sacrifício pessoal e gosto pelo que se faz são os ingredientes de uma fórmula que tem resultado para os Tales For The Unspoken há uma década e que, pelo andar da carruagem, se saldará numa maior visibilidade internacional muito em breve.

Topo