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The Exploited: antes a morte do que a desonra (entrevista c/ Wattie Buchan)

João Correia

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rsz_the_exploited_4_-_alteradaThe Exploited no Moita Metal Fest 2018 (Foto: João Correia)

«Para a próxima, em vez de o Wattie Buchan ter um ataque cardíaco, o ataque cardíaco vai ter um Wattie Buchan.»

«É sempre a mesma coisa com ele antes e depois dos concertos», diz o baterista dos The Exploited, Wullie Buchan, enquanto se ri de troça e aponta para o irmão, Wattie Buchan, que se encontra à porta do camarim a falar com cerca de 10 fãs que querem tirar fotografias com ele, que lhe dizem “sex and violence” e que despejam informação irrelevante para cima do vocalista. «Fui visitar-te ao hospital quando sofreste o ataque cardíaco», diz-lhe uma fã. Um outro, num Inglês sofrível, diz-lhe (sic) «You are a legendary!». Começo a entender o prazer que Wullie tem em gozar com o irmão, até porque Wattie não se furta a dois dedos de conversa com fã nenhum, mostrando sempre uma paciência que ultrapassa os limites da cortesia. Wullie ri-se de satisfação com a cena à porta do camarim. «É por isto que gosto de ser o baterista – quando o concerto acaba ninguém vem ter comigo, é sempre com ele e, então, eu saio de fininho e fico a vê-lo a aturar os fãs. É que isto é constante, não fazes mesmo ideia!», diz ainda a rir-se da situação à porta.

Só acabados os dois dedos de conversa com os fãs é que reparo que o vocalista sofreu uma transformação dramática em quatro anos – perdeu cerca de 40 quilos desde Agosto passado, deixou de beber álcool, largou definitivamente as drogas e os medicamentos a que esteve agarrado durante décadas e, aos 60 anos, parece um entusiasta do fitness acabado de sair de uma sessão no ginásio. No momento em que escrevo esta artigo reparo que é dia 13 de Abril – foi há precisamente quatro anos que o vocalista dos The Exploited sofreu um ataque cardíaco em palco em Portugal, motivo mais do que suficiente para repensar a vida de excessos que cometeu ao longo dos últimos 40 anos. Depois da cirurgia derivada do incidente quase fatal, a banda remeteu-se a um hiato forçado de vários meses para que o vocalista pudesse descansar e recuperar forças e prometeu iniciar a composição e gravação de um novo álbum para breve. Quatro anos não são propriamente sinónimos de “breve” e, desde então, a banda tem feito tour atrás de tour em todo o mundo. «Na verdade, faz hoje um ano que tive outro ataque cardíaco, tive de fazer um bypass. Os médicos disseram-me que já deveria estar morto. Sinto-me melhor agora em termos de saúde do que nos últimos 10 anos. Por esse motivo, se tudo correr como tem corrido devo agora recomeçar a compor novos temas. É assim: para eu escrever música tenho de estar furioso, tenho de estar zangado. Depois dos concertos que temos em carteira, planeamos ir para estúdio. Na verdade, tenho 16 novas músicas escritas, sabes? Gravaremos o próximo disco em 2019, e podes escrever na tua entrevista que será o nosso último álbum de estúdio.» Espera aí – assim, sem mais nem menos, é o adeus a The Exploited?! «Não, vamos continuar a tocar ao vivo. Mas em termos de discos, será o último. O último foi há 15 anos, não quero deixar ninguém à espera mais 15, entendes? [risos] Depois não devo durar mais 10 anos, pelo que me disseram os médicos. Se daqui a 10 anos ainda estiver vivo, começo a acreditar em milagres.»

Se arredarmos a enorme cortina que rodeia a lenda viva que é Wattie Buchan, interveniente directo da música popular nos últimos 30 anos, desvendamos um ser humano pragmático e conformado com a mortalidade da nossa espécie. Crê que tem cerca de 10 anos de vida, logo, pensa viver esses 10 anos a fazer aquilo que mais gosta. «Tocar ao vivo, claro!» – diz sem hesitar. Mesmo sem ter gravado um disco nos últimos 15 anos, a banda continua mais popular do que nunca. «Gosto de gravar discos, mas para isso tenho de estar a 100%. Quando gravo um disco novo tem de estar tudo a 100% com os The Exploited: a música tem de estar a 100%, as letras têm de estar a 100%. Se acho que uma música está apenas boa ou muito boa, descarto-a. Tem de estar perfeita. As pessoas esperam tantos anos por um disco novo e eu vou apresentar-lhes apenas músicas boas? Não! Tenho de lhes apresentar o melhor que conseguirmos fazer! O próximo álbum seguirá a mesma filosofia, até porque, na minha maneira de pensar, quem gosta realmente da banda já percebe que nós só oferecemos o melhor. E tenho um truque para perceber se a música é perfeita – se de cada vez que a ouço ou canto ficar com pele de galinha, então é porque é perfeita. Eu sei, parece coisa de malucos, mas resulta. [risos]»

rsz_dsc_0475The Exploited no Moita Metal Fest 2018 (Foto: João Correia)

Perceber o inglês cerrado deste escocês é um martírio, principalmente depois de ter revelado pormenores profissionais e pessoais tão importantes. Mas há assuntos que, por mais que a pronúncia do vocalista seja por vezes ininteligível, são impossíveis de não entender. Tomemos como exemplo a importância de temas como “Anti-UK” e “Fuck The U.S.A.” – tratam-se de duas faixas editadas há mais de 30 anos e, ainda assim, estão repletas de contemporaneidade e de significado em 2018 (basta ligar uma TV e ver o que se passa com o Brexit e com os Tories no Reino Unido ou com a personagem que é Donald Trump nos E.U.A.). Quanto mais as coisas mudam… «Embora sejam dois períodos distintos, continua a ser a mesma merda» – começa por responder o vocalista, visivelmente desiludido. «Eles continuam a gastar dinheiro com os ricos e com os seus partidos políticos, mas não investem nos mais desfavorecidos, na classe trabalhadora, nos desalojados. Continua tudo igual, é cíclico. No caso da Escócia, então, é terrível. Ao contrário de Inglaterra, a Escócia votou para permanecer na Europa, mas repara: a Escócia tem 5.5 milhões de habitantes, ao passo que a grande área de Londres tem cerca de 20 milhões. Mesmo assim, lutámos contra isso e vamos continuar a lutar, porque nós não culpamos os “malditos imigrantes” para desculpar péssimos políticos e péssimas medidas políticas, isso é completamente estúpido. Deixa de ser patriotismo para passar a ser racismo. Racismo e estupidez, é uma coisa digna de idiotas. Logo, sim: quanto mais as coisas mudam, mais continuam na mesma.»

E é precisamente aqui que entra a cultura punk, “o punk”. O punk inspirou a luta contra a injustiça, contra o sistema, mesmo que apenas verbalmente. No entanto, vivemos numa época de acta non verba, de acções e não de palavras, e cujos representantes mais beligerantes são os Antifa nos Estados Unidos da América. No entanto, o que começou por ser um movimento antifascista cedo se tornou num circo dominado por extremistas/fundamentalistas que, em muitos casos, nem sequer fazem ideia daquilo contra o que lutam, apenas lutam por lutar ou pelo prazer em destruir algo que nem sequer compreendem. Tempos interessantes, certamente, mas também muito difíceis e ambíguos. Afinal, o que é ser punk? «Penso que inspirámos algumas pessoas. Houve fãs que já nos disseram que a nossa música ajudou a ultrapassar momentos menos bons das suas vidas. Não quero parecer cínico, mas, para mim, isso é melhor do que dinheiro – na verdade, para mim isso é ouro. Há alguns anos fomos a uma cerimónia de prémios da indústria musical e estavam lá os Green Day. Um dos gajos dessa banda veio ter comigo quando eu estava acompanhado pela minha namorada e disse-me: “Quando morreres hei-de rir-me à brava e hei-de dançar em cima da tua campa”. Passei-me! Alcei o braço atrás para lhe pregar um morteiro, que foi quando a minha banda me agarrou e nos separou. Mas disse-lhe que, por mais dinheiro que ele tivesse, nunca iria ter aquilo que eu tenho, que é o respeito da comunidade punk. Se esses gajos nem sequer são punk, como é que poderiam ter o respeito de uma comunidade tão íntegra e desinteressada por dinheiro? Para mim, o verdadeiro significado do punk vem ao cimo quando alguém me diz que, de alguma forma, o nosso som ajudou alguém a sentir-se um pouco melhor, que incentivou alguém a lutar por justiça. Há punks no Norte de Portugal que nos apoiam imenso, conheço-os pessoalmente há mais de 30 anos, e fazem-no porque somos violentos, porque dizemos a verdade, as coisas como elas são. Não tenho medo de dizer nada a ninguém. Se alguém me perguntar seja o que for, não tenho papas na língua, digo aquilo que penso sem pensar duas vezes. Eu sei que os punks portugueses apoiam muito os The Exploited, pois respeitam-nos pelo que somos. É isso que o punk significa, ter orgulho em seres fiel àquilo em que acreditas.»

No entanto, o conceito de punk parece ter-se afastado da sua ideologia ao longo das décadas, como se ele tivesse sido criado apenas devido ao descontentamento com a profunda crise vivida no Reino Unido em finais da década de 1970, como se hoje em dia não houvessem motivos para estarmos insatisfeitos. Em termos musicais, então, é deprimente pegarmos num disco lançado entre 1977 e 1980 e compará-lo com o aquilo a que chamam de música punk actualmente, como os referidos Green Day. «Hoje em dia, ouço música techno, gabba holandês… Nada a ver com o punk clássico, mas é música muito agressiva também. Para mim, é o tipo de música mais relacionado com o punk, honestamente. Vais ouvir as chamadas bandas “punk” norte-americanas e é tudo uma valente merda; nem é punk, é música pop. O punk é sobre revolução, sobre problemas sociais, sobre música cheia de raiva. O punk não é a cerimónia dos Grammys, não é sobre venderes dezenas de milhões de discos. Assim, ouço o que me agrada, mesmo que não seja punk. Ouço também The Cure. Ouço Suicidal Angels, são uma banda que gosto imenso. Ouço Exodus, Destruction… Até Lady Gaga ouço. Ouço um pouco de tudo. Como disse há pouco, ser punk significa seres tu próprio, ser fiel à pessoa que és. Não significa que não mudes a tua maneira de ser caso isso te proporcione maior bem-estar. Por exemplo, eu tive cinco overdoses de speedball. [N.R.: mistura de cocaína com heroína] Como à quinta vez percebi que se calhar não iria ter muito mais oportunidades, larguei as drogas todas. [risos] Perdi muito peso, principalmente depois de ter largado as bebidas espirituosas e de ter começado a fazer exercício a sério no ginásio. Antes, andava cinco metros e começava a arfar de esforço. Fui a uma clínica especialista, larguei lá uns quantos milhares de libras em seis semanas e agora sinto-me forte como um touro, principalmente mentalmente, depois de ter optado por uma vida mais saudável. Para a próxima, em vez de o Wattie Buchan ter um ataque cardíaco, o ataque cardíaco vai ter um Wattie Buchan. [risos]»

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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