The Exploited: antes a morte do que a desonra (entrevista c/ Wattie Buchan) – Ultraje – Metal & Rock Online
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The Exploited: antes a morte do que a desonra (entrevista c/ Wattie Buchan)

rsz_the_exploited_4_-_alteradaThe Exploited no Moita Metal Fest 2018 (Foto: João Correia)

«Para a próxima, em vez de o Wattie Buchan ter um ataque cardíaco, o ataque cardíaco vai ter um Wattie Buchan.»

«É sempre a mesma coisa com ele antes e depois dos concertos», diz o baterista dos The Exploited, Wullie Buchan, enquanto se ri de troça e aponta para o irmão, Wattie Buchan, que se encontra à porta do camarim a falar com cerca de 10 fãs que querem tirar fotografias com ele, que lhe dizem “sex and violence” e que despejam informação irrelevante para cima do vocalista. «Fui visitar-te ao hospital quando sofreste o ataque cardíaco», diz-lhe uma fã. Um outro, num Inglês sofrível, diz-lhe (sic) «You are a legendary!». Começo a entender o prazer que Wullie tem em gozar com o irmão, até porque Wattie não se furta a dois dedos de conversa com fã nenhum, mostrando sempre uma paciência que ultrapassa os limites da cortesia. Wullie ri-se de satisfação com a cena à porta do camarim. «É por isto que gosto de ser o baterista – quando o concerto acaba ninguém vem ter comigo, é sempre com ele e, então, eu saio de fininho e fico a vê-lo a aturar os fãs. É que isto é constante, não fazes mesmo ideia!», diz ainda a rir-se da situação à porta.

Só acabados os dois dedos de conversa com os fãs é que reparo que o vocalista sofreu uma transformação dramática em quatro anos – perdeu cerca de 40 quilos desde Agosto passado, deixou de beber álcool, largou definitivamente as drogas e os medicamentos a que esteve agarrado durante décadas e, aos 60 anos, parece um entusiasta do fitness acabado de sair de uma sessão no ginásio. No momento em que escrevo esta artigo reparo que é dia 13 de Abril – foi há precisamente quatro anos que o vocalista dos The Exploited sofreu um ataque cardíaco em palco em Portugal, motivo mais do que suficiente para repensar a vida de excessos que cometeu ao longo dos últimos 40 anos. Depois da cirurgia derivada do incidente quase fatal, a banda remeteu-se a um hiato forçado de vários meses para que o vocalista pudesse descansar e recuperar forças e prometeu iniciar a composição e gravação de um novo álbum para breve. Quatro anos não são propriamente sinónimos de “breve” e, desde então, a banda tem feito tour atrás de tour em todo o mundo. «Na verdade, faz hoje um ano que tive outro ataque cardíaco, tive de fazer um bypass. Os médicos disseram-me que já deveria estar morto. Sinto-me melhor agora em termos de saúde do que nos últimos 10 anos. Por esse motivo, se tudo correr como tem corrido devo agora recomeçar a compor novos temas. É assim: para eu escrever música tenho de estar furioso, tenho de estar zangado. Depois dos concertos que temos em carteira, planeamos ir para estúdio. Na verdade, tenho 16 novas músicas escritas, sabes? Gravaremos o próximo disco em 2019, e podes escrever na tua entrevista que será o nosso último álbum de estúdio.» Espera aí – assim, sem mais nem menos, é o adeus a The Exploited?! «Não, vamos continuar a tocar ao vivo. Mas em termos de discos, será o último. O último foi há 15 anos, não quero deixar ninguém à espera mais 15, entendes? [risos] Depois não devo durar mais 10 anos, pelo que me disseram os médicos. Se daqui a 10 anos ainda estiver vivo, começo a acreditar em milagres.»

Se arredarmos a enorme cortina que rodeia a lenda viva que é Wattie Buchan, interveniente directo da música popular nos últimos 30 anos, desvendamos um ser humano pragmático e conformado com a mortalidade da nossa espécie. Crê que tem cerca de 10 anos de vida, logo, pensa viver esses 10 anos a fazer aquilo que mais gosta. «Tocar ao vivo, claro!» – diz sem hesitar. Mesmo sem ter gravado um disco nos últimos 15 anos, a banda continua mais popular do que nunca. «Gosto de gravar discos, mas para isso tenho de estar a 100%. Quando gravo um disco novo tem de estar tudo a 100% com os The Exploited: a música tem de estar a 100%, as letras têm de estar a 100%. Se acho que uma música está apenas boa ou muito boa, descarto-a. Tem de estar perfeita. As pessoas esperam tantos anos por um disco novo e eu vou apresentar-lhes apenas músicas boas? Não! Tenho de lhes apresentar o melhor que conseguirmos fazer! O próximo álbum seguirá a mesma filosofia, até porque, na minha maneira de pensar, quem gosta realmente da banda já percebe que nós só oferecemos o melhor. E tenho um truque para perceber se a música é perfeita – se de cada vez que a ouço ou canto ficar com pele de galinha, então é porque é perfeita. Eu sei, parece coisa de malucos, mas resulta. [risos]»

rsz_dsc_0475The Exploited no Moita Metal Fest 2018 (Foto: João Correia)

Perceber o inglês cerrado deste escocês é um martírio, principalmente depois de ter revelado pormenores profissionais e pessoais tão importantes. Mas há assuntos que, por mais que a pronúncia do vocalista seja por vezes ininteligível, são impossíveis de não entender. Tomemos como exemplo a importância de temas como “Anti-UK” e “Fuck The U.S.A.” – tratam-se de duas faixas editadas há mais de 30 anos e, ainda assim, estão repletas de contemporaneidade e de significado em 2018 (basta ligar uma TV e ver o que se passa com o Brexit e com os Tories no Reino Unido ou com a personagem que é Donald Trump nos E.U.A.). Quanto mais as coisas mudam… «Embora sejam dois períodos distintos, continua a ser a mesma merda» – começa por responder o vocalista, visivelmente desiludido. «Eles continuam a gastar dinheiro com os ricos e com os seus partidos políticos, mas não investem nos mais desfavorecidos, na classe trabalhadora, nos desalojados. Continua tudo igual, é cíclico. No caso da Escócia, então, é terrível. Ao contrário de Inglaterra, a Escócia votou para permanecer na Europa, mas repara: a Escócia tem 5.5 milhões de habitantes, ao passo que a grande área de Londres tem cerca de 20 milhões. Mesmo assim, lutámos contra isso e vamos continuar a lutar, porque nós não culpamos os “malditos imigrantes” para desculpar péssimos políticos e péssimas medidas políticas, isso é completamente estúpido. Deixa de ser patriotismo para passar a ser racismo. Racismo e estupidez, é uma coisa digna de idiotas. Logo, sim: quanto mais as coisas mudam, mais continuam na mesma.»

E é precisamente aqui que entra a cultura punk, “o punk”. O punk inspirou a luta contra a injustiça, contra o sistema, mesmo que apenas verbalmente. No entanto, vivemos numa época de acta non verba, de acções e não de palavras, e cujos representantes mais beligerantes são os Antifa nos Estados Unidos da América. No entanto, o que começou por ser um movimento antifascista cedo se tornou num circo dominado por extremistas/fundamentalistas que, em muitos casos, nem sequer fazem ideia daquilo contra o que lutam, apenas lutam por lutar ou pelo prazer em destruir algo que nem sequer compreendem. Tempos interessantes, certamente, mas também muito difíceis e ambíguos. Afinal, o que é ser punk? «Penso que inspirámos algumas pessoas. Houve fãs que já nos disseram que a nossa música ajudou a ultrapassar momentos menos bons das suas vidas. Não quero parecer cínico, mas, para mim, isso é melhor do que dinheiro – na verdade, para mim isso é ouro. Há alguns anos fomos a uma cerimónia de prémios da indústria musical e estavam lá os Green Day. Um dos gajos dessa banda veio ter comigo quando eu estava acompanhado pela minha namorada e disse-me: “Quando morreres hei-de rir-me à brava e hei-de dançar em cima da tua campa”. Passei-me! Alcei o braço atrás para lhe pregar um morteiro, que foi quando a minha banda me agarrou e nos separou. Mas disse-lhe que, por mais dinheiro que ele tivesse, nunca iria ter aquilo que eu tenho, que é o respeito da comunidade punk. Se esses gajos nem sequer são punk, como é que poderiam ter o respeito de uma comunidade tão íntegra e desinteressada por dinheiro? Para mim, o verdadeiro significado do punk vem ao cimo quando alguém me diz que, de alguma forma, o nosso som ajudou alguém a sentir-se um pouco melhor, que incentivou alguém a lutar por justiça. Há punks no Norte de Portugal que nos apoiam imenso, conheço-os pessoalmente há mais de 30 anos, e fazem-no porque somos violentos, porque dizemos a verdade, as coisas como elas são. Não tenho medo de dizer nada a ninguém. Se alguém me perguntar seja o que for, não tenho papas na língua, digo aquilo que penso sem pensar duas vezes. Eu sei que os punks portugueses apoiam muito os The Exploited, pois respeitam-nos pelo que somos. É isso que o punk significa, ter orgulho em seres fiel àquilo em que acreditas.»

No entanto, o conceito de punk parece ter-se afastado da sua ideologia ao longo das décadas, como se ele tivesse sido criado apenas devido ao descontentamento com a profunda crise vivida no Reino Unido em finais da década de 1970, como se hoje em dia não houvessem motivos para estarmos insatisfeitos. Em termos musicais, então, é deprimente pegarmos num disco lançado entre 1977 e 1980 e compará-lo com o aquilo a que chamam de música punk actualmente, como os referidos Green Day. «Hoje em dia, ouço música techno, gabba holandês… Nada a ver com o punk clássico, mas é música muito agressiva também. Para mim, é o tipo de música mais relacionado com o punk, honestamente. Vais ouvir as chamadas bandas “punk” norte-americanas e é tudo uma valente merda; nem é punk, é música pop. O punk é sobre revolução, sobre problemas sociais, sobre música cheia de raiva. O punk não é a cerimónia dos Grammys, não é sobre venderes dezenas de milhões de discos. Assim, ouço o que me agrada, mesmo que não seja punk. Ouço também The Cure. Ouço Suicidal Angels, são uma banda que gosto imenso. Ouço Exodus, Destruction… Até Lady Gaga ouço. Ouço um pouco de tudo. Como disse há pouco, ser punk significa seres tu próprio, ser fiel à pessoa que és. Não significa que não mudes a tua maneira de ser caso isso te proporcione maior bem-estar. Por exemplo, eu tive cinco overdoses de speedball. [N.R.: mistura de cocaína com heroína] Como à quinta vez percebi que se calhar não iria ter muito mais oportunidades, larguei as drogas todas. [risos] Perdi muito peso, principalmente depois de ter largado as bebidas espirituosas e de ter começado a fazer exercício a sério no ginásio. Antes, andava cinco metros e começava a arfar de esforço. Fui a uma clínica especialista, larguei lá uns quantos milhares de libras em seis semanas e agora sinto-me forte como um touro, principalmente mentalmente, depois de ter optado por uma vida mais saudável. Para a próxima, em vez de o Wattie Buchan ter um ataque cardíaco, o ataque cardíaco vai ter um Wattie Buchan. [risos]»

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