The Lion’s Daughter: ceifadores cósmicos (entrevista c/ Rick Giordano) – Ultraje – Metal & Rock Online
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The Lion’s Daughter: ceifadores cósmicos (entrevista c/ Rick Giordano)

rsz_tld-2018-6676-josh_rowanFoto: Josh Rowan

The Lion’s Daughter é um bicho-de-sete-cabeças e cada uma pensa à sua maneira. “Future Cult” é apenas o terceiro álbum, por isso ainda há mais quatro cabeças que deverão estar a fermentar o que estará para surgir. Com este novo trabalho, o trio norte-americano evolui ao incluir sintetizadores no seu blackened sludge metal, mas isso não torna as coisas mais risonhas – antes pelo contrário: estamos prestes a ser aniquilados… E por nós mesmos! Directo e sem rodeios quanto àquilo que pensa, Rick Giordano dá-nos todas as respostas necessárias sobre a Humanidade e “Future Cult”.

«Todos estaremos mortos em breve.»

Com “Future Cult” incluíram uma série de sons electrónicos que dão uma sensação espacial à sonoridade – diria que representa um toque horrível e aterrorizante, como se nada de bom estivesse para vir. É esta a tua visão musical sobre o fim dos tempos perpetuado pelo próprio cosmos?
Diria que a visão musical surge um pouco do amor por filmes e bandas-sonoras de terror e ficção científica, mas uma vez filtrado através dos nossos olhos aparece como algo muito mais cruel. No final, essas canções foram capazes de nos dizer o que elas precisavam de ser, e se esse som se assemelha ao fim dos tempos não posso descartar a possibilidade de que isso seja o cosmos em acção.

Normalmente, este tipo de blackened sludge metal tende a ter músicas longas para se tentar atingir algum tipo de transe. Mesmo que The Lion’s Daughter tenha alguns segmentos relacionados a isso (como a faixa “Tragedy”), parece que ainda preferem manter as coisas directas e de alguma forma curtas. Humoristicamente, podemos ver isso como um transe interrompido? Ou seriamente, achas que esses quatro minutos são suficientes para provar o seu ponto artístico?
Canções longas são muitas vezes chatas. As faixas ficam muito auto-indulgentes. Escreve uma boa música, mantém as coisas em movimento, entra e sai, segue para a próxima. Isto pode ser o meu défice de atenção a falar, mas acho trabalhoso tocar qualquer riff mais do que quatro vezes. “Tragedy” é uma excepção e funciona um pouco como indução a um transe, mas é algo que nunca vamos tocar ao vivo pois não tem a intensidade e a mordida que uma boa música ao vivo deve ter. O título dessa música e o efeito de afundamento que ela cria são intencionais. Mas maioritariamente prefiro manter o ouvinte atento e ter muitas reviravoltas.

Numa pergunta mais directa e em relação ao som geral: preferes dizer que é apocalíptico ou simplesmente furioso? E porquê? E estou a perguntar isto não só devido ao som, mas também devido às letras tão negras…
Não me compete dizer o que é. Essa é a grande cena sobre criação de arte e, em muitos aspectos, o seu propósito. A arte comunica coisas que as tuas palavras não conseguem comunicar. Não sei qual é o nosso som; muitas vezes nem sei o que algumas das letras significam… Apenas permito que as músicas me digam o que precisam de ser, e depois sento-me, olho para elas, tento descobrir o que raio aquilo significa e de onde podem ter vindo. Mas acho que seria justo dizer que o nosso som é ao mesmo tempo apocalíptico e furioso, além de uma boa mão cheia de outros adjectivos.

«Vivemos num estado de medo, pavor e isolamento nas nossas próprias mentes.»

A capa é incrível. Olhando para ela, que tipo de futuro culto enfrentaremos se as premonições de The Lion’s Daughter forem verdadeiras? Acho que aquele ouro todo, pelo menos, será um ponto-chave disso…
Acho que a maioria já está a ver isso agora. Já vivemos num estado de medo, pavor e isolamento nas nossas próprias mentes. Apenas fingimos que funcionamos como criaturas humanas felizes. Mas na realidade estamos cheios de escuridão. Não estamos realmente conectados a este mundo ou a outros seres humanos, e isso é algo que mantemos em grande parte em segredo, mas que todos nós temos em comum. “Future Cult” não representa tanto para onde estamos a ir, mas onde já estamos. As máscaras que os personagens usam ao longo do artwork representam o tentar esconder essa negritude e esconder toda a fealdade que compõe o que os seres humanos realmente são. O único absoluto para o futuro é que todos estaremos mortos em breve.

Acho que o que estou prestes a perguntar ainda é verdade se atentarmos à evolução da banda através dos álbuns, mas o ódio pela música insincera e sem inspiração continua a ser uma inspiração actual?
Será sempre. Ainda me inspiro mais nas bandas que odeio do que naquelas de que gosto. Isso tem sido motivador desde o primeiro dia e imagino que continuará a ser para sempre. Dizer ‘isso é uma porcaria, eu consigo fazer melhor’ é uma óptima atitude para abordar a composição musical. Chiça, já ouviram alguma da merda que aí anda? Vivemos num tempo em que Ghost é a maior banda de metal em anos. Estão a brincar comigo? Antes disso era Dethklok… Que é literalmente a porra duma banda de desenhos-animados. Quanto mais insincero e sem inspiração se consegue ser?

É engraçado e óptimo, claro, como um trio é capaz de criar este tipo de ruído. Sendo Sanford Parker um produtor bem conhecido, como é que ele vos ajudou a alcançar o som efectivo que ouvimos no novo álbum?
O Sanford Parker conhece os sintetizadores por dentro e por fora, portanto, quando chegámos até ele com as tracks de sintetizadores, teve um ouvido inestimável sobre o que soava bem e o que não, sobre maneiras de melhorar as coisas aqui e ali, adicionar texturas, etc.. Este é o segundo disco que fazemos com ele, por isso estamos muito confortáveis ​​em trabalhar juntos e entender os processos criativos uns dos outros. Sem ele, este registo não se teria tornado o monstro que é.

 

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