The Parkinsons: suspeitos do costume (entrevista c/ Pedro Chau) – Ultraje – Metal & Rock Online
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The Parkinsons: suspeitos do costume (entrevista c/ Pedro Chau)

Foto: Vera Marmelo

The Parkinsons. Nome grande do punk-rock português. Nome grande do punk-rock mundial. E não, não é brincadeira, nem beijos nos pés. Ninguém precisa disso.
A certa altura de uma carreira iniciada por volta de 2000, a banda natural de Coimbra, e com raízes em The Tédio Boys, foi para Londres e lá se tornou reconhecida, muito à custa dos concertos caóticos. Andaram em tour com The Fall, foram produzidos por Ben Lurie e Jim Reid (ambos de The Jesus and Mary Chain) e viram o seu nome ser estampado na alta imprensa de um The Times e de uma NME. Regressam a Portugal há cerca de 10 anos e a vida continua agora por cá, e ainda mais com “The Shape Of Nothing To Come”, a mais recente proposta discográfica – e que proposta! – lançada pela Rastilho Records. Para falar um pouco deste disco, havendo ainda tempo para se dar uma opinião resumida da evolução do punk e recordar os tempos passados no estrangeiro, falámos com Pedro Chau, baixista e membro-fundador dos The Parkinsons.

«Digo sempre que duas das escolhas mais acertadas que fiz na vida foi ter ido para Londres em 2000 e a outra [foi] ter regressado para Portugal em 2008.»

Não é que a vossa sonoridade tenha mudado estrondosamente de álbum para álbum, mas cremos que com o novo disco foram mesmo às raízes da mistura do punk com rock n’ roll. É uma das abordagens correctas para se falar de “The Shape Of Nothing To Come”?
Sim, concordo, mas pode haver mais, essa é apenas uma delas. Sempre houve da nossa parte uma ligação forte ao rock n’ roll e também ao punk rock clássico, e isso sempre se reflectiu na música que tocamos. Como tenho reparado em algumas reacções, este álbum pode ser interpretado de maneiras diferentes – algumas para mim fizeram bastante sentido, outras nem por isso. Neste disco é bem visível que fomos para além do rock n’ roll e do punk. Algumas bandas da era do new wave/pop e do pós-punk dos 80s sempre influenciaram o nosso som. É um facto que estar preso a rótulos não nos agrada lá muito. Sempre achei que é uma tarefa difícil definir correctamente a música que tocamos, preferindo deixar esse trabalho para aqueles que gostam de escrever sobre música. Mas voltando ao início, “The Shape Of Nothing To Come” pode ser visto como um disco onde o punk rock e o rock n’ roll se cruzam, tal como nos discos anteriores.

Sempre orientados à crítica social, há um teor muito urbano nas letras de “The Shape Of Nothing To Come”, sendo que alguns dos problemas actuais são o vício nas redes sociais, o desapego aos afectos físicos, a procrastinação ou a falta de envolvimento em causas. Dirias que estas são fontes para a lírica do álbum?
Apesar de algumas das nossas letras terem uma componente de crítica à sociedade ou ao sistema, não creio que sejamos uma banda centrada em assuntos políticos. Entretanto, descobri recentemente que o tema “Bad Wolf” foi escrito pelo Victor Torpedo a pensar no Donald Trump. Como baixista, nem sempre estou atento às letras ou ao seu significado. Apesar de reconhecer a importância do conteúdo lírico, sempre me interessou mais o lado instrumental ou musical das canções.

E a ironia continua a ser uma das vossas armas mais fortes, não? Recordo, por exemplo, a faixa “See No Evil”.
Sim, concordo. Chamar-lhe-ia mais uma das ferramentas usadas nas nossas letras.

«O rock n’ roll era algo muito mais underground e olhado com desconfiança e desprezo por muita da imprensa [dos anos 1990].»

Sempre considerámos o vosso punk como old-school do old-school com, por exemplo, os primeiros anos de The Misfits à cabeça. Disto isto e ouvindo The Parkinsons, enquanto criadores e fãs do género como é que viveram aquela fase dos anos 90 / início dos 2000 em que o punk-pop rebentou em grande escala? Quero com isto ainda perguntar: viram tal acontecimento como uma afronta à cena ou é apenas a evolução das coisas?
Os 90s foram por nós vividos intensamente. Não existia Internet, a música que ouvíamos não se encontrava tão facilmente como agora, as descobertas dos discos e as trocas de cassetes eram feitas com enorme dedicação e entusiasmo. O rock n’ roll era algo muito mais underground e olhado com desconfiança e desprezo por muita da imprensa da altura. Agora a palavra rock n’ roll banalizou-se e tem um sentido muito vago, mas para nós continua o mesmo. Foram os nossos verdes anos, quando passámos de jovens a adultos. Lembro-me de essas bandas a que te referes começarem a aparecer – o fenómeno foi grande mas não nos atingiu, nem na altura, nem agora. Nunca tive algum interesse em bandas como os Green Day ou [The] Offspring; sempre os achei até um pouco irritantes, uma sonoridade e um look demasiado artificial. Era deprimente ver que as massas papavam aquilo com um entusiasmo que eu nunca consegui entender. É curioso porque essas bandas falavam sempre dos Ramones como uma influência, banda de rock por quem eu tenho um enorme afecto. Não creio que olhasse para aquilo como uma afronta nem como uma evolução das coisas. Eram os sinais dos tempos, se não me interessavam por que razão iria estar a perder tempo a preocupar-me com elas. Ouvíamos bandas como Gun Club, Lords Of The New Church, Wire, The Damned, Siouxsie and The Banshees, Modern Lovers, Dead Boys, The Cramps, B52’s, Talking Heads, Dead kennedys, rock n’ roll e rockabilly dos 50s, garage punk dos 60s, bandas como The Seeds, Electric Prunes, The Shadows Of Knight. Bandas inglesas como The Who ou The Kinks. A célebre compilação Nuggets selecionada por Lenny Kaye (Patti Smith Group) foi para mim das melhores descobertas musicais no final dos 90s.

Os The Parkinsons têm membros que vêm dos tempos áureos da cena conimbricense – recordemos, por exemplo, Tédio Boys. Mais ou menos na vossa altura também apareceram bandas como Wraygunn e Bunnyranch. Contudo tem-se testemunhado o esquecimento da cidade no que toca à fomentação de projectos musicais irreverentes, tendo o foco voltado outra vez a Lisboa e Porto. Na tua opinião, que factores encontras para esta situação?
Difícil responder a essa questão. Nesse tempo em que Coimbra estava no centro das atenções e que essas bandas que mencionas emergiram e começaram a crescer, eu vivia em Londres, portanto não serei a melhor pessoa para falar desse assunto. Posso dizer que às vezes, através de um ou outro amigo, ia obtendo alguma informação sobre o que se ia falando pela cidade. Quando cheguei, no final de 2008, o hype já tinha passado, muitas pessoas saíram de Coimbra, bandas que acabaram, editoras que deixaram de editar discos, bandas novas que tão rápido nasciam como morriam. No entanto, noto que nos últimos anos as coisas estão a ganhar vida outra vez. Há concertos, há bandas, há editoras e vontade das pessoas se mexerem e fazerem música, que é o mais importante. Por exemplo, o Kaló (ex-Bunnyranch) tem agora um projecto novo chamado Twist Connection que anda a dar que falar. Não estar nos grandes centros urbanos de Lisboa ou Porto pode ser uma desvantagem, mas isso não se reflecte só na música, também atinge outras artes.

«À medida que a frustração aumentava, maior era a vontade de emigrar, e ainda bem que o fizemos. A vida teria sido bem mais negra se tivéssemos ficado.»

Os The Parkinsons passaram um momento de muito eco no estrangeiro. Olhando para trás, viram essa oportunidade pela óptica de estarem fartos de só se apajar bandas que conseguiram dar o salto lá para a fora (e o que é estrangeiro é que é bom) ou foram coisas que aconteceram inocentemente e só por acaso?
Estou mais de acordo com o “inocentemente e só por acaso”. Talvez estivéssemos no lugar certo à hora certa. A partir daí foi como uma bola de neve a crescer – oportunidades que jamais podíamos imaginar começaram a aparecer. Não concordo com aquela ideia que diz que o que é estrangeiro é que é bom, como também não concordo com o oposto, que o nacional é que é bom. Ambos reflectem um complexo de inferioridade ou superioridade, que para mim não é positivo. Éramos jovens e não queríamos desperdiçar esses anos numa cidade tão limitada como Coimbra no que diz respeito ao rock n’ roll. À medida que a frustração aumentava, maior era a vontade de emigrar, e ainda bem que o fizemos. A vida teria sido bem mais negra se tivéssemos ficado. Digo sempre que duas das escolhas mais acertadas que fiz na vida foi ter ido para Londres em 2000 e a outra [foi] ter regressado para Portugal em 2008. Uma cidade com Londres tem muito para oferecer, proporcionou-nos experiências marcantes que em nenhum outro lugar poderíamos ter vivido, mas isso agora é passado. Infelizmente, vou-me apercebendo que as grandes capitais urbanas são cada vez mais devoradas pelo capitalismo e gentrificação, perdendo a identidade e o interesse que as caracterizava.

Os The Parkinsons já contam com quase 20 anos de existência e muita tinta já escorreu no papel para falar sobre as vossas actuações caóticas. Para a malta que só agora vos está a descobrir, que tipo de gajos o público encontrará em cima do palco em 2018?
Vão encontrar os “suspeitos do costume” juntamente com dois elementos novos. O Jorri nas teclas e o jovem Ricardo Brito na bateria. Passados todos estes anos a tinta continua e vai continuar a escorrer. Estamos maiores de idade, mas isso não afectou as nossas actuações. [The] Parkinsons de corpo e alma a tocarem músicas novas que até têm funcionado bastante bem ao vivo.

 

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