#ChooseUltraje

Entrevistas

The Parkinsons: suspeitos do costume (entrevista c/ Pedro Chau)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Foto: Vera Marmelo

The Parkinsons. Nome grande do punk-rock português. Nome grande do punk-rock mundial. E não, não é brincadeira, nem beijos nos pés. Ninguém precisa disso.
A certa altura de uma carreira iniciada por volta de 2000, a banda natural de Coimbra, e com raízes em The Tédio Boys, foi para Londres e lá se tornou reconhecida, muito à custa dos concertos caóticos. Andaram em tour com The Fall, foram produzidos por Ben Lurie e Jim Reid (ambos de The Jesus and Mary Chain) e viram o seu nome ser estampado na alta imprensa de um The Times e de uma NME. Regressam a Portugal há cerca de 10 anos e a vida continua agora por cá, e ainda mais com “The Shape Of Nothing To Come”, a mais recente proposta discográfica – e que proposta! – lançada pela Rastilho Records. Para falar um pouco deste disco, havendo ainda tempo para se dar uma opinião resumida da evolução do punk e recordar os tempos passados no estrangeiro, falámos com Pedro Chau, baixista e membro-fundador dos The Parkinsons.

«Digo sempre que duas das escolhas mais acertadas que fiz na vida foi ter ido para Londres em 2000 e a outra [foi] ter regressado para Portugal em 2008.»

Não é que a vossa sonoridade tenha mudado estrondosamente de álbum para álbum, mas cremos que com o novo disco foram mesmo às raízes da mistura do punk com rock n’ roll. É uma das abordagens correctas para se falar de “The Shape Of Nothing To Come”?
Sim, concordo, mas pode haver mais, essa é apenas uma delas. Sempre houve da nossa parte uma ligação forte ao rock n’ roll e também ao punk rock clássico, e isso sempre se reflectiu na música que tocamos. Como tenho reparado em algumas reacções, este álbum pode ser interpretado de maneiras diferentes – algumas para mim fizeram bastante sentido, outras nem por isso. Neste disco é bem visível que fomos para além do rock n’ roll e do punk. Algumas bandas da era do new wave/pop e do pós-punk dos 80s sempre influenciaram o nosso som. É um facto que estar preso a rótulos não nos agrada lá muito. Sempre achei que é uma tarefa difícil definir correctamente a música que tocamos, preferindo deixar esse trabalho para aqueles que gostam de escrever sobre música. Mas voltando ao início, “The Shape Of Nothing To Come” pode ser visto como um disco onde o punk rock e o rock n’ roll se cruzam, tal como nos discos anteriores.

Sempre orientados à crítica social, há um teor muito urbano nas letras de “The Shape Of Nothing To Come”, sendo que alguns dos problemas actuais são o vício nas redes sociais, o desapego aos afectos físicos, a procrastinação ou a falta de envolvimento em causas. Dirias que estas são fontes para a lírica do álbum?
Apesar de algumas das nossas letras terem uma componente de crítica à sociedade ou ao sistema, não creio que sejamos uma banda centrada em assuntos políticos. Entretanto, descobri recentemente que o tema “Bad Wolf” foi escrito pelo Victor Torpedo a pensar no Donald Trump. Como baixista, nem sempre estou atento às letras ou ao seu significado. Apesar de reconhecer a importância do conteúdo lírico, sempre me interessou mais o lado instrumental ou musical das canções.

E a ironia continua a ser uma das vossas armas mais fortes, não? Recordo, por exemplo, a faixa “See No Evil”.
Sim, concordo. Chamar-lhe-ia mais uma das ferramentas usadas nas nossas letras.

«O rock n’ roll era algo muito mais underground e olhado com desconfiança e desprezo por muita da imprensa [dos anos 1990].»

Sempre considerámos o vosso punk como old-school do old-school com, por exemplo, os primeiros anos de The Misfits à cabeça. Disto isto e ouvindo The Parkinsons, enquanto criadores e fãs do género como é que viveram aquela fase dos anos 90 / início dos 2000 em que o punk-pop rebentou em grande escala? Quero com isto ainda perguntar: viram tal acontecimento como uma afronta à cena ou é apenas a evolução das coisas?
Os 90s foram por nós vividos intensamente. Não existia Internet, a música que ouvíamos não se encontrava tão facilmente como agora, as descobertas dos discos e as trocas de cassetes eram feitas com enorme dedicação e entusiasmo. O rock n’ roll era algo muito mais underground e olhado com desconfiança e desprezo por muita da imprensa da altura. Agora a palavra rock n’ roll banalizou-se e tem um sentido muito vago, mas para nós continua o mesmo. Foram os nossos verdes anos, quando passámos de jovens a adultos. Lembro-me de essas bandas a que te referes começarem a aparecer – o fenómeno foi grande mas não nos atingiu, nem na altura, nem agora. Nunca tive algum interesse em bandas como os Green Day ou [The] Offspring; sempre os achei até um pouco irritantes, uma sonoridade e um look demasiado artificial. Era deprimente ver que as massas papavam aquilo com um entusiasmo que eu nunca consegui entender. É curioso porque essas bandas falavam sempre dos Ramones como uma influência, banda de rock por quem eu tenho um enorme afecto. Não creio que olhasse para aquilo como uma afronta nem como uma evolução das coisas. Eram os sinais dos tempos, se não me interessavam por que razão iria estar a perder tempo a preocupar-me com elas. Ouvíamos bandas como Gun Club, Lords Of The New Church, Wire, The Damned, Siouxsie and The Banshees, Modern Lovers, Dead Boys, The Cramps, B52’s, Talking Heads, Dead kennedys, rock n’ roll e rockabilly dos 50s, garage punk dos 60s, bandas como The Seeds, Electric Prunes, The Shadows Of Knight. Bandas inglesas como The Who ou The Kinks. A célebre compilação Nuggets selecionada por Lenny Kaye (Patti Smith Group) foi para mim das melhores descobertas musicais no final dos 90s.

Os The Parkinsons têm membros que vêm dos tempos áureos da cena conimbricense – recordemos, por exemplo, Tédio Boys. Mais ou menos na vossa altura também apareceram bandas como Wraygunn e Bunnyranch. Contudo tem-se testemunhado o esquecimento da cidade no que toca à fomentação de projectos musicais irreverentes, tendo o foco voltado outra vez a Lisboa e Porto. Na tua opinião, que factores encontras para esta situação?
Difícil responder a essa questão. Nesse tempo em que Coimbra estava no centro das atenções e que essas bandas que mencionas emergiram e começaram a crescer, eu vivia em Londres, portanto não serei a melhor pessoa para falar desse assunto. Posso dizer que às vezes, através de um ou outro amigo, ia obtendo alguma informação sobre o que se ia falando pela cidade. Quando cheguei, no final de 2008, o hype já tinha passado, muitas pessoas saíram de Coimbra, bandas que acabaram, editoras que deixaram de editar discos, bandas novas que tão rápido nasciam como morriam. No entanto, noto que nos últimos anos as coisas estão a ganhar vida outra vez. Há concertos, há bandas, há editoras e vontade das pessoas se mexerem e fazerem música, que é o mais importante. Por exemplo, o Kaló (ex-Bunnyranch) tem agora um projecto novo chamado Twist Connection que anda a dar que falar. Não estar nos grandes centros urbanos de Lisboa ou Porto pode ser uma desvantagem, mas isso não se reflecte só na música, também atinge outras artes.

«À medida que a frustração aumentava, maior era a vontade de emigrar, e ainda bem que o fizemos. A vida teria sido bem mais negra se tivéssemos ficado.»

Os The Parkinsons passaram um momento de muito eco no estrangeiro. Olhando para trás, viram essa oportunidade pela óptica de estarem fartos de só se apajar bandas que conseguiram dar o salto lá para a fora (e o que é estrangeiro é que é bom) ou foram coisas que aconteceram inocentemente e só por acaso?
Estou mais de acordo com o “inocentemente e só por acaso”. Talvez estivéssemos no lugar certo à hora certa. A partir daí foi como uma bola de neve a crescer – oportunidades que jamais podíamos imaginar começaram a aparecer. Não concordo com aquela ideia que diz que o que é estrangeiro é que é bom, como também não concordo com o oposto, que o nacional é que é bom. Ambos reflectem um complexo de inferioridade ou superioridade, que para mim não é positivo. Éramos jovens e não queríamos desperdiçar esses anos numa cidade tão limitada como Coimbra no que diz respeito ao rock n’ roll. À medida que a frustração aumentava, maior era a vontade de emigrar, e ainda bem que o fizemos. A vida teria sido bem mais negra se tivéssemos ficado. Digo sempre que duas das escolhas mais acertadas que fiz na vida foi ter ido para Londres em 2000 e a outra [foi] ter regressado para Portugal em 2008. Uma cidade com Londres tem muito para oferecer, proporcionou-nos experiências marcantes que em nenhum outro lugar poderíamos ter vivido, mas isso agora é passado. Infelizmente, vou-me apercebendo que as grandes capitais urbanas são cada vez mais devoradas pelo capitalismo e gentrificação, perdendo a identidade e o interesse que as caracterizava.

Os The Parkinsons já contam com quase 20 anos de existência e muita tinta já escorreu no papel para falar sobre as vossas actuações caóticas. Para a malta que só agora vos está a descobrir, que tipo de gajos o público encontrará em cima do palco em 2018?
Vão encontrar os “suspeitos do costume” juntamente com dois elementos novos. O Jorri nas teclas e o jovem Ricardo Brito na bateria. Passados todos estes anos a tinta continua e vai continuar a escorrer. Estamos maiores de idade, mas isso não afectou as nossas actuações. [The] Parkinsons de corpo e alma a tocarem músicas novas que até têm funcionado bastante bem ao vivo.

 

Entrevistas

Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

Publicado há

-

«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

Continuar a ler

Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

Continuar a ler

Entrevistas

Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

Continuar a ler

Facebook

#UltrajeRadar

Ultraje #21