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Entrevistas

Theriomorphic: da besta e do homem (entrevista c/ Jó)

João Correia

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Para os Theriomorphic, tudo começou em Lisboa em 1997 pela mão de . O Jó dos Theriomorphic. Ao longo de 21 anos, o vocalista/baixista experimentou alguns altos e baixos com a sua criação, mas sempre encarou a banda como um passatempo que lhe permitiria fazer aquilo que mais gosta – tocar metal. Com a recente edição de “Of Fire and Light, que demorou 10 anos a ver a luz do dia, apanhámos o Jó no Barroselas e aproveitámos para o questionar sobre passado, presente e futuro da banda. Sente-se que a espera valeu a pena se ouvirmos as diferenças entre o novo EP e “The Beast Brigade”: enquanto o LP apresenta um death metal mais orientado para a velha-guarda sueca e mais sem rodeios, o recente EP parece privilegiar um som mais moderno, por vezes a roçar o black metal, mas também muito mais melódico. Em 10 anos muita coisa muda, mas, principalmente, as pessoas e as coisas evoluem – caso dos Theriomorphic. É importante perceber o que é que a banda andou a fazer durante uma década para também entendermos a diferença sonora do último registo para este. «A banda não esteve completamente parada, mas avançou de forma lenta, ao ritmo de cada um devido à idade, família e trabalho», começa por dizer Jó. «Depois, também trabalho com pessoal que tem outras bandas, o que, por vezes, não agiliza muito as coisas. Tínhamos de gravar um tema para um tributo a Simbiose e sugeri gravarmos mais qualquer coisa, os quatro temas propriamente ditos deste EP. A bateria foi gravada há 2 anos; o resto do trabalho foi um bocado lento também por coisas que não interessa esticar-me. [risos] Deveria ter saído muito mais cedo, em finais de 2016, mas as coisas foram-se complicando e fomos demorando até este ano. Em termos de ideais, ser ou não mais moderno é um pouco relativo, pois vamos misturando influências antigas com as mais recentes; não queremos soar a uma banda dos anos 80 ou 90; há uma mistura de um pouco de tudo, da onda americana à sueca. Na Suécia há a onda mais melódica e old-school, tipo Dismember e Entombed, que são duas influências. No fundo, essa junção de diferentes influências, incluindo os toques de black metal, não são de todo uma novidade. Tem muito a ver com o timing em que elas saem. Algumas músicas foram concluídas há algum tempo e poderiam ter sido lançadas antes.»

«A banda não esteve completamente parada, mas avançou de forma lenta, ao ritmo de cada um devido à idade, família e trabalho.»

Os toques de black metal parecem ter-se intensificado um pouco mais desde a entrada de João “Deris” Duarte na banda. Devido ao histórico relevante de black metal do guitarrista dos Theriomorphic, poderia parecer uma coisa natural que, aquando da sua entrada em 2009, o som da banda passasse a ter uma componente mais vincada, mais rápida e crua associada a esse movimento. Mas, como sempre, o que parece engana. «Na verdade, isso não veio dele, são coisas minhas, logo haver algumas notas a apontar para o black no primeiro álbum. [risos] Com o pessoal com quem gravei na altura, essa aproximação pode não parecer tão óbvia, mas são coisas minhas. Ele entrou a seguir ao segundo álbum e não chegou a gravar nada lá. Nestes temas novos, ele gravou os solos e todas as guitarras, mas eu tomei as rédeas da composição juntamente com o Kaveirinha dos Gwydion, que, entretanto, saiu. O João tratou dos solos e deu uns toques para melhorar o trabalho e sente-se um bocado a diferença. Mas, curiosamente, as partes mais a soar a black metal são minhas. [risos] Ele adequa-se mais a isso, mas são minhas. Por outro lado, não existem regras estabelecidas no nosso death metal. Das várias vertentes existentes de death metal, não tocamos um género ou outro. Depois, também gosto de bandas de black metal antigas, tipo Bathory principalmente, logo é natural que, por arrasto, o disco soe a black. É daquelas bandas que marcou muita gente e muitas bandas. Mas o som não tem de ser só death metal: se surgirem boas ideias dentro do heavy ou do thrash que se adequem aos temas, então poderão ser utilizadas. Uma das coisas que mais gosto nos Theriomorphic é a mistura de tudo um pouco e acho que é por isso que o fazemos com mais gosto e que o som sai um pouco diferente. Não é um som original, mas gostamos de nos desviar das bandas que seguem apenas um género específico.»

A banda mantém o núcleo do Jó, do André e do João Duarte desde 2009. Entretanto, passaram cerca de 11 instrumentistas pelos Theriomorphic. Ainda no registo das guitarras – e para além da inclusão de Deris – houve dois convidados de peso no novo registo: Miguel Tereso (Primal Attack) e o Ivo Martins (Grog), que adicionaram bastante qualidade ao EP, mas isto levanta a questão do porquê de os Theriomorphic nunca terem conseguido segurar o mesmo guitarrista lead em mais do que um registo. «Voltamos à fórmula da vida pessoal de cada um e musicalmente também tem de existir uma certa sintonia entre os membros da banda. Nem sempre as pessoas querem tocar a mesma coisa ou têm os mesmos gostos que nós. Tivemos alturas em que as coisas corriam bem com certos elementos e, de repente, eles sentiram a necessidade de tocar outros estilos que divergiam do dos Theriomorphic; ainda que sem regras, tentei sempre manter-me fiel ao trajecto da banda desde o início, não convém exagerar, [risos] mas as pessoas queriam fazer coisas diferentes; ou então são incompatibilidades com o trabalho, coisas que interferem com os concertos, ou chatices do dia-a-dia; continuamos amigos na mesma mas, por vezes, há um pouco menos de paciência porque as coisas não estar a funcionar bem e as pessoas saem, pronto. São coisas normais. Ninguém vive disto. [risos] Se fosse um emprego… E há bandas em que o pessoal se tem de aturar uns aos outros porque é o trabalho deles. [risos] No nosso caso, e em relação às colaborações, gravámos os quatro temas principais do EP e decidimos experimentar um pouco, fazer algo que não tivéssemos feito anteriormente para mostrar outra faceta dos Theriomorphic. O Deris teve de fazer quase tudo sozinho, até porque o nosso som exige duas guitarras, logo, ritmo e solos. Convidámos pessoal assim como já o tínhamos feito antes e, no caso do Ivo, foi mesmo querermos apostar em algo diferente, pois o que ele faz nos Grog não tem nada a ver connosco. [risos] Isso fez com que adicionássemos mais algum tempo ao EP, com coisas diferentes.»

«Ainda que sem regras, tentei sempre manter-me fiel ao trajecto da banda desde o início.»

Realmente, há uma nova dinâmica neste novo registo e os principais culpados disso são os pequenos interlúdios entre as músicas. Intros e outros já existem desde os primórdios dos heavy metal, mas uma intro seguida de uma faixa, seguida de uma interlúdio, seguido de outra faixa, etc. é algo de rejuvenescedor. Depois, é impossível descolar de “One Last Sunrise” por ser uma passagem tão catchy, o que confirma as palavras de Jó em relação a querer criar algo distinto, mas sempre na mesma linha do death metal clássico. «Nessa, o Ivo entra a solar e o Tereso faz o segundo solo da música [risos]», retoma Jó. «Essas pequenas peças são coisas que eu gostava de já ter feito anteriormente segundo as nossas possibilidades; embora no segundo disco já existam uma intro e a instrumental no fim do álbum. Estes temas ajudaram a ganhar cerca de cinco minutos adicionais de música para o trabalho. São coisas que nem sempre são possíveis fazer; neste caso, como tivemos bastante tempo para fazer o EP, muito devido a atrasos, [risos] permitiu-nos fazer isto desta forma em vez de gravarmos os temas todos de rajada. Isso fez com que déssemos outra dimensão à coisa e mostrássemos algo um bocadinho diferente dos habitual dos Theriomorphic. Isto também não é novo, já tinha esta ideia em mente há bastante tempo, mas nunca se proporcionou. O Kaveirinha também ajudou nisso no princípio das gravações, com arranjos que ele costuma fazer para recriações medievais, hoje em dia existem bastantes eventos desses. Como para esses espectáculos ele compõe uma espécie de bandas-sonoras, fez o mesmo com Theriomorphic e apresentou outra coisa que não guitarras e bateria do princípio ao fim.»

Como se não bastassem os atrasos, os impedimentos e o trabalho com os interlúdios entre faixas, a banda também parece ter apostado numa produção mais adequada ao novo EP e aliada a orquestrações mais complexas, sendo que Jó tratou da própria programação MIDI. Assim, não só é o trabalho mais complexo dos Theriomorphic como também parece ser o que contou com mais convidados até agora. Ou seja, uma dor de cabeça. «Muito grande. [risos] Como disse, as coisas foram-se atrasando por falta de disponibilidade das pessoas em algumas alturas. Não era suposto isto ter demorado tanto tempo a sair e, a determinada altura, começaram os nervos para acabar isto e tivemos de adiar, adiar, adiar… Isto foi anunciado [para] sair em 2017. Também poderia ter corrido de outra maneira se tivesse havido um pouco de mais vontade da parte de toda a gente, mas foi algo que se foi arrastando e que se tornou num projecto muito irritante de se fazer. [risos] Quase dois anos e começa a tornar-se complicado, e tu queres acabá-lo.» De facto, nem a ideia aparentemente mais simples de o lançar através da sua editora ajudou muito na criação de um processo sereno. «Só foi mais fácil porque se tratou de uma edição digital e até porque a ideia inicial era essa. Como é um EP, parte-se do princípio que as pessoas não terão tanto interesse em comprar. Se os CD já vendem pouco, um EP, então, ainda pior. [risos] Nos tempos que correm também é muito mais comum as pessoas ouvirem música na Internet, no YouTube, etc.; hoje em dia, começa-se até a perder o interesse em descarregar mp3 e carregá-los para leitores de mp3 ou telemóvel e ocupar espaço e afins; logo, a ideia foi meter a cena online para tentar chegar a toda a gente, para as pessoas que tenham curiosidade em ouvir a banda e até conhecerem os álbuns antigos. Vamos começar a ver qual a hipótese de fazer uma edição física. Após as pessoas ouvirem online, pode ser que o interesse seja maior em comprar a edição física. E também talvez seja mais vantajoso fazê-lo do que lançá-lo e vendê-lo sem que as pessoas o ouvissem previamente.»

Curiosamente, em 21 anos de carreira os “álbuns antigos” são só dois. É certo que, a este nível, uma banda é um filho – vai-se tratando dele ao longo do tempo no melhor das nossas possibilidades, faz-se crescer pacientemente. Contudo, não só a oferta é nitidamente pequena, como é meio incompreensível o facto de os Theriomorphic nunca terem apontado para níveis mais elevados. Presumivelmente, tudo o que o vocalista e mentor da banda referiu até agora foram factores mais do que suficientes para isso. «Sim, acaba por ser uma conjugação de factores: falta de tempo, vida pessoal e profissional, várias pessoas a entrarem e saírem da banda… Tudo isso contribuiu um bocado. Durante bastante tempo tivemos pessoas a entrarem e a saírem e no mês seguinte tínhamos um concerto marcado. Assim, tivemos de arranjar pessoas com capacidade para aprenderem a tocar os temas ao vivo, não podia ser qualquer pessoa. Então, quando começamos a marcar muitos concertos ficamos sem tempo para compormos músicas novas. Paras de tocar e deixa de haver concertos, ensaios… Acabas por não compor porque te encontras menos vezes com as pessoas. Há uns anos era bastante normal as bandas terem uma garagem, um local de ensaio onde, pelo menos uma vez por semana, as pessoas juntavam-se e iam fazendo coisas; hoje em dia, isso quase que acabou: as pessoas moram em sítios diferentes, têm falta de tempo, ou então vai-se a um estúdio durante uma hora ou duas ensaiar. Já não existe aquele poiso fixo para se fazerem as coisas. Quando as pessoas deixam de se encontrar, as coisas não se fazem tão depressa. Depois, gosto de chegar à versão final das músicas e de ficar satisfeito com aquilo que fiz. Fazer as coisas mais apressadamente apenas para lançar discos e depois ouvi-los e não gostar daquilo também não me parece que seja sequer desejável. Prefiro demorar mais tempo e fazer bem, pois isso reflecte-se também nos ouvintes quando editamos alguma coisa.»

«Prefiro demorar mais tempo e fazer bem, pois isso reflecte-se também nos ouvintes quando editamos alguma coisa.»

Mas a extinção das garagens como sítio de ensaio não foi a única grande mudança no nosso panorama nacional nos últimos 10-15 anos, e Jó sabe disso: «Não tem sido fácil; há coisas que melhoraram, o nível foi subindo, mas isto não evoluiu muito. Este ano, por exemplo, vão deixar de haver eventos como o Santa Maria Summer Fest por culpa das autarquias e por causa de as pessoas não gostarem ou não se darem ao trabalho de conhecer. Até parece que não é cultura ou que não deveria estar incluído numa programação de cultura para oferecer às pessoas. E até pelas pessoas que vêm de fora e que dormem e comem e que dão dinheiro a ganhar. Há muita falta de visão. Há muitas coisas que melhoraram, mas não foram dados passos assim tão grandes; poderíamos estar bem melhores em vez de isto se andar a arrastar. Mesmo o Barroselas tem um caminho definido e não evolui muito mais do que isto porque não é fácil fazer as coisas – as pessoas pensam que sim, mas não é, há sempre muito risco envolvido e o que acontece muitas vezes é que o prejuízo financeiro arruma com as iniciativas. Ainda se desse para pagarem a despesa, penso que as pessoas continuariam a ter força para lutar e dar continuidade à coisa, mas quando perdem dinheiro, e com todas as chatices que isto dá, é natural que esmoreçam.»

A entrevista chegava ao fim, mas ainda ficava no ar uma questão importante – geralmente, um EP é sinal de disco novo a caminho, mas, depois dos atrasos e adiamentos consecutivos dos Theriomorphic (e tendo em conta que “Of Fire And Light” tem pouco mais de um mês de existência e que a banda com certeza o irá promover na estrada nos tempos vindouros) fica tudo em aberto. Ou não? «Temos ideias antigas que fomos acumulando e gostaria agora de pegar nelas para as começar a definir. Já temos um tema mais ou menos alinhavado, bem como várias ideias soltas para temas em que temos de pegar. No fim do próximo ano ou do seguinte gostaria de ter algo cá fora, mas pela experiência que tenho nisto sei que vai ser um pouco difícil. [risos] Vamos tentar, para que em 2019 ou 2020 tenhamos alguma coisa nova em carteira. Com o EP recente pode ser que isto motive a banda a andar mais rápido.»

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

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