O Tribunal da Ultraje: Primal Attack “Heartless Oppressor” | Ultraje – Metal & Rock Online
Features

O Tribunal da Ultraje: Primal Attack “Heartless Oppressor”

a1753951030_10Por vezes entende-se que uma review com uma nota fraca é redigida por um escritor também ele fraco. Isto não é verdade, até porque na maior parte das vezes, e pelo que tenho verificado ao longo destes anos enquanto leitor de reviews, os escritores fracos são os primeiros a bradar álbuns aos céus e a atribuir pontuações elevadas em cada álbum que analisam, e se estiver em causa a análise de um lançamento ou concerto de uma banda portuguesa, todo este entusiasmo ganha mais relevo, pois afinal de contas já todos sabemos que é com palmadinhas nas costas que isto vai lá, certo? Errado! Se durante o processo de análise a um álbum de uma banda de death metal, o escritor responsável pela review decidir pontuar esse álbum com um 4 de 0 a 10, será fácil para quem lê, e principalmente se quem estiver a ler fizer parte da dita banda, justificar a má pontuação dizendo que o escritor em causa não percebe ou não gosta de death metal. Na verdade ele até percebe e gosta, mas parem lá para pensar: eu gosto de filmes sobre o espaço e viagens no tempo; todos os filmes que envolvam o espaço e as viagens no tempo são bons? Não. Aliás, a grande maioria deles é terrível, mas vivo para aqueles dois ou três que são realmente bons. Eu gosto de MotoGP; são todas as corridas de MotoGP fenomenais? Também não, e mais uma vez, a grande maioria também é secante e previsível, mas insisto nisto porque uma vez por ano, com sorte, lá tem lugar uma daquelas vitórias arrancadas ao último segundo, com uma ultrapassagem que nos faz levantar do sofá e gritar com a televisão, e que permite aguentar toda uma temporada sem sabor. Agora respondam vocês a esta pergunta: eu gosto de metal; todo o metal é bom? Uma review não é mais do que a opinião pessoal de quem a escreve. Essa opinião vale o que vale e não reúne, pelo menos na maioria das vezes, o consenso da restante equipa que compõe essa revista ou website. Se para cada álbum o mesmo meio de comunicação tivesse cinco escritores a trabalhar numa análise, teríamos como resultado cinco opiniões distintas, que ora podem andar muito próximas umas das outras ou muito afastadas.

Foi com isto em mente que decidimos criar uma nova secção, que será publicada daqui para a frente tanto no nosso site como na revista, chamada “O Tribunal da Ultraje”. O objectivo é seleccionar alguns colaboradores da Ultraje e atribuir-lhes um álbum para análise, de forma a mostrarmos as diferenças de opinião de uma só revista em relação ao mesmo álbum. Para iniciar esta coluna, escolhemos “Heartless Oppressor”, o segundo disco dos lisboetas Primal Attack, cuja edição deu-se através da Rastilho Records em Fevereiro deste ano. As próximas publicações d’O Tribunal da Ultraje serão mais curtas, não se preocupem!

“Se houver crítica negativa, a culpa será sempre de quem diz mal e não dos intervenientes directos”. [Diogo Ferreira]

CENA THRASH/GROOVE NACIONAL

«A abertura de “Red Silence”, tema introdutório do disco, fez-me sentir um grande entusiasmo em ouvir música nova como já não me fazia sentir há algum tempo. Fez-me também perceber que não fui eu quem deixou de gostar do thrash/groove à portuguesa; simplesmente temos tido alguns lançamentos de bandas do género que mais não fizeram do que tornar este estilo aborrecido.» [Joel Costa]

«A verdade é que, sob o meu ponto de vista, aquela cena groove/thrash/death da região de Lisboa e Setúbal começou a soar ao mesmo desde há uns anos para cá. Encontrou-se uma receita, angariou-se fãs e, pronto, siga fazer o mesmo sempre com muito peso – a partir daí, se houver crítica negativa, a culpa será sempre de quem diz mal e não dos intervenientes directos. Se calhar os Primal Attack perceberam que algo tinha de mudar e em boa altura sacaram este “Heartless Oppressor”.» [Diogo Ferreira]

EVOLUÇÃO & IDENTIDADE

«Com uma evolução descomunal em comparação com o álbum de estreia, “Humans”, os Primal Attack entram agora na primeira liga do metal nacional. Mantendo a sua raiz de thrash moderno, evoluem para um som mais complexo, com uma maior diversidade de elementos, demonstrando um enorme potencial que não estava patente no primeiro trabalho. Uma das grandes novidades no som apresentado são os elementos que trilham uma linha mais progressiva e que contribuem para uma maior versatilidade e diversidade nos temas, o que mostra que esta banda está em evolução e a seguir no bom caminho.» [Pedro Félix]

«Os riffs têm uma identidade própria, a bateria põe-nos as pernas a mexer e até o baixo dá mais groove a algo que é groove por natureza. Meus amigos, ter um som original e com identidade é isto; e não é só a música que é boa, a própria ira que despoleta toda esta violência é genuína. “Heartless Oppressor” é um álbum feroz, tem um mau feitio e não está preocupado com o que vocês pensam acerca disso.» [Joel Costa]

«Muito se faz hoje em dia com vontade, dedicação e esforço colectivo. Perguntem-no aos Primal Attack, cuja evolução desde o anterior registo é abismal. Sim, ainda soam a Pantera e a Lamb of God mas, mesmo sem revolucionarem o género, apresentam agora uma marca sonora pessoal que distingue uma banda que tem tudo para ser grande de apenas outra banda.» [João Correia]

MUITO MAIS QUE THRASH

«Combinando guitarras com riffs intensos e com passagens mais melódicas, mesmo recorrendo a vozes limpas, em contraste com a voz grave e agressiva que nos assalta em cada tema, e cobrindo uma enorme diversidade rítmica, os Primal Attack criam ambientes que vão desde o “espancamento” musical, próprio do thrash ou do hardcore, até atmosferas mais melódicas carregadas de carga emocional.» [Pedro Félix]

«Dizer à boca cheia que há secções prog pode ser arrojado de mais, mas note-se uma estrutura nada linear no início da quarta “Truth and Consequence”. É óbvio que volta e meia caímos na banalidade do groove que já deu ar de si em variadas bandas, mas também não podemos ter palas e começar a mandar abaixo a torto e a direito, porque a realidade é esta: bandas como os Primal Attack vêm daí e não vão, nunca, mandar às favas as suas raízes.» [Diogo Ferreira]

«Este álbum é muito mais do que apenas uma chapada na tromba e está a algumas milhas de distância de ser também apenas um álbum de thrash: “Strike Back”, por exemplo, oferece-nos uma abordagem ao estilo de Slipknot, onde até a voz faz-nos recuar aos anos de ouro do nu-metal, depois há vestígios de hardcore, death metal, prog, aquela batida clássica industrial, temas à Chimaira (como é o caso de “Heart and Bones”), muita atmosfera e até vocais limpos que contrariam a violência com que este quinteto da capital Portuguesa nos brinda.» [Joel Costa]

«Transpira paixão, raiva e dedicação em nove faixas que misturam riffs na melhor tradição thrash metal, uma secção rítmica que tanto é groove como é death metal, e uma voz com uma entrega que nada deve ao melhor do hardcore nova-iorquino. Confusos? Ainda bem, porque “Heartless Oppressor” é perfeito para deitar por terra todos aqueles que adoram catalogar uma banda e colocá-la dentro de uma caixinha junto dos seus pares.» [Vasco Rodrigues]

PRODUÇÃO

«Gostava de o carimbar com um 8 de 10, mas a produção não me convence a 100%. Explicando melhor: existe, ultimamente, uma tendência global para ver quem tem o som mais alto para poder entrar na competição de quem tem um som mais poderoso. Pior ainda, existem certos álbuns de bandas lendárias que ajudam a propagar este erro, como o “Death Magnetic”, dos Metallica, que está horrivelmente alto. Se é dos Metallica, então é bom, certo? Não, não é assim, e estou a referir-me exclusivamente à produção, não à qualidade de composição musical do álbum.» [João Correia]

«Se já se percebia que a sonoridade dos Primal Attack tinha vida própria, os viciantes solos, aliados à excelente produção de “Heartless Oppressor”, só vêm confirmar que não basta ter um corpo animado: é preciso ter alma, e numa altura em que o formato álbum como o conhecíamos começa a dar lugar a playlists e streamings isolados no Youtube, os Primal Attack conseguem com este novo disco devolver alguma da identidade e do valor que o formato clássico tem vindo a perder, pois fazem-nos querer ouvir tudo sem que se deixem pontas soltas no processo. É atirar a matar, sem fazer prisioneiros.» [Joel Costa]

«Se tivesse de apontar apenas um defeito, este tem a ver com a produção, bastante estridente a espaços, e que impede de ouvir este disco no máximo.» [Vasco Rodrigues]

«Com uma produção de luxo, o quinteto promove a diversidade entre as típicas abordagens groove/thrash e pozinhos perlimpimpim mandados ao ar para se criarem incursões ao rock alternativo (seja nos riffs, seja na voz), como na última “XXI Century Curse”.» [Diogo Ferreira]

«A contribuir fortemente, também, para o aumento do nível de intensidade da música, temos uma produção que tanto afiou a lâmina da brutalidade dos temas ao encorpar o som, como deu mais visibilidade à técnica e melodia, ao torná-lo mais limpo, dando-lhe assim o peso e medida devido.» [Pedro Félix]

DECISÃO DO TRIBUNAL


 «Os Primal Attack mostram-nos que tiveram coragem e força para se aventurarem por novos caminhos. Resultou?
Se ter em mãos um grande candidato a álbum de metal nacional do ano não é um bom resultado, que mais poderá ser?»

Joel Costa 8.5/10


«Um exercício de alta qualidade, que parte de uma base de thrash/hardcore, incorpora elementos progressivos, e dá-nos um murro no estômago e uma bofetada de luva branca, num claro desafio aos nossos sentidos.»

Pedro Félix 8.5/10


«São álbuns como “Heartless Oppressor”, dos Primal Attack, que me motivam a continuar a ouvir música nacional e a ter fé nas nossas bandas.»

Vasco Rodrigues 8/10


«Depois deste “Heartless Oppressor”, que abana bem o panorama, o problema pode voltar a ser o mesmo: o que fazer mais para mudar o paradigma do groove/thrash em Portugal? Talvez não pensemos nisso agora, mas cá estaremos daqui a 2 ou 3 anos para fazer contas. Para já, os Primal Attack estão a fazer, e bem, pela vida.»

Diogo Ferreira 7/10


«O álbum está muito apurado e será facilmente um dos lançamentos nacionais do ano, juntamente com os novos álbuns de Corpus Christii, Heavenwood e Analepsy.»

João Correia 7/10

Média:
7.8/10
Topo