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Tronos “Celestial Mechanics”

João Correia

Publicado há

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Editora: Century Media Records
Data de lançamento: 12.04.2019
Género: doom metal

Avaliar um disco de metal extremo parece ser tarefa fácil na actualidade, principalmente quando nos costumamos deparar com obras que raramente se furtam aos padrões pré-definidos do death metal, black metal, grindcore, etc.. Pior, pior, é quando nos deparamos com algo de alienígena, algo que nos faz levantar o sobrolho e nos leva a ganhar fé de como o movimento ainda tem tanto, mas tanto de compensador para oferecer. É o caso de “Celestial Mechanics”, dos Tronos, um supergrupo composto por Shane Embury (Napalm Death), Russ Russell (Meathook Seed) e Dirk Verbeuren (Megadeth, Aborted, Soilwork) e com colaborações de alguns dos nomes mais sonantes do heavy metal e do rock, passado e presente, caso de Snake (Voivod), Billy Gould (Faith No More), Troy Sanders (Mastodon) e Dan Lilker (Nuclear Assasult, Brutal Truth, Anthrax, S.O.D.). Curiosamente (e talvez com a excepção de Shane), talvez fosse difícil de perceber os contributos de cada músico, pois Tronos é muito distante e atípico de tudo o que fizeram anteriormente.

O que distingue “Celestial Mechanics” de um trabalho regular de metal extremo é a mistura perfeita de locus horrendus e locus amenus, de caos e de tranquilidade, de negrume e de luz, o que representa um trabalho bastante criativo e desviado das normas e em que os instrumentos mais contundentes são as vozes, os teclados e as guitarras. “Walk Among The Dead Things”, a primeira prestação, apoia-se firmemente nestes três pilares para criar um épico de quase oito minutos composto por passagens com coros e sintetizadores serenos aliadas a momentos cáusticos de sludge e doom metal. Até ao final, o álbum decorre quase da mesma forma: arrastado, épico e pesado. “Judas Cradle”, a segunda faixa, cai neste molde invulgar ao misturar doom/sludge com os mesmos coros e sintetizadores, ainda que mais presentes e gloriosos. A seguinte “The Ancient Deceit” dura menos de três minutos e apresenta-nos um cheirinho do industrial lendário inglês de inícios da década de 90, com nomes como Godflesh, Pitchshifter e Sonic Violence a servirem de referência.

Inicialmente, temas mais compridos como “The Past Will Wither And Die” parecem ser os que dão mais asas ao experimentalismo e sentido de composição dos Tronos: divagam, dão piruetas no ar, assentam novamente no chão e repetem o exercício sem caírem no aborrecimento; no entanto, quando ouvimos “A Treaty With Reality”, com pouco mais de três minutos, a banda troca-nos as voltas com um andamento a meio-tempo quando esperávamos algo mais rápido. Que dizer então de “Voyeurs of Nature’s Tragedy”, outro tema curto, que inicia e termina com um solo de violino capaz de fazer crescer lágrimas nos olhos? Ou de “Johnny Blade”, cover atípica dos típicos Black Sabbath?

Os Tronos impressionam com esta mélange improvável de metal extremo, ainda que só pontualmente muito rápido (“Birth Womb”, que comanda o único assalto de death/black metal no disco), onde o sludge, o death, o black e o doom metal se envolvem com os já referidos violinos, sintetizadores, coros angélicos e um fuzz geral nada característico, uma caixinha de surpresas revestida com uma produção perfeitamente adequada ao conceito pensado pelos músicos. É difícil categorizar “Celestial Mechanics” por tudo isto: é um registo que só poderia ter sido geminado por músicos vividos do nosso panorama, tais são a nitidez e expressividade apresentadas, sem incidir em erros de megalomania ou presunção. Fazem falta mais discos assim.

Nota Final

 

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Belzebubs “Pantheon of the Nightside Gods”

Diogo Ferreira

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Editora: Century Media Records
Data de lançamento: 26.04.2019
Género: black/death metal melódico

O que começou por ser uma BD da autoria do finlandês J.P. Ahonen transformou-se numa banda a sério quando, em Junho de 2018, surge o vídeo para “Blackened Call”, que hoje tem mais de 1.3 milhões de visualizações no YouTube. A divisão foi notória: se de um lado tínhamos os metaleiros com sentido de humor alargado (o som pode ser sério e extremamente bem executado, mas o visual é hilariante), do outro acantonavam-se os puristas com comentários do tipo ‘já não bastava termos Dethklok e Ghost…’.

“Blackened Call” esteve em constante rotação durante vários meses até que a Century Media Records anunciou o primeiro álbum “Pantheon of the Nightside Gods”. Ao longo de quase 55 minutos, as personagens Hubbath, Obesyx, Sløth e Samaël ganham forma e força sonora ao executarem temas embebidos numa melodia ultra-cativante baseada em black e death metal nas suas vertentes melódicas. Os leads e os solos são do mais épico que se pode esperar (“Blackened Call” e “Acheron”) se imaginarmos que Amon Amarth tiveram um encontro romântico com Dimmu Borgir, as ambiências (umas vezes sóbrias e quase despercebidas, outras vezes bem assentes, como em “Cathedrals of Mourning”) fazem-nos relembrar o gelo de Amorphis agora e o ocultismo sórdido de Cradle Of Filth depois (“Nam Gloria Lucifer”), e o sentido semiacústico de sonoridades como Opeth também foi não esquecido (“The Crowned Daughters”).

Pode parecer tudo perfeito, mas o que é certo é que a segunda metade do álbum perde-se um pouco em temas longos que fazem sentir a falta da patada veloz e melódica da primeira parte deste longa-duração, quase como se nos estivessem mesmo a dizer que aquelas faixas iniciais são as indicadas para promover o disco e as restantes são mais obra de criatividade direccionada a quem ouvirá o álbum na íntegra. Ainda assim, nada está perdido e a competência continua assegurada, tendo apenas de se ter alguma paciência para ouvirmos ICS Vortex (Arcturus) no tema-título que encerra o álbum.

Agora resta saber se conseguimos ouvir o álbum de forma estritamente séria sem imaginar os nossos companheiros a rebolar por uma ravina embrulhados numa gigante bola de neve em direcção a uma estalagem acolhedora… Será impossível. Faz parte e é assim que tem de ser.

Nota Final

 

 

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Månegarm “Fornaldarsagor”

Diogo Ferreira

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Editora: Napalm Records
Data de lançamento: 26.04.2019
Género: folk metal

Ao nono álbum, os Månegarm convidam-nos a participar numa jornada pelos tempos ancestrais do pré-Cristianismo através do seu metal folclórico que tem vindo a desenvolver-se desde 1995.

Com uma entrada tempestuosa e furiosa protagonizada por “Sveablotet”, os suecos misturam em si mesmos a música extrema do black metal robusto em background que se transforma em death metal melódico na frente através de leads luminosos (“Tvenne drömmar”). Há por todo o disco um sentido épico com especial foco nos refrãos gloriosos, melodiosos e cativantes que tanto são próximos de vocais limpos como berrados com um sotaque nórdico muito carregado (“Spjutbädden”). Para além de toda esta mescla energética, há, claro, incursões mais típicas do folk metal, como é representado na melancólica e nostálgica “Ett sista farväl” que, a mid-pace, inclui voz feminina e violino, um instrumento que, no seu devido lugar, vai sendo ouvido ao longo destes novos oito temas.

“Fornaldarsagor” é, em última análise, a prova de que a chama pagã está bem acesa e alimentada, o que agradará a fãs de, por exemplo, Vintersorg.

Nota Final

 

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Allegaeon “Apoptosis”

João Correia

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Editora: Metal Blade Records
Data de lançamento: 19.04.2019
Género: death metal técnico

“Proponent For Sentience”, de 2016, foi o expoente máximo criativo e técnico dos Allegaeon e, com ele, entraram directamente para a primeira liga do death metal técnico, fincando nela os pés de tal maneira que seria impossível regredirem. Geralmente, uma banda de topo lança um disco destes em toda a sua carreira: “Master of Puppets”, “Reign In Blood” e “Unquestionable Presence” são exemplos de discos assim, que conseguem deixar uma marca temporal muito duradoura e que acabam por servir de ponto de partida para outras bandas. Com “Apoptosis”, os Allegaeon conseguem o improvável, que é como quem diz: crescerem musicalmente, criarem um registo ainda melhor do que o anterior e deixarem-nos novamente na dúvida se conseguirão fazer melhor com o próximo disco.

O segredo que faz de “Apoptosis” um disco mais dinâmico do que “Proponent For Sentience” deve-se à maior naturalidade e aceitação de conceitos que a banda passou a praticar na novidade, que demonstra incontestavelmente uma superioridade criativa que o anterior tentava atingir, mas forçadamente. A intro “Parthenogenesis” poderia ter saído dos Revocation ou dos Obscura, tal é a perfeição e virtuosismo presente em cada instrumento sem perder catchiness (bem pelo contrário), e culmina imediatamente no início de “Interphase Meiosis”, um projéctil ultratécnico que nos faz sorrir de satisfação, coisa rara numa época em que tropeçamos em macaquinhos de imitação a cada esquina que dobramos. Segue-se “Extremophiles”, que uma vez mais apresenta uma estrutura coesa, velocidade, muito peso e mais solos deliciosos. Nesta faixa descobrimos ainda que a saída do baixista Corey Archulleta basicamente não prejudicou a banda, muito pelo contrário, mesmo porque Brandon Michael, o seu substituto, consegue imprimir aos Allegaeon uma palete de cores diversas devido à sua proficiência musical, tanto teórica quanto prática. Depois, a voz de Riley McShane está cada vez mais agressiva, havendo também lugar para imensas partes vocais límpidas. Acrescente-se a tudo isto uma secção de percussão muito mais rápida e perfeccionista do que anteriormente e ficamos bastante impressionados com a evolução significativa da banda.

Com os seus solos impossíveis e brutalidade técnica, “The Secular Age” e “Exothermic Chemical Combustion” aumentam a fasquia da nossa exigência crítica para outro patamar – é impossível apontar erros, de dizer ‘ah, aqui se calhar ficava melhor isto ou aquilo’. Poucas vezes nos deparamos com dois trabalhos cujo único termo que nos ocorre para os denominar é ‘erudito’. “Metaphobia” é um tema perfeito para partir uns quantos ossinhos no pit, ao passo que “Tsunami And Submergence” e “Colors Of The Currents” exploram os momentos mais progressivos da banda, com melodias sublimes que entram à primeira e não mais saem. O sci-fi tech-death regressa na forma de “Stellar Tidal Disruption”, a melhor faixa do álbum e que nos recorda vividamente Vektor, mas muito mais à frente. A final “Apoptosis” junta bits e bytes de cada uma das faixas anteriores e proporciona um final épico digno dos Allegaeon, os novos reis do death metal técnico… Bom, talvez seja exagerado colocar as coisas nestes termos, mas é muito pouco provável que 2019 nos brinde com um disco de death metal melhor do que “Apoptosis”, que não é menos do que um diamante perfeito lapidado pelas mãos dos melhores artesãos. Daqui em diante é sempre a descer para os Allegaeon.

Nota Final

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