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Entrevistas

Ultha: expiação de pecados (entrevista c/ Chris Noir e Ralph Schmidt)

Diogo Ferreira

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rsz_ultha_2_c_by_deathless_picturesFoto: Deathless Pictures

Com o novo álbum “Converging Sins” a cair de surpresa na Internet no final de Novembro, fomos à procura dos Ultha que, nas palavras de Chris Noir e Ralph Schmidt, nos deram uma entrevista sincera e extensa para que nada ficasse por dizer sobre o grupo, o seu trabalho, o actual estado do black metal e, claro, Bathory.

Ralph Schmidt: «O disco tem a ver com o meu passado e quantas coisas lixei ao levar uma vida pecaminosa.»

Não é que os temas do álbum anterior sejam curtos, mas agora temos deles maiores. Foi a forma encontrada para alargar horizontes e emoções?
CN: Queremos criar canções com uma atmosfera intensa e emocional. Repetição estável de certos elementos pode ser uma forte ferramenta para atingir este tipo de intensidade; bandas como Ash Borer, Dispirit ou Neurosis têm uma forte influência em nós nessa matéria. Enquanto trabalhamos as estruturas das canções, tentamos ver quantas vezes podemos repetir o riff e as partes que têm o melhor efeito, mas também ver quais são os limites daquilo que nos parece certo. Repetir sem sentido o mesmo riff umas 40 vezes apenas para quebrar a marca dos 15 minutos não é a melhor maneira.
RS: É um balanço estabelecido na compostura do que é certo e errado para um músico. Assumo que algumas pessoas pensem que as canções são demasiado compridas, [mas] outras podem querer ouvi-las mais vezes. Para nós é bastante perfeito.

Olhando para o título do álbum, que pecados estão a convergir? E como pensam que o fazem musicalmente?
RS: Com sorte não cometemos nenhum pecado neste disco. Não para nós. Mas falemos disto daqui a um ano. Quando terminámos “Pain Cleanses Every Doubt” também pensámos que era perfeito, mas o tempo erode a pedra e encontrámos coisas que não gostamos. Mas tudo bem. Doutra forma não haveria progressão. Quanto ao tópico sublinhado: vários. Quanto mais velho ficas mais tentas levar uma vida boa, [e] a quantidade de erros pecaminosos deve ter crescido a um ponto em que se torna inquestionável que algumas coisas não estão bem na tua vida. O disco tem a ver com o meu passado e quantas coisas lixei ao levar uma vida pecaminosa. Não é assim tão explícito, mas é uma mediação sobre o que senti e ainda sinto quanto a tudo o que fiz.

A repetição é louvada no álbum, mas, estranhamente, tudo soa muito diverso. Mesmo dentro do black metal, a primeira faixa é diferente da última… É algo natural enquanto compõem ou pensam em várias abordagens ao black metal de antemão?
CN: Acontece muito naturalmente. Não é que digamos que queremos ter esta ou aquela parte como uma outra banda. Como as nossas influências vêm de todo lado e de muitos tipos diferentes de black metal, temos uma ampla gama de estilos que usamos como ferramentas e padrões para processar os sentimentos que queremos transmitir.
RS: Como o Chris disse, não vais encontrar um plano para aquilo que fazemos. Fazemos aquilo que nos parece apropriado naquele momento exacto. A gama de bandas à qual buscamos abordagens sonoras passa por new wave, heavy metal clássico, goth, trip-hop, bandas-sonoras e pela brilhante variedade de estilos de black metal encontrados em todo o mundo. Se uma certa abordagem ressoa profunda dentro de nós, [então] tentamos usá-la como uma finalidade e transcrevê-la para o que é uma canção de Ultha.

Chris Noir: «Gravamos a música que gostamos de ouvir, e isso é mesmo o cerne desta banda.»

Ainda sobre a pergunta anterior, como brincam e trabalham com as várias texturas sonoras que ouvimos no resultado final? Achas que isso é uma das coisas mais interessantes quando compõem e gravam?
CN: Claro. Como o Ralph explicou, somos todos muito nerdy quando se trata de música – não só no domínio do (black) metal, mas em muitos tipos de géneros. Trazer isso tudo para cima da mesa naturalmente faz com que todas essas influências brilhem através da música de Ultha. Gravamos a música que gostamos de ouvir, e isso é mesmo o cerne desta banda. Apegar-nos estritamente aos limites de um género não é algo com que estejamos interessados, embora toquemos black metal e tenhamos certamente a intenção de forçosamente quebrar barreiras. Quando acontece, acontece.

Chris Noir: «Não queremos saber das expectativas das pessoas, especialmente as dos autoproclamados defensores da verdade que trollam pela Internet.»

Há uma grande turbulência pela Internet com pessoas a dizer que o black metal perdeu o culto e a verdade. Mesmo assim, vocês tocam black metal e incluíram uma faixa com vozes femininas. Como vivem com esse criticismo? Numa boa, acho eu, senão não tinham feito tal canção…
CN: Não queremos saber das expectativas das pessoas, especialmente as dos autoproclamados defensores da verdade que trollam pela Internet. Os limites de visão dalgumas dessas pessoas são quase fascinantes no seu atraso.
RS: Prefiro ouvir o “Keeper Of The Seven Keys (Pt.II) [dos Helloween] em vez das divagações de pessoas que têm uma visão musical entre bootlegs de Morbid e os primeiros dois álbuns de Burzum. Há muitas bandas a dar cabo dos nervos das pessoas e algumas até nos interessam, mas não como banda ou como uma abordagem para se tocar música. A ignorância é por vezes deliciosa, mas quando se trata de pureza musical, isso não é para nós.
CN: A diversidade e experimentação musical é um dos elementos-chave que cunharam a segunda vaga do black metal – o que teve um grande impacto em nós. Ouve bandas como Ulver, Sigh, Abruptum… Todas soam diferente, muito experimentais por vezes, e trabalham com todos os tipos de elementos musicais e contextuais, ainda que ninguém se atreva a negar que essas bandas tocaram black metal nos primeiros tempos. Portanto, acho que essa ‘discussão’ sobre a verdade é bastante cansativa. Se gostas que o teu black metal soe ao “Drawing Down The Moon” [dos Beherit] e nada mais, então tudo bem, mas não é a única interpretação que há sobre black metal. Sobre a nossa canção “Mirrors In A Black Room”, é a Rachel Davies, dos Esben And The Witch, que canta. Esta canção é, de longe, a mais profunda e intensa que pudemos meter cá fora; portanto, se alguém a menospreza por causa das vozes incríveis, [então] isso diz mais do défice emocional dessa pessoa do que o que o black metal pode ou não pode ser.
RS: Para essas pessoas, acho que há cinco milhões de bandas war-black-metal.

O novo álbum apareceu do nada na Internet. Conseguiram o efeito de surpresa?
CN: Embora tenha sido uma surpresa para muita gente, não era a nossa intenção. Apenas estamos muito cansados da forma como a indústria trabalha com os novos lançamentos: primeiro tens um pequeno teaser duma canção, depois a reportagem de estúdio, depois um pequeno vídeo, depois a primeira canção num website, duas semana depois uma canção noutro website, um vídeo do baterista a cagar… Literalmente meses antes de o álbum estar disponível – não vemos nenhum sentido nisso. Mesmo que gostes do primeiro teaser ou tema, vais provavelmente esquecer isso quando o álbum for lançado. Vemos “Converging Sins” como uma completa peça de arte (se assim o quiseres chamar), por isso pegar numa ou em duas canções de antemão poderá arruinar totalmente a ideia. Mas para ser justo, compreendo por que é que as editoras mais pequenas fazem isso: é quase impossível manter um lançamento secreto nos dias que correm. Dá mais trabalho não ter as coisas num único blog semanas antes do lançamento do que apenas largar uma canção de antemão e fazer com que as pessoas o saibam.

Chris Noir: «Sem Bathory não teríamos black metal como o conhecemos hoje, e certamente não teríamos Ultha.»

Um split com Morast para comemorar Quorthon também está disponível. O que é que Bathory representa para vocês? E com tantas músicas para escolher, porquê “Raise The Dead”?
CN: Sem Bathory não teríamos black metal como o conhecemos hoje, e certamente não teríamos Ultha. Somos todos fãs (embora prefiramos álbuns diferentes) e quando a CVLT Nation nos pediu contribuição numa compilação de tributo a Bathory dissemos que sim instantaneamente. Tinha que ser uma canção do primeiro álbum, portanto o Ralph sugeriu a “Raise The Dead”. Toda a canção, e especialmente o solo, é a coisa mais insana que se gravou, e claro que nunca poderíamos competir com isso, mas penso que oferecemos uma boa interpretação.
RS: Fizemos dela nossa. Não podíamos tocá-la como ela é. Não há sentido e fascinação nisso. Gravámos uma cover de Mighty Sphincter para o nosso EP “Dismal Ruins” na mesma sessão e também está longe da original, mas é como sentimos que a música devia ser tocada por uma banda moderna de black metal. Bathory era a cena – muito mais importante do que Venom e Hellhammer. Não me interpretes mal, adoro as três bandas, mas, sim, não haveria black metal sem Bathory. Foi uma honra e privilégio homenagear Quorthon.

Desde que se fundaram em 2014 já têm dois álbuns! O que podem avançar para 2017?
CN: Para além de uma digressão europeia com WOE, dos EUA, e de tocarmos em alguns dos melhores festivais que a Europa tem para oferecer, já temos alguns planos para gravar, mas nada definido em pedra.

 

A review ao álbum pode ser acedida AQUI.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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