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Entrevistas

Ultha: expiação de pecados (entrevista c/ Chris Noir e Ralph Schmidt)

Diogo Ferreira

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rsz_ultha_2_c_by_deathless_picturesFoto: Deathless Pictures

Com o novo álbum “Converging Sins” a cair de surpresa na Internet no final de Novembro, fomos à procura dos Ultha que, nas palavras de Chris Noir e Ralph Schmidt, nos deram uma entrevista sincera e extensa para que nada ficasse por dizer sobre o grupo, o seu trabalho, o actual estado do black metal e, claro, Bathory.

Ralph Schmidt: «O disco tem a ver com o meu passado e quantas coisas lixei ao levar uma vida pecaminosa.»

Não é que os temas do álbum anterior sejam curtos, mas agora temos deles maiores. Foi a forma encontrada para alargar horizontes e emoções?
CN: Queremos criar canções com uma atmosfera intensa e emocional. Repetição estável de certos elementos pode ser uma forte ferramenta para atingir este tipo de intensidade; bandas como Ash Borer, Dispirit ou Neurosis têm uma forte influência em nós nessa matéria. Enquanto trabalhamos as estruturas das canções, tentamos ver quantas vezes podemos repetir o riff e as partes que têm o melhor efeito, mas também ver quais são os limites daquilo que nos parece certo. Repetir sem sentido o mesmo riff umas 40 vezes apenas para quebrar a marca dos 15 minutos não é a melhor maneira.
RS: É um balanço estabelecido na compostura do que é certo e errado para um músico. Assumo que algumas pessoas pensem que as canções são demasiado compridas, [mas] outras podem querer ouvi-las mais vezes. Para nós é bastante perfeito.

Olhando para o título do álbum, que pecados estão a convergir? E como pensam que o fazem musicalmente?
RS: Com sorte não cometemos nenhum pecado neste disco. Não para nós. Mas falemos disto daqui a um ano. Quando terminámos “Pain Cleanses Every Doubt” também pensámos que era perfeito, mas o tempo erode a pedra e encontrámos coisas que não gostamos. Mas tudo bem. Doutra forma não haveria progressão. Quanto ao tópico sublinhado: vários. Quanto mais velho ficas mais tentas levar uma vida boa, [e] a quantidade de erros pecaminosos deve ter crescido a um ponto em que se torna inquestionável que algumas coisas não estão bem na tua vida. O disco tem a ver com o meu passado e quantas coisas lixei ao levar uma vida pecaminosa. Não é assim tão explícito, mas é uma mediação sobre o que senti e ainda sinto quanto a tudo o que fiz.

A repetição é louvada no álbum, mas, estranhamente, tudo soa muito diverso. Mesmo dentro do black metal, a primeira faixa é diferente da última… É algo natural enquanto compõem ou pensam em várias abordagens ao black metal de antemão?
CN: Acontece muito naturalmente. Não é que digamos que queremos ter esta ou aquela parte como uma outra banda. Como as nossas influências vêm de todo lado e de muitos tipos diferentes de black metal, temos uma ampla gama de estilos que usamos como ferramentas e padrões para processar os sentimentos que queremos transmitir.
RS: Como o Chris disse, não vais encontrar um plano para aquilo que fazemos. Fazemos aquilo que nos parece apropriado naquele momento exacto. A gama de bandas à qual buscamos abordagens sonoras passa por new wave, heavy metal clássico, goth, trip-hop, bandas-sonoras e pela brilhante variedade de estilos de black metal encontrados em todo o mundo. Se uma certa abordagem ressoa profunda dentro de nós, [então] tentamos usá-la como uma finalidade e transcrevê-la para o que é uma canção de Ultha.

Chris Noir: «Gravamos a música que gostamos de ouvir, e isso é mesmo o cerne desta banda.»

Ainda sobre a pergunta anterior, como brincam e trabalham com as várias texturas sonoras que ouvimos no resultado final? Achas que isso é uma das coisas mais interessantes quando compõem e gravam?
CN: Claro. Como o Ralph explicou, somos todos muito nerdy quando se trata de música – não só no domínio do (black) metal, mas em muitos tipos de géneros. Trazer isso tudo para cima da mesa naturalmente faz com que todas essas influências brilhem através da música de Ultha. Gravamos a música que gostamos de ouvir, e isso é mesmo o cerne desta banda. Apegar-nos estritamente aos limites de um género não é algo com que estejamos interessados, embora toquemos black metal e tenhamos certamente a intenção de forçosamente quebrar barreiras. Quando acontece, acontece.

Chris Noir: «Não queremos saber das expectativas das pessoas, especialmente as dos autoproclamados defensores da verdade que trollam pela Internet.»

Há uma grande turbulência pela Internet com pessoas a dizer que o black metal perdeu o culto e a verdade. Mesmo assim, vocês tocam black metal e incluíram uma faixa com vozes femininas. Como vivem com esse criticismo? Numa boa, acho eu, senão não tinham feito tal canção…
CN: Não queremos saber das expectativas das pessoas, especialmente as dos autoproclamados defensores da verdade que trollam pela Internet. Os limites de visão dalgumas dessas pessoas são quase fascinantes no seu atraso.
RS: Prefiro ouvir o “Keeper Of The Seven Keys (Pt.II) [dos Helloween] em vez das divagações de pessoas que têm uma visão musical entre bootlegs de Morbid e os primeiros dois álbuns de Burzum. Há muitas bandas a dar cabo dos nervos das pessoas e algumas até nos interessam, mas não como banda ou como uma abordagem para se tocar música. A ignorância é por vezes deliciosa, mas quando se trata de pureza musical, isso não é para nós.
CN: A diversidade e experimentação musical é um dos elementos-chave que cunharam a segunda vaga do black metal – o que teve um grande impacto em nós. Ouve bandas como Ulver, Sigh, Abruptum… Todas soam diferente, muito experimentais por vezes, e trabalham com todos os tipos de elementos musicais e contextuais, ainda que ninguém se atreva a negar que essas bandas tocaram black metal nos primeiros tempos. Portanto, acho que essa ‘discussão’ sobre a verdade é bastante cansativa. Se gostas que o teu black metal soe ao “Drawing Down The Moon” [dos Beherit] e nada mais, então tudo bem, mas não é a única interpretação que há sobre black metal. Sobre a nossa canção “Mirrors In A Black Room”, é a Rachel Davies, dos Esben And The Witch, que canta. Esta canção é, de longe, a mais profunda e intensa que pudemos meter cá fora; portanto, se alguém a menospreza por causa das vozes incríveis, [então] isso diz mais do défice emocional dessa pessoa do que o que o black metal pode ou não pode ser.
RS: Para essas pessoas, acho que há cinco milhões de bandas war-black-metal.

O novo álbum apareceu do nada na Internet. Conseguiram o efeito de surpresa?
CN: Embora tenha sido uma surpresa para muita gente, não era a nossa intenção. Apenas estamos muito cansados da forma como a indústria trabalha com os novos lançamentos: primeiro tens um pequeno teaser duma canção, depois a reportagem de estúdio, depois um pequeno vídeo, depois a primeira canção num website, duas semana depois uma canção noutro website, um vídeo do baterista a cagar… Literalmente meses antes de o álbum estar disponível – não vemos nenhum sentido nisso. Mesmo que gostes do primeiro teaser ou tema, vais provavelmente esquecer isso quando o álbum for lançado. Vemos “Converging Sins” como uma completa peça de arte (se assim o quiseres chamar), por isso pegar numa ou em duas canções de antemão poderá arruinar totalmente a ideia. Mas para ser justo, compreendo por que é que as editoras mais pequenas fazem isso: é quase impossível manter um lançamento secreto nos dias que correm. Dá mais trabalho não ter as coisas num único blog semanas antes do lançamento do que apenas largar uma canção de antemão e fazer com que as pessoas o saibam.

Chris Noir: «Sem Bathory não teríamos black metal como o conhecemos hoje, e certamente não teríamos Ultha.»

Um split com Morast para comemorar Quorthon também está disponível. O que é que Bathory representa para vocês? E com tantas músicas para escolher, porquê “Raise The Dead”?
CN: Sem Bathory não teríamos black metal como o conhecemos hoje, e certamente não teríamos Ultha. Somos todos fãs (embora prefiramos álbuns diferentes) e quando a CVLT Nation nos pediu contribuição numa compilação de tributo a Bathory dissemos que sim instantaneamente. Tinha que ser uma canção do primeiro álbum, portanto o Ralph sugeriu a “Raise The Dead”. Toda a canção, e especialmente o solo, é a coisa mais insana que se gravou, e claro que nunca poderíamos competir com isso, mas penso que oferecemos uma boa interpretação.
RS: Fizemos dela nossa. Não podíamos tocá-la como ela é. Não há sentido e fascinação nisso. Gravámos uma cover de Mighty Sphincter para o nosso EP “Dismal Ruins” na mesma sessão e também está longe da original, mas é como sentimos que a música devia ser tocada por uma banda moderna de black metal. Bathory era a cena – muito mais importante do que Venom e Hellhammer. Não me interpretes mal, adoro as três bandas, mas, sim, não haveria black metal sem Bathory. Foi uma honra e privilégio homenagear Quorthon.

Desde que se fundaram em 2014 já têm dois álbuns! O que podem avançar para 2017?
CN: Para além de uma digressão europeia com WOE, dos EUA, e de tocarmos em alguns dos melhores festivais que a Europa tem para oferecer, já temos alguns planos para gravar, mas nada definido em pedra.

 

A review ao álbum pode ser acedida AQUI.

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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