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[Entrevista] Urze de Lume: memórias na neblina

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«O Outono é uma estação propícia à reflexão, à despedida e também à preparação para um terminus natural.»

Outono. À medida que as cores mudam ao ritmo dos dias mais curtos e frios, a paisagem do Portugal profundo e rural vai também mudando. Mas esta não é a paisagem habitual de Outono. As árvores mortas – de pé – e as que vão lentamente dando sinais de uma nova vida marcam o horizonte e dão início a um novo ciclo, depois de um dos mais marcantes Verões de que há memória. «Vejo o resultado de uma mudança que ocorreu no nosso país e, claro, no mundo há umas quantas gerações.» A derivação da conversa com Ricardo Brito, fundador dos Urze de Lume, para a temática dos incêndios, das alterações climáticas e da política florestal no nosso país não acontece por acaso. É que, caso não saibam, o multi-instrumentista lidera uma das mais firmes promessas do neo-folk mundial, o mais sólido nome do estilo em Portugal e um grupo de quatro pessoas que olha em frente enquanto baixa a cabeça para se entregar de corpo e alma à música que pratica. Música tradicional, folclórica, vanguardista e, ao mesmo tempo, incrivelmente enraizada no tribalismo ibérico. Música que é mais que música – música que é um povo. Um povo que viu o coração e pulmão devastados de forma invulgarmente violenta. «Este ano foi para nós o mais negro devido a vários factores presentes, que de uma forma aleatória se uniram e potenciaram. A degradação já existe há muito tempo, simplesmente fez-se sentir de uma forma mais severa. Creio que agora estamos todos mais conscientes sobre o que não fazer. O melhor será aproveitar estes exemplos e começar quanto antes a educar as futuras gerações e reeducar as velhas. É um trabalho árduo, mas possível.»

Basta tirar algum tempo depois de um dos inúmeros concertos do projecto e conversar com o acessível Ricardo ou com um dos seus companheiros – Tiago Matos, Gonçalo do Carmo e Hugo Araújo – para perceber esta ligação da banda à terra. Mesmo com os seus elementos a viverem em ambientes urbanos. «Todos nós vimos de contextos rurais e mesmo vivendo em Lisboa a ligação às raízes nunca se perde. Pelo contrário, refinam com o tempo, e são ainda mais valorizadas», diz o músico. E se, por um lado, é relativamente normal ver os seus elementos a distribuírem bolotas de carvalho pelo público para ajudarem a replantar a floresta autóctone portuguesa, por outro lado os Urze de Lume assinalam a inevitável passagem de mais um ciclo de vida com o novo álbum “As Árvores Estão Secas e Não Têm Folhas”, o seu segundo trabalho dedicado ao Outono depois de “Vozes Na Neblina”. «O Outono é uma estação propícia à reflexão, à despedida e também à preparação para um terminus natural que impulsiona, ou não, mais um ciclo», explica Ricardo. «É aquela fase do ano em que nos apercebemos do abrandamento e do envelhecimento à nossa volta. Depois ou nos renovamos ou caímos como folhas levadas pelo vento.» E o quarteto faz questão de não esquecer – e homenagear – as vozes que foram levadas pelo vento. «Todas as perdas são sentidas, sejam elas humanas, naturais ou culturais. E com a passagem de cada um de nós por estes ciclos que vivemos, vamo-nos cada vez mais apercebendo disso e valorizando cada momento e cada réstia de oportunidade de vivê-los e experienciá-los. Quanto às folhas que já caíram e que nos deixaram a sabedoria e saudade, prestamos neste disco a nossa devida homenagem.»

 

Viola campaniça, gaita-de-foles, corno, caixa da beira, bombo minhoto, flauta, rabel, caixa minhota e alguns outros tipos de percussão são a alma da música dos Urze de Lume. Apesar da variedade, uma das características do projecto é uma sensibilidade invulgar para saberem quando devem usar o quê, de acordo com o conceito e as emoções que cada disco invoca. Ricardo Brito confirma este critério e explica a escolha de instrumentação mais delicada para o novo trabalho. «Desde o início que Urze de Lume dá prioridade aos instrumentos tradicionais portugueses», diz-nos. «No entanto, a cada novo disco temos feito uma abertura ligeira a alguns instrumentos de fora. Desde que sintamos que não adultera o nosso conceito, iremos introduzir esses elementos sempre que se justificar. Para este álbum, tal como para o anterior, dada esta temática, tivemos o cuidado de criar e manter uma certa introspecção e delicadeza melódica e harmónica. Foram dois trabalhos em que a força e a rudeza das percussões tradicionais e da gaita-de-foles não se justificavam. Desta forma, recorremos a timbres mais melancólicos e a tempos mais lentos para criar esse efeito. Foi uma procura consciente e educada nesse sentido.» E, numa abordagem musical puramente instrumental, a escrita das melodias “ouve” muito mais os instrumentos que lhe dão vida. «Há quem defenda que a voz é o veículo mais directo. Não discordo em nada com essa afirmação», começa. «Por outro lado, como sempre fizemos música totalmente instrumental, para nós isso é o normal. As melodias nascem de uma forma natural apenas influenciadas, por vezes, pelas próprias limitações dos instrumentos tradicionais e pelos seus timbres peculiares. O conceito e a mensagem que queremos transmitir também tem a sua quota-parte na composição. Um dos desafios, neste disco, foi mesmo introduzir voz em alguns dos temas Espera… Voz em alguns dos temas!? «Sim, este disco terá algumas faixas com voz. São essencialmente poemas escritos especificamente para essas músicas e que falam sobre toda a temática inerente ao álbum

Se levantarmos os olhos por um momento e observarmos o panorama folk/neo-folk nacional e internacional, é cada vez mais fácil e comum vermos os Urze de Lume mencionados, elogiados e até dados como exemplo de rigor de trabalho e perseverança. Ricardo tem a sua explicação sobre este incremento de visibilidade na ponta da língua: «Em Portugal, creio que possa ser o facto de nunca termos parado. Desde que o projecto começou, em finais de 2009, sempre compusemos muita música, gravámos discos, colaborámos com outros músicos e bandas», refere. «E apesar da dificuldade que uma banda “underground” tem em tocar em Portugal, nunca baixámos os braços, e sempre que foi necessário nós próprios fomos os produtores dos nossos discos e concertos. Quanto ao estrangeiro, creio que o que mais impulsionou esse acontecimento foi o facto de termos participado na colectânea “Raíz Ibérica” e as colaborações com os nossos camaradas Àrnica. A colaboração com a editora espanhola Soliferro foi também um marco importante, pois fez chegar os nossos discos a vários pontos na Europa. Actualmente, com a nossa editora Equilibrium Music, poderei dizer que numa escala “underground” Urze de Lume já começa a ser ouvido em várias partes do mundo.» E não considera que este aumento de popularidade venha a ser um problema no sentido em que possa exigir mais tempo e envolvimento a si e aos seus companheiros: «[O aumento de popularidade] não é um problema, nem creio que possa algum dia vir a ser. Urze de Lume tem o seu próprio ritmo e primeiro estão as vontades dos membros, pois são esses o coração de Urze de Lume.»

«Tentaremos sempre manter o festival [Oestrymnis] o mais fiel possível aos seus valores.»

A conversa flui e deriva como um ribeiro no Outono, com poucas pausas. Não podemos, no entanto, dispensar Ricardo Brito sem lhe perguntar por outro dos seus projectos, que complementa a sua actividade de gerir e agenciar os Urze de Lume. Falamos do Oestrymnis Festival de Arte Folk que, com apenas duas edições realizadas até ao momento, já se estabeleceu como uma das principais mostras de folk e neo-folk do país. «É algo especial para mim e para o Frederico [Pinheiro], do Trobadores Bar, porque somos ambos amantes da cultura folk portuguesa», diz. «Como tal, este festival é algo que terá continuidade e se irá expandir. Queremos que a cada edição seja melhor e inesquecível. Procuramos a nossa realização e, claro, a do público e a dos nossos participantes. Tentaremos sempre manter o festival o mais fiel possível aos seus valores e promover cada vez mais o movimento neo/dark folk E termina com a garantia de que o evento tem nova edição marcada para este ano: «Estamos com vontade de continuar e de experimentar algo diferente. Já temos algumas ideias que ainda estão por desenvolver. No entanto, estamos a apontar a terceira edição para finais do próximo Verão e num local diferente

Os Urze de Lume apresentam o novo disco, “As Árvores Estão Secas E Não Têm Folhas”, no dia 10 de Março às 22h00 no Auditório Carlos Paredes, em Benfica. Os bilhetes estão disponíveis a 5,00 Euros no local ou na Bilheteira Online.

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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