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Venom “Storm the Gates”

João Correia

Publicado há

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Editora: Spinefarm Records
Data de lançamento: 14 Dezembro 2018
Género: black/thrash metal

É redutor (e até massacrante) referir a importância dos Venom no universo do metal extremo com tudo o que isso aparca: o início selvagem, as alterações de som, a saída dos membros fundadores, o drama envolvido nas disputas entre Venom e Venom Inc., etc.. Afinal, o que importa é sempre a música. Felizmente, estes Venom conseguem trazer-nos um disco de heavy metal da velha-guarda que ultrapassa todos os feudos possíveis, mesmo que de forma limitada.

“Storm The Gates” é o 15.º álbum de estúdio do nome Venom, e quando brilha (o pouco que brilha) é por culpa de Rage e Danté. Se estes dois integrantes pouco ou nada tinham para apresentar devido a passagens anteriores em bandas perfeitamente desconhecidas, é a eles que se deve a vitalidade que encontramos no novo disco, principalmente a Rage. A faixa de abertura “Bring Out Your Dead” revela-nos o que os Venom sempre tiveram como garantido – uma produção bastante agressiva, um som afiado que nem facas e uma secção de percussão simples, mas eficaz. Quanto à voz, mantém-se igual a tantos outros discos de Venom dos velhos tempos, mas quando percebemos as letras, quase que dá para chorar, se não vejamos esta infelicidade extraída de “Dark Night Of The Soul” e saída da pena de Cronos:

“Hey, you motherfucker
What you lookin’ at?
What a fucking loser
Acting like a twat!”

Felizmente, Rage apresenta-nos riffs e estruturas memoráveis, daquelas que entram e não saem e que rapidamente nos fazem esquecer a apatia e ausência de espírito de Cronos – quer no riff inicial de “Bring Out Your Dead”, quer na estrutura viciante de “Notorious”, é fácil de perceber que o pilar principal é o guitarrista. O trabalho de baixo é relativamente inexistente, como se o vocalista/baixista estivesse a cumprir calendário porque a isso é obrigado. O trabalho de bateria é competente, mas muito distante de fantástico. Outra vez – obrigado por salvares o disco, Rage.

As faixas vão-se sucedendo a um ritmo agradável e não causam aborrecimento a qualquer género de fã de metal, até porque se trata de um trabalho tradicional. O motivo para ‘espanto’ surge quando Rage debita um delicioso solo Maidenesco em “100 Miles To Hell”, uma das faixas em que Cronos mais se destaca, mesmo que sem brilhar. “Destroyer” evidencia um pouco mais Danté ao comando das baquetas, mas sem grande emoção. Entretanto, Rage congemina novamente um bom solo caótico, voltando a salvar o dia. “The Mighty Have Fallen” apresenta a passagem mais violenta/rápida de todo o disco, convencendo com a sua cadência e… (drum roll) não um, não dois, mas três majestosos solos de Rage a lembrarem Slayer antigo – vale a pena repetir a faixa apenas para os ouvir de novo. Na seguinte e também bastante rápida “Over My Dead Body” ocorre a simbiose entre Rage e Danté, criando um novo organismo que começa a parecer-se com uma banda clássica. Cronos balbucia qualquer coisa irrelevante e repete a palavra “Propaganda” demasiadas vezes, fazendo lembrar um animal encurralado que, por força das circunstâncias, tem de atacar em vez de se defender, mesmo que de forma atabalhoada e que por isso lhe poderá custar a vida, um tudo-ou-nada por assim dizer. Mesmo nas faixas finais “Suffering Dictates”, “We The Loud”, “Immortal” e a derradeira “Storm The Gate” vingam graças ao homem das seis cordas, que devia receber mais royalties deste disco do que qualquer outro dos seus músicos.

Assim é “Storm The Gates”: um trabalho acima de previsível, mas abaixo de cativante, e no qual o guitarrista de serviço faz a festa, lança os foguetes e apanha as canas, evidenciando-se e destacando-se do marasmo ou desinteresse de Cronos e da falta de culpa de Danté, o que evita que uma banda lendária se torne vítima de si própria. É fácil repetir a audição do disco; não se trata de um colossal tiro no pé, mas está muito aquém das expectativas que um disco de Venom costuma trazer. Outra vez: sem Rage ao comando, os Venom que ouvimos em “Storm The Gates” seria uma embarcação errática, desnorteada e pouco importada em chegar a terra firme.

Nota Final

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Children Of Bodom “Hexed”

Diogo Ferreira

Publicado há

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Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 08 Março 2019
Género: death metal melódico / power metal

Foi em 2003 que os Children Of Bodom atingiram o seu pico de criatividade e popularidade com o espantoso “Hate Crew Deathroll”, ainda que para trás tenham tido três álbuns significativos. Contudo, a partir daí, encontraram a fórmula musical hoje reconhecida e cada disco foi quase como viver do passado e da popularidade sem grande relevância junto da crítica, à excepção talvez de “Halo of Blood” (2013), precisamente 10 anos depois da obra-prima.

Com “Hexed”, a banda de Alexi Laiho tenta recuperar muito do que eventualmente fora perdido. Com uma formação estável, tendo em conta que único membro recente é o guitarrista-ritmo Daniel Freyberg (juntou-se aos COB em 2016), os finlandeses voltam a depender, e bem, do shredding frenético de Alexi Laiho e de muitos floridos oferecidos pelos teclados de Janne Warman em que o death metal melódico de fundo se confunde invariavelmente com o power metal e até algum pop, ainda que escasso, das teclas. Para além de temas todos eles orelhudos, “Hexed” possui também velocidade, como se ouve em “Kick in a Spleen” e no tema-título, este último que se encosta ao neoclássico e em boa medida faz lembrar a sonoridade mais antiga da banda com brutos duelos entre solos de guitarra e teclados em estruturas distintas, sendo, quiçá, a melhor composição do disco. Menção honrosa também para o leading-riff de “Say Never Look Back” que funciona como batuta para toda a faixa.

Historial é meio caminho andado para uma banda sobreviver, mesmo que por vezes caia nalgum esquecimento, mas eventualmente até isso escasseia e deixa um vazio que, com esperança, só um álbum sólido conseguirá reverter tal situação – com “Hexed”, os Children Of Bodom conseguiram precisamente isso.

Nota Final

 

 

 

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Dream Theater “Distance over Time”

João Correia

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Data de lançamento: 22 Fevereiro 2019
Editora: InsideOut Music
Género: metal progressivo

Após um menos bem conseguido “The Astonishing”, os nova-iorquinos Dream Theater tentam regressar a tempos de maior inspiração com “Distance over Time”. Fruto de um isolamento autoimposto pelos elementos da banda, “Distance over Time” está muito afastado do último trabalho exactamente por se tratar de um disco muito orgânico, mesmo que cuidadosamente calculado. “Untethered Angel” abre de forma bastante positiva um disco que não poderia soar a outra coisa que não Dream Theater: pleno de passagens técnicas, ainda que com um refrão tipicamente power metal, são as batalhas de solos entre teclado e guitarra que pasmam e nos obrigam a fazer rewind, sentindo-se a necessidade de ouvir uma e outra vez o trabalho investido nos solos. Segue-se-lhe “Paralyzed”, um tema mais lento e robusto que nos faz recordar algum do melhor rock alternativo/grunge dos anos 90 sem pestanejar. “Fall Into The Light” vem a seguir e, aqui, são retomadas as batalhas de solos entre o Hammond X5 e a guitarra, bem como uma toada mais pesada e actual – o tipo de tema que nos permite identificar a banda de imediato. Até à faixa final “Viper King”, com a qual a banda se distancia mais do metal e adentra por um bourbon rock tipicamente norte-americano, mas ainda assim repleto de solos de guitarra e teclados, “Distance Over Time” assemelha-se a um trabalho de elite que só os Dream Theater conseguem fazer, algo que se tornou numa assinatura muito própria; logo, inimitável.

O disco foi gravado numa propriedade particular transformada em estúdio de alta gama em Nova Iorque, o que permitiu aos músicos uma concentração e convivência exemplares para poderem regressar à fórmula de outros tempos, tempos em que as notícias de um novo disco de Dream Theater criava grandes expectativas e, chegado esse, não só não as confirmava, como ainda as excedia. À primeira audição, é essa a ideia que “Distance over Time” oferece – algo de majestoso, de regresso a discos como “Images and Words”, mas duas ou três audições depois e o entusiasmo inicial desvanece e começamos a notar um padrão infeliz de previsibilidade, algo que não é suposto vindo de quem vem. Não há dúvida de que os grandes trunfos do disco assentam na utilização inteligente dos teclados e das guitarras, que nos recordam dos tempos épicos do rock progressivo dos anos 70, com toda aquela pompa, circunstância e excesso, com toda aquela excentricidade dos Yes ou dos Genesis. Mas não chega. Não quando estamos a falar da banda que ofereceu ao metal e ao mundo uma visão mais polida e erudita na forma de “When Dream And Day Unite”, “Images and Words”, “Awake” ou “Metropolis, Pt. 2: Scenes From a Memory”.

“Distance over Time” cumpre indubitavelmente com o objectivo de nos fazer esquecer “The  Astonishing”, mas é um disco menor quando se trata da banda em causa. Não sendo um disco de calendário, também não se trata de uma epifania musical, de todo – é metal progressivo de qualidade, com uns poucos piscares de olhos ao rock de diversas décadas. O que, para os Dream Theater, é um tudo-nada abaixo da média. É ágil o suficiente para cativar novos fãs, da mesma forma que convencerá os mais acérrimos, saldando-se num álbum que se ouve bem duas vezes e que depressa nos faz regressar aos verdadeiros clássicos da banda.

Nota Final

 

 

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Dead Witches “The Final Exorcism”

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Editora: Heavy Psych Sounds
Data de lançamento: 22 Fevereiro 2019
Género: doom metal

O novo lançamento destes italo-britânicos vem cheio de expectativa após o sucesso do seu álbum de estreia, “Ouija”, lançado em 2017. Um dos traços mais prementes da banda é a pegada musical de Mark Greening, na bateria, que fica cada vez maior de álbum para álbum. O ex-Electric Wizard continua a dar à banda um percurso de doom metal, com uma mistura de rock psicadélico e uma temática de metal quase ‘depressivo e obscuro’ .

Agora, para este “The Final Exorcism”, a banda foi remodelada com a entrada de dois novos membros – Oliver Irongiant e Soozi Chameleone, na guitarra e vocal respectivamente. Enquanto no primeiro álbum a fórmula podia não ser a mais original possível – reproduzindo muito do clássico doom metal depressivo e eléctrico que vem sendo produzido -, em “The Final Exorcism”, o grupo inova um pouco com mais guitarras e uma expressão vocal mais clínica, audível e produzida.

Em termos de produção, este álbum bate o disco de estreia, existindo uma maior preocupação em tornar os instrumentais e a coesão de grupo o mais perceptível possível, o que motiva a mais audições. É um álbum que, rapidamente, capta a atenção do ouvinte com uma intro quase a roçar o sentido de alerta dos ouvintes para os preparar para o que se segue. A faixa homónima traz um pouco da ‘tempestade depressiva e agressiva’ que os Dead Witches nos têm, para já, habituado sem alguma vez comprometerem o caminho iniciado em “Ouija”; a faixa torna-se ainda mais especial devido ao seu último minuto e meio com a inclusão de falas do filme “Exorcista” e uma maior atenção para a guitarra, que se torna bem mais eléctrica. Sendo um disco curto, com apenas 40 minutos de duração, na terceira faixa chegamos rapidamente a meio de “The Final Exorcism”, destacando-se neste tema os trejeitos quase épicos de uma composição puramente eléctrica e com um doom metal mais apurado. A segunda metade do álbum apresenta o melhor da jovem banda – que ainda está meio em work in progress – com três faixas quase épicas, libertando o grupo e o álbum para uma atmosfera mais madura e rica, com letras mais significativas e críticas, com destaque principal para “Fear The Priest”.

Em jeito de conclusão, “The Final Exorcism” é uma evolução face ao álbum de estreia. A banda reformulou a formação e parece que ficou a ganhar com a mudança. O segundo disco é mais maduro, trabalhado e criativo, com a inclusão de um estilo mais eléctrico e com mais foco na guitarra. É um trabalho a ouvir e garantimos que os fãs não vão ficar desapontados.

Nota Final

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