[Reportagem] XI Vimaranes Metallvm – Guimarães | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Reportagem] XI Vimaranes Metallvm – Guimarães

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Com os concertos marcados para o início da noite, as actividades, no entanto, iniciaram-se ao fim da tarde. No teatro São Mamede, edifício que apresentava excelentes condições, estando repleto de salas e bares nos seus três pisos. Foi numa dessas, sentados em mesas e sofás, junto a um piano e com o sol a entrar pela varanda, que se deu a apresentação dos livros “A Portuguese Rock and Metal Route – The Underground Guide” e “Breve História do Metal Português”, de Eduardo José Almeida, mais conhecido por Dico. O primeiro livro, de 60 páginas, reúne, como nos diz o autor, «informações, contactos e descrições de festivais underground, bares, salas de espectáculos, estúdios de tatuagens, lojas de discos, estúdios de gravação, salas de ensaios e concentrações motard em Portugal», e o segundo, conforme o nome indica, documenta a história do metal nacional desde os anos 1960 até à actualidade. Das três apresentações feitas esse fim-de-semana, a do dia do festival foi a que mais afluência teve, como nos conta o autor, referindo também que foi «a mais longa, dada a imensa interacção que o público teve comigo e com os oradores convidados – o Luís Lisboa e o Paulo Coimbra Martins, para os quais envio um grande abraço -, o que tornou o evento bastante fluido e interessante. O tempo passou num abrir e fechar de olhos. Podíamos facilmente estar ali mais uma hora a falar sobre música».

 rsz_2017-07-01-183928_vimaranes_metallum(Dico)

Após o jantar, a primeira grande surpresa da noite foi-me presenteada pela sala do São Mamede, onde a qualidade sonora e a acústica da mesma deixaram-me estupefacto. Estava perante uma das melhores salas de concertos onde entrei em muito tempo. A abrir as hostilidades sobe ao palco o homem da máscara. Os, ou melhor, o Beheaded tomou conta das atenções do público, que começava a encher a sala, com a sua mistura inusitada de temas. Desde o clássico “Negócio Das Almas”, dos V12, passando pelos temas de Power Rangers e Mortal Kombat até terminar com um medley de Dream Theater, Metallica, Trivium, Megadeth e Iron Maidem que pôs o público a cantar ao som da música, o homem cuja máscara decidiu não colaborar, manteve a compostura e mostrou-se um verdadeiro entertainer de metal. Como um bom aperitivo num bom jantar, deixou o público a salivar pelo que estava para vir. «Todos os envolvidos [no festival] estão de parabéns», disse-nos o músico, «da parte de The Beheaded foi um prazer animar a malta no retorno deste grande festival do Norte».

rsz_2017-07-01-220411_vimaranes_metallum_beheaded(The Beheaded)

De seguida alinharam os Aura, a primeira das duas propostas de black metal incluídas no cartaz. Não sendo um grande admirador do género, foi com alguma apreensão que me preparei para ouvir o som deste quinteto. Rapidamente a minha apreensão dissolveu-se, pois, como posteriormente me confirmou a banda, a sua sonoridade era de post-black metal, e isso consumou-se numa atmosfera bipolar onde a sonoridade lenta e depressiva dos instrumentos se contrapunha aos acessos de fúria de uma voz enraivecida. A acrescer a esta atmosfera maníaca, e a contribuir em pleno para a excelência da actuação, estiveram as longas estiradas instrumentais que exponenciavam o efeito maníaco-depressivo do som. «No nosso ponto de vista», comentou-nos a banda no final, «o Vimaranes Metallvm primou mais uma vez pela excelente organização. Felizmente, como seria de esperar, um público fiel e atento, uma casa espectacular, uma noite memorável. Para nós, foi um gosto».

rsz_2017-07-01-223331_vimaranes_metallum_aura(Aura)

Também com dois estandartes presentes no festival esteve o thrash old-school, sendo que a primeira proposta se consumou na forma dos Sadistic Overkill, a banda que dá os primeiros passos teve aqui a sua apresentação e conquistou o público presente. «Foi a nossa primeira aparição e estamos ansiosos para as próximas datas já anunciadas», esclarecem-nos os elementos da banda, que aproveitam para referir «que estará para breve o lançamento do primeiro EP». A presença dominadora em palco e a atitude apresentada, assim como o som debitado, deixaram grande curiosidade para esse futuro lançamento.

rsz_2017-07-01-233050_vimaranes_metallum_sadistic_overkill(Sadistic Overkill)

Intercalando o thrash apresentou-se a segunda proposta de black metal da noite. Mais uma vez fui surpreendido por uma actuação que suplantou as minhas expectativas. Primeira banda a usar o projector que preenchia a traseira do palco com imagens que acompanhavam a música, os Anifernyen mantiveram activo um público que tinha sido acelerado pela banda anterior. Senhores de um black metal agressivo, que não se coíbe de recorrer a elementos do death quando isso enriquece o seu som, mostraram que em Portugal há cada vez mais bandas capazes de apresentar concertos de elevada qualidade. «O palco do São Mamede deu-nos as condições necessárias para fazermos um concerto mais elaborado na componente visual, que sentimos que correu muito bem», comentou-nos a banda, visualmente satisfeita com a sua actuação. «Esperamos que quem viu e ouviu o nosso concerto tenha gostado daquilo que assistiu tanto quanto nós gostamos de ter participado no festival».

rsz_2017-07-02-002107_vimaranes_metallum_anifernyen(Anifernyen)

A jogar em casa, os Toxik Attack encheram a sala com o seu thrash old-school. A presença no festival teve um cariz muito pessoal, como nos refere a banda, recordando o passado: «Estamos ligados à história deste festival, pois foi esta organização que nos tirou da garagem e nos deu uma oportunidade de ouro, nomeadamente na pessoa do Luís Lisboa.» Com mais uma excelente prestação, que se repercutiu na reacção do público, os Toxik Attack fecharam com chave de ouro a promoção do EP de estreia “Thrash On Command”.

A noite já ia longa quando os espanhóis Agónica fizeram a sua apresentação. Como única proposta death metal do cartaz, não se sentiram intimidados, antes pelo contrário, mostraram-se bastante em casa, sacaram das garras e bombardearam o público com uma prestação memorável. «Mal entrámos em palco a entrega do público foi avassaladora», refere a banda. «Ficámos com a sensação que Guimarães vinha abaixo, e foi assim do início ao fim da nossa actuação.» Apesar da grande dimensão do palco, os Agónica conseguiram enchê-lo como nenhuma banda ainda o fizera essa noite e tocaram o seu novo álbum, “Collapse”, quase na íntegra. Mas não só o público conquistou a banda: «Desde o primeiro minuto que o tratamento e a atenção que recebemos foi espectacular», comentaram. Sobre a organização sublinharam: «Profissionais dos pés à cabeça.» Não tinham dúvidas, «são momentos como este que te ajudam a seguir em frente».

rsz_2017-07-02-020528_vimaranes_metallum_agonica(Agónica)

Com o público a retirar-se devido ao avançar da hora, chegou a vez dos consagrados Demon Dagger oferecerem aos resistentes a excelência da sua arte. Curiosamente, isso ficou ainda mais patente quando, devido a problemas técnicos, o som ficou reduzido a bateria, baixo e voz. Neste momento ficou evidente que o som dos Demon Dagger não assenta apenas na qualidade do trabalho da guitarra. Elevando ainda mais a fasquia na interacção com o público, Diogo Agapito, no domínio total da sua capacidade vocal, coisa que não tinha acontecido na anterior aparição da banda que marcara a sua apresentação como elemento, mostrou-se totalmente inserido no grupo, chegando mesmo a descer do palco e a cantar no meio do público. «Agradecemos ao numeroso público e à imprensa que compareceu no evento e que participou de forma intensa nos espectáculos apresentados», referiu-nos a banda à saída do palco. «Foi sem dúvida um momento memorável e uma celebração do metal ibérico, com excelentes concertos. Foi um orgulho e um enorme prazer para os Demon Dagger fazer parte desta festa.» E concluíram: «Prometemos novidades para breve! Fiquem atentos and keep supporting METAL! Cheers!»

rsz_2017-07-02-031428_vimaranes_metallum_demon_dagger(Demon Dagger)

A meta desta grande maratona musical foi cortada pelos Slavecrowd, banda que também marcará presença no festival Sons À Margem, nos inícios de Agosto. Completamente despreocupados com a redução do público presente, deram tudo o que tinham e ofereceram aos presentes aquilo que estes tinham vindo à procura e muito mais. O groove metal poderoso e bem executado encheu a sala e mostrou que quem recorreu à opção de sair mais cedo ficou a perder uma excelente prestação de uma jovem banda que demonstrou ter um elevado potencial para surpreender no futuro. «O concerto correu muito bem, tivemos um feedback bastante positivo, pois apresentámos temas novos e não podíamos ter escolhido melhor data para o fazer», esclareceu-nos a banda, referindo-se essencialmente aos temas “Ungoded” e “Tyranny”. Na opinião dos mesmos, «o Vimaranes está em constante progressão, já o acompanhamos quase desde a primeira edição e está a crescer cada vez mais. Sempre repleto de grandes nomes nacionais e internacionais, em salas míticas de Guimarães, e com boa adesão por parte do público». Para eles foi «um prazer e um orgulho imenso ter feito parte de mais uma edição!»

rsz_2017-07-02-035004_vimaranes_metallum_slavecrowd(Slavecrowd)

Foi já com o relógio a caminhar a passos largos para as cinco da manhã que me dirigi para a minha viatura para iniciar o regresso a casa. A vontade não era muita, pois a festa continuou dentro da sala com convívio e a presença de DJ, mas a satisfação de ter participado em mais uma memorável festa de metal já o era.

Da parte da organização, como nos confidenciou mais tarde Luís Lisboa, o festival «excedeu as previsões no que respeita a cada um dos espectáculos e ao ambiente de festa vivida. No que respeita à adesão do público, correspondeu às expectativas, mas achamos que o programa, o evento e a sala mereciam que mais público acreditasse no underground nacional. Porém, estamos gratos a todos quantos nos ajudaram a hastear bem alto a bandeira do metal».

Em tom de conclusão, e usando as palavras das bandas: «Confirmou-se o que suspeitava, Vimaranes foi um sucesso e espero que tenha vindo para ficar» [Beheaded], já que foi uma «grande festa com um público fantástico» [Sadistic Overkill] em que o «ambiente foi brutal. As bandas foram fenomenais, quer em cima do palco, quer em todo o convívio que houve fora, fosse na plateia, fosse nos bastidores» [Anifernyen]. Espero voltar «pois é sempre um orgulho muito grande» [Slavecrowd].

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Texto e fotos: Pedro Félix da Costa

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