Voices “Frightened” [Nota: 8.5/10] – Ultraje – Metal & Rock Online
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Voices “Frightened” [Nota: 8.5/10]

cover_1522055520973353Editora: Candlelight Records
Data de lançamento: 27 Abril 2018
Género: metal progressivo

Há coisas que nos acertam em cheio, vindas de nenhures, todas ao mesmo tempo e que nos levam a crer que o universo teve a infeliz ideia de unir esforços contra nós. Geralmente, a Lei de Murphy não só não falha, como faz questão de nos dizer que, quando menos esperarmos, ela está à nossa espera numa esquina, pronta a atacar-nos. Felizmente (e ainda que raramente), nem tudo são más notícias, mas quando algo de feliz nos acontece parecemos estranhar, pensamos na bonança ANTES da tempestade e ficamos desconfiados. Em 2017, os Akercocke regressaram à actividade com um disco requintado e, em 2018, os Voices, side project de vários membros actuais e passados dos Akercocke, aplicaram uma massagem cardíaca a um hiato de quatro anos passados sobre “London”, um álbum negro e suicida que muito nos fez esperar por um novo trabalho. “Frightened” é a referida tempestade depois da bonança, algo que não sabemos com o que contar, mas que quando lhe lançamos o garfo e a faca ficamos felizes por o termos feito.

Bastante menos agressivo do que “London”, “Frightened” é um trabalho maduro que conjuga o rock mais complexo de Opeth (presentes em “Unknown” e “Funeral Day”), o black metal esporádico dos experimentais DHG (ouça-se “Dead Feelings”) e uma sensação agradável de Akercocke, mas sem o black metal e o death metal que os norteiam e, por conseguinte, sem as vozes possuídas de Mendonça. Os Voices são o eco de gritos do passado emitidos pelas gargantas de bandas como Joy Division, The Cure, Bauhaus e Virgin Prunes, e que se por um lado parecem uma continuação lógica das partes menos agressivas de Akercocke, por outro ganham vida e autonomia próprias pela ausência de receio em criar um trabalho em quase nada relacionado com o metal extremo, mesmo que com temas como “Home Movies” de onde emergem growls de death metal.

A cozinha dos Voices – composta por Gray, Loines, Abela e Benjamin – é tudo o que se pode esperar de uma banda da linha-da-frente, conseguindo criar temas que se ouvem sem enfado e que crescem como se alimentados a pão-de-ló. Sente-se maturidade, criatividade e uma vontade inequívoca da parte destes londrinos em distanciarem-se de clichés e modas, mesmo que este álbum nos faça lembrar o último de Akercocke em determinados momentos. Depois, o uso intensivo de sintetizadores inteligentes e da magnífica voz de Benjamin aliados a um clima geral de vanguardismo e ao lacrimejante tema final “Footsteps” fazem de “Frightened” um disco que passará completamente despercebido pelo público do presente e que certamente será louvado (e muito provavelmente copiado) daqui a poucas décadas por se tratar de um dos registos mais underrated do passado recente. Assim são os Voices – uma banda que nasceu cedo de mais e que, por isso mesmo, talvez desapareça ainda mais cedo.

8.5/10
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