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Von Justice: Wrestling vs Punk

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«Se acham que bandas como Von Justice não têm lugar na cena musical, enfiem-se todos dentro de um táxi e vão-se foder juntamente com o Hulk Hogan e o Ric Flair.»

No início da década de 80, Vince McMahon iria dar os primeiros de muitos passos para transformar o wrestling e a sua WWE (na altura WWF) naquilo que é hoje. Na sua imensa visão estava a aliança do wrestling com a música rock, as parcerias com a MTV e o facto de saber que as celebridades desse tempo teriam o poder de trazer todo um novo público para apreciar esta forma de entretenimento. Os Von Justice não são celebridades, poderá até haver quem diga que aquilo que fazem não é música, mas só vêm confirmar uma coisa: da mesma forma que não há cachorro sem salsicha, também não há wrestling sem música.

Vindos de parte incerta, os Von Justice trazem um novo conceito para a cena metal: pegam em clássicos de punk e acrescentam letras relacionadas com o wrestling clássico das décadas de 80 e 90. As covers não são demasiado fiéis aos temas originais, e ainda bem, sendo que o caso de maior transformação é no primeiro single e tema-título do seu EP de estreia, “Bret Hart”. Aqui, o original é “Mad Society”, dos brasileiros Ratos de Porão. Se ouvirem as duas versões, não vão precisar de muito tempo para perceberem o quão diferem uma da outra. Para começar, “Mad Society” tem cinco minutos de duração, enquanto que “Bret Hart” (assim como os outros dois temas) não passam dos dois minutos; falta-lhe o solo de guitarra e não há baixo. O vocalista não é o Gordo; esse é o baterista, El Gordo, que é acompanhado na guitarra por El Magro e os vocais ficam a cargo de E. Von Justice. Rebobinando um pouquinho neste artigo, sim, não há baixo, e é precisamente com esta explicação que o capitão desta 3-Man Tag Team inicia a sua conversa com a Ultraje: «Nós temos um baixista, pelo menos gosto de pensar que ainda o temos. O que aconteceu foi que tivemos alguns problemas com o baterista original da banda na altura das gravações do tema “Bret Hart”, em que o mesmo faltou à sua palavra e pediu-nos dinheiro para continuarmos a gravar no seu estúdio. Decidimos gravar os restantes temas noutro local e com outro baterista, o El Gordo, e com toda esta confusão o baixista esqueceu-se de aparecer», comenta. Para E. Von Justice só houve uma solução: «Retomámos as gravações sem ele e optámos por remover o baixo desse primeiro tema, não esquecendo também de eliminar a ilustração da sua personagem na capa do EP.» O vocalista remata: «Acho que é seguro dizer que o nosso baixista, El Gringo, continua na banda. Foi um episódio do qual ele ainda se ri. Eu é que já não achei muita piada!»

A sonoridade dos Von Justice é crua, parece mais uma demo do que um EP, mas como em tudo na banda, também há uma explicação lógica para isto: «Os wrestlers só têm uma oportunidade de faz com que o seu combate na TV pareça o mais real possível. Nós também quisemos fazer isso com Von Justice. Ensaiámos algumas vezes, como os wrestlers também fazem nos house shows [eventos que não são filmados ou transmitidos na TV] e quando chegou a altura de gravar, foi como se estivéssemos a fazer um combate em directo, na TV. Então gravámos isto todos ao mesmo tempo, de uma só vez.»

Durante a preparação desta entrevista assaltaram-me várias questões: Porquê wrestling? Porquê Ratos de Porão? Pode até ser coincidência mas a verdade é que os três temas originais apresentados neste disco estão ligados à banda de João Gordo e companhia: “Bret Hart”, como já foi dito, foi inspirado em “Mad Society”; “I Saw Hogan With Jimmy Hart” é uma adaptação de “Toma Trouxa” e ainda que “Ric Flair Is A Bloody Wanker” seja uma reprodução de “Insight”, dos Dead Kennedys, este tema foi também gravado pelos Ratos de Porão na versão internacional de “Feijoada Acidente”. «Perguntei-me quanto tempo demoraria até que alguém juntasse os pontos para chegar aí», diz-nos E. Von Justice. «A verdade é que desde logo decidimos que iríamos fazer covers e de forma a nos mantermos fiéis a um só estilo ou banda, fizemos uma lista de bandas que gostamos, e escusado será dizer que os Ratos de Porão eram a única a figurar nas diferentes listas dos quatro elementos da banda. Isto mostrou-se como uma grande vantagem pois como disseste e bem, os Ratos têm uma versão brasileira e outra versão internacional de “Feijoada Acidente”, que para quem não sabe são dois discos com covers punk das músicas preferidas da banda. Isto dá-nos um monte de possibilidades e partindo do princípio que vamos estar cá para gravar um novo álbum, não nos faltam opções.»

Num artigo onde predominam os flashbacks, é tempo de voltar atrás no tempo mais um pouco e falar dos tais “problemas” relacionados com o baterista mencionados por E. Von Justice logo no início da nossa conversa. «Quando decidimos levar este projecto em frente, ficou acordado que seria gravado no estúdio do nosso primeiro baterista. Para tornar a história mais simples, vamos chamar-lhe El Bastard. Foi o mesmo quem se ofereceu para o fazer, pelo que ficámos incrédulos quando o mesmo nos disse que teria que ser pago pelo seu tempo se queríamos continuar a gravar ali. Ainda hoje não sei quais foram as razões que motivaram este comportamento da sua parte. Mas o espectáculo tem que continuar, certo? E foi por isso que decidimos gravar “I Saw Hogan With Jimmy Hart” e “Ric Flair Is A Bloody Wanker” com um novo baterista, num novo estúdio.» Não é preciso ser um ouvinte muito perspicaz para entender que, de facto, as diferenças entre “Bret Hart” e os dois últimos temas são evidentes. A voz continua abafada mas há algo na captação dos vocais e da bateria que não condiz com aquilo que ouvimos no primeiro single da banda.

Quando ouvi o primeiro avanço “Bret Hart”, partilhei o link do lyric video com David Ravengarde, vocalista e guitarrista dos britânicos Beautality, que tal como eu, é um aficionado por wrestling e música. A conclusão a que ambos chegámos foi esta: basta ter o nome do Bret Hart em algo, e esse algo traduz-se automaticamente em ouro. Portanto, não foi necessário questionar o porquê de Bret Hart, mas aquele “porquê” da temática de wrestling continuava ali a pairar: «Há quem faça músicas sobre “O Senhor dos Anéis”, nós fazemos sobre wrestling.» Curto e grosso. E. Von Justice prossegue: «Não queremos criar uma cena musical nova, nem tão pouco estamos interessados em saber se fomos os primeiros a fazer isto ou se somos os segundos. Simplesmente tivemos a ideia e avançamos com isso. Se não fosse sobre wrestling, provavelmente o refrão de “Bret Hart” seria algo como “Ha-rry, Ha-rry POTTER” [risos].»

Para mim, Hulk Hogan podia não ser um génio do ringue mas foi um génio no que ao marketing diz respeito. Aliás, até essa questão do “génio do ringue” pode ser refutada se virmos alguns dos combates que o mesmo teve no Japão. No entanto, este facto parece passar ao lado dos Von Justice: «Quero que o Hogan se foda. É um cancro do wrestling. Reconheço que sem ele o wrestling não seria o mesmo. Se o Verne Gagne [promotor da American Wrestling Association] lhe tivesse dado o título, hoje em dia as coisas poderiam ser bem diferentes [Nota do autor: o promotor norte-americano Vergne Gagne, responsável pela AWA, recusou-se a ter Hulk Hogan como campeão da sua companhia, o que motivou a sua saída para a então WWF, actual WWE.], mas ainda assim queremos que o Hogan se foda. E que se foda o Ric Flair também. O maior de sempre foi, é e será o Bret Hart. Podem até dizer que o Steve Austin era superior, mas qual foi o melhor combate de sempre de Austin? Aquele contra o Bret Hart. Não é preciso dizer mais nada.»

Certo, mas não deixo de pensar que o título de “I Saw Hogan With Jimmy Hart” tem um significado oculto. O vocalista contraria: «Originalmente este tema era sobre o Jim Neidhart, cunhado do Bret Hart. Depois de uns ensaios, optei por mudar para o conceito actual, que fala de uma vez em que vi o Hulk Hogan acompanhado pelo Jimmy Hart. Pode parecer outra coisa mas asseguro-te que não é [risos].»

Aqui parece tudo a brincar mas E. Von Justice faz-nos perceber que a sua banda é a sério: «No wrestling, tudo ou quase tudo é premeditado. Aqui também. Mas o que fazemos é a sério. Pode não ser um sério bom para muitos, mas é sério para nós. Estamos até a estudar propostas de editoras para lançar o EP “Bret Hart” no formato físico. Há bandas que se dizem mais sérias que nós que não chegam a isso, pelo que se fazem parte desse pacote que acha que bandas como Von Justice não têm lugar na cena musical, enfiem-se todos dentro de um táxi e vão-se foder juntamente com o Hulk Hogan e o Ric Flair.»

“Bret Hart” sai no dia 18 de Agosto em formato digital. A banda adianta que serão divulgados detalhes em relação ao lançamento físico brevemente.

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