Vulture Industries: tempos interessantes (entrevista c/ Kyrre Teigen) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Vulture Industries: tempos interessantes (entrevista c/ Kyrre Teigen)

rsz_vulture_industries-8234-small-jarle_h_moeFoto: Jarle H. Moe

Se há um termo apropriado para descrever a carreira dos Vulture Industries, terá que ser inconstante. No bom sentido. Álbuns como o consagrador “The Dystopia Journals” e “The Tower” ofereceram ao mundo uma banda capaz de fazer frente e de complementar o complexo som dos Arcturus. “Stranger Times”, o seu registo mais recente, não deixa a criatividade em mãos alheias e vê os Vulture Industries voltar a arriscar, apostando num tipo de metal ainda pesado, ainda sinfónico, mas onde as raízes experimentais e avantgarde da banda se dissolvem um pouco mais para dar lugar a um som mais abrangente e capaz de agradar a uma audiência mais vasta.

Kyrre Teigen, baixista dos noruegueses, parece não concordar com a análise.  «Como sempre, fizemos um álbum através do processo de tentativa e erro, e o resultado foi algo que desejávamos fazer. Acho o álbum muito avantgarde e progressivo, pois procuramos continuamente por novas estruturas e paisagens sonoras para nos exprimirmos sem comprometer as nossas preferências musicais. Assim como anteriormente, nada foi premeditado, exceptuando a ordem de lançamento de músicas no formato de singles/vídeos, o que poderá ser um ordenamento atrevido ou simplesmente estúpido. Havia muitos temas candidatos aos três primeiros singles, que são mais agressivos ou directos ao assunto; logo, quando o álbum é lançado, encontras uma grande variedade de abordagens musicais que reflectem o nosso desenvolvimento natural. Logo veremos se isso nos levará a um público mais alargado. Esperamos que sim, mas também sabemos que este lançamento poderá ser decepcionante para fãs que prefiram o “The Malefactor’s Bloody Register”, por exemplo. Não podemos fazer um álbum para tentar agradar seja a quem for nem ter expectativas de uma grande audiência ou de uma preferência de som específica. Todos os álbuns que lançámos tiveram partes mais simples e mais suaves, algumas músicas com mais pompa, outras mais metálicas. Acho que consegues encontrar todos os aspectos e mais alguns que definem os Vulture Industries em “Stranger Times”.»

 

Ao ouvir o álbum, empatizamos com a banda: vivemos, de facto, em tempos estranhos, onde o terrorismo fundamentalista, as sucessivas crises económicas e o lançamento de mísseis intercontinentais são as notícias antes da hora de almoço. Não é de estranhar que a banda fale sobre estes e outros assuntos bizarros e errados. Há, no entanto, causas que levam o grupo a ter esperança. «Vivemos em tempos estranhos, de facto», retoma o baixista. «À nossa volta, tudo muda e evolui rapidamente e nunca sabemos o que encontraremos ao virar da esquina. Penso que isso é reflectido na temática do disco, mas também que o que antes era impossível é agora possível e que as perspectivas mudam. Para não dizer que devemos estar felizes por ainda vivermos num mundo agradável. Porque o responsável pelas letras é o Bjørnar [Nilsen, vocalista], talvez ele seja o mais indicado para falar amiúde sobre esta questão, mas conheço-o suficientemente bem para saber que há esperança nas letras do álbum, não é tudo negro e deprimente. Em conclusão, “(…) we’ll forever dance as the World burns around us (…)”.»

Talvez estes tempos sejam também responsáveis pela súbita inclusão de rock clássico e post-rock na estrutura musical da banda, como é audível em “As The World Burns”, o primeiro single do novo registo, uma aposta que bebe influências de Nick Cave, Tom Waits, Mark Lanegan ou até José Gonzales. Ainda que seja um género musical tão válido como qualquer outro, nota-se um virar de direcção brusco, o que pode levar a crer que tanto se pode tratar de diversificação e experimentação, como de uma mudança de paradigma sonoro. «Pelo que dizes, percebo que ouviste o álbum na totalidade e que tiveste a oportunidade de verificar as nossas diferentes abordagens musicais», recomeça Kyrre. «Tens toda a razão quando falas do elemento rock. Quisemos criar um álbum encorpado, simples e melódico. Isto não significa que o próximo álbum não será agressivo ou que não soe a metal, mas este é o primeiro álbum que gravamos que resultou como queríamos. Por exemplo, o “The Malefactor’s Bloody Register” era suposto soar a progressivo e saiu o álbum mais metálico da banda. O “The Tower” era suposto ser o mais directo e é o que regista maior pompa e circunstância. As músicas de “Stranger Times” não foram arquitectadas como estão, apenas nasceram e desenvolveram-se, não houve uma mudança de orientação musical propositada. Sim, os artistas que referiste tiveram um papel determinante em esculpir as nossas influências e preferências musicais. Não conhecia José Gonzales, mas já que falaste nele, irei ouvir. Parece-me que estamos a diversificar constantemente o nosso som e isso parece-me saudável.»

 

Sem dúvida que a diversificação musical é uma constante – desta vez, os Vulture Industries convidaram Hans Marius Andersen (saxofonista norueguês) e Herbrand Larsen (ex-Enslaved). A produção do álbum é de Edmond Karban (Negura Bunget), o que não só imprime uma vontade de divergir como deve ter dado origem a expectativas elevadas. «Antes de entrarmos em estúdio pensámos sobre quem iria produzir o próximo álbum, pois queríamos uma nova abordagem e novos olhos e ouvidos durante o processo de gravação. Chegada a altura, não havia ninguém adequado e disponível. Coincidentemente, estávamos sentados a falar sobre o Eddie, dos DorDeDuh, com quem fizemos digressões e com o qual demos vários concertos com ele como engenheiro de som. O Eddie é um tipo de confiança e de espírito aberto, com opiniões pessoais sobre como produzir som e uma ampla base e conhecimentos musicais. Num concerto em Timisoara, Roménia, trouxemo-lo para bordo. Achamos que isso ajudou a criar um som encorpado. O Hans Marius é de uma liga diferente de nós como músico, claro, e o seu desempenho profissional elevou o “Stranger Times” para um novo nível. O Herbrand esteve sempre presente, tendo o seu estúdio na sala de gravação dos estúdios Conclave e Earshot e as suas opiniões e algumas partes de teclados foram importantes».

A promoção do novo álbum começa a 22 de Outubro, em Bergen. Ainda que ocupados até Novembro, há que realçar que os Vulture Industries voltam a não passar por Portugal ou até por Espanha. Ainda assim, a banda quase esteve para tocar em Portugal no final deste ano, mas as coisas complicaram-se. «Sim, marcámos uma data em Portugal para Dezembro, mas parece-me que o festival foi cancelado. Pensámos em tocar em Portugal e Espanha, claro, e sei que aí tocaremos, mas não em 2017. Tem tudo a ver com despesas, distâncias e a quantidade de tempo que podemos dispor entre família e trabalhos. Estamos a construir uma plataforma aos poucos, talvez no ano que vem sejamos convidados para mais festivais e vos incluamos. A nossa prioridade actual é concretizar os concertos da Noruega, Nordeste da Europa, Inglaterra e Europa de Leste. Depois, Rússia/Finlândia/Báltico e Espanha/Portugal/França. De seguida, E.U.A., América do Sul, Ásia e Austrália, possivelmente em 2018.»

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